Posts Tagged ‘Segunda Guerra Mundial’

O Leitor

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Mais um filme sobre o holocausto…”, seria apropriado dizer. Um tema já explorado ao extremo e que raramente resulta em boas surpresas – “O Pianista”, de 2002, foi a última –, ganha o que seria um novo olhar com “O Leitor”, atualmente em cartaz.

Um “novo olhar” porque esse filme propõe examinar o ponto de vista alemão do holocausto, a estranha convivência com assassinos no pós-guerra e o conhecido tema da “banalidade do mal”, em que os criminosos não se dão conta da brutalidade de seus atos e os justificam com a desculpa de que eram meramente parte de uma imensa engrenagem burocrática – “eu apenas cumpria ordens” deve ser uma das expressões alemãs mais famosas.

Alemanha, 1958, num dia chuvoso, o jovem Michael (David Kross), de 15 anos, está voltando para casa e começa a sentir mal. É acudido por uma mulher de trinta e tantos anos (Kate Winslet) que o acompanha até perto de sua casa. Passam-se alguns meses e Michael está melhor, pronto para visitar e agradecer a mulher que o acudiu. Uma cena de sedução depois, começa entre os dois um relacionamento sexual. Hanna também gosta que Michael leia para ela, de livros infantis a clássicos antigos. Certo dia, Hanna some da vida de Michael.

Anos depois, Michael, já um estudante de direito, é convidado por seu professor (Bruno Ganz) a acompanhar um julgamento. Para a surpresa de Michael, é Hanna, junto com outras mulheres, que está sentada no banco dos réus. A acusação: ter sido guarda de um campo de extermínio na Segunda Guerra.

“O Leitor” foi baseado na obra homônima do escritor alemão Bernhard Schlink. O livro ganhou notoriedade quando foi indicado pela influente apresentadora americana Oprah Winfrey em seu “Clube do Livro”. No Brasil foi publicado há dez anos pela Nova Fronteira, agora ganha uma nova edição pela Record (R$ 29).

Infelizmente, “O Leitor” é mais um filme burocrático, morno e previsível sobre o holocausto.

Não se pode culpar inteiramente o diretor Stephen Daldry (“As Horas”, “Billy Elliot”) pelo resultado. O próprio livro de Schlink não era lá grande coisa, mas Daldry leva seu filme de maneira previsível, abusando de alguns recursos (o filme está repleto de música dramática e inúteis recursos de sobreposição de imagens). A fragilidade da coisa toda fica óbvia quando é perceptível que Daldry preparou com satisfação – e com direito a flashbacks (é “Os Suspeitos” sempre fazendo escola) – uma surpresa que todos já haviam percebido no começo do filme

Para piorar, os atores não fazem melhor. Kate Winslet foi indicada ao Oscar por seu papel, mas ele o interpreta tão burocraticamente que mesmo suas cenas de nudez têm pouco apelo – o que é imperdoável para alguém que tem um belo corpo. Mas o pior mesmo fica com o Michael mais velho, interpretado pelo sempre soporífero Ralph Fiennes. São dele algumas das piores cenas do filme, incluindo um desnecessário momento de “eu vou te contar uma história”

Mais grave, porém, são os problemas morais do filme.

Não é necessário ir tão longe como o escritor Ron Rosenbaum – autor do excelente “Explaining Hitler”, traduzido no Brasil com o inacreditável título de “Para entender Hitler” (Record) – que acusou o filme de sugerir que “lack of reading skills is more disgraceful than listening in bovine silence to the screams of 300 people as they are burned to death”.

O próprio livro é problemático. Ao usar a deficiência de Hanna como uma metáfora óbvia para a ignorância, Schlink passa para o leitor a idéia de que muitos assassinos foram empurrados para a máquina do holocausto pelo destino ou por motivos compreensíveis. Perguntar a alguém “O que você faria?”, como o filme e o livro fazem, e esperar um “Não sei” ou simples silêncio como resposta é repugnante.

Rosenbaum acertou em cheio quando disse que “não precisamos de mais um filme redentor sobre o holocausto”.

Para piorar, um filme que propagandeia as maravilhas da leitura.

“Sprechen sie talk?”

