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A festa de Mugabe… e de Mswati III… e de Bokassa I

segunda-feira, março 9, 2009

Os números da festa nababesca que Robert Mugabe, o ditador do Zimbábue, ofereceu ao completar 85 anos, no dia 28 de fevereiro:

– Duas mil garrafas de champanhe Moët & Chandon

– Oito mil lagostas

– Três mil patos

– Quatro mil porções de caviar

– Oito mil caixas de chocolate Ferrero Rocher

– Cinco mil garrafas de uísque Johnny Walker Blue Label

– Cem quilos de camarão (Vergonhoso, Mugabe. Ibrahim Sued, na comemoração dos 30 anos de sua coluna em “O Globo”, em junho de 1983, ofereceu 120 quilos do crustáceo para seus convivas)

Segundo os organizadores, a festa custou cerca de US$ 250 mil (R$ 594 mil)

Alguns números do Zimbábue de Mugabe:

– Sete dos doze milhões de habitantes do Zimbábue precisarão de ajuda alimentícia este ano para sobreviver, segundo a ONU

– 94% de desemprego

– Três mil mortos num recente surto de cólera

– 1,8 milhão de zimbabuanos são portadores do HIV

– Expectativa de vida é de 37 anos para homens e 34 para as mulheres

– 98% de inflação diária (isso mesmo, diária)

– 3,4 milhões de refugiados

Post anterior sobre o Zimbábue e Mugabe.

E em algum lugar da África…

A festa de Mugabe pode ser considerada tímida para os padrões do continente. Em setembro de 2008, na Suazilândia, o rei Mswati III não poupou despesas na “Festa 40/40”, para comemorar os 40 anos da indepêndencia do país e o seu próprio aniversário. Mswati reina num dos países mais miseráveis da África e também a última monarquia absolutista do continente. Um rei playboy que não esconde o gosto pelo luxo, com uma coleção de 13 mulheres e dezenas de carrões. Mesmo com a economia do seu país sendo uma tragédia e 26.1% dos suazis infectados pelo HIV – ele propôs, em 2001, a abstinência sexual para todos os suazis como maneira de conter a epidemia –, Mswati  achou que havia motivos para comemorar. A tal “40/40” custou 1,5 milhão de libras. O ponto alto da festa foi sua entrada no estádio de Mbabane, a capital, desfilando num BMW novinho em folha – um dos 20 comprados para a ocasião – vestido em uma roupa feita de pele de leopardo. Robert Mugabe compareceu ao evento.

Bokassa Coronation

Mas as festas extravagantes desses déspotas africanos não são nada se comparadas à famosa coroação do “imperador” Jean-Bédel Bokassa, em 1976.

Governante da miserável República Centro-Africana de 1966 a 1979, o rídiculo Bokassa foi um político heterodoxo até para os padrões africanos – o que não é fácil no continente de Idi Amin, Mobutu e Muammar al-Gaddafi. Foi soldado do exército colonial francês, tendo participado da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Indochina. Chegou ao poder em seu país por um golpe de estado. Provocou um escândalo na França quando presenteou o então ministro das Finanças francês, seu amigo de Valéry Giscard d’Estaing, com dois enormes diamantes. Se converteu do catolicismo para o islamismo, quando quis se aproximar dos líbios, mas, alguns anos depois, mudou de idéia e voltou para a Igreja de Roma.

Como ditador, Bokassa não decepcionou ao fazer novas leis. Resolveu punir com multa ou prisão quem não tivesse emprego e permitir que tambores fossem tocados apenas à noite e nos finais de semana. (Fome, mosca tsé-tsé, pobreza e rebeldes eram – e continuam sendo – os principais problemas do país.)

Mas o ponto alto da sua carreira foi ter transformado a República Centro-Africana num império. Em 1976, Bokassa achou que o status de monarca proporcionaria mais respeito ao seu país miserável. Realizou uma cerimônia de coroação inspirada na de Napoleão Bonaparte – aquela em que o petit caporal tirou a coroa das mãos do papa, um exemplo para todos os megalomaníacos –, com custo estimado em 20 milhões de dólares (1/3 do orçamento do país; de fazer até os Bourbons corarem). Bokassa convidou dezenas de líderes estrangeiros para seu evento kitsch, mas ninguém compareceu.

Considerado um louco, Bokassa até mesmo foi – tal como Idi Amin – acusado de canibalismo. Tinha 17 mulheres e mais de 50 filhos. Em 1979, os franceses, já fartos de seu compartamento, apoiaram um golpe que derrubou o imperador e acabou com seu “Império Centro-Africano”. Bokassa morreu em 1996.

