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What a Way to Go!

terça-feira, outubro 14, 2008

Pega esse bolivianos, Newman!

Paul Newman (1925-2008 )

Esqueça o Stanislavski-Strasberg e as comparações com Brando, Clift e Dean. Paul Newman não merece ser lembrado pelos maneirismos bestas do método russo ou porque fez parte de alguma geração. Os papéis de sujeito atormentado nem sempre lhe caíram bem. Seus trabalhos com grandes diretores – Hitchcock, Scorsese, Huston e Preminger – resultaram em filmes abomináveis ou tristemente datados. (Em “Cortina Rasgada”, de Hitchcock, Newman estava tão antipático que fez os vilões comunistas parecerem boa gente.)

Não, Newman não merece isso. Ele não fez mais que dez filmes decentes, mas é difícil imaginar alguém tão perfeito para os papéis que interpretou. Newman teve mais carisma que Brando, Clift e Dean juntos. Talvez por ter tido uma vida mais “careta” (foi casado por mais de 50 anos), ao contrário de seus três colegas, sabia ser engraçado. Brando ficaria rídiculo no papel de um presidiário rebelde que vira herói de seus companheiros, mas isso não aconteceu com Newman em “Cool Hand Luke”, um de seus filmes mais famosos.

O melhor Newman foi o de papéis que parecem descompromissados, em filmes que à primeira vista parecem banais. Ele foi genial em “Harper”, um típico filme policial dos anos 60 que servia de veículo para um astro. A trama mirabolante, que mistura a investigação de um seqüestro e culmina na descoberta de uma seita religiosa que contrabandeia imigrantes mexicanos, não é o principal atrativo. É Newman, um investigador picareta que vive pregando peças na ex-mulher, que segura o filme.

“Harper” pode não ser um dos filmes mais memoráveis de Newman, mas o que dizer das duas dobradinhas com Redford em “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (por que os distribuidores brasileiros não gostavam do Sundance?) e “Golpe de Mestre”? Esses dois filmes foram dirigidos por George Roy Hill, que também chamou Newman para estrelar a (sem exagero) obra-prima “Slap Shot”, de 1977.

Nesse filme em que a violência no esporte – e num dos esportes mais violentos, o hóquei – foi usada na forma mais grotesca e engraçada já imaginada, Newman interpretou o capitão de uma equipe fracassada (em número de títulos e público) prestes a ser vendida. Ele não é responsável pelas cenas mais engraçadas – Newman sabia fazer rir, mas não era do tipo comediante -, é, antes de tudo, o sujeito que mantém a equipe unida e tenta reverter o destino de seus protegidos.

“Slap Shot” foi o último grande filme de Newman. Nos 30 anos seguintes ele até interpretou papéis dignos de nota em “The Verdict” (1982) e “Hudsucker Proxy” (1994), mas ganhou um Oscar justamente pelo fraco “The Color of Money” (1986), de Scorsese, uma continuação de “The Hustler” (1961), que Newman protagonizou 25 anos antes – “The Hustler” foi um dos poucos filmes em que Newman se saiu bem ao interpretar um personagem “atormentado”.

Deixando o ativismo político para trás – Richard Nixon o incluiu na sua famosa “lista de inimigos” por causa de seu apoio à candidatura de Eugene McCarthy – Newman se concentrou na filantropia. Doou todo o lucro de sua empresa de molhos de salada, a Newman’s Ow (que foi mais rentável que sua carreira cinematográfica), para a caridade.

Os últimos anos de Newman não deixaram filmes memoráveis. Ele passou a ser um coadjuvante de luxo em produções esquecíveis como “Road to Perdition”(2002) e “Message in a Bottle” (1999), e pareceu padecer do mesmo mal que acomete Michael Caine e atores das antigas pornochanchadas: ficar velho o torna mais respeitável e perdoa interpretações no piloto automático.

Em 54 anos de carreira cinematográfica, Newman se tornou uma figura tão familiar nas telas, seja nos grandes filmes ou nos medíocres, que sua perda não só causa lamentos pelo fim de um grande ator, mas também tristeza pela perda de um velho conhecido.