É conhecida a visão dos chefões de estúdio de que os americanos não gostam de ler legendas. Essa filosofia muitas vezes resulta em cenas engraçadas em que personagens estrangeiros falam alguma frase introdutória em uma língua qualquer para logo continuar o diálogo ou monólogo na língua do Dr. Johnson. Também acontece de os personagens forçarem um sotaque na língua que supostamente estariam falando. Assim não é incomum assistir a russos que falam entre si com sotaques pavorosos – famoso é o caso de Sean Connery, que usou o mesmo sotaque em “Os Intocáveis”, ao interpretar um irlandês, e em “A Caçada ao Outubro Vermelho”, ao vestir um uniforme russo.

Mas “O Leitor” inaugurou uma categoria totalmente nova na salada lingüística hollywoodiana: a leitura de textos em inglês por estrangeiros em seus respectivos países. Qual não é a surpresa observar que Michael, ao ler para Hanna, está segurando um livro em que se pode ler “The Adventures of Huckleberry Finn” em bom inglês! Recurso para facilitar a vida dos atores que devem entregar suas falas em inglês? As estantes de livros que aparecem ao longo também estão repletas de títulos em inglês… e publicados por editoras americanas. A escolha por facilitar a vida do espectador não familiarizado com alemão fica ainda mais cômica quando Hanna se alfabetiza e passa a escrever cartas em… inglês!

Pode ser um mero detalhe técnico, que para muitos não chega a influenciar, mas lembra aqueles filmes americanos deliciosamente toscos rodados no Brasil em que o merchandising aparece na forma de outdoors em inglês – quem assistiu “007 Contra o Foguete da Morte” deve saber do que estou falando.

O próprio Schlink insistiu para que o filme fosse rodado em inglês, justificando que a história da convivência numa sociedade pós-genocídio era universal – claro que a promoção inevitável de um filme americano nas vendas do seu livro também deve ter sido bem-vinda.

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“This is London”

quarta-feira, junho 18, 2008

Dezoito de junho de 1940 deve ter sido um dia interessante para quem sintonizou a BBC. No dia que marcou os 125 anos da batalha de Waterloo, dois homens, representantes de nações que combateram naquele campo da Bélgica, um de um país derrotado horas antes daquele 18 de junho, e outro que já tinha convocado seus compatriotas a permanecerem na luta, pronunciaram discursos históricos.

Não fazia dois dias que a França havia concordado em se render aos alemães – que também celebravam a derrota de Napoleão em Waterloo para os prussianos de Blücher, aliados dos ingleses naquele distante 18 de junho de 1815 -, mas o general Charles de Gaulle já cruzara o Canal da Mancha (“O Rubicão de sua vida”) e estava em Londres. Churchill, que tanto havia feito para que os franceses permanecessem na guerra, o deixou ler seu “L’appel du 18 juin 1940“.

O apelo, que pouca gente ouviu na França em vias de ser quase totalmente ocupada, é carregado de impôrtancia para esse país que fez muito pouco para derrotar Hitler. Similar em significado ao discurso de Churchill em 4 de junho (“We shall fight on the beaches“), de Gaulle afirmou que seu país “havia perdido uma batalha, mas não a guerra”. Nesse momento as forças britânicas já estavam completando a Retirada de Dunquerque e os exércitos franceses se rendiam por toda a parte. De Gaulle convocou todos os soldados franceses disponíveis para prosseguirem a luta com ele, em Londres. Com isso salvou um pouco da honra de uma França manchada até hoje pela colaboração com os nazistas.

Vários políticos britânicos se opuseram ao apelo, temendo o efeito sobre os franceses que pretendiam um acordo com os alemães (ou seja, o novo governo de Pétain), mas o sinal verde de Churchill, que já não simpatizava muito com de Gaulle, foi decisivo. Curiosamente, os técnicos da BBC não acharam que o apelo valia uma gavação, e quando o general soube que não havia sido feito um registro, leu tudo novamente no dia 22. Desta vez gravado e ouvido por muito mais franceses – a gravação, que guardou o título “L’appel du 18 juin 1940“, assim como o rascunho e o famoso cartaz “À tous les Français” (este do dia 3 de agosto), hoje é um documento preservado pela Unesco.

