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Morreu o pai do Playmobil

quarta-feira, fevereiro 4, 2009

Quem foi criança na década de 80 ou princípio de 90 dificilmente deve ter ouvido falar de Hans Beck. Entretanto, a criação desse alemão de Zirndorf, que morreu dia 30 de janeiro, aos 79 anos, é bastante conhecida: os bonecos Playmobil.

O primeiro boneco de Beck foi comercializado em 1974. Foi o choque do petróleo de 1973 que levou a Geobra – empresa na qual Beck era criador e ainda hoje fabrica os bonecos – a dar início à linha de Playmobils. Até então a Geobra favorecia a fabricação de grandes bonecas e outros brinquedos que usavam bastante plástico. Com o aumento dos preços, era necessário fazer mais com menos. Os bonecos de Beck caíram como uma luva.

Desde o começo Beck estabeleceu os temas para os Playmobils. O faroeste e os serviços públicos eram bem famosos, mas cobiçados pelas crianças eram mesmo os grandes Playmobils, como o barco pirata e o caminhão de bombeiros – duas peças que ainda são capazes de encantar um adulto pela precisão e beleza.

Nos 20 anos seguintes os bonecos de cabelo destacável e mãos em forma de garra da Geobra foram exportados ou licenciados para 70 países. No Brasil, foram fabricados sob licenciamento pela Troll e pela Estrela. (Era grande a diferença entre os Playmobils alemães e os da Troll. A empresa brasileira vendia temas que há anos tinham saído de linha na Europa. Mais gritante, porém, era a qualidade do plástico, que dava um aspecto “pirata” para os Playmobils da Troll – o melhor teste de qualidade para esse material ainda continua sendo a mordida de uma criança.)

O Playmobil nunca teve a inventividade do Lego – tampouco sua popularidade –, mas tinha algo em comum com seu rival dinamarquês: a capacidade de incentivar coleções. O universo Playmobil era vasto e variado – como mostra o site Collectobil, que possui um catálogo de todos os Playmobils organizados por temas. Hoje em dia, alguns desse temas podem até ser considerados politicamente incorretos, como os bonecos operários de construção civil que vinham acompanhados de um engradado com garrafas de cerveja.

Certa vez, Hans Beck declarou que não gostaria de misturar os seus Playmobils com ETs, dinossauros e um Boeing 747. A Geobra não respeitou sua vontade: nos últimos anos, só o Jumbo ficou de fora.

Mas por onde andam os bonecos? Uma ida a uma loja de brinquedos brasileira mostra por que o Playmobil parece ter sumido do universo infantil: mesmo o dinossauro desprezado por Beck não custa menos de 150 reais. Depois que a estrela saiu de cena, o Playmobil ficou vários anos ausente do país, até que voltou pela Sunny Brinquedos, mas como produto importado da Alemanha. Diante da concorrência chinesa e seus brinquedos baratos cheios de chumbo e amianto, o Playmobil parece ter se tornado um brinquedo viável apenas para os mais apaixonados.

What a Way to Go!

terça-feira, outubro 14, 2008

Pega esse bolivianos, Newman!

Paul Newman (1925-2008 )

Esqueça o Stanislavski-Strasberg e as comparações com Brando, Clift e Dean. Paul Newman não merece ser lembrado pelos maneirismos bestas do método russo ou porque fez parte de alguma geração. Os papéis de sujeito atormentado nem sempre lhe caíram bem. Seus trabalhos com grandes diretores – Hitchcock, Scorsese, Huston e Preminger – resultaram em filmes abomináveis ou tristemente datados. (Em “Cortina Rasgada”, de Hitchcock, Newman estava tão antipático que fez os vilões comunistas parecerem boa gente.)

Não, Newman não merece isso. Ele não fez mais que dez filmes decentes, mas é difícil imaginar alguém tão perfeito para os papéis que interpretou. Newman teve mais carisma que Brando, Clift e Dean juntos. Talvez por ter tido uma vida mais “careta” (foi casado por mais de 50 anos), ao contrário de seus três colegas, sabia ser engraçado. Brando ficaria rídiculo no papel de um presidiário rebelde que vira herói de seus companheiros, mas isso não aconteceu com Newman em “Cool Hand Luke”, um de seus filmes mais famosos.

