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O Leitor

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Mais um filme sobre o holocausto…”, seria apropriado dizer. Um tema já explorado ao extremo e que raramente resulta em boas surpresas – “O Pianista”, de 2002, foi a última –, ganha o que seria um novo olhar com “O Leitor”, atualmente em cartaz.

Um “novo olhar” porque esse filme propõe examinar o ponto de vista alemão do holocausto, a estranha convivência com assassinos no pós-guerra e o conhecido tema da “banalidade do mal”, em que os criminosos não se dão conta da brutalidade de seus atos e os justificam com a desculpa de que eram meramente parte de uma imensa engrenagem burocrática – “eu apenas cumpria ordens” deve ser uma das expressões alemãs mais famosas.

Alemanha, 1958, num dia chuvoso, o jovem Michael (David Kross), de 15 anos, está voltando para casa e começa a sentir mal. É acudido por uma mulher de trinta e tantos anos (Kate Winslet) que o acompanha até perto de sua casa. Passam-se alguns meses e Michael está melhor, pronto para visitar e agradecer a mulher que o acudiu. Uma cena de sedução depois, começa entre os dois um relacionamento sexual. Hanna também gosta que Michael leia para ela, de livros infantis a clássicos antigos. Certo dia, Hanna some da vida de Michael.

Anos depois, Michael, já um estudante de direito, é convidado por seu professor (Bruno Ganz) a acompanhar um julgamento. Para a surpresa de Michael, é Hanna, junto com outras mulheres, que está sentada no banco dos réus. A acusação: ter sido guarda de um campo de extermínio na Segunda Guerra.

“O Leitor” foi baseado na obra homônima do escritor alemão Bernhard Schlink. O livro ganhou notoriedade quando foi indicado pela influente apresentadora americana Oprah Winfrey em seu “Clube do Livro”. No Brasil foi publicado há dez anos pela Nova Fronteira, agora ganha uma nova edição pela Record (R$ 29).

Infelizmente, “O Leitor” é mais um filme burocrático, morno e previsível sobre o holocausto.

Não se pode culpar inteiramente o diretor Stephen Daldry (“As Horas”, “Billy Elliot”) pelo resultado. O próprio livro de Schlink não era lá grande coisa, mas Daldry leva seu filme de maneira previsível, abusando de alguns recursos (o filme está repleto de música dramática e inúteis recursos de sobreposição de imagens). A fragilidade da coisa toda fica óbvia quando é perceptível que Daldry preparou com satisfação – e com direito a flashbacks (é “Os Suspeitos” sempre fazendo escola) – uma surpresa que todos já haviam percebido no começo do filme

Para piorar, os atores não fazem melhor. Kate Winslet foi indicada ao Oscar por seu papel, mas ele o interpreta tão burocraticamente que mesmo suas cenas de nudez têm pouco apelo – o que é imperdoável para alguém que tem um belo corpo. Mas o pior mesmo fica com o Michael mais velho, interpretado pelo sempre soporífero Ralph Fiennes. São dele algumas das piores cenas do filme, incluindo um desnecessário momento de “eu vou te contar uma história”

Mais grave, porém, são os problemas morais do filme.

Não é necessário ir tão longe como o escritor Ron Rosenbaum – autor do excelente “Explaining Hitler”, traduzido no Brasil com o inacreditável título de “Para entender Hitler” (Record) – que acusou o filme de sugerir que “lack of reading skills is more disgraceful than listening in bovine silence to the screams of 300 people as they are burned to death”.

O próprio livro é problemático. Ao usar a deficiência de Hanna como uma metáfora óbvia para a ignorância, Schlink passa para o leitor a idéia de que muitos assassinos foram empurrados para a máquina do holocausto pelo destino ou por motivos compreensíveis. Perguntar a alguém “O que você faria?”, como o filme e o livro fazem, e esperar um “Não sei” ou simples silêncio como resposta é repugnante.

Rosenbaum acertou em cheio quando disse que “não precisamos de mais um filme redentor sobre o holocausto”.

Para piorar, um filme que propagandeia as maravilhas da leitura.

“Sprechen sie talk?”

É conhecida a visão dos chefões de estúdio de que os americanos não gostam de ler legendas. Essa filosofia muitas vezes resulta em cenas engraçadas em que personagens estrangeiros falam alguma frase introdutória em uma língua qualquer para logo continuar o diálogo ou monólogo na língua do Dr. Johnson. Também acontece de os personagens forçarem um sotaque na língua que supostamente estariam falando. Assim não é incomum assistir a russos que falam entre si com sotaques pavorosos – famoso é o caso de Sean Connery, que usou o mesmo sotaque em “Os Intocáveis”, ao interpretar um irlandês, e em “A Caçada ao Outubro Vermelho”, ao vestir um uniforme russo.

Mas “O Leitor” inaugurou uma categoria totalmente nova na salada lingüística hollywoodiana: a leitura de textos em inglês por estrangeiros em seus respectivos países. Qual não é a surpresa observar que Michael, ao ler para Hanna, está segurando um livro em que se pode ler “The Adventures of Huckleberry Finn” em bom inglês! Recurso para facilitar a vida dos atores que devem entregar suas falas em inglês? As estantes de livros que aparecem ao longo também estão repletas de títulos em inglês… e publicados por editoras americanas. A escolha por facilitar a vida do espectador não familiarizado com alemão fica ainda mais cômica quando Hanna se alfabetiza e passa a escrever cartas em… inglês!

Pode ser um mero detalhe técnico, que para muitos não chega a influenciar, mas lembra aqueles filmes americanos deliciosamente toscos rodados no Brasil em que o merchandising aparece na forma de outdoors em inglês – quem assistiu “007 Contra o Foguete da Morte” deve saber do que estou falando.

O próprio Schlink insistiu para que o filme fosse rodado em inglês, justificando que a história da convivência numa sociedade pós-genocídio era universal – claro que a promoção inevitável de um filme americano nas vendas do seu livro também deve ter sido bem-vinda.

Três livros

terça-feira, setembro 9, 2008

“História Universal da Destruição de Livros”, Fernando Báez

É famosa a advertência de Heine “onde queimam livros, acabam queimando pessoas”. Em Berlin existe um memorial onde a frase pode ser lida. Está no mesmo local onde, em 1933, os nazistas queimaram 20.000 livros considerados degenerados. Nessa cerimônia bárbara, além de Heine, foram destruídas obras de Bertolt Brecht, Karl Marx, Sigmund Freud, Ernest Hemingway – entre outros.

Menos conhecidos são outros eventos que culminaram na destruição de milhares de valor inestimável. A destruição da Biblioteca de Alexandria pelos romanos é o mais famoso evento desse tipo na Antigüidade. Mas e a perda do acervo da biblioteca de Bagdá logo depois da invasão americana? Nesse episódio, que à época foi obscurecido pelo saque ao Museu Nacional, foram perdidos mais de um milhão de livros – número que faz parecer insignificante a cerimônia dos nazistas.

O escritor venezuelano Fernando Báez, um especialista no assunto, estudou esse e outros casos na sua obra “História Universal da Destruição de Livros”, publicada no Brasil pela Ediouro (49,90, mas fácil de encontrar pela metade do pontas de estoque). Um livro sobre a destruição de outros livros. Uma idéia bastante interessante, mas que infelizmente resultou num livro que poderia ser resumido como um almanaque de eventos que resultaram na destruição de bibliotecas ou coleções particulares. Quer saber quantos livros foram perdidos no bombardeio de Heidelberg, na Segunda Guerra? Báez responde. Sabia que a primeira Biblioteca do Congresso americano pegou fogo – e que a segunda começou com a coleção particular de Thomas Jefferson? Está no livro.