Naquela mesma tarde, na Câmara dos Comuns, Churchill pronunciou um de seus mais famosos discursos, o “Their Finest Hour“, em que, longe de admitir uma derrota que naquele momento parecia próxima, afirmava que a luta deveria prosseguir e “if the British Empire and its Commonwealth last for a thousand years, men will still say, `This was their finest hour´“. Como a BBC não dispunha de meios para transmitir diretamente do parlamento, Churchill normalmente lia novamente seus discursos no estúdio, para que o público os ouvisse. Quatro horas depois de sair da Câmara, “Their Finest Hour” foi ao ar.

Uma lenda afirma que Churchill não gravou seus famosos discursos, e que a voz que nós conhecemos na verdade é a do ator britânico Norman Shelley. Bobagem, dizem os historiadores especializados nesse período. Mas “Their Finest Hour” foi com certeza lido no ar pelo próprio Churchill… junto com uns drinks a mais – e ele adorava um whisky. Como lembra o historiador John Lukacs, baseado nas memórias de algumas personalidades da época, a transmissão de 18 de junho foi considerada medonha. Ouvindo a gravação em MP3, é possível perceber que Churchill não estava mesmo em seus melhores dias. De qualquer forma, descontando o estilo por vezes exagerado do discurso (e intelectuais como Evelyn Waugh e George Orwell nunca gostaram dos textos grandiloqüentes de Churchill), ele tem várias passagens marcantes. A frase final, sem dúvida, é uma delas, mas o aviso de que seria melhor não apontar culpados pela situação militar ter chegado àquele ponto, “if we open a quarrel between the past and the present, we shall find that we have lost the future“, também é marcante. Orwell escreveu poucos dias depois que “as pessoas de pouco estudo são com freqüência tocadas por um discurso solene, que na verdade não compreendem mas sentem que impressiona”. O Departamento de Inteligência Interna do Ministério da Informação (que foi alvo do satirista Waugh na sua trilogia “Sword of Honour“) concordaria com Orwell. Num relatório sobre “Their Finest Hour“, o departamento concluiu que a população aguardava os discursos com ansiedade, considerando-os corajosos e esperançosos, mas com a ressalva de que a forma como eram apresentados suscitava todo tipo de comentário sobre o estado de Churchill.

John Luckas também lembra que 1940 marcou os 297 anos da batalha de Rocroi, onde os franceses derrotaram os decadentes espanhóis. Isso foi em 19 de maio de 1643. Cinco dias antes, Louis XIV, com apenas cinco anos de idade, foi coroado rei. Esse período foi marcado pela ascensão da França como maior potência do mundo. Waterloo, em 1815, quando a França disputava influência com a Inglaterra e uma Prússia renascida cada vez mais poderosa, não foi o começo do declínio, mas um catalisador. Em 18 de junho de 1940, a França não era nem sombra do que foi na época de Louis XIV.

Nesse mesmo 18 de junho de 1940, a Grã-Bretanha estava acuada, mas seu império, intacto – mesmo com algumas rachaduras. Os historiadores concordam que a decisão de prosseguir com a guerra, e a conseqüente derrocada financeira do país, acelerou a perda do império. Churchill pode até mesmo ser acusado de “perder a paz” em Yalta.

Mas ele ganhou a guerra.

Obs: Nada a ver com Churchill ou de Gaulle, só um aviso para quem usa o WordPress: a nova versão do Firefox 3 não parece se dar bem com as ferramentas de texto do blog.

Atualização: dia 20/06, o Firefox 3 e o WordPress parecem ter se entendido.

Die Brücke

quinta-feira, junho 12, 2008

Por motivos óbvios, a Alemanha não tem muita tradição em filmes de guerra. “Die Brücke”, de 1959, um filme não muito conhecido no Brasil, é, junto com “Das Boot”, uma exceção. Como não poderia deixar de ser, é um filme pacifista que denuncia a futilidade da guerra – “Nada de Novo no Front” vem imediatamente à mente.

Só alguém muito estúpido ou fanático (estou sendo redundante) poderia estar feliz em servir na Wehrmacht em abril de 1945. Mas é isso que acontece com um grupo de garotos de um vilarejo alemão ainda não muito afetado pela guerra. O falecido diretor Bernhard Wicki (que dirigiu as seqüências alemãs de “O Mais Longo dos Dias”) nos mostra como é o dia-a-dia desses garotos antes deles serem atirados nos horrores de um combate. Não é muito interessante, tirando uma ou outra cena sobre decepção ou pais temerosos com o destino de seus filhos, o cotidiano deles parece um tanto artificial nessa cidade sem refugiados e Juventude Hitlerista. É na véspera do combate e na luta em si que Wicki realmente consegue prender a atenção do espectador. E como ele consegue chocar. Os garotos recebem uma missão de vigiar a ponte local até a equipe de demolição chegar. Um incidente faz com que o sargento responsável, o único homem, esteja ausente. E assim os garotos resolvem lutar contra os americanos. Um a um eles vão morrendo.