O melhor Newman foi o de papéis que parecem descompromissados, em filmes que à primeira vista parecem banais. Ele foi genial em “Harper”, um típico filme policial dos anos 60 que servia de veículo para um astro. A trama mirabolante, que mistura a investigação de um seqüestro e culmina na descoberta de uma seita religiosa que contrabandeia imigrantes mexicanos, não é o principal atrativo. É Newman, um investigador picareta que vive pregando peças na ex-mulher, que segura o filme.

“Harper” pode não ser um dos filmes mais memoráveis de Newman, mas o que dizer das duas dobradinhas com Redford em “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (por que os distribuidores brasileiros não gostavam do Sundance?) e “Golpe de Mestre”? Esses dois filmes foram dirigidos por George Roy Hill, que também chamou Newman para estrelar a (sem exagero) obra-prima “Slap Shot”, de 1977.

Nesse filme em que a violência no esporte – e num dos esportes mais violentos, o hóquei – foi usada na forma mais grotesca e engraçada já imaginada, Newman interpretou o capitão de uma equipe fracassada (em número de títulos e público) prestes a ser vendida. Ele não é responsável pelas cenas mais engraçadas – Newman sabia fazer rir, mas não era do tipo comediante -, é, antes de tudo, o sujeito que mantém a equipe unida e tenta reverter o destino de seus protegidos.

“Slap Shot” foi o último grande filme de Newman. Nos 30 anos seguintes ele até interpretou papéis dignos de nota em “The Verdict” (1982) e “Hudsucker Proxy” (1994), mas ganhou um Oscar justamente pelo fraco “The Color of Money” (1986), de Scorsese, uma continuação de “The Hustler” (1961), que Newman protagonizou 25 anos antes – “The Hustler” foi um dos poucos filmes em que Newman se saiu bem ao interpretar um personagem “atormentado”.

Deixando o ativismo político para trás – Richard Nixon o incluiu na sua famosa “lista de inimigos” por causa de seu apoio à candidatura de Eugene McCarthy – Newman se concentrou na filantropia. Doou todo o lucro de sua empresa de molhos de salada, a Newman’s Ow (que foi mais rentável que sua carreira cinematográfica), para a caridade.

Os últimos anos de Newman não deixaram filmes memoráveis. Ele passou a ser um coadjuvante de luxo em produções esquecíveis como “Road to Perdition”(2002) e “Message in a Bottle” (1999), e pareceu padecer do mesmo mal que acomete Michael Caine e atores das antigas pornochanchadas: ficar velho o torna mais respeitável e perdoa interpretações no piloto automático.

Em 54 anos de carreira cinematográfica, Newman se tornou uma figura tão familiar nas telas, seja nos grandes filmes ou nos medíocres, que sua perda não só causa lamentos pelo fim de um grande ator, mas também tristeza pela perda de um velho conhecido.

O que vale a pena assistir de Newman na opinião deste blogueiro (pra variar, os títulos brasileiros são, em todos os casos, tenebrosos):

“The Long, Hot Summer” (1958 ) – “O Mercador das Almas”

“The Hustler” (1961) – “Desafio à corrupção”

“Hud” (1963) – “ O Indomado”

“Harper” (1966) – “Harper – O Caçador de Aventuras”

“Cool Hand Luke” (1967) – “Rebeldia Indomável”

“Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969) – “Butch Cassidy”

“The Sting”(1973) – “Golpe de Mestre”

“Slap Shot” (1977) – “Vale Tudo”

George Carlin

segunda-feira, junho 30, 2008

…And what’s all this shit
about children nowadays?
‘Save the children!’
‘Help the children!’
‘What about the children?’
Well you know what I say?
FUCK the children!
Fuck ‘em!
They get entirely too much attention already.

Jerry Seinfeld diria: “What’s the deal with airplane peanuts?“. George Carlin até poderia abordar o assunto dos amendoins, mas daria um jeito de inserir um monte de “fucks” na frase e, pode apostar, mudaria o sentido para ofender religiosos e qualquer categoria de gente com ouvidos sensíveis.

Não muito conhecido no Brasil, Carlin, que morreu no dia 22 de junho, aos 71 anos, foi um dos comediantes de stand-up mais bem-sucedidos e influentes dos EUA.