É uma obra envolvente, mas que carece de uma perspectiva mais aprofundada sobre a destruição da memória ou – porque muitos livros foram destruídos deliberadamente, seja porque eram subversivos ou considerados imorais – “genocídio cultural”. É provável que Báez tenha pensado que o leitor chegaria à conclusão que o maior inimigo das bibliotecas é o próprio homem – e não as traças, embora exista, acredite, um capítulo sobre elas. O autor se sai melhor contando sua experiência no Iraque – é um assessor da Unesco -, mas o relato tem apenas umas poucas páginas.

Báez dedicou 12 anos à elaboração da obra. Mas não foi desta vez que um tema tão rico recebeu o livro que merece.

“O Grande Livro do Jornalismo”, John E. Lewis (José Olympio, R$ 49,00)

Essa edição de nome exagerado sugere que os 55 textos reunidos são “obras-primas” do jornalismo. Esse elogio, definitivamente, não vale para todos os textos. Há muita coisa banal adicionada com o claro propósito de estabelecer uma cronologia histórica. Mas o pior fica para os excertos de livros – como é o caso de reportagens de George Orwell, Michael Herr e John Hersey. Não faz sentido para quem possui as obras e, no caso de quem não leu, são frustrantes porque estão incompletas.

Infelizmente, não há nenhum brasileiro no livro – as reportagens são, sem exceção, escritas por anglo-saxões; o título mais apropriado teria sido “O Grande Livro do Jornalismo em Língua Inglesa”. Mas há muitos textos que tornam esse livro um coletânea valiosa – embora a sensação ao terminar o volume seja mesmo de frustração. Gloria Steinem e Martha Gellhorn, duas mulheres num livro repleto de textos escritos por homens, assinam duas das reportagens mais interessantes. “Eu Fui uma Coelhinha da Playboy”, onde a ativista feminista Steinem se infiltrou na seleção de mulheres que trabalhavam nos antigos “Playboy Clubs”, revelando toda a degradação sofrida pelas candidatas. Em “Justiça à Noite”, Gelhorn, a esposa de Hemingway, descreveu um linchamento que presenciou no Sul dos EUA.

O livro tem alguns méritos. Um deles é não se limitar a um gênero de matéria jornalística, mas incluir entrevistas, ensaios e editoriais – o editorial do Times sobre a prisão de Mick Jagger é sensacional; levando a pensar que seria bom ler um livro que reunisse grandes textos da “página três”.

De qualquer forma, “O Grande Livro do Jornalismo” é necessário porque não estão disponíveis em português muitos títulos que reúnam jornalistas tão diferentes e valiosos.

“McMáfia: Crime sem Fronteiras”, Misha Glenny

Não se deixe enganar pelo título que sugere um panfleto contra corporações de fast-food. Os vilões dessa obra são bem mais violentos. Do insuspeito Canadá até a fracassada Nigéria, das estatais corruptas do Leste Europeu às cadeias controladas pelo PCC, o autor de “McMáfia” (Cia. das Letras, R$ 48,00), o jornalista Misha Glenny, mostra um painel rico e envolvente sobre essas organizações criminosas que só prosperam com a globalização – e que, em muitos casos, são mais “globalizadas” que os maiores bancos – e a falta de pulso dos governos para combaterem o crime.

Existem poucos heróis e sobram bandidos. As histórisa sobre o contrabando de cigarros e gasolina durante as inúmeras guerras dos Balcãs são impressionantes. Longe de assumirem as brigas ancestrais da região – ou como a imprensa fez parecer a coisa toda -, os criminosos mostraram um senso de negócios que superava qualquer barreira cultural. Sérvios negociavam gasolina com croatas que repassavam o combustível para seu exército – que ia matar outros sérvios. Croatas traziam cigarros para os sérvios e assim por diante. Até mesmo o notavo Estado do Montenegro pagava suas contas com cigarros que eram contrabandeados para a Itália, separada por apenas alguns quilômetros de mar. A corrupção dos Estados não é novidade, mas o caso de Montenegro é assustador porque toda a receita do governo provinha de atividades criminosas.

Não é exatamente o caso da Nigéria, que recebe um capítulo delicioso e assustador no livro. Rica em petróleo mas com a maior parte da população vivendo miseravelmente, esse país é um grande exportador, mas também se notabilizou por uma prática que só prosperou com a globalização: a fraude da comissão adiantada – ou o “golpe 419”, como é designada no código penal nigeriano.

No Brasil, muita gente já recebeu um e-mail ou, antigamente, um fax de alguém que representava um figurão da Nigéria. Na mensagem, o remetente oferecia quantias fabulosas de dinheiro provenientes de comissões da venda de petróleo ou de obras de infra-estrutura no país. Bastava que o destinatário financiasse o início dessa empreitada. O negócio, claro, era uma fraude. Difícil acreditar que alguém seria tão ingênuo de cair nessa. O livro apresenta a história de Nelson Saka­gu­chi, gerente do Banco Noroeste (hoje absorvido pelo Santander). É uma história que, como tantas outras no Brasil já caiu no esquecimento, mas veio à público em 1997. Depois de receber uma dessas propostas, Saka­gu­chi desviou enormes somas do banco que estavam guardadas em paraísos fiscais na esperança de ganhar mais. Não acreditando – ou não querendo acreditar – que fôra vítima de um golpe, começou a desviar cada vez mais dinheiro para os nigerianos, que pediam mais um “pouquinho” porque o negócio estava supostamente saindo. A situação foi ficando cada vez mais estranha. Correndo contra o relógio antes que as contas fossem auditadas, Saka­gu­chi pagou 20 milhões para uma mãe-de-santo sacrificar 120 mil pombas brancas (isso mesmo). Dona Maria Rodrigues não resolveu o problema, mas isso não a impediu de arrancar mais dinheiro – desta vez para o sacrifício de 120 mil pombas negras. A casa acabou caindo para Saka­gu­chi, e ele foi para a cadeia. Ao todo foram desviados 242 milhões de dólares. O grosso do dinheiro foi parar nos bolsos de Emmanuel Nwude, chefe tribal e maior golpista desse gênero na Nigéria – e um herói nacional (os nigerianos não vêem problema em arrancar dinheiro dos “brancos”). Nwude conta com a proteção dos governantes do país. Uma história comum na África. E no Brasil.

Mostrando que entende do assunto, não se deixando levar pelo deslumbramento, algo comum nos jornalistas estrangeiros no Brasil, Glenny, que esteve presente na última Flip, também aborda outros três casos de crime organizado no Brasil: Law Kin Chong e seus produtos falsificados; os cybercrimes; e o PCC. A polícia, é claro, é mostrada como organização corrupta. As exceções ficam para alguns setores da PF, com elogios para o agora célebre delegado Protógenes Queiroz. Esse painel de organizações criminosas variadas também faz parte de outros países estudados, com destaque para a Rússia e a China.

O caso russo oferece uma análise sobre o papel das minorias no crime. É um tema perigoso, fácil de resultar em generalizações racistas, mas Glenny, preocupado com isso, se sai bem. Ele mostra como os judeus russos, que constituem apenas uma fração da população, são maioria nessas organizações. Barrados do serviço público durante o período comunista, sobrou para os judeus sobreviverem de outras formas. Muitos se voltaram para a vocação mercantil que caracteriza seu povo, algo que numa terra sem regras para o mercado teria como resultado o crime. As atividades não ficaram restritas à Rússia. Com a imigração maciça de judeus russos para Israel na década de 90, até mesmo esse país mediterrâneo se acostumou com os carrões vulgares e  o tráfico de mulheres – uma das atividades mais deprimentes descritas no livro.

