Posts Tagged ‘Curitiba’

A “revitalização” da praça do Japão

quarta-feira, outubro 15, 2008

Eleitoreira ou necessária, a reforma da praça do Japão, em Curitiba, teve o efeito de uma bomba nuclear. A prefeitura chamou a coisa de “revitalização”, mas conseguiu piorar o espaço em quase todos os aspectos.

O antigo piso foi trocado por uma versão mais barata e feia. Grandes extensões do gramado foram cobertas por esse piso, com o claro propósito de abrir mais espaço para barracas de comidas típicas no Haru Matsuri.

O novo piso teria a vantagem de ser “antiderrapante” e permitir a absorção de água da chuva (black rain) – claro, como se a praça enfrentasse problemas de drenagem e todos escorregassem por causa de mau carma…

Mas o aspecto mais deplorável – e visível – da reforma é a nova iluminação. A maior parte da praça recebeu luminárias dignas da área de serviço da casa de praia mais chinfrim. Mas o pior não é proporcionado pelas luzes “à la IML”: o portal e o pagode agora são iluminados por luzes violetas (!).

Conseguiram mesmo fazer a praça parecer um pedacinho do Japão: o dos bordéis freqüentados pelas tropas americanas durante a ocupação.

Enquanto isso, os usuários da praça continuam sofrendo o velho problema de acesso. Sem uma faixa de pedestres ou um semáforo, na hora do rush é quase uma missão kamikaze chegar até ela.

Atualização (21/10): a praça é do Japão mas as lâmpadas são made in China. As novas luzes violetas já apresentam defeitos. Reforçando a aparência de bordel, agora elas piscam.

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“The mob has many heads, but no brains”

segunda-feira, agosto 4, 2008

Frases da multidão que acompanhava “Mulher que ameaçava se matar“, hoje, no centro de Curitiba:

“Ela só vai sair do carro quando o Grêmio sair da liderança! Ninguém segura o Grêmio!”, gritou um sujeito, arrancando gargalhadas.

“Se ela não se matar, eu vou lá matar ela. Imagina! Andar duas quadras por causa dela!”

“Tem que dar uma ajudazinha. Ela tá sem coragem.”

“Deve ser a TPM!”

“Ah! É TPM!”, de uma mulher que observava.

“Por que foi escolher o centro?”

“Isso é falta de homem!”

“Se mata logo!”

“Nóis qué trabalhá!”

“Se ela quer se matar, por que não deixam ela? Que exagero!”

“Cheio de serviço e me aparece essa!”, de um passante, depois que já passava das 18h.

“Porra! Fechar a praça por causa dela?”

“Não, eu não tenho pena. Tanta gente doente por aí, e ela com saúde…”

“Só pode ser por causa de homem!”

“Tá grávida? Agora que esse cara [o suposto namorado que morava na praça] some de vez. Esse cara tá longe.”

“Parece que é a mulher de um garçom do [bar] Stuart.”

“Tem que atirar na mão dela!”

“Isso aqui tá parecendo o Rio.”

“Se mata logo!”, grito de uma mulher na janela de um prédio, antes de uma longa gargalhada.

“Cadê a televisão?”

“Por que ela não se mata logo? Fica enrolando…”

“Cadê o carro? Ah… não dá pra ver… Não tem nada para ver aqui…”

“Enquanto ela não se mata os bandidos estão soltos por aí.”

“Se quiser se matar, se mate! Mas atrapalhar o trânsito?”

“Meu carro está ali, bem perto. Eu bem que pensei em estacionar lá”, apontando para a direção oposta, “mas, que merda!, não fui.”

– “Eu quero passar”, diz a mulher com uma sacola.
– “Senhora, só dando a volta na quadra”, informa o policial.
– “Mas eu vou naquele prédio ali.”
– “Não pode. Fica bem na frente da mulher. A senhora não quer ela atire na senhora, né? Em qual prédio que é mesmo?”
– “É… hum… aquele, aquele ali.”

Depois de contar uma série de piadas sobre a situação e tentar passar à força o bloqueio policial, a mulher com a sacola volta à carga:

– “Mas eu preciso passar. É logo ali. Eu vou abaixadinha.”
– “Não, minha senhora. Não pode”, responde o policial.
– “Mas eu preciso levar isso aqui!”, diz a mulher, apontando para a sacola.