Agora que o stand-up parece ter conquistado um bom espaço no Brasil, com vários comediantes desse gênero se tornando celebridades e qualquer cidade de tamanho respeitável contar com apresentações regulares, é difícil acreditar que no passado esse tipo de número poderia dar cadeia. Com Carlin foi assim. Como o lendário Lenny Bruce na década de 60, Carlin sempre falou palavrões nas suas apresentações. Em 1972, lançou um LP com o número “Seven Words You Can Never Say on Television“, onde fazia piadas denunciando o absurdo de banir palavrões da televisão e do rádio. Ao apresentar seu número em Milwaukee, foi preso por obscenidade – aliás, as sete palavras são Shit, Piss, Fuck, Cunt, Cocksucker, Motherfucker e Tits. Em 1973, um outro LP que abordava o mesmo assunto foi ao ar sem censura numa rádio nova-iorquina. Mais uma acusão de obscenidade contra Carlin. O caso foi parar na Suprema Corte do país, no que ficou conhecido como “FCC vs Pacifica Foundation”. O FCC (Federal Communications Commission) é o órgão responsável por regulamentar as concessões de televisão e rádio – mas é famoso pelas brigas com o radialista Howard Stern e por aplicar multas pelo que julga ser indecente na televisão. No caso Carlin, a Suprema Corte julgou que o número era “indecent but not obscene“. A FCC ganhou, e os sete palavrões – Carlin adicionaria mais três: Fart, Turd, Twat – desde então só podem ser ouvidos depois das 22 horas, quando as crianças já deveriam estar na cama.

Com a notoriedade ganha no caso, Carlin abandonou um pouco os palcos na segunda metade da década de 70 e se voltou para a televisão – onde ele já tinha aparecido várias vezes no The Ed Sullivan Show e no The Tonight Show. Foi o primeiro apresentador do Saturday Night Live, em 1975. Em 1977, mesmo fragilizado pelo primeiro de três ataques cardíacos que sofreria na vida, gravou seu primeiro especial para a HBO, ainda um canal pago novato. Um grande sucesso, ele faria um total de 14 apresentações no canal, sendo a última delas em março de 2008.

A briga com a FCC pelos palavrões só não foi maior que a cruzada contra o alvo predileto de Carlin: a religião. Como ele próprio explicou: “the duty of the comedian to find out where the line is drawn and cross it deliberately“. Seguiu à risca essa filosofia. Ateu militante, não perdia a oportunidade de ridicularizar os maiores símbolos do cristianismo – e suas piadas são bem mais eficientes que qualquer argumento higienista de um Dawkins. Criou duas frases clássicas: “Atheism: a non-prophet organization” e “Thou shalt keep thy religion to thyself“. É só observar o número de sites dedicados ao ateísmo que lamentaram a morte de Carlin.

Participou de alguns filmes, a maioria esquecível, sendo um deles “Dogma” (1999), de Kevin Smith, que na época deixou muito religioso furioso.

Suas piadas, entregues numa forma quase niilista, mostravam o lado de crítico social. Ainda assim, fazia o tipo mal-humorado (“I’m not giving anything back to the community. You know why? Because I didn’t take nothing. You can search my fucking house.”). Detestava eufemismos, como atestam seus palavrões, e era genial ao brincar com a língua inglesa (“I put a dollar in a change machine. Nothing changed“). Freqüentemente denunciava o lado absurdo do cotidiano americano (“One guy, about a month ago, was given three consecutive life terms, plus two death penalties. How the fuck do you serve that? Even David Copperfield can’t do that shit. In order to do that, you’d have to be a Hindu.”) e nos últimos anos estava cada vez mais indignado com a presidência de George W. Bush.

O mundo fica menos engraçado – less fucking funny – sem Carlin.

Obs: existem centenas de vídeos de Carlin no Youtube.

He finally really did it!

segunda-feira, abril 7, 2008


Morre o ator americano Charlton Heston

Pope Julius II: When will you make an end?
Michelangelo (Heston): When I am finished!

Bom e velho Charlton Heston. Não era o melhor dos atores, boa parte de sua carreira foi repleta de épicos que são puro lixo… e ainda assim ele era um dos melhores, um dos últimos.
Combateu romanos, japoneses, egípcios, chineses, franceses, vampiros, um papa, policiais corruptos, nazistas, fanáticos islâmicos, macacos e formigas saúvas – sempre como Heston. Era facilmente identificável com o ideal de herói. “If you need a ceiling painted, a chariot race run, a city besieged, or the Red Sea parted, you think of me.