Além do tráfico de mulheres para alimentar a prostituição em países ricos – com as vítimas mantidas em regime de escravidão -, essas organizações se especializaram em muitas outras coisas. As drogas, como sempre; o contrabando; a venda de “proteção”; a falsificação. O último crime recebe atenção especial no capítulo sobre a China. Glenny demonstra de maneira convincente que a falsificação, que parece inofensiva para muitos, é apenas a ponta do iceberg. As mesmas organizações que falsificam bolsas Louis Vuitton também financiam o tráfico de drogas e o assassinato de rivais. Até mesmo a stalinista Coréia do Norte é pródiga nesse tipo de atividade: Raijin, uma pequena zona de livre comércio do país, é um centro de falsificação de cigarros.

Glenny também demonstra que as organizações criminosas não ficam restritas à golpes e atividades tradicionais, mas sempre buscam o prêmio maior, se infiltrando em cada parte do tecido social e até provocando crises econômicas. Foi a tolerância do governo japonês com a Yakuza que permitiu que a organização tivesse um grande papel na bolha imobiliária do país, no começo dos anos 90. Uma situação parecida está acontecendo nos Emirados Árabes Unidos, um novo pólo imobiliário e um país que faz poucas perguntas sobre a origem do dinheiro dos investidores.

Sobram críticas sobre o papel dos EUA nessas questões. Enquanto pressionam para a desregulamentação dos mercados de outros países, as autoridades do país nada fazem para combater os paraísos fiscais, um porto seguro para o dinheiro sujo. A impressão que o livro deixa é que os criminosos sempre estão um passo à frente dos governos – isso quando eles estão dispostos a reprimir.

Uma leitura imperdível.

(Algumas informações desse livro que parece tão fresco já estão desatualizadas. Glenny propõe a legalização das drogas como uma das formas para reduzir a influência das máfias. Nada de errado aí. Mas o caso colombiano, em especial o Plano Colômbia, é rechaçado porque a guerrilha não está sendo derrotada. O cenário, porém, agora é outro.)

Ainda existem bons livros sobre Berlin

quinta-feira, julho 31, 2008

“Berlin: Portrait of a City” é, sem exagero, o mais belo livro de fotografias já organizado sobre uma cidade. Esqueça esses livros comemorativos lançados por secretarias de cultura ou aqueles patéticos catálogos para turistas. Esse é um trabalho ambicioso e apaixonado.

A editora responsável por essa obra-prima é a Taschen, famosa pelos livros gigantescos e gosto por temas polêmicos. A organização é de Hans-Christian Adam.

Reunir fotos de uma cidade pode parecer banal – ainda mais se comparado com outras obras da editora -, mas o resultado é grandioso e nada menos que emocionante. A contracapa avisa que esse é o “estudo mais abrangente já realizado sobre Berlin”. De fato, é difícil lembrar de um livro fotográfico mais completo sobre a cidade. São mais de 140 anos mostrados através das lentes de Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, Helmut Newton, Thomas Struth, Wolfgang Tillmans, Heinrich Zille etc.

O tratamento editorial é impecável, e o tamanho enorme de muitas das fotos permite examinar detalhes fascinantes da antiga paisagem urbana. Ganham vida as antigas indústrias, as velhas figuras dos “anos loucos” e, inevitavelmente, as conseqüências da guerra. A destruição sofrida pela cidade parece inacreditável, mas é emocionante notar que a vida cotidiana, apesar de tudo, continuou. E Berlin, nesses 140 anos, parece tão viva graças aos seus habitantes. A destruição da guerra dá lugar à tensão da Guerra Fria e à divisão da cidade, mas, novamente, nada disso é páreo para a coragem dos berlinenses, que reconstruíram o que parecia completamente perdido. Eles recebem uma bela homenagem nessa obra. Notável que esse livro tenha tratado marginalmente o nazismo e as figuras importantes da política, mas, começando na expansão urbana do século 19 e terminando nos arrojados edifícios pós-modernos, se concentrado nos rostos de gente comum e nas construções – e mostrado como essas coisas são afetadas pela história.

Berlin, essa cidade de transformações e destruição, tantas vezes imortalizada na literatura e no cinema, tem um livro de fotografias à altura de sua grandeza.

Obs: Meu pai, que nasceu em Berlin, fez aniversário ontem (30 de julho). “Berlin: Portrait einer Stadt” foi o presente escolhido pelo meu irmão e minha cunhada.

A man’s library is a sort of harem

quarta-feira, maio 21, 2008

Tem sebo novo em Curitiba. O nome é Kapricho, e está muito bem localizado na rua Comendador Araújo 432 (o último número está faltando na fachada), Centro/Batel, quase na esquina com Brigadeiro Franco, num local onde antes funcionava uma revistaria e papelaria. Já conta com bom acervo, e a seção de livros de guerra é impressionante: dezenas de volumes ilustrados sobre armas, uniformes militares e aviões que pertenceram a um colecionador paulistano recentemente falecido. As seções de literatura e artes também são interessantes, ainda que não estejam adequadamente organizadas (primeiro nome do autor não dá certo). O ponto parece ser uma garantia de que o sebo vai ter bastante rotatividade de material – o que, infelizmente, não é regra em muitos sebos da cidade, em especial os da região do Largo da Ordem. O atendimento também é bom.

Os preços não são nenhuma maravilha, mas são mais baixos que os praticados por outros sebos. Há, claro, alguns livros somente um pouco mais baratos que os vendidos em megastores. Com origem em Londrina, o Kapricho também é “primo” do Sebo Líder, instalado na Emiliano Perneta – e que pratica os preços mais absurdos de Curitiba, independente dos livros serem tranqueiras sem valor ou terem origem em uma ponta de estoque. Vale lembrar que o Líder, embora tenha dado sinais de que pretendia explorar desde o começo, não era o tubarão que é hoje. Portanto, é melhor ficar atento ao Kapricho.

Comprar pela internet nunca vai substituir o prazer de “caçar” livros em estantes, mas tem a vantagem de proporcionar uma comparação de preços. Depois de várias tentativas frustradas de conseguir desconto no Sebo Líder, prometi que nunca mais colocaria os pés no estabelecimento. Ao Kapricho vale a pena dar uma chance.

Livros adquiridos no Kapricho:

“Churchill´s War” – David Irving
“A Destruição de Dresden” – David Irving (Sei que Irving é um maldito anti-semita incurável, mas parte de seu trabalho não contaminado tem valor. “Destruição” (1963) foi o primeiro livro de Irving e um sucesso editorial; já “Churchill´s” (1987) é de uma fase em que o autor já estava bastante desacreditado.)
“The Rise and Fall of the British Empire” – Lawrence James
“Imperium” – Ryszard Kapuściński (Faz anos que este livro está fora de catálogo – recentemente comprei “A Guerra do Futebol” do mesmo autor.)
“Por que o Ocidente Venceu” – Victor Davis Hanson
“Mistério à Americana” – vários autores
“The Papacy” – Paul Johnson
“O Golem” – Isaac Bashevis Singer
“Inimigos, Uma História de Amor” – Isaac Bashevis Singer

Get Carter

sexta-feira, abril 18, 2008

“Ele foi o maior monstro da história!”, gritou um sujeito quando era revelado que a estátua de Lincoln tinha sido trocada por uma mais barata, representando Jimmy Carter. Logo depois, como era normal num episódio de “Os Simpsons”, a multidão enfurecida começou a saquear a cidade, usando a estátua como aríete.