Mais piadas (“ela qué o Lula!”), nova tentativa:

– “Mas meu filho está doente!”
– “Que doença ele tem?”, pergunta uma policial.
– “Leucemia!”
– “Hum… não dá, não pode”, responde a policial, desconfiada.

A mulher fura o bloqueio, rindo, mas é detida.

“Se até no Iraque ele vão filmar…”, de um policial explicando para um colega o porquê de ter deixado uma equipe de reportagem passar pelo bloqueio.

“Tem uma ‘psicótica’ com uma pistola num carro. Já efetuou vários disparos. Tá atirando em todo mundo que aparece”, de um guarda municipal.

“Se é uma pistola, ela deve ter um monte de tiros. Quantas balas vai? Doze, catorze?”

(Não ouvi ninguém dizer “Meu Deus!” ou qualquer interjeição de espanto ou tristeza.)

Na hora errada, no lugar errado

sexta-feira, junho 20, 2008

Sabem aquelas passagens que os repórteres da Globo fazem de uma rua de Nova York para comentar um furacão no Caribe ou uma revolução no Turcomenistão? Estranho, não? Mas não é preciso ir tão longe para fazer a mesma coisa.

A Caixa vai realizar o 4° Feirão de Imóveis em Curitiba, de 20 a 22 de junho. O programa Bom Dia Paraná, da RPC, afiliada da Globo, abordou o assunto ao vivo. Às 7 horas da manhã. Até aí nada de errado. Mas vejam só o lugar que a reportagem escolheu para fazer uma entrevista com um gerente da Caixa: o parque Barigüi, com o centro de convenções ao fundo. O local já recebeu feiras parecidas antes.

Certo… E daí?

E daí que o feirão vai ser realizado no Marumby Expo Center, no outro lado da cidade. (Notem que a matéria nem informa onde vai acontecer o feirão da Caixa.)

A avenida Presidente Wenceslau Braz não serviu como cenário?

A man’s library is a sort of harem

quarta-feira, maio 21, 2008

Tem sebo novo em Curitiba. O nome é Kapricho, e está muito bem localizado na rua Comendador Araújo 432 (o último número está faltando na fachada), Centro/Batel, quase na esquina com Brigadeiro Franco, num local onde antes funcionava uma revistaria e papelaria. Já conta com bom acervo, e a seção de livros de guerra é impressionante: dezenas de volumes ilustrados sobre armas, uniformes militares e aviões que pertenceram a um colecionador paulistano recentemente falecido. As seções de literatura e artes também são interessantes, ainda que não estejam adequadamente organizadas (primeiro nome do autor não dá certo). O ponto parece ser uma garantia de que o sebo vai ter bastante rotatividade de material – o que, infelizmente, não é regra em muitos sebos da cidade, em especial os da região do Largo da Ordem. O atendimento também é bom.

Os preços não são nenhuma maravilha, mas são mais baixos que os praticados por outros sebos. Há, claro, alguns livros somente um pouco mais baratos que os vendidos em megastores. Com origem em Londrina, o Kapricho também é “primo” do Sebo Líder, instalado na Emiliano Perneta – e que pratica os preços mais absurdos de Curitiba, independente dos livros serem tranqueiras sem valor ou terem origem em uma ponta de estoque. Vale lembrar que o Líder, embora tenha dado sinais de que pretendia explorar desde o começo, não era o tubarão que é hoje. Portanto, é melhor ficar atento ao Kapricho.

Comprar pela internet nunca vai substituir o prazer de “caçar” livros em estantes, mas tem a vantagem de proporcionar uma comparação de preços. Depois de várias tentativas frustradas de conseguir desconto no Sebo Líder, prometi que nunca mais colocaria os pés no estabelecimento. Ao Kapricho vale a pena dar uma chance.

