Posts Tagged ‘Cinema americano’

Screwball

segunda-feira, junho 2, 2008

“Durante a Grande Depressão, as comédias e musicais eram uma válvula de escape para as dificuldades” é uma frase que já se tornou senso comum. Mas e a qualidade? Isso foi mérito de diretores talentosos, roteiristas inspirados, atores na sua melhor forma, e o cinema hollywoodiano que passou a dominar a vantagem do som na sua plenitude. Num período que começa em 1934 e dura até 1944, apenas dez anos, um novo gênero de comédia, que trocava as gags visuais por sofisticação e duelos verbais, nasceu e atingiu a perfeição. Era a screwball comedy, que nasceu com “Aconteceu Naquela Noite” (1934), de Frank Capra, e começou a rarear (tanto em quantidade e qualidade) a partir de “Arsenic and Old Lace” (1944), também de Frank Capra. Screwball é um termo técnico do beisebol, sem equivalente em português, que descreve uma bola que segue um trajetória errática mas que atinge o objetivo – ideal para descrever as reviravoltas de trama e confusões que acontecem em cena.

Parente direta das comédias farsescas da Broadway, a screwball comedy normalmente tem uma fórmula simples que varia pouco. Homem-pobre-se-apaixona-por-moça-rica, troca-de-identidades-gera-confusão, pessoas-diferentes-tendo-que-aceitar-as-outras, pessoa-rica-tendo-que-se-virar-no-mundo-real, casal-se-divorcia-para-depois-se-reconciliar etc. É também aquele tipo de filme onde o homem e a mulher se detestam inicialmente para depois se apaixonarem. Tudo isso em cenários de classe média alta e, com poucas exceções, na Costa Leste dos EUA. Os ricos estão longe de serem perfeitos (e os pobres também); as mulheres, apesar de dependentes, são inteligentes e pensam rápido; o divórcio é um tema quase banal; os homens são espirituosos e não levam nada a sério; quase todo mundo bebe além da conta. Os duelos verbais e discussões, sempre numa velocidade alucinante – típicos do teatro, de onde saíram muitas das histórias -, são o acabamento final. Nada é vulgar e apelativo nesses filmes. O crítico de cinema Andrew Sarris definiu a screwball comedy como “uma comédia sexual sem o sexo”.

Cary Grant pode ser lembrado como o protagonista dos suspenses de Hitchcock – diretor que, aliás, dirigiu um screwball, o fraco “Mr. and Mrs. Smith” (1941) -, mas ele é o rosto mais identificável das screwballs. Ele estrelou vários filmes, os mais notáveis “The Awful Truth”, “Bringing Up Baby”, “Holiday “, “His Girl Friday”, “The Philadelphia Story” e “Arsenic and Old Lace” – todos eles, sem exceção, foram lançados no Brasil com títulos escabrosos. Vários desses filmes foram dirigidos por mestres como Howard Hawks, George Cukor e Frank Capra. Em todos eles Grant tentava se entender com uma mulher complicada ou dominadora. Esse tipo de papel era sempre interpretado por talentosas atrizes como Jean Arthur ou Katharine Hepburn – a última, como Grant, é a “cara” do gênero. Outros atores que se aventuraram com sucesso foram Claudette Colbert, Gary Cooper, Melvyn Douglas, Clark Gable, Carole Lombard, Myrna Loy, William Powell e James Stewart.

Depois de “Arsenic and Old Lace”, em 1944, a screwball foi sumindo das telas. Culpa da televisão e do desmantelamento do velho sistema de estúdios. Depois de 1944, alguns cineastas tentaram ressuscitar o gênero. Billy Wilder, que na época de ouro apenas escrevia roteiros, é um dos poucos dignos de nota. Seus “Some Like It Hot” (1959) e “One, Two, Three” (1961) são filmes inesquecíveis. Outros, seja pela falta de qualidade ou conseqüência da liberação do tema sexo nas telas, quebraram a cara – Peter Bogdanovich, com seu sofrível “What’s Up, Doc?” (1972), foi um deles. Até mesmo Billy Wilder experimentou o declínio ao forçar a barra em screwball posteriores.