“Maior monstro” era uma boa piada. Os republicanos adoram fazer troça de sua curta administração, e não é raro na FOX News algum comentarista se referir àqueles “anos catastróficos”. Um exagero. Jimmy foi presidente de um mandato só, ainda na ressaca de Watergate e Vietnã, quando os EUA tinham perdido muita influência. Mesmo a política externa, citada invariavelmente como um fracasso, teve seus pontos positivos. O acordo de paz entre Israel e Egito, que dura até hoje, pode ser creditado em parte à sua administração. Também foi Carter que estabeleceu algum tipo de contato com Cuba, ao abrir um escritório de interesses americanos (uma espécie de embaixada informal). Trocou a realpolitik que manchou a imagem dos EUA e sustentou uma longa lista de governos autoritários e assassinos – porém leais, “our son of a bitch” – por uma política de respeito aos direitos humanos. Mas é só.

Ao ler sobre seu encontro com a liderança do Hamas no Cairo, alguma coisa com “maior da história” me vem à cabeça. Maior estúpido é excessivo. Maior ingênuo em política externa talvez.

Vale lembrar que foi sua administração que assistiu impassível a Revolução Iraniana, a invasão do Afeganistão e o genocídio no Camboja.

Carter não é um mau sujeito. Não é como o ex-ministro da justiça de Lyndon Johnson, Ramsey Clark, que abraça ditadores e nazistas com prazer. Ele quebrou com uma tradição não-oficial de que ex-presidentes não se metem mais com política (Sarney… por que você não seguiu o exemplo?), mas fez coisas realmente louváveis. O trabalho de sua fundação em combater doenças na Indonésia é apenas um exemplo. Ele também ganhou o prêmio Nobel da Paz.

Mas o que aconteceu então?

Não é a primeira vez que Carter se reúne, na condição de ex-presidente, com pessoas pouco recomendáveis, daquelas que fizeram o século 20 ser considerado um desastre total. Já havia se reunido com Castro, Chavéz e Kim Il Sung. O falecido ditador norte-coreano (na estapafúrdia “constituição” do país, oficialmente ele ainda é o presidente), aliás, pregou a primeira das peças que se tornariam típicas no atual trabalho de Carter. Foi em 1994, quando a Coréia do Norte estava enriquecendo urânio, pra variar. Carter foi até o país e conseguiu um acordo. Foi elogiado, mas em 2005 a Coréia do Norte mudou de idéia (ou talvez nunca tenha mudado) e rasgou o acordo. Pode-se afirmar que Carter foi bem-intencionado e que a solução é persistir nessa política de “carrots” – ele se virou para a realpolitik depois de sair da presidência! Mas Carter não é um cidadão comum, se vale da sua condição de ex-presidente para que as portas se abram. E os ditadores se aproveitam disso. Se aquele batista do “New South” aparece com Chavéz, alguns podem pensar que o bufão de uniforme não é mau sujeito. Carter se tornou um embaraço para o departamento de Estado americano, e todas as suas “missões” são sempre acompanhadas de uma aviso de que não representam a visão do governo. Pode-se aceitar (e não obrigatoriamente concordar) com suas opiniões sobre o governo Bush, mas para que serve seu trabalho de diplomata “freelance”? Ele se reuniu com Castro em 2002. Nada disso colaborou para que o ditador abrandasse a mão de ferro sobre a ilha. Só com o afastamento de Castro em 2008 as coisas parecem estar evoluindo – embora timidamente – no país. Carter pretende se reunir com gente da pior espécie agora.

Seus encontros com Castro (eles também conversaram no Canadá) podem ter sido lamentáveis, mas o ditador não é um suicida ou um terrorista explícito. Carter já havia anunciado em 2007 que pretendia intermediar um acordo com o ETA e o governo espanhol. Com o Hamas é diferente. Não há busca pela independência ou coisa do gênero, o objetivo do grupo que controla a Faixa de Gaza é tão somente com a destruição de Israel e a instauração de um regime islâmico. Que tipo de diálogo ele espera ter? Adicione que Carter é uma persona non grata em Israel, por causa de suas opiniões absurdas que comparam a situação dos palestinos com o apartheid sul-africano e culminaram na publicação do livro “Palestine Peace Not Apartheid”. E o Hamas é considerado grupo terrorista tanto pelos EUA quanto pela UE.

É tudo inútil e vergonhoso para a biografia do ex-presidente. Será que um aperto de mão com Mugabe é o próximo passo?

Alguns livros

terça-feira, março 11, 2008

Os Hérois

Os leitores brasileiros de Paul Johnson não têm muita sorte. Todos os seus livros foram publicados de maneira descuidada por aqui: são caros demais, são feios, recebem traduções desleixadas e acabam sendo incluídos em coleções suspeitas como “Livro de Ouro”.

Com “Os Heróis” não foi diferente. A edição da Campus/Elsevier é uma porcaria. Já tinha desconfiado quando vi a capa: um amontoado de recortes mal feitos e linhas supérfluas, mais parecendo um livro didático de 8° série. Mas o conteúdo também recebeu um tratamento desleixado. Aspas que não fecham, nomes grafados incorretamente (Ralegh no lugar de Raleigh) e que ganham traduções aportuguesadas são alguns dos problemas. Melhor comprar a edição americana ou inglesa.

O livro? Não é com certeza o melhor trabalho de Paul Johnson, e está atrás do seu “Os Criadores”, e muito mais de “Os Intelectuais”, seus trabalhos anteriores no gênero de ensaios biográficos. Alguns textos de “Os Heróis” são bastante frustrantes, especialmente os de Marlyn Monroe, que já foi abordada de maneira mais completa até em matérias de jornal, e o de João Paulo II, que é quase uma nota de rodapé. Johnson se sai melhor na escolha dos personagens – que é bastante original, preferindo se distanciar de figuras guerreiras – e nos textos de pessoas que ele conheceu. Na última categoria, são ótimos os textos de Wittgenstein, De Gaulle, Thatcher e Reagan, até mesmo porque contêm fofocas e histórias saborosas – várias delas testemunhadas pelo autor. Com personagens mais antigos, Johnson não cede nunca ao determinismo marxista e prefere acreditar na grandeza pessoal e no poder da vontade de personagens como Robert E. Lee, Lincoln, Thomas More e Sansão. Há coisas curiosas, como uma frase que descreve os seios de Joana D´arc, mas isso é típico dos livros de Johnson. Não é um livro importante, mas é sempre interessante ler um trabalho desse grande historiador.

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Nas Peles da Cebola

“Nas Peles da Cebola”, as memórias de Günter Grass que provocaram polêmica na Alemanha por causa do episódio Waffen-SS, é um livro extremamente chato. Decepcionante também. Só inclui os anos 1936-59 do autor e contém um excesso de referências a outros trabalhos de Grass.

Nunca fui um grande fã do escritor. O Tambor foi uma experiência penosa e demorada. “Passo de caranguejo”, um livro tão esperado – foi o primeiro do autor que incluiu o sofrimento dos alemães na guerra -, é um trabalho repleto de clichês. Tinha achado melhor parar depois desses dois, mas depois de “Nas Peles”, vi que não tinha aprendido a lição.

A edição só vale pela excelente tradução de Marcelo Backes – que já traduziu Heine, Schnitzler, Kafka e Brecht para o português -, seu posfácio que conta as dificuldades de adaptar um texto alemão (ainda mais um texto de Grass) para o público brasileiro e um glossário muito bem organizado.

