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“Just die already!”

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Romances e contos quase sempre resultam em adaptações cinematográficas radicalmente diferentes ou, o que é mais comum, em filmes insatisfatórios. Existem exceções, é claro, e também existem até os filmes que eclipsam livros baratos. A discussão é antiga e raramente resulta em alguma opinião nova. Mas quando se trata de adaptar F. Scott Fitzgerald para o cinema, era de se esperar que o resultado fosse no mínimo digerível.

Mas as obras de Scott não têm sorte. Seu livro mais famoso, “O Grande Gatsby”, já rendeu quatro filmes. Pouco se sabe sobre o primeiro, atualmente perdido, mas as outras adaptações – inclusive uma roteirizada por Francis Ford Coppola, em 1974 – deixaram muito a desejar. Não foi diferente com “O Último Magnata” (1976) e “Suave é a Noite” (1962).

Agora é a vez de “O Curioso Caso de Benjamin Button”, um conto escrito por Fitzgerald em 1921, ganhar uma versão cinematográfica, atualmente em cartaz. No conto – publicado no Brasil na antologia “Seis Contos da Era do Jazz” (título estranho para um livro que contém nove contos) – Benjamin Button é uma criança que nasce com m problema curioso: é velha, sofrendo com todos os problemas de um típico ancião; alta; tem uma longa barba; fala como um adulto. Seus pais abastados, longe de comemorar o nascimento do primogênito, o desprezam imediatamente e o isolam, temendo serem ridicularizados pela sociedade local (Baltimore, década de 1860).

O que acontece a seguir é uma série de situações engraçadíssimas em que Benjamin (seus pais teriam preferido chamá-lo de Matusalém) é forçado pelo pai a se comportar de acordo com sua idade real – brincadeiras, travessuras; embora Benjamin prefira acender um charuto e conversar com seu avô sobre amenidades e o clima. Nada dá certo para Benjamin. Quando ele tenta entrar para a universidade de Yale, o reitor o expulsa porque acha que o velhinho que afirma ter dezoitos anos só pode ser um lunático.

Podia ser um conto de uma piada só, mas Fitzgerald adiciona mais um elemento fantástico: Benjamin, ao contrário, de todos que o cercam, está ficando a cada dia mais jovem. Não demora para ele arrumar uma esposa. Quando ela começa a se aproximar dos 40, Benjamin, que já parece ter menos de 30, passa a desprezá-la pela decadência física. A regressão física de Benjamin também é acompanhada da mental. Longe de ficar mais sábio, ele vai ficando mais imaturo, mais infantil. Até que…

É uma farsa de primeira, e é de se imaginar o que um Lubitsch ou um simples episódio de “Twilight Zone” teria feito com tal história. Infelizmente, ela demorou mais de 80 anos para ser adaptada e foi logo cair nas mãos do diretor David Fincher e do roteirista Eric Roth.

Fincher se notabilizou por dirigir filmes falsamente densos que foram sucessos de público, como “Clube da Luta” e “Seven”. Neste filme ele usa a mesma mão pesada e pouco imaginativa para transformar o que devia ser uma comédia num dramalhão interminável. A culpa não é só dele, já que é gritante a influência do roteirista Eric Roth. Responsável pelo roteiro de “Forrest Gump”, Roth repete a fórmula do sucesso de 1994: Button não mais vive no século 19, agora ele nasce do último dia da Primeira Guerra e sua trajetória se confunde com os acontecimentos do século 20. Ele “sai para ver o mundo”, indo para lugares exóticos e conhecendo gente curiosa. Um único elemento do conto permanece inalterado: o fato de Benjamin nascer velho e se tornar mais jovem a cada dia que passa.

Ao contrário de “Forrest Gump”, Button não participa de tantos e interessantes acontecimentos, mas muitos elementos do filme anterior de Roth estão lá: a história é contada em flashback (embora que pela leitura de um diário – não conseguem pensar em coisa melhor em Hollywood?), Button vive um amor impossível e todas as pessoas que encontra o brindam com pequenas pérolas de sabedoria (não diferindo muito daquelas de biscoitos da sorte).

Desta vez, “A vida é uma caixa de bombons” dá lugar para uma gororoba sobre aceitar a morte e o inevitável fim. Button, que é interpretado por Brad Pitt (que na maior parte do filme está coberto de maquiagem, mais parecendo uma versão piorada do rosto de Jon Voight),parece ser um mero espectador da vida. Pitt não acrescenta nada para esse dramalhão, passando na maior parte do tempo a impressão que Fincher e seu diretor de fotografia estão gritando para que ele fique parado bem naquele ponto da tela verde e não atrapalhe os técnicos de efeitos especiais.

Com um protagonista desinteressante, o peso recai sobre os coadjuvantes. É cansativo identificar os óbvios alívios cômicos – lembre-se: transformaram o conto num dramalhão –: a galeria inclui a negra sem papas na língua, o capitão bêbado e o velhinho que conta histórias bizarras. Se no conto Benjamin se voltava contra seu amor de modo egoísta, aqui ele vive uma saga que atravessa décadas para tentar ficar com a personagem interpretada por Cate Blanchet (também coberta de maquiagem e manipulada digitalmente). É Cate que resolve, na velhice, contar para sua filha como foi viver um grande amor – um recurso já batido em “Titanic”. Nessas cenas “atuais”, Cate está agonizando numa cama de hospital de Nova Orleans enquanto o Katrina – um coadjuvante que não faz sentido – está batendo à porta.

Além das mancadas históricas – Pitt-Button passa uma boa temporada na Rússia em 1941, nem parece que o país está em guerra –, existem os problemas de narrativa. Por exemplo, em dado momento, Pitt descreve um acidente que Cate sofre em Paris (Paris, acidente – que novelão). O problema é que ele não estava lá para, posteriormente, fazer observações sobre a influência do acaso. Lembrou os furos do trash “Tubarão IV, A Vingança”.

Não é surpreendente que um filme tão ruim tenha recebido 13 indicações ao Oscar. Fincher, mesmo que não compartilhe com seu colega Martin Scorsese a lamentável obsessão de ganhar um Oscar, que leva à obrigatória realização de filmes insípidos, fez um filme sob medida para a Academia. Filmes carregados de dramalhão gratuito e eficiente direção de arte, como “Uma Mente Brilhante” e “O Paciente Inglês”, já levaram a estatueta em outras ocasiões. Com Benjamin Button não deve ser diferente.

Aliás, do péssimo “O Paciente Inglês” só se salvou uma coisa. Num episódio clássico do seriado “Seinfeld”, o chefe de Elaine a leva para assistir ao filme do ano que está sendo comentado por todo mundo: “O Paciente Inglês”. Diante dos flashbacks do moribundo Ralph Fiennes, Elaine, que já não agüenta mais o filme, não se contém e, em pleno cinema, grita: “Oh. No. I can’t do this any more. I can’t. It’s too long. Quit telling your stupid story, about the stupid desert, and just die already!”, para espanto de todos que estão se emocionando com o drama.

É só trocar Fiennes por Blanchet.

Obs: se é para assistir a um filme-fábula sobre a inevitabilidade da morte, repleto de aventuras e um grande amor – e como bônus uma reflexão sobre a paternidade -, fique com o excelente “Peixe Grande” (2003), de Tim Burton.