Livros adquiridos no Kapricho:

“Churchill´s War” – David Irving
“A Destruição de Dresden” – David Irving (Sei que Irving é um maldito anti-semita incurável, mas parte de seu trabalho não contaminado tem valor. “Destruição” (1963) foi o primeiro livro de Irving e um sucesso editorial; já “Churchill´s” (1987) é de uma fase em que o autor já estava bastante desacreditado.)
“The Rise and Fall of the British Empire” – Lawrence James
“Imperium” – Ryszard Kapuściński (Faz anos que este livro está fora de catálogo – recentemente comprei “A Guerra do Futebol” do mesmo autor.)
“Por que o Ocidente Venceu” – Victor Davis Hanson
“Mistério à Americana” – vários autores
“The Papacy” – Paul Johnson
“O Golem” – Isaac Bashevis Singer
“Inimigos, Uma História de Amor” – Isaac Bashevis Singer

A terra prometida dos biarticulados

sexta-feira, maio 16, 2008

Um amarelinho para ilustrar

Photo by Mathieu Struck
Licensed under CC-BY-NC-ND

Foi pura reciclagem da velha propaganda lernista a reportagem especial sobre o transporte urbano que foi ao ar pelo Jornal Nacional no dia 15/05. Parecia que a televisão estava sintonizada em algum dia de 1988-2002. Só faltou a Família Folha. O sistema de transporte coletivo de Curitiba foi mostrado como um exemplo de eficiência. Não bastasse essa sandice, um urbanista afirmou que “São Paulo precisa imitar Curitiba”. Ignorando por completo que agora se estuda construir um metrô para Curitiba. Também ignora, apesar de terem achado uma personagem que vendeu o carro porque prefere ônibus (!), que Curitiba caminha rapidamente para a equação “um carro = um habitante”, e que o trânsito por aqui está cada vez pior.

Curitiba não é São Paulo, mas o que se viu na reportagem foi que a propaganda lernista tem o efeito de um sinal de rádio no vácuo espacial, ainda vai durar décadas. O sistema de Curitiba (e que aqui falo da espinha dorsal, os biarticulados) é sem dúvida original, como nossa aranha marrom, mas não em eficiência. É original porque não se pode levar a sério – e fora de Curitiba, ninguém nunca levou, visto que nenhuma outra cidade do mesmo porte resolveu deixar o grosso de sua população ser transportado num sistema tão estúpido. Os ônibus são lentos, barulhentos, seu combustível está sempre sujeito à variação do preço do barril (e seria tão fácil eletrificar os corredores, fazer trólebus, e como bônus eliminar o barulho), lotam rapidamente e o intervalo entre cada um nunca é fixo. E o que dizer das estações-tubo? São pequenas demais, o projeto de somente uma porta de embarque teve como conseqüência passageiros lutando uns contra os outros para poder passar – nos terminais, com as cinco portas sendo utilizadas, não é melhor, já que o embarque e desembarque são feitos pelas mesmas portas -, são frias no inverno e se transformam em fornos no verão. Mas o problema essencial é a superlotação. Rosa Parks, se fosse daqui, nunca ia conseguir ir para a frente do ônibus.

Na reportagem, os tenebrosos corredores de ônibus, com destaque para o da Sete de Setembro, avenida que pela ausência de árvores e excesso de feiúra parece ter sofrido um raide de mil B-29s, aparecem como uma solução. Até mesmo a estação-tubo da Eufrásio Correia, estreita como o Chile, um espaço onde é impossível se deslocar com rapidez e conforto para fazer uma baldeação, o melhor exemplo de como o sistema de biarticulados é totalmente equivocado, foi descrita como fazendo parte de “estações que permitem acesso rápido sem escadas”. Só isso.

Sobrou propaganda e faltou conferir o transporte nos horários-chave. Não sei ao certo qual foi o dia e horário da captura das imagens, mas, sem dúvida, não foi numa hora das mais movimentadas. Sobrava espaço até mesmo nos ônibus, e não havia muito trânsito nas ruas.

O pior mesmo ficou para o final, quando a reportagem fez uso novamente da personagem, a mulher que “reconhece o valor de morar numa cidade planejada para o transporte coletivo”, para concluir a história. Ela disse que ia pensando na vida quando pegava o ônibus. Na hora do rush, espremido como uma sardinha, eu também penso na vida. Em como ela pode ser uma merda.

Link para a reportagem.