Fanáticos por filmes de guerra devem adorar a cena da panzerfaust queimando o rosto de um civil, assim como a chocante morte de um G.I. americano, que fica com as tripas para fora ao ser baleado depois de implorar aos garotos (“kindergarten”) que voltem para casa. Tudo isso com uma qualidade impressionante para um filme do final dos anos 50. O ronco dos tanques americanos se aproximando é assustador, e um aviso que a guerra, em especial aquela guerra, é coisa para gente grande. Manter aquela ponte era coisa mais fútil que eles poderiam ter feito. Isso fica óbvio numa cena emblemática e bastante devastadora de um comboio de caminhões repletos de soldados feridos e desesperados passando pela ponte, e deixando os garotos para trás. Uma das melhores seqüências sobre o caos e futilidade que caracterizaram a Alemanha naqueles últimos dias da guerra.

Made in USA

quarta-feira, junho 11, 2008

Mulheres trabalhando na construção de um B-17, outubro de 1942. Essas duas fotos de beleza e nitidez extraordinárias, e ainda por cima em cores, foram tiradas por fotógrafos à serviço do United States Farm Security Administration (FSA) e do Office of War Information (OWI) nas décadas de 30 e 40. Essas e outras belas imagens estão disponíveis no Flickr da Biblioteca do Congresso americano. Podem ser só propaganda de uma América talvez bonita demais, mas ajudam a dar cor para uma época que se confunde com preto e branco.

Lend-lease

Stalin teria dito que “guerras se vencem nas fábricas”. A frase pode não ser dele, mas existe muita verdade nela.

Só faltou dizer que se vencem em fábricas americanas.

Em 11 de junho de 1942, quando a sorte na Segunda Guerra começou a mudar, os EUA formalizaram a decisão de estender os benefícios do Lend-Lease (empréstimo e arrendamento) à URSS. Tratava-se de um pacote de ajuda que consistia no envio de armas e outros materiais, com prazos de pagamento à perder de vista – só pra se ter uma idéia do prazo, o Reino Unido pagou a última parcela (US$ 83,3 milhões) em 29 de dezembro de 2006.

Durante a guerra, os EUA enviaram mais de 50 bilhões de dólares em materiais para todos os seus aliados (cerca de 700 bilhões em valores atuais).

Tudo para deter os nazistas e, lá no final, os japoneses.

Dependendo da agenda, costuma-se dar quase todo crédito da derrota nazista aos soviéticos – e na Rússia, o conflito ainda é lembrado como “Grande Guerra Patriótica”. Outras escolas puxam a sardinha para os aliados. Mas os números do Lend-Lease não deixam dúvida sobre o valor da ajuda americana para o progresso das contra-ofensivas soviéticas. (É espantoso o quanto as fábricas americanas produziram no conflito: além de equiparem seu exército – mais de 11 milhões de homens -, os americanos exportaram o excedente para seus aliados, muitas vezes encontrando submarinos no caminho. Tudo isso lutando em dois teatros de guerra e inovando na tecnologia de armas e produção. Enquanto isso, os alemães também aumentaram sua produção, com números menos impressionantes, mas à custa de milhões de escravos e fábricas capturadas.)

Vale lembrar que em 11 de junho de 1942 as batalhas decisivas de Stalingrado e Kursk ainda nem davam sinal de que iam acontecer. Mesmo nelas, a coragem e o medo do soldado soviético – ah, essa frase é de Stalin: “In the Soviet army it takes more courage to retreat than advance” – não teriam sido suficientes sem a mobilidade garantida pelos caminhões e trens Made in USA.