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O Rio da Dúvida

Esse livro foi uma bela surpresa. Escrito por Candice Millard, que foi editora da National Geographic, conta uma grande história: a expedição que o ex-presidente Theodore Roosevelt fez com marechal Rondon em 1914 para mapear um rio na Amazônia. Com sensibilidade para descrever a riqueza natural que a expedição encontrou (e teve que enfrentar para sobreviver), Millard faz uma reconstrução minuciosa de como era a floresta naquela época: índios que ainda não tinham visto brancos, a diversidade de espécies, as doenças etc. A expedição, que atingiu os objetivos, acabou marcando o ocaso da vida de Roosevelt – doente demais, ele acabaria morrendo cinco anos depois.

Theodore Roosevelt, ou Teddy, era um homem enérgico e determinado. Embarcou na expedição depois de tentar sem sucesso um terceiro mandato. Já era um viajante experiente (tinha realizado um safári na África depois da presidência), resolveu visitar a América do Sul numa turnê de conferências e, instando por um amigo e com a vontade de visitar um de seus filhos, Kermit, também veio ao Brasil. Pretendia apenas fazer turismo no país, mas diante da proposta de um ministro, que percebeu que Teddy não era o tipo de homem que gosta de rotas batidas, de que um rio ainda esperava para ser explorado, foi enfrentar o desconhecido na Amazônia. Também era um naturalista amador – e dos bons – e insistiu em dar um caráter científico à expedição, trazendo na bagagem dois experientes naturalistas americanos.

O governo brasileiro logo viu a enrascada que se meteu: o estrago de um ex-presidente morrer no país seria enorme – mas ele não estaria na companhia de um qualquer: Cândido Rondon, já na época uma lenda, o acompanharia. Os dois homens dividiriam o comando, mas Roosevelt insistiu em aceitar a maioria das ordens de Rondon, embora o ex-presidente ficasse impressionado com os brasileiros, o choque cultural, ainda mais com um homem como Rondon, um positivista e pacifista, foi se acentuando na expedição. Se a expedição Rondon está longe de tragédias célebres dessa época de corridas para explorar o mundo – como Scott na Antártida – ela também não ficou livre de problemas (e que problemas!).

Participar de uma expedição da Comissão Rondon era considerado na época o equivalente a um castigo – e o futuro marechal só conseguia, na maioria das vezes, recrutar desajustados e pessoas que eram enviadas pelo exército como punição. Era quase uma sentença de morte acompanhar Rondon. A selva provocava doenças (e o isolamento impedia qualquer assistência), mas o comportamento de Rondon, admirado mas ainda assim incompreensível para Teddy, gerava mortes. Rondon levava a sério seu princípio “”morrer, se for preciso; matar nunca!”, e impedia que seus homens revidassem os ataques dos índios. Os nativos da região do rio da Dúvida (hoje rio Roosevelt, rebatizado contra a vontade do ex-presidente, que gostava do antigo nome) eram os cinta-largas. Noventa anos depois, esses índios massacraram 29 garimpeiros – assim dá pra ter uma idéia do perigo que a expedição correu.

Baseada numa pesquisa que incluiu diários, entrevistas com familiares de Rossevelt e Rondon e um conhecimento acumulado numa das revistas que melhor descrevem a relação do homem com a natureza, Millard reconstrói a expedição de maneira espetacular. É bom que uma história dessas não caia no esquecimento. Na família Roosevelt ela nunca correu esse risco. Teddy e seu filho não foram os últimos da família que enfrentaram o rio: em 1992, um bisneto do ex-presidente refez o percurso.

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O Advesário

A história de Jean-Claude Romand foi um acontecimento triste que chocou a França em 1993. Romand levou por 18 anos uma vida de mentiras que terminou em tragédia. Fingiu para todos os seus conhecidos que era um médico bem-sucedido que trabalhava na OMS, mas na realidade tinha abandonado o curso de medicina no segundo ano. Saía de casa e passava o dia em restaurantes ou ficava esperando em seu carro. Voltava com uma pilha de publicações gratuitas de medicina. Se casou, teve filhos e sustentava a fachada gastando as economias de seus pais ou da família da sua mulher. Ninguém pareceu desconfiar de nada em todos esses anos. Quando a farsa parecia prestes a ser desmascarada, matou seus pais, sua mulher e seus filhos, que tinham 8 e 10 anos. Tentou se suicidar e não conseguiu. Seu julgamento acabou dominando as manchetes do país em 1994.
Essa história, que parece ter saído da ficção, acabou caindo na mão de um dos melhores autores do gênero na França: Emmanuel Carrère. Autor que se especializou em escrever livros sobre a fragilidade da “vida estável” e loucura – seu livro “O Bigode”, por exemplo, é sobre um homem que entra em parafuso depois que resolve raspar seu bigode e perguntar para a mulher e amigos o que acharam, não conseguindo acreditar quando eles afirmam espantados que não há nenhuma diferença, já que ele nunca teve um bigode -, Carrère se correspondeu com o farsante e investigou o que “deu errado” na vida de Romand.

É um livro parecido com “A Sangue Frio”, mas sem muita compaixão pelo personagem. Embora destrinche o lado perturbador de Romand, Carrère também expõe o lado de pequeno ladrão do personagem e mostra como a busca pela “redenção” que depois caracterizou Romand na prisão parece apenas mais uma de suas máscaras. O relato não é tão cru como a maioria dos autores americanos do new journalism, seu estilo muitas vezes é muito mais literário, e Carrère, até por ser um autor que já era consagrado na época, também é um personagem do livro, inclusive contando suas dificuldades em produzir o trabalho e reproduzindo sua correspondência com o preso.

Obs: “O Adversário”, como a maioria dos livros de Carrère, virou filme em 2002. O feio Daniel Auteuil interpreta o perturbado Jean-Claude Romand.

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Misha: A Memoire of the Holocaust Years

Incongruências e simplificações em histórias de sobreviventes do Holocausto são comuns. Gitta Sereny, em seu “O Trauma Alemão”, fala de pessoas que realmente estiveram nos campos mas têm a tendência – por causa da passagem do tempo, da pressão da imprensa por histórias extravagantes ou por pura ingenuidade – de incluírem mais elementos em suas histórias. Um exemplo seria o número excessivo de sobreviventes que garantem terem sido examinados pelo Dr. Mengele em Aushwitz. Mas tratam-se de casos inofensivos e bastante complicados.

Mas, no dia 29 de fevereiro, deu na imprensa: “Misha: A Memoire of the Holocaust Years” é uma fraude. O livro é um dos espécimes mais absurdos do pior tipo de falsificação autobiográfica: memórias de falsos sobreviventes do Holocausto.

Misha Defonseca (na verdade Monique De Wael) escreveu um livrinho sobre sua experiência de judia fugitiva e de como teria sido criada por uma família de lobos (!) depois que seus pais foram levados pela Gestapo. O livro foi publicado há 11 anos e traduzido para 18 línguas. É inacreditável que uma história ridícula dessas (uma menina e uma alcatéia… Fala sério!) não tenha sido refutada antes.

Monique/Misha, que nem sequer era judia, chegou a contar a sua falsa experiência para platéias em sinagogas e escolas. Não é o primeiro caso. “The Painted Bird” e “Fragments”, de Jerzy Kosiński e Binjamin Wilkomirski, respectivamente, já foram desmascarados como fraudulentos há alguns anos. Infelizmente, eles receberam apoio de algumas pessoas que não enxergaram os trabalhos como eles eram de fato – falsificações -, mas como uma espécie de solidariedade ou manifestação de uma “dor real” pelo Holocausto (“Painted” foi até incluído numa lista da revista Time como um dos grandes romances do século 20). Enquanto isso, Misha continua no catálogo de várias livrarias virtuais, e na seção “Biografias e Memórias”.

A guerra do papel

quinta-feira, outubro 25, 2007

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Dois sujeitos encontram uma utilidade para um tijolaço do Robert Fisk.