Obs: para quem não imagina até onde a locura de ditadores pode ir, a agência Magnum tem em seu acervo dezenas de fotos de Bokassa I e de sua inacreditável cerimônia de coroação.

 

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Documentários

domingo, julho 27, 2008

Para quem gosta de documentários, o canal pago GNT há muito deixou de ser uma boa opção. Se antes era possível assistir séries como “The World at War” e “Hitler´s Helfer”, agora, o assinante que sintonizar o canal só encontrará dezenas de programas desmiolados para o “público feminino” e explicações intermináveis sobre como fazer sexo anal com um vibrador. Com os canais Discovery não é muito melhor: é absurda a obsessão dos programadores com a construção do transatlântico Queen Mary II ou com os ridículos documentários sobre ufologia.

Felizmente bons documentários podem ser encontrados na internet.

“Général Idi Amin Dada: Autoportrait”(1976) é um deles. Realizado pelo francês Barbet Schroeder, “Genéral” acompanhou o sanguinário ditador de Uganda em reuniões ministeriais e em visitas oficiais. Como no ótimo “Entreatos” (2004), de João Moreira Salles, essas imagens não necessariamente promovem o personagem, mas o expõem ao rídiculo e mostram sua verdadeira natureza apenas pelo registro de ações. O “Autoportrait” se explica pela interferência de Amin, que chegou a ajudar na direção e até mesmo compôs a trilha sonora. Schroeder realizou duas versões, uma para exibição em Uganda, já que o ditador adorou as imagens, e outra para o exterior, contendo narração e descrição de atrocidades. O resultado é muito mais eficiente que o superestimado “O Último Rei da Escócia”. (O documentário está disponível em DVD no Brasil. O preço é salgado: 41 reais. A arte da capa é coisa de louco. Quem quiser gastar um pouco mais pode optar pela edição da Criterion.)

Não foi a última vez que Schroeder abordou personagens polêmicos. “L’avocat de la terreur” (2007), documentário sobre o advogado Jacques Vergès, defensor de monstros como o nazista Klaus Barbie e Carlos, o Chacal, está atualmente em cartaz na cidade de São Paulo.

“The Leader, His Driver and the Driver’s Wife” (1991) foi realizado pelo jornalista Nick Broomfield para o Channel 4. Fugindo da abordagem “voyeurística” do Cinéma vérité, o documentarista Broomfield é um personagem que apresenta suas reflexões, finge ser ingênuo para que seus entrevistados fiquem à vontade e exponham suas opiniões absurdas e, não raro, os coloca contra a parede. Foi um dos primeiros “Nouvelles Egotistes“, influenciando documentaristas como Michael Moore e Louis Theroux. Em “The Leader”, Broomfield expôs a AWB (Afrikaner Weerstandsbeweging), um grupo paramilitar de inspiração nazista formado por boers da África do Sul. Durante a maior parte do documentário, Broomfield tenta entrevistar o líder do movimento, o truculento Eugène Terre’Blanche. Como Gay Talese que não conseguiu entrevistar Sinatra, o documentarista teme que suas tentativas não dêem em nada. Se volta, então, para o motorista de Terre’Blanche e sua esposa. Em 2006, o documentário ganhou uma continuação, “His Big White Self”, onde Broomfield volta para a África do Sul e mostra como as vidas dos personagens de “The Leader” mudaram depois do fim do apartheid.

Dando continuidade para seu gosto pela polêmica, o último documentário de Broomfield abordou a matança de civis por marines na cidade de iraquiana de Haditha.

“The Death of Yugoslavia” é um documentário premiado realizado pela BBC em 1995. Com um formato bastante novo para época, “Death” mostrou cenas de arquivo inéditas intercaladas com opiniões dos principais personagens do conflito. Não envelheceu muito, mesmo considerando os acontecimentos posteriores na região. Alguns erros de tradução foram denunciados por pessoas fluentes em servo-croata. Mais grave, porém, são os supostos erros históricos apontados em alguns sites e resenhas. O documentário original tinha seis partes, mas, posteriormente, a BBC reduziu para três.

Primeira parte de “Général Idi Amin Dada: Autoportrait”. (É preciso um pouco de paciência porque o documentário está dividido em 17 partes.)


Primeira parte de “The Leader, His Driver and the Driver’s Wife”. Link para a primeira parte de “His Big White Self”.

Primeira parte da segunda versão de “The Death of Yugoslavia”. Link para a versão em seis partes.