Esse é o total da ajuda americana enviada aos soviéticos (notem o número de caminhões e botas):

Aviões: 14.795
Tanques: 7.056
Jipes: 51.503
Caminhões: 375.883
Motos: 35.170
Tratores: 8.071
Armas: 8.218
Metralhadoras: 131.633
Explosivos: 345.735 toneladas
Equipamentos de construção: US$ 10.910.000
Vagões: 11.155
Locomotivas: 1.981
Navios mercantes: 90
Contratorpedeiros: 105
Torpedeiros: 197
Motores navais: 7.784
Alimentos: 4.478.000 toneladas
Maquinário e equipamentos industriais: US$ 1.078.965.000
Metais não-ferrosos: 802.000 toneladas
Produtos petrolíferos: 2.670.000 toneladas
Produtos químicos: 842.000 toneladas
Algodão: 106.893.000 toneladas
Couro: 49.860 toneladas
Pneus: 3.786.000
Botas militares: 15.417.001 pares

Fonte: Wikipédia

6 de junho: o Dia D faz 64 anos

sexta-feira, junho 6, 2008

Missa depois do desembarque em Omaha Beach. © Robert Capa

Mais em Magnum Photos today´s pictures.

Flughafen Tempelhof

sexta-feira, maio 30, 2008

Em tempos de apagão aéreo, overbooking e filas intermináveis é difícil imaginar que voar já foi um sinal de status e um sinônimo de luxo. Um ícone dessa era, e um epaço que poderia resumir boa parte da história do século 20, o aeroporto de Tempelhof, em Berlin, teve seu destino selado. Na contramão do Brasil, que insiste e até promove aeroportos como o sobrecarregado Congonhas, mas também beneficiado por uma malha ferroviária das mais eficientes, as autoridades de Berlin decidiram fechar o histórico aeroporto da cidade, que se tornou pouco prático para atender aeronaves cada vez maiores e ficou ilhado no meio da expansão urbana. Nos últimos meses um grupo de cidadãos contra o fechamento se organizou e pediu um plebiscito, mas a apatia dos eleitores (eram necessários 25% dos votos), que não se incomodaram em sair de casa, não conseguiu mudar a decisão. Tempelhof fecha em outubro.

É uma decisão triste, mas talvez necessária. Nos tempos do Muro, Berlin era servida por quatro aeroportos – tudo em duplicata por causa da divisão da cidade. Com Tempelhof também se aposenta o aeroporto de Tegel, construído pelos americanos – o aeroporto em que meu avô levou meu pai para assistir à interminável fila de C-47s que traziam comida para a cidade durante o Bloqueio de Berlin, em 1948; um belo espetáculo para uma criança de sete anos. Tegel fecha em 2011. Todos os vôos vão ser concentrados em Berlin-Schönefeld, o aeroporto que servia a antiga parte oriental da cidade, bem afastado do centro. A expansão de Schönefeld está sendo vista com entusiasmo, já que o aeroporto vai criar 40 mil empregos numa área onde a taxa de desemprego é bastante alta. A estimativa é que a partir de 2011 aeroporto vai atender 25 milhões de passageiros por ano.

Um prédio na história

Mais que um aeroporto, Tempelhof é como um museu, mas não no sentido de repositório de objetos: cada parede e metro da pista contam uma história diferente. O exemplo mais próximo seria o carioca Santos-Dumont, ainda que mais pela beleza do que significado histórico. Seu edifício principal é enorme: é listado como o 18° maior prédio do mundo, sua fachada tem 1.230 metros de comprimento. Uma construção imponente em art déco, erguida entre os anos de 1936 e 1941 por Ernst Sagebiel, que pretendia impressionar os visitantes e transformar o aeroporto em símbolo daquela que se acreditava ser a nova capital de uma Europa dominada pelos nazistas. Sagebiel também é autor da antiga sede da Luftwaffe nazista na cidade, prédio atualmente ocupado pelo Ministério das Finanças.

Sonhos delirantes. O edifício foi bastante castigado durante os bombardeios da Segunda Guerra, várias partes do aeroporto também nunca foram completadas, e posteriormente ele acabou sofrendo várias alterações feitas pelos americanos, que assumiram o local depois da divisão da cidade. O imponente hall de entrada teve sua altura de três andares reduzida e foi instalada um base militar da USAF no local. Nos anos da Guerra Fria, Tempelhof foi um aeroporto misto, recebendo aeronaves militares e vôos comerciais. Na década de 70, com os aviões ficando cada vez maiores, grandes companhias como a Pan Am e a British Airways transferiram suas atividades para Tegel. Com o fim da Guerra Fria, em 1994 a USAF entregou suas instalações para o governo alemão. Com cada vez menos vôos (ano passado o aeroporto só atendeu 350 mil passageiros), Tempelhof foi definhando.