Que insanidade, A Grande Guerra pela Civilização tem 1495 páginas, Pobre Nação, 966. É muito papel, mesmo para os padrões da velha ladainha antiamericana.

A Rússia de Steinbeck e Capa

quinta-feira, outubro 4, 2007

Logo deixamos de nos sentir abandonados e perdidos. A fim de castigar Joe Newman, decidimos nos instalar no seu quarto. Usamos suas toalhas, seu sabonete e seu papel higiênico. Bebemos seu uísque. Dormimos em seu sofá e em sua cama. Achamos que isto era o mínimo que poderia fazer por nós, para nos compensar o fato de ter nos lançado num estado tão miserável. Por isso, avançamos sobre suas garrafas de uísque escocês. Há que se reconhecer, porém, que na época não tínhamos idéia da enormidade desse crime. Não são pequenas a desonestidade e as tramóias entre os jornalistas americanos em Moscou, mas nunca se ouvira falar de um golpe tão baixo quanto o nosso. Um homem simplesmente não acaba com o uísque alheio.

John Steinbeck, Um Diário Russo, 1947.

Um Diário Russo é tão bom, tãããããão bom, que fiquei triste quando cheguei ao final do livro. Nunca pensei que John Steinbeck pudesse ser tão engraçado. As fotografias que ilustram o livro são de Robert Capa, e não são menos que excelentes. O preço do livro é meio salgado, 89 reais, mas vale cada centavo. A tradução é impecável; a qualidade de impressão das fotos, estupenda; capa dura e tal; além, claro, de ter um dos melhores relatos de viagem que li nos últimos tempos.

Steinbeck, logo depois da Segunda Guerra, na época já um romancista de fama internacional, formou, com o fotógrafo Robert Capa, uma dupla para uma viagem que pretendia mostrar o povo russo sem o viés ideológico que caracterizava a maior parte das obras sobre a Rússia até então publicadas. Se acreditarmos no livro, a idéia surgiu depois que a dupla consumiu uma boa quantidade de álcool num boteco de Nova York. Aliás, essa passagem, logo no início do livro, define o tom do relacionamento entre Steinbeck e Capa ao longo da viagem.

Sarcásticos, mulherengos e bebedores confessos, capazes de festejar inconseqüentemente por dias seguidos e ficarem permanentemente de ressaca, eles encarnam com perfeição o melhor da “decadência ocidental” e tudo aquilo que o comunismo combate. Algumas das melhores passagens do livro descrevem os hábitos pitorescos de Capa, que incluem se trancar no banheiro do hotel por horas, ficar reclamando que suas fotos estão todas uma droga, e afanar os preciosos livros do embaixador americano em Moscou (“Se Capa tivesse tomado emprestado ou roubado a adorável mulher de Gilmore, Tamara, Ed talvez ficasse bastante chocado, mas certamente não ficaria tão irado.”). E Steinbeck possuía um talento tremendo para descrever essas peculiaridades com elegância. A dupla adorava aterrorizar com piadas um dos guias russos (Tchmarski, Tchumarscki, Tchmarxista, ) que os acompanhava – e que tinha um azar tremendo na hora de arranjar aviões, carros e hóteis; Capa e Steinbeck brincavam que ele só podia esconder um diabrete, Krêmlin Gremlin, aquele criatura que sabota tudo -, além de encarar com sarcasmo o discurso anti-decadência de uma outra guia, uma moça toda certinha, que ganhou o apelido de Sweet Lana por causa do seu nome, Svetlana (“(….) fez com que nós, que nunca havíamos nos considerado imorais, nos sentíssemos um tanto depravados”).

Com uma dupla tão afiada, o livro cumpre bem seu objetivo, que é mostrar os russos, ou alguns russos, sem o amor declarado dos esquerdistas ou o ódio por vezes irracional da direita. Não é como a Rússia de fato era, mas uma das visões da Rússia que se poderia ter, se o objetivo fosse retratar com uma honestidade simples. Steinbeck, ao longo do texto, apresenta um povo religioso, trabalhador, que pensa só em trabalhar em paz e que, depois de sofrer tanto com a guerra, deseja somente a paz e reconstruir suas cidades arruinadas. Steinbeck resgata a verdadeira natureza cotidiana da Rússia, não o país definido, então, por um sistema comunista, mas a nação dos antigos czares, das velhas igrejas; o cenário de incontáveis invasões. País continental, a URSS era cheia de contrastes e, embora os autores tenham visitado somente três cidades importantes e alguns vilarejos agrícolas (sempre viajando de ressaca), mostraram de maneira convincente como os ucranianos, georgianos e os russos eram diferentes, mas tendo em comum uma comovente alegria pela vida – considerando que viviam sob uma ditadura violenta e sobreviveram a uma guerra pavorosa. A descrição de um grupo de mulheres que adoravam dançar, e tinham que dançar umas com as outras, porque os homens haviam todos morrido em combate, foi uma das passagens mais emocionantes do livro.

Várias fotos de Capa foram confiscadas pela censura soviética, mas as que sobreviveram e ilustram o livro, completam de maneira esplêndida aquilo que acabamos de ler.

Mas o livro não é só elogios. Perseguições e gulags ficaram de fora, mas é possível entender as conseqüências do comunismo através de várias situações vividas pelos autores. Algumas delas parecem completamente irreais. Num restaurante estatal, no almoço, pedir um bife podia ser uma tarefa que exigia mais de 2 horas do cliente. Um intrincado sistema burocrático, digno de Gógol, exigia que o garçom, após anotar o pedido, consultasse a contabilidade, que, por sua vez, emitia uma autorização que era levada à cozinha, e esta então emitia uma confirmação que era enviada para a contabilidade, e assim por diante. Completamente diferentes do tipo de intelectual que Steinbeck encarnava (beberrão, cínico, inimigo do governo), eram os escritores russos apresentados, os “engenheiros da alma” de Stalin, completamente antenados com as idéias de seu governo. Previsíveis e medíocres, era possível, antes de algum jantar que ofereciam para os visitantes, prever o tipo de pergunta que iam fazer. Uma corrupção aparentemente inocente, que brota como cogumelo em qualquer país comunista, era parte do dia-dia. Ainda não era a época dos subornos e da kleptocracia, mas era possível observar que vários russos usavam carros pertencentes ao Estado como táxis – Capa e Steinbeck chegaram a usar um ônibus como condução particular. Em dado momento, os autores observam como deve ser frustrante para um oficial comunista observar que, depois de combater o capitalismo aqui e ali, ele continua reaparecendo de outra forma.

Steinbeck afirmou, já no final do livro, que Um Diário era uma obra superficial. Mas não há nada de superficial e ingênuo nesse livro extraordinário. Mesmo que essa Rússia já tenha desaparecido há muito tempo, Um Diário Russo sobrevive, e continua sendo uma leitura imperdível.

Morte no teto do mundo

terça-feira, outubro 2, 2007

Lhakpa pediu que Hutchison deixasse Beck e Yasuko onde estavam. Mesmo que sobrevivessem tempo suficiente para serem arrastados de volta ao acampamento 4, com certeza morreriam antes de poderem ser carregados até o acampamento-base. (…) Foi um clássico ato de triagem.