Sempre foi engajado, e inicialmente seu papel foi fazer campanha pelos direitos civis e propagandear a “Grande Sociedade” de LBJ. Até que bandeou para o lado conservador que incluía John Wayne e seu amigo Ronald Reagan. Pela sua associação com a NRA, uma certeza de discursos lamentáveis, ficou marcado como direitão, e seu passado pelos direitos civis foi convenientemente esquecido. Foi presidente do sindicato dos atores mas preferiu se manter longe da política. “I’d rather play a senator than be one.” Nos últimos anos, o ator que tinha chorado na frente da Estátua da Liberdade arruinada de “O Planeta dos Macacos” tinha se tornado mais pessimista, lamentando o que os EUA estavam se tornando. Jean-Luc Godard dizia que odiava o John Wayne de “Os Boinas Verdes” (filme de propaganda sobre a Guerra do Vietnã), mas amava o que estendia o braço para sua sobrinha criada pelo índios de “Rastros de Ódio”. Seria estúpido não lembrar de Heston da mesma maneira.
No caso de atores como Heston, os obituários costumam citar os papéis e fatos relevantes da vida pública e pessoal, não tendo muito o que dizer sobre interpretação. Heston não fazia as macaquices afetadas de Marlon Brando, sendo que estava mais para Gregory Peck ou, quem sabe?, John Wayne. Seu carisma era suficiente. Sua beleza parece estranha para os padrões de hoje, mas seu aspecto forte era ideal para o que ele representava, sempre o tipo de homem determinado para quem a vontade é o que basta. Era contido, o que dava a seus momentos de fúria um destaque especial, sempre auxiliado por alguma frase genial – “Soylent Green is people!” e “Take your stinking paws off me, you damn dirty ape!” são coisas que não saem da cabeça facilmente. Fez mais bombas que a Krupp, mas interpretou papéis inesquecíveis – como imaginar outro sujeito na pele do Taylor de “O Planeta dos Macacos” ou Ben-Hur? Também trabalhou com diretores de primeira linha como William Wyler, Franklin J. Schaffner, Carol Reed e Orson Welles.

Tinha seu lado rídiculo, e vários de seus papéis são deliciosamente risíveis – o fazendeiro virgem que reluta em dormir com sua esposa encomendada pelo correio e lá pelo final é quase devorado por saúvas em “A Selva Nua” valeu um comentário de Paulo Francis de que “nossa vida seria infinitamente mais árida sem a chamada meca do cinema”.

Heston tinha 84 anos.

The End of Kerr

quinta-feira, outubro 18, 2007

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A atriz inglesa Deborah Kerr, que morreu hoje, aos 86 anos, protagonizou um dos beijos mais famosos do cinema. O filme era A um Passo da Eternidade (1953). Kerr interpretava a esposa de um oficial do exército estacionado no Havaí do pré-guerra. Sua personagem tinha sofrido um aborto, agravado por culpa do marido bêbado, e era infeliz até se envolver com um sargento – papel que era de Burt Lancaster, o outro protagonista do beijo. Um bom filme, mas sempre gostei mais de uma das histórias paralelas: a briga do soldado interpretado por Frank Sinatra com o personagem de Ernest Borgnine.

Em outro drama – bem, um dramalhão -, An Affair to Remember (1957), de Leo McCarey, Kerr interpretava a mulher que se apaixona por Cary Grant num cruzeiro; os dois, por estarem noivos de outras pessoas, combinam um encontro no topo do Empire State dali a seis meses, mas a moça sofre um acidente e…

Bom, é praticamente por esses dois papéis que Kerr foi lembrada nos obituários de hoje. São bons papéis, mas Kerr, para mim, é as três Kerrs de The Life and Death of Colonel Blimp. Nesse filme de 1943, ela interpretava três mulheres, em diferentes décadas, sendo duas delas as paixões do herói do filme, Roger Livesey, como Clive Candy. É fácil entender por quê. Kerr estava linda (me lembro até hoje da cor viva de seu cabelo) e engraçadíssima no filme, em especial no papel de Angela “Johnny” Cannon, a última das Kerrs de Candy.

Kerr não é a principal razão de The Life and Death of Colonel Blimp – que recentemente foi restaurado e ganhou uma versão da Criterion Collection em DVD – ser tão bom. A história do filme, a amizade de um general britânico e um militar alemão, já era interessantíssima. Mas Kerr, que só tinha 22 anos à época, era capaz de fazer o público esquecer que uma guerra estava acontecendo fora dos cinemas.