Oito de maio: V-E Day

quinta-feira, maio 8, 2008

“Real estate war”

Photo by Mathieu Struck
Licensed under CC-BY-NC-ND

“The play was a great success, but the audience was a disaster”

terça-feira, abril 1, 2008

Público recorde de 160 mil. Média de ocupação de 80% nos espaços. Os velhos problemas de sempre: peças canceladas, teatros inadequados, atrasos. Alguém não gostou do palavreado numa apresentação de rua e sacou uma arma (Hermann Göring teria gostado). Panelaço de 150 artistas pedindo mais apoio do governo (sua grana).

Acabou o 17° Festival de Teatro de Curitiba, ou Festival de Curitiba de agora em diante.

Alguns comentários de três peças que assisti. Alguns trechos dão a entender que as peças ainda estão em cartaz, ignorem isso.
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Aqueles Dois

20/03

A peça baseada no conto de Caio Fernando Abreu foi um dos destaques do festival. É difícil entender por quê. Um dos problemas da montagem do grupo mineiro Cia. Luna Lunera é o excesso de objetos e cenários no palco, não só por ser um espetáculo encenado no Teatro Paiol, uma sala apropriada para apresentações mais espartanas, mas porque revelavam logo de cara uma afetação e confusão que caracterizou quase todo a montagem. São caixas de madeira, cadeiras, aparelhos de som, várias máquinas de escrever e telefones num espaço pequeno demais. Vários conversas de trabalho dos personagens soam falsas (A CLT! A CLT!) e não muito elaboradas – os mineiros do Grupo Galpão foram mais competentes em adaptar histórias que careciam de diálogos em “Pequenos Milagres”. Referências a atores, filmes e cantores (River Phoenix, Sessão da Tarde), a maioria delas não presentes no conto, parecem fora de lugar. E Cazuza como trilha sonora é óbvio demais.

Embora o recurso de “duplicar” os dois personagens do conto, que na peça são interpretados por quatro atores (Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves e Rômulo Braga), algo que lembra o filme “Doze Homens e uma Sentença”, seja original e deixe o espetáculo mais dinâmico, assim como os papéis serem trocados a todo momento, com os quatro interpretando tanto Saul e Raul, os dois personagens, a impressão inicial, agravada por um primeiro ato cansativo que pretendia mostrar a rotina de escritório, é de incompreensão. E não é uma incompreensão que provoque curiosidade, mas desatenção e sensação de se estar assistindo uma bomba e que os seus trinta reais mereciam um destino melhor naquele domingo à noite.

Mas nem tudo é ruim na montagem. Depois de uma primeira meia hora confusa, o espetáculo consegue se recuperar e gerar interesse. É quando Raul e Saul, dois funcionários de um escritório se aproximam e descobrem gostos em comum. O escritor e jornalista gaúcho Caio Fernando Abreu (1949-1996) abordou o homossexualismo, e a intolerância que cerca o assunto, em vários de seus contos. “Aqueles Dois”, apesar do final pessimista, não pode ser reduzido simplesmente a uma ferramenta de militância. A montagem também consegue escapar com êxito dessas armadilhas e, por mais que seja provável que algumas pessoas tenham ido assisti-la “querendo sangue”, nenhuma agenda é seguida. A nudez explícita dos atores em uma determinada cena não é ofensiva ou transgressora, mas um recurso necessário (com exceção de uma “quebra” que acontece nessa cena, em que os atores agradecem ao público e elogiam o espaço, algo mais apropriado para o final da peça). A solidão, o amor e o medo abordados na montagem são temas universais.
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O Homem Inesperado

23/03

Antes uma observação: o Festival de Curitiba consegue reunir um público que cresce a cada edição, mas parte dele ainda não aprendeu a se comportar numa sala. Era previsível que uma peça que contava com dois atores globais fosse atrair pessoas que querem ver as estrelas de perto, mas nem por isso foi menos incômodo ter que agüentar máquinas fotográficas disparando flashes mesmo quando o espetáculo já havia começado. Aliás, o que essas pessoas pretendem registrar fotografando com flashes do balcão do Teatro Guaíra? Nucas?

A peça: dois passageiros num trem que vai de Paris a Frankfurt, um escritor e uma senhora que é sua fã, dividem o mesmo vagão enquanto divagam sobre o passado e imaginam as possibilidades que esse encontro pode gerar. O texto é da francesa Yasmina Reza e já foi encenado em outros países. Misto de comédia e drama, “O Homem Inesperado” trata sobretudo dos ardis que as pessoas criam para não se aproximarem umas das outras. Um problema que não diminui com a idade.