Hoje, o gênero faz apenas aparências ocasionais. Os irmãos Coen tentaram duas vezes, com “The Hudsucker Proxy” (1994; quase uma refilmagem de “Mr. Deeds Goes to Town”) e “Intolerable Cruelty” (2003), sem nem chegar perto da época de ouro.

Uma screwball de primeira: “My Man Godfrey”


O ator William Powell ficou famoso como Nick Charles, o detetive amador que adora festar e beber, casado com a não menos excêntrica Nora (Myrna Loy), numa série de seis filmes que começa com “The Thin Man”, em 1934. Os “Thin Man” incorporavam elementos da screwball comedy, e o casal Charles sabia provocar ótimas gargalhadas, mas a essência era sempre a resolução de um crime. (No filme ‘Murder by Death”, de 1976, que tinha Truman Capote no elenco, Nick e Nora foram parodiados como Dick e Dora por um casal interpretado por David Niven e Maggie Smith.)

William Powell também estrelou em 1934 uma screwball mais “pura”, chamada “My Man Godfrey”. Numa história que parecia ideal para o período da Grande Depressão – mas que não deixa de ser um tanto estapafúrdia -, Powell é um mendigo chamado Godfrey que vive num lixão à beira do rio East e acaba virando um item numa gincana organizada por um bando de ricaços, que precisam trazer um “forgotten man” para vencer. Estranho? Fica ainda melhor quando uma menina mimada (interpretada por Carole Lombard, na época ex-mulher de Powell), depois de ouvir recriminações de Godfrey, que achou a gincana uma coisa deplorável, resolve contratá-lo como mordomo. Godfrey acaba se revelando um mordomo acima da média, e é a pessoa mais normal numa casa sustentada por um pai à beira de um ataque de nervos, uma mãe desmiolada que serve de mecenas para um vagabundo comilão com afetação artística, e duas filhas mimadas. Logo a personagem de Carole Lombard se apaixona por Godfrey, e usa todo tipo de chantagem emocional para chamar sua atenção, enquanto sua irmã invejosa tenta destruir o novo mordomo. Logo é revelado que o bem educado Godfrey não é simplesmente um ex-mendigo.

O final é um tanto piegas, mas uma redenção apropriada para uma screwball. Pode-se também criticar certos exageros de Lombard, mas muitas das melhores falas do filme são dela – mérito maior do roteirista Morrie Ryskind, que costumava reescrever as falas no set. Como não rir quando ela vaga no meio de uma festa dizendo que “seu coração foi despedaçado”, enquanto ninguém parece ligar? E a cena em que ela grita que Godfrey a ama porque a enfiou num banho gelado depois de um falso desmaio? Powell só aceitou fazer o filme se sua ex-mulher fosse parceira da cena. Uma imposição feliz. Mas o filme funciona porque Godfrey também é maravilhosamante construído. Powell e o hoje esquecido diretor Gregory La Cava discutiram como seria o personagem numa noite de bebedeira. No dia seguinte, Powell não apareceu no set de filmagens por causa da ressaca, mas mandou uma mensagem que dizia “”We may have found Godfrey last night but we lost Powell. See you Tomorrow“. Powell, aliás, sabia interpretar um bêbado como ninguém – é só ver os filmes “Thin Man” -, e quando Godfrey resolve aproveitar um dia de folga para beber…

“My Man Godfrey” foi indicado aos Oscars de melhor filme, roteiro, ator, atriz, atriz coadjuvante e diretor – o primeiro filme a concorrer em todas as cinco categorias principais. Infelizmente, não levou nada. Não importa, “My Man Godfrey” – que está disponível na Criterion Collection – dispensa prêmios.

Anúncios