O trecho acima é do livro No Ar Rarefeito (Into thin air, Cia Das Letras), do jornalista e alpinista Jon Krakauer. Um best-seller de 1996, anterior à Pela Bandeira do Paraíso, o único livro de Krakauer que tinha lido até hoje, No Ar Rarefeito é uma obra triste e reveladora sobre os perigos que vieram com a crescente comercialização das expedições ao Monte Everest, “o teto do mundo”. Krakauer é um dos sobreviventes da catastrófica temporada de escalada de 1996, que terminou com a morte de 12 pessoas – oito delas numa noite – por causa de uma tempestade. Na condição de jornalista convidado por uma expedição comercial – organizada por uma equipe de alpinistas neozelandeses -, Krakauer acompanhou uma equipe de amadores endinheirados, que pagaram até 65 mil dólares para serem colocados no topo, desde o aborrecido e extenuante processo de aclimatação à altitude do Himalaia – o Monte Everest tem 8.844 m, mais alto que a altitude de cruzeiro de um vôo comercial; no topo, o nível de oxigênio é equivalente a 1/3 do nível do mar -, até a lenta subida e a tragédia que se seguiu no retorno, em 10 maio de 1996.

Um apaixonado pelo esporte, Krakauer admite que a empreitada de escalar o Everest é “um ato intrinsecamente irracional – um triunfo do desejo sobre a sensatez”, mas confessa que compartilha dessa mesma irracionalidade. Profissionais e amadores, todos sofrem com a “febre da montanha”, que impele até os mais exaustos e mal preparados a tentar atingir o topo, nem que seja para lá permanecer alguns poucos minutos. George Mallory, o alpinista inglês que morreu em 1924 tentando escalar a montanha – e teve o corpo achado 75 anos depois, perfeitamente conservado -, quando questionado por uma platéia sobre o motivo de escalar o Everest, respondeu de pronto: “Because is there“. Krakauer e seus companheiros não teriam respondido diferente. Entretanto, o homem propõe e Deus dispõe, e a vontade não é suficiente para vencer o Everest e um dos climas mais hostis do mundo.

A expedição era liderada por um alpinista profissional que imaginou ser um negócio lucrativo levar gente rica ao topo, dois auxiliares ocidentais e uma penca de sherpas, uma minoria do Nepal que vive na região há séculos e fatura alguns dólares ajudando como carregadores e guias – e que é adaptada à altitude, mas, ironicamente, durante séculos, os sherpas nem pensaram em subir a montanha, Sagarmatha (rosto do céu), em nepalês. Na galeria de clientes figuravam médicos americanos ricos, um coronel australiano recentemente reformado, uma japonesa quarentona que pretendia com o Everest terminar de escalar todos os “Sete Picos” (os pontos mais altos de cada continente), um funcionário dos correios que economizou para conseguir pagar seu passe e, claro, um jornalista, Krakauer, que foi mais que um mero observador de toda a tragédia. Nas expedições paralelas, que terminaram por engarrafar o trânsito nas passagens estreitas da montanha naquele 10 de maio (mais de 30 pessoas alcançaram o topo naquele dia; não é um lugar com privacidade), a galeria de clientes não era menos diversificada – no livro, rouba a cena uma socialite americana, esposa do fundador da MTV, que, mesmo sendo uma alpinista experiente, levou consigo uma carga totalmente supérflua de iguarias e equipamentos eletrônicos. Havia, ainda, espaço para uma expedição sul-africana sem fins comerciais, liderada por um falsário inglês, e que sofreu com a debandada de seus membros mais experientes.

Escalar o Everest é uma das tarefas mais difíceis e perigosas do mundo. Seria de se esperar que só uma equipe coesa e com pessoas propensas ao trabalho em grupo se arriscasse, mas os membros do grupo de Krakauer só tinham em comum o fato de terem desembolsado uma boa grana e o desejo de chegar ao topo. Não pagaram seus guias por conselhos de sobrevivência, e sim para que estes os colocassem no topo. Curiosamente, no dia 10 maio, a maioria dos que pereceram era formada por guias e sherpas experientes. Boa parte dos pagantes percebeu que o tempo estava piorando e preferiu não arriscar ir ao topo, sendo que alguns deles estavam a meros 100 metros de completar a escalada. No caso, a experiência fez mal, e os profissionais morreram por excesso de autoconfiança.

No percurso de subida, Krakauer descreve uma montanha repleta de tubos de oxigênio vazios e com cadáveres nas encostas, alguns de pessoas que morreram há mais de dez anos. Na descida, novos cadáveres, só que frescos. 203 pessoas morreram em mais de 80 anos de escalada.

Contrastando com a “febre”, o “mal da montanha” garante muitas das páginas mais interessantes do livro. A falta de oxigênio, somada ao frio e à exaustão – e nem os profissionais estão imunes -, levou facilmente todos os membros da expedição a um estado de debilidade mental e motora extremamente chocante. A imagem de alpinistas fortes, vencendo os perigos da montanha, é totalmente irreal perto do retrato que Krakauer pintou de si e de seus companheiros: um pelotão de zumbis, incapaz de completar as tarefas mais simples devido à apoxia (falta de oxigênio no sangue), se arrastando por vezes durante horas para completar distâncias que, em condições normais, seriam percorridas em pouco segundos – este é o retrato da maioria das pessoas que desafiam o Everest. A debilidade motora contribuiu até para uma espécie de “debilidade moral”, visto que a maioria das vítimas não morreu em acidentes, mas foi deixada para morrer. E isso foi em 1996. Quem se interessa pelo assunto deve lembrar de outra tragédia ocorrida no Everest, esta ano passado, quando dezenas de alpinistas passaram por um amador que agonizava e não prestaram qualquer tipo de ajuda. Também no ano passado, o Everest vitimou o experiente alpinista brasileiro Vitor Negrete.

Escrito em um ato de catarse, poucos meses depois da tragédia e de um artigo de revista, No Ar Rarefeito não pretende ser uma lição sobre “o que deu errado naquele dia” – seria só mais uma ferramenta para os inconseqüentes que pretendem se arriscar, prefere remeter à máxima de que “se houve aventura é porque houve incompetência”; também está longe de ser, graças a Deus, um daqueles insuportáveis livros de “desafie seus limites” e que glorificam o sacrifício -, mas um desabafo de um homem que escapou por pouco da morte, não se sente melhor por isso nem consegue superar o que aconteceu naquele 10 de maio.

O mito napoleônico e o século XX

sexta-feira, setembro 21, 2007

Poucas pessoas causaram maior impacto na História do que Napoleão Bonaparte. Por causa dele podemos refutar a crença dos deterministas de que os acontecimentos são governados por forças, classes, economia e geografia, e não pelas vontades poderosas de homens e mulheres. Embora tenha exercido o poder somente durante uma década e meia, seu impacto sobre o futuro durou até o final do século XX, quase 200 anos após sua morte. Na verdade, sua influência talvez não tenha ainda desaparecido.

Diferentemente da maioria dos tiranos que provocaram guerras, Napoleão foi e ainda é uma figura cultuada. Pode-se afirmar que a História foi generosa com ele. Ou melhor, que historiadores e biógrafos foram generosos. E estes produziram uma bibliografia imensa sobre o imperador – é provável que ele tenha sido uma das figuras históricas sobre quem mais se escreveu. Em 2003, aqui em Curitiba, um sebo da Emiliano Perneta pôs à venda uma biblioteca que chamava a atenção pela quantidade imensa de livros sobre assuntos napoleônicos. Imensa mesmo, eram centenas de livros – a maioria belíssima – que foram acumulados por um apaixonado pelo assunto. Sua família não devia compartilhar a mesma paixão, e, depois do seu falecimento, pôs o valioso acervo à venda. Mas a pergunta é: por que um estadista que morreu há quase 200 anos ainda desperta tanto interesse? Na Europa e, claro, na França, ele ainda provoca discussões apaixonadas. Não é raro o canal francófono TV5 transmitir algum programa que aborde o legado do homem que assombrou a Europa e a transformou para sempre. Na França, episódios sobre sua vida, especialmente os simbólicos, como a batalha de bolas de neve da sua infância, são matéria escolar e estão fixados no imaginário. Muitas ruas e pontes de Paris homenageiam seus marechais e as batalhas que venceu. Napoleão está por toda parte.