Mas a história de Tempelhof não começa com os nazistas e seus sonhos de grandeza. Tempelhof, como o nome diz, era um local pertencente à Ordem dos Cavaleiros Templários. Embora não tenha sido usado militarmente na Segunda Guerra, por séculos o campo de Tempelhof foi associado com essas atividades. Era lá que os soldados do exército prussiano faziam exercícios militares e, durante o II Reich, era comum ver o kaiser assistindo demonstrações no local.

Os vôos começam em 1909, com o francês Armand Zipfel, seguido justamente por um dos pais da aviação, Orville Wright, que conseguiu voar por um minuto num vôo de demonstração. Em 1926, foi construído o primeiro terminal, que logo abrigou a Lufthansa. Aviões ofereciam vôos para a Suíça. Zeppelins, invenção sempre identificada com os alemães, passaram a usar o aeroporto. Os nazistas derrubaram o velho terminal, e o atual aeroporto é um dos poucos exemplos do que sobrou do seu regime.

Aquele que já foi um dos aeroportos mais movimentados do mundo, Tempelhof também foi cenário de vários filmes. Em “Indiana Jones e a Última Cruzada”, o personagem de Harrison Ford embarcava escondido num zeppelin que decolava (esse termo se aplica aos zeppelins?) do aeroporto. O terminal principal também pode ser visto em “One, Two, Three” (“Cupido não tem bandeira”, no Brasil), de Billy Wilder, e “A Supremacia Bourne”.

O destino de Tempelhof ainda é incerto. A construção é tombada pelo Patrimônio Histórico da cidade, mudanças drásticas não podem ser feitas. Algumas companhias cinematográficas alemãs mostraram interesse em transformar o local em um estúdio. O Museu Aliado da cidade também já manifestou que pretende assumir Tempelhof. A única certeza é que a era da aviação na”mãe de todos os aeroportos” – como classificou o arquiteto Normam Foster – terminou.

Obs: na terça-feira (27 de maio) foi celebrado os 60 anos da Ponte Aérea de Berlin na abertura do Festival Aéreo da cidade. Vários veteranos americanos participaram, incluindo Gail Halverson, o piloto que jogou chocolates do seu C-47 para as crianças berlinenses. A cerimônia principal foi realizada, ironicamente – ou com um mau gosto não intencional-, em Schönefeld.

Oito de maio: V-E Day

quinta-feira, maio 8, 2008

“Real estate war”

Photo by Mathieu Struck
Licensed under CC-BY-NC-ND

Ol’ Blue Eyes no azul do Pacífico

quarta-feira, setembro 5, 2007

Filme curioso que passou no Cinemax hoje: Os Bravos Morrem Lutando (None But The Brave, 1965). Foi a única (e mal-sucedida) experiência de Frank Sinatra na cadeira de diretor. A história é similar à Inferno no Pacífico, embora a produção seja quatro anos mais velha que o filme de John Boorman. Na Segunda Guerra, um bando de marines se vêem isolados numa ilha paradisíaca ocupada por um punhado de japoneses e, para sobreviver, são obrigados a fazer uma trégua com seus inimigos. Um verdadeiro repositório de clichês do gênero, None But The Brave se salva em parte pela bela fotografia (que contrasta com cenários de estúdio pouco convincentes). Também é o primeiro trabalho do compositor John Williams no cinema (creditado como um pouco sério Johnny Williams), ainda que a trilha sonora pouco inspirada não demonstre que ele fosse se destacar tanto. Coisa de produção conjunta nipo-americana, os efeitos especiais ficaram a cargo do japonês Eiji Tsubaraya, o mesmo daquelas engraçadíssimas maquetes dos filmes da série Godzilla. O então genro de Sinatra, o cantor Tommy Sands, também está no filme, interpreta um tenente e consegue ser pior ator que o canastrão Clint Walker, o astro do filme. Sinatra arranjou para si o papel de um médico bêbado, que, entre um gole e outro, realiza uma amputação num soldado japonês que mais parece uma aula sobre esterilização de instrumentos cirúrgicos. Um filme que já devia ser ruim na época de lançamento – mas uma peça curiosa – e que também demonstra como os filmes pacifistas sempre envelhecem mal.