– Vocês aí com as máquinas, façamos uma troca. Vocês podem disparar seus flashes se eu puder jogar uns tomates na pessoa que escreveu essa porcaria.

Tomates? Ora, o texto é sofrível, antiquado e parece um pastiche de alguma obra de W. Somerset Maugham ou Stefan Zweig (o personagem do escritor até mesmo faz uma comparação da situação com uma obra de Zweig, mas os leitores do popular autor da primeira metade so século 20 não vão deixar de notar que isso faz a peça parecer ainda mais fraca). É o tipo de montagem que nunca ganharia destaque e que faria o público passar longe se não contasse com dois velhos atores de peso. E os dois atores de peso, mesmo com sua competência, não poderiam evitar transparecer que seus papéis foram mal elaborados e a coisa toda não tem nenhum conteúdo. A tal senhora fala de Brahms, de seus amigos e de restaurantes, acende um cigarro e parece sofisticada. O escritor é um velho resmungão e pretende parecer cômico como um senhor que fala palavrões. Os dois pensam em voz alta e só travam um diálogo lá pelo final da peça. Tudo parece um misto de especial para TV com um horrível romance em paperback de alguma autora esquecida da década de 60 (seria para ler na piscina de clube?). O que mais? Hum… Onde consigo aqueles tomates?

O.k., um pouco de justiça: talvez o maior equívoco tenha sido um texto que privilegia monólogos interiores ter ganhado uma montagem. A impressão é que o texto, mesmo com seus defeitos, deve fluir melhor se lido.

O casal Nicette Bruno e Paulo Goulart, com o carisma e competência que só vai se acentuando com a idade, carregam a peça nas costas (a montagem americana tinha os veteranos Alan Bates e Eileen Atkins). Mas Nicette e Paulo, que já moraram em Curitiba por muitos anos e deram aulas de interpretação no Guaíra, mereciam atuar em coisa melhor.

A peça ainda conta com recursos cênicos simples mas bastante eficientes para passar a sensação de distância emocional que afasta os personagens. Também ambienta de maneira competente a viagem que vai se desenrolando – embora, infelizmente, lembre, entre uma parada e outra, que o trem ainda está em Strasburgo e faltam 200 km para a peça acabar.

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Macho Não Ganha Flor

26/03

Com dedo do próprio Dalton Trevisan que selecionou alguns contos de sua última obra, “Macho Não Ganha Flor” é uma montagem sóbria e bastante eficiente que dá vida aos personagens marginais do escritor curitibano. Os monólogos não são nem um pouco cansativos, sendo que a obra é de Trevisan é ideal para ser encenada nos palcos. Logo no começo, uma surpresa: o ator paranaense Marino Jr., bastante inspirado, solta uma série de impropérios contra a obra de Trevisan. Em seguida, ele interpreta a galeria que inclui estupradores, assassinos, ladrões e outros monstros não muito recomendáveis.

A montagem é do grupo Cia. Máscaras de Teatro, que já havia encenado “O Vampiro Contra Curitiba”, também de Trevisan. A direção é de João Luiz Fiani.

Sobre Fiani, não o diretor e ator, mas o teatro, uma observação: o espaço onde foi encenado “Macho Não Ganha Flor” revelou mais algumas das precariedades do festival que já se tornaram comuns. Extremamente abafado e apertado, com cadeiras de escritório para garantir mais lugares, o Teatro João Luiz Fiani é uma vergonha para a cena teatral curitibana. Chamar essa despensa de “sala intimista” é um eufemismo e tanto.

“Macho Não Ganha Flor” só mereceria elogios não fosse por uma besteira dita por Marino Jr. quando o espetáculo acabou. Depois de receber os aplausos, ele, numa coisa previsível e até necessária para uma peça local, pediu para que o público comentasse e divulgasse o espetáculo, mas resolveu dizer “até mesmo porque a gente faz a peça para os críticos e eles não vêm”. Uma observação bastante estúpida e ofensiva para o público que pagou e apreciou a peça.