O que vale a pena assistir de Newman na opinião deste blogueiro (pra variar, os títulos brasileiros são, em todos os casos, tenebrosos):

“The Long, Hot Summer” (1958 ) – “O Mercador das Almas”

“The Hustler” (1961) – “Desafio à corrupção”

“Hud” (1963) – “ O Indomado”

“Harper” (1966) – “Harper – O Caçador de Aventuras”

“Cool Hand Luke” (1967) – “Rebeldia Indomável”

“Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969) – “Butch Cassidy”

“The Sting”(1973) – “Golpe de Mestre”

“Slap Shot” (1977) – “Vale Tudo”

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He finally really did it!

segunda-feira, abril 7, 2008


Morre o ator americano Charlton Heston

Pope Julius II: When will you make an end?
Michelangelo (Heston): When I am finished!

Bom e velho Charlton Heston. Não era o melhor dos atores, boa parte de sua carreira foi repleta de épicos que são puro lixo… e ainda assim ele era um dos melhores, um dos últimos.
Combateu romanos, japoneses, egípcios, chineses, franceses, vampiros, um papa, policiais corruptos, nazistas, fanáticos islâmicos, macacos e formigas saúvas – sempre como Heston. Era facilmente identificável com o ideal de herói. “If you need a ceiling painted, a chariot race run, a city besieged, or the Red Sea parted, you think of me.

Sempre foi engajado, e inicialmente seu papel foi fazer campanha pelos direitos civis e propagandear a “Grande Sociedade” de LBJ. Até que bandeou para o lado conservador que incluía John Wayne e seu amigo Ronald Reagan. Pela sua associação com a NRA, uma certeza de discursos lamentáveis, ficou marcado como direitão, e seu passado pelos direitos civis foi convenientemente esquecido. Foi presidente do sindicato dos atores mas preferiu se manter longe da política. “I’d rather play a senator than be one.” Nos últimos anos, o ator que tinha chorado na frente da Estátua da Liberdade arruinada de “O Planeta dos Macacos” tinha se tornado mais pessimista, lamentando o que os EUA estavam se tornando. Jean-Luc Godard dizia que odiava o John Wayne de “Os Boinas Verdes” (filme de propaganda sobre a Guerra do Vietnã), mas amava o que estendia o braço para sua sobrinha criada pelo índios de “Rastros de Ódio”. Seria estúpido não lembrar de Heston da mesma maneira.
No caso de atores como Heston, os obituários costumam citar os papéis e fatos relevantes da vida pública e pessoal, não tendo muito o que dizer sobre interpretação. Heston não fazia as macaquices afetadas de Marlon Brando, sendo que estava mais para Gregory Peck ou, quem sabe?, John Wayne. Seu carisma era suficiente. Sua beleza parece estranha para os padrões de hoje, mas seu aspecto forte era ideal para o que ele representava, sempre o tipo de homem determinado para quem a vontade é o que basta. Era contido, o que dava a seus momentos de fúria um destaque especial, sempre auxiliado por alguma frase genial – “Soylent Green is people!” e “Take your stinking paws off me, you damn dirty ape!” são coisas que não saem da cabeça facilmente. Fez mais bombas que a Krupp, mas interpretou papéis inesquecíveis – como imaginar outro sujeito na pele do Taylor de “O Planeta dos Macacos” ou Ben-Hur? Também trabalhou com diretores de primeira linha como William Wyler, Franklin J. Schaffner, Carol Reed e Orson Welles.

Tinha seu lado rídiculo, e vários de seus papéis são deliciosamente risíveis – o fazendeiro virgem que reluta em dormir com sua esposa encomendada pelo correio e lá pelo final é quase devorado por saúvas em “A Selva Nua” valeu um comentário de Paulo Francis de que “nossa vida seria infinitamente mais árida sem a chamada meca do cinema”.

Heston tinha 84 anos.