Visitei Napoleão em 1994, ou melhor, seu túmulo no L´hôtel national des Invalides. Uma construção impressionante – passeio obrigatório em Paris -, o sepulcro-memorial inspira respeito e assombra. Visitar o túmulo é participar do mito napoleônico.

E é precisamente esse mito que o historiador inglês Paul Johnson pretende demolir no seu breve mas eficiente Napoleão (Ed. Objetiva, 212 páginas). Antes, é útil resumir aqui quem é Paul Johnson. Trata-se de um conservador, católico, monarquista, um escritor prolífico, com obras que abordam assuntos tão diferentes como genocídio e moda, sociedade egípcia e arte moderna. Um provocador profissional: considera Ronald Reagan um herói, despreza todas as utopias redentoras e classificou o século XX como “a Idade da Infâmia”. É o homem ideal para demolir um mito tão querido e que desperta tanto a imaginação.

Para Johnson, Bonaparte (o sobrenome de Napoleão, usado por ele antes de sagrar-se imperador, e que Johnson preferiu usar ao longo do livro) foi um oportunista mau, que aproveitou a confusão gerada pela Revolução Francesa (1789) para satisfazer a própria ambição. Um ponto de partida para todos os ditadores e regimes totalitários que tornariam o século XX uma era marcada pelo derramamento de sangue e opressão.

Nada indicava que Bonaparte, nascido na pequena e pouco francesa ilha da Córsega, em 1769, de família italiana – um estrangeiro, enfim – pudesse um dia comandar a maior potência daquele tempo. (É curioso que, tal como Bonaparte, dois dos maiores tiranos do século XX, Hitler e Stalin eram estrangeiros nos países que comandaram – Stalin era da Geórgia, Hitler, da Áustria.) Aqui, refutando o determinismo, o gênio pessoal fez a diferença: Bonaparte veio de uma família financeiramente arruinada, mas pertencia à pequena nobreza; se salvou porque era um estudioso brilhante da guerra e, quando na Revolução Francesa o país guerreou com meio mundo, somado a bons contatos com membros do Diretório francês (antes ele fora próximo dos jacobinos e seu Terror), ele começou a fabricar sua lenda. Primeiro foi em Toulon, como jovem oficial, quando expulsou os ingleses que ocupavam a cidade, depois em Dego, e, anos depois do Terror, jogou a pá de cal na Revolução Francesa, quando massacrou uma turba de descontentes que protestavam em Paris, no 13 vendemiário (pelo calendário da revolução, em 1795). Ele tinha 27 anos. Essas batalhas mostraram como se podia fazer uso eficiente da artilharia (é, usou artilharia na cidade), instrumento que usaria com maestria. Na campanha da Itália (1796), a artilharia, somada a um sofisticado sistema de comunicações, mapas precisos (devia isso ao seu chefe de estado-maior, Bertier), rapidez nos transportes e tropas animadas com a promessa de recompensas (butim de guerra), garantiu o êxito da campanha. Os saques que aconteceram na campanha eram um prenúncio do que iria acontecer nos anos seguintes. Animado, Bonaparte resolveu lançar suas tropas contra o Egito (então parte do Império Otomano), mas antes tinha que financiar a expedição. Os suíços pagaram a conta, contra sua vontade, quando Bonaparte invadiu o pequeno país e limpou todos os cofres bancários, não antes de promover uma série de massacres. Com os bolsos cheios, ele partiu para o Egito (1797). Venceu brilhantemente uma série de batalhas mas acabou fracassando no final, especialmente porque não deu a devida atenção ao poder naval. Abandonou seu exército – como faria na Rússia depois – e foi combater em solo europeu, pois a França estava novamente ameaçada. Venceu. Aos poucos, foi se tornando a figura mais importante do governo francês, o que culminaria no coroamento como imperador.

Curiosamente, esse pode ser considerado seu canto do cisne. Antes de coroar-se imperador, Bonaparte, na figura de general e cônsul, mesmo com os massacres, era admirado por toda aquela Europa ansiosa por libertar-se do Antigo Regime. Não foi para ele que Beethoven dedicou Sinfonia n° 3? Não foi ele quem trouxe tesouros maravilhosos do Egito, despertando assim o interesse do público pelo Mundo Antigo? Johnson mostra que, como imperador e depois de subjugar a maior parte da Europa, Bonaparte aproveitou para reforçar todas as inovações deprimentes que a Revolução Francesa trouxe: espionagem, estado centralizado, repressão, censura, propaganda oficial e endeusamento da força como agente transformador. Tudo isso com um poder nas mãos que nenhum dirigente do Velho Regime jamais sonhou ter. A escravidão, que havia sido abolida pela revolução, voltou. Uma classe militar passou a dominar a França. Ter acesso à Grand Armée era participar do butim coletado em todos os velhos reinos da Europa. Bonaparte impôs vários membros da sua família como soberanos de estados fantoches que criou. Reorganizou a Europa para que esta pagasse tributos à França. Não deixou a França melhor. Muito pelo contrário, gerou tanto ódio que uma enorme coalizão se formou e acabou por derrotá-lo. Lutou como um bravo, é verdade, mas, depois de 10 anos como imperador, sua figura já não inspirava a mesma força. Cansados da guerra, os próprios franceses terminariam por abandoná-lo.

O saldo napoleônico está estimado em seis milhões de mortes. Para a França sobrou o papel de potência de segunda classe, o isolamento nos anos seguintes e a juventude que desapareceu nos campos de batalha. O saldo positivo ficou para seus inimigos. Indiretamente, Bonaparte acabou por fazer nascer um novo nacionalismo alemão, inspirado no francês. Reorganizada secretamente durante os anos de ocupação pelo exército francês, a Prússia emergiria como a maior potência continental, passando a ameaçar ainda mais a França. Vendendo o imenso território da Louisiana aos EUA por uma bagatela, Bonaparte acabou dando mais condições para que a nova nação se tornasse a maior potência do planeta. Até a invasão de Portugal pela França acabou provocando outra coisa não prevista: com a fuga da família real portuguesa ao Brasil, a colônia acabou tendo um destino diferente e melhor. Ainda durante a ressaca napoleônica, os velhos soberanos europeus reorganizaram o continente com base nas linhas anteriores à Revolução Francesa. Não era democrático: reis redesenhando o mapa, o tipo de coisa que despertaria o ódio de um marxista. Mas foi algo brilhante, garantindo uma certa paz e estabilidade na Europa por 100 anos.

Tudo isso responde o interesse que ele provoca, e por que ele foi e continua a ser um modelo para todos os ditadores que iriam aterrorizar o século XX. Mas por que ele, depois de toda essa tragédia, continua ainda sendo admirado?

Para os franceses, a razão é óbvia: Bonaparte lembra uma época em que a França dominava e influenciava (ah! a “missão” francesa) o mundo. E também porque, apesar de tudo, Bonaparte é um personagem fascinante com histórias não menos – um grupo de franceses é capaz de discutir durante horas sobre o relacionamento de Bonaparte e Josephine, sua primeira mulher. Para os outros, inspirados pela eficiente máquina de propaganda napoleônica, tão bem exemplificada nos magníficos retratos feitos por Antoine-Jean Gros e Jacques-Louis David, nas obras literárias de Stendhal e Victor Hugo, resta o exemplo do homem resoluto que parece maior que a vida.

Extirpar esse mito e compreender melhor o legado de Bonaparte é revelar como ele influenciou tão mal o século XX.