Posts Tagged ‘George Lucas’

O novo Indiana Jones é uma bomba

quinta-feira, maio 29, 2008

Spielberg got lost in his own museum?

George Lucas está se tornando um especialista em frustrar grandes expectativas e esperas intermináveis. Foram 19 anos para desenvolver um roteiro para o novo Indiana Jones, e ele, junto com David Koepp, acabou entregando esse “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”. Mesmo Spielberg, que alternando altos e baixos nesses 19 anos conseguiu manter um padrão de qualidade, parece estar cansado. “Caveira de Cristal” está mais para o péssimo “Rambo IV” do que o até bem-sucedido “Duro de Matar 4.0”, se for para ficar nessas continuações tardias. Faz feio até mesmo se comprado à série de TV “O Jovem Indiana Jones”.

A história do filme é a seguinte: em 1957, um bando de russos – que aqui assumem o lugar dos nazistas como vilões – seqüestram Indy e o forçam a encontrar uma caixa na famosa Área 51. O conteúdo é magnético e esconde um ET (!). Tiroteios, uma bomba nuclear e perseguições depois, Indy escapa e acaba sendo interrogado pelo FBI. Perde o emprego de professor. Um rapaz (Shia LaBeouf) que afirma ter sido criado por um antigo amigo de Indy (Ox, John Hurt), aparece e pede ajuda para salvar sua mãe, que é refém dos russos. Perseguições depois, eles embarcam para o Peru à procura da tal caveira de cristal. Um segredo sobre o rapaz e Indy, que a essa altura já é bastante óbvio para o espectador, é revelado. A parceira romântica de Indy no primeiro filme, Marion Ravenwood, interpretada por Karen Allen (o tempo é cruel com as pessoas), aparece em cena. Com os russos no encalço, eles partem para devolver a caveira ao seu lugar. Mas aí a trama toda já se tornou bizantina demais.

O roteiro é, sem dúvida, a maior fraqueza do filme, mas as interpretações também não fazem melhor. Os russos-estão-chegando são liderados por Cate Blanchett, que aqui faz uma Ninotchka-dominatrix-com-poderes-mentais (“a favorita de Stalin”) que é ruim até o osso. Um inglês chamado Mac, (Ray Winstone) que fez amizade com Indy na Segunda Guerra, é o personagem dúbio que repetidamente trai todo o grupo que o acompanha. Essa amizade é estranhamente apresentada. O filme não tem muito a dizer sobre a relação desses dois homens, e o ritmo alucinante da trama não permite que eles tomem um cafezinho ou analisem a relação – o que também acontece com todos os personagens. Karen Allen está totalmente subaproveitada. John Hurt está patético e são dele algumas das falas mais constrangedoras do filme – “the space between spaces” merecia que seu peito explodisse. Shia LaBeouf está abominável como o apoio de Indy, e seu cópia barata de Marlon Brando parece ter sido mesmo escrita apenas para ser um rosto “jovem” num bando de velhos e assim atrair adolescentes. Mesmo Harrison Ford, que mostra ainda ser capaz de usar o fedora e encarnar um dos personagens mais queridos do cinema, vai decepcionar o espectador. Indy está excessivamente sardônico, respondendo qualquer pergunta com tiradas rápidas que logo se tornam cansativas.

Qualquer aventura do desenho Duck Tales é mais criativa que o novo Indiana Jones. Os filmes anteriores já “pegavam” idéias de aventuras mais antigas (“Templo da Perdição” de “Gunga Din”, “Última Cruzada” do francês “L´as des As”; grandes filmes), mas o novo Indy parece ter se inspirando em coisas de qualidade duvidosa, como “Stargate”, o até divertido “Alien vs Predador”, “A Lenda do Tesouro Perdido” e o próprio pastiche “A Múmia” (você já viu as formigas antes), assim como no ritmo exagerado de “Piratas do Caribe”. Tudo isso com uma trama constrangedora de ETs que deixaria orgulhoso o picareta Erich von Däniken. “Goonies”, que também é plagiado, deixa “Caveira de Cristal” no chinelo.

Não há nada de grave nos erros factuais do filme – os anteriores já estavam cheios disso -, mas “Caveira” é repleto de erros de lógica. A afirmação de Indy de que aprendeu quéchua (língua dos Andes) com o mexicano Pancho Villa pode deixar acadêmicos de cabelo em pé, mas o espectador vai ficar mais indignado com os poderes da caveira. Ora ela é magnética, ora ela deixa de ser. E por que diabos eles foram até a Área 51 se a caveira sempre esteve no Peru? Como alguém pode permanecer sentado num veículo anfíbio depois dele cair por duas cachoeiras? O que aconteceu com a caveira do corpo recuperado na área 51? Bah… Não adianta insistir.

Com um roteiro fraco – e o dedo de Lucas, que deve ter enfiando todos aqueles cães da pradaria e macacos no filme -, era de se esperar que pelo menos o filme tivesse o clima dos anteriores. Errou de novo. Não há suspense nem antecipação quando Indy e sua turma entram nas ruínas, nada de misterioso ou curioso nas histórias por trás da caveira. Isso parecia acontecer quando nativos cercavam Indy e sua trupe (é, ele nunca está sozinho), mas a cena logo acaba e parte para outro cenário exótico. Logo no começo, a cena da área 51 em que o espectador tem um rápido vislumbre da arca do primeiro filme serve como o exemplo perfeito de que “Caveira” não vai entregar nada do que foi visto nas aventuras anteriores. As tão elaboradas cenas de perseguição acabam saindo pela culatra por serem demasiadamente exageradas. O duelo de espadas em veículos que disparam por uma Transamazônica duplicada que nunca acaba (“You fight like a young man: quick to begin, quick to finish”) só não é pior que a performance de Shia LeBoeuf encarnando Tarzan nos cipós. Ninguém fuma nesse filme família que pretende representar a década de 50 e a caveira do título nada mais é que uma peça barata de plástico e papel alumínio plagiada dos monstros de “Alien”. Em toda a brincadeira foram gastos 200 milhões de dólares.

No final, como era de se esperar, o vilão derrete e o cenário desmorona. O filme tinha desmoronado muito antes.

Uma vergonha.

Obs: “Templo da Perdição” e “Arca Perdida” eram VHS sempre alugados em casa, mas assisti “Indiana Jones e a Última Cruzada” no finado Cine Itália de Curitiba. Tinha apenas seis anos. Foi uma das melhores coisas que já tinha visto. Zeppelins, alemães malvados, tanques de guerra, caças, o sobrenatural. Meu pai, que nunca foi um grande fã, teve que levar eu e meu irmão mais duas vezes para assistir, de tanto que insistimos. Ele sempre será parte da minha infância. Depois do filme, eu gostava de pegar um pequeno caminhão Playmobil e enfiá-lo de ponta cabeça no canhão de um tanque Comandos em Ação, imitando uma das cenas mais famosas da aventura. Duvido que “Caveira de Cristal” tenha essa capacidade de encantar uma criança.

Anúncios