O Cirque du Soleil é um escândalo

terça-feira, outubro 9, 2007


Foto promocional do filme “Freaks”, dirigido por Tod Browning: seu circo valia um ingresso de 400 reais.

Como o governo gosta de desperdiçar nosso dinheiro… Não basta enterrar milhões em filmes de qualidade duvidosa que ninguém quer ver. Agora, em mais um ato de generosidade, resolveu abrir a carteira para um trupe de canadenses que de pobres não têm nada. O Cirque du Soleil, o circo canadense que veio ao Brasil e atualmente está se apresentado em Pinhais – num pavilhão de feira agrícola… -, recebeu 9,4 milhões de reais do seu e do meu dinheiro. A aberração acontece graças à Lei Rouanet, um incentivo criado em 1991, que permite empresas patrocinarem qualquer coisa ligada à cultura com a contrapartida de que abaterão impostos. À la Hermann Göring, tenho vontade de sacar meu revólver quando observo que, além de captarem quase 10 milhões de reais desta república de bananas, a exemplo do que aconteceu no show do Chico Buarque no Guaira – que também contou com a Lei Rouanet -, os saltimbancos canadenses ainda têm a cara-de-pau de cobrarem ingressos que não custam menos de 150 reais – se você for estudante ou quiser ficar no fundão; míopes pagam 300; dependendo do dia, o ingresso pode sair por 400 reais. Bela democratização da cultura essa aí. A intenção original era captar mais de 20 milhões através da lei, mas o Ministério da Cultura, informa um comunicado, numa decisão salomônica, resolveu só liberar metade da grana. Ainda é o suficiente para um escândalo.

Que o Cirque cobre quanto quiser nos seus ingressos, mas o dinheiro público indo para o bolso de canadenses que vão gastar tudo em moose piss e ingressos de hóquei não ajuda em nada a incentivar a criação de coisas genuinamente brasileiras – o que era a intenção original da lei. Não há nada de novo sendo criado em Pinhais ou, em breve, em São Paulo e no Rio.
O Cirque du Soleil é um modelo eficiente de negócio artístico. Uma multinacional de sucesso, com mais de 3 mil empregados e uma marca mais cotada que gigantes como a Apple e a Harley-Davidson, a empresa que administra o Cirque faturou 620 milhões de dólares em 2006. E, segundo um jornal canadense, é proprietária de outros negócios que não têm relação direta com o circo, como cassinos e empresas de tecnologia. A exemplo dos estrondosos sucessos da Broadway, o Cirque é o último negócio artístico que precisa de dinheiro público.

E como os curitibanos ficam deslumbrados…

Assunto de bar na última sexta-feira, os 9,4 milhões dados ao circo também são tema de um post do meu amigo Carlos em seu blog.

Essas pesquisas…

terça-feira, outubro 9, 2007

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Enquete no site do jornal Folha do Batel

A pouco discreta briga da burguesia

domingo, setembro 30, 2007

Anteontem de madrugada, briga de playboys que saíam de uma festa numa mansão em frente de casa. “Você baixou na minha mulher, seu filho da puta!”, “Eu luto muay thai” (ah… é assim que se escreve…). Não adiantou ir até a janela reclamar do barulho (5 h30 da manhã!). Nem terminei a frase “Seus burgueses! Chega dessa merda, já chamei a polícia!”, completamente ignorada pelos arruaceiros, e a sessão de empurra-empurra e troca de gentilezas recomeçou. Os Curitiba´s finest não tardaram a chegar.

Infelizmente, quando a viatura chegou, a briga tinha “dado um tempo”, e os policiais nem pararam. A pancadaria (por que as melhores manchetes são sempre com “terminou em pancadaria”?) de verdade começou depois: fiquei com pena do baixinho que apanhou de um monte de armários por ter cobiçado a mulher do próximo. Não era muay thai, mas foi uma cena deprimente, como qualquer briga.

O personagem de Burt Lancaster em Sweet Smell of Success, J.J. Hunsecker, um colunista social de Nova York que tinha tara pela irmã mais nova, olhava para uma briga dessas e adorava: “I love this dirty town”, dizia numa cena famosa do filme.

Burt, seu degenerado…

Por que o MST perde tempo invadindo laboratórios de manipulação genética? Tanta festa de bacanas dando sopa por aí…