Posts Tagged ‘Alemanha’

O Leitor

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Mais um filme sobre o holocausto…”, seria apropriado dizer. Um tema já explorado ao extremo e que raramente resulta em boas surpresas – “O Pianista”, de 2002, foi a última –, ganha o que seria um novo olhar com “O Leitor”, atualmente em cartaz.

Um “novo olhar” porque esse filme propõe examinar o ponto de vista alemão do holocausto, a estranha convivência com assassinos no pós-guerra e o conhecido tema da “banalidade do mal”, em que os criminosos não se dão conta da brutalidade de seus atos e os justificam com a desculpa de que eram meramente parte de uma imensa engrenagem burocrática – “eu apenas cumpria ordens” deve ser uma das expressões alemãs mais famosas.

Alemanha, 1958, num dia chuvoso, o jovem Michael (David Kross), de 15 anos, está voltando para casa e começa a sentir mal. É acudido por uma mulher de trinta e tantos anos (Kate Winslet) que o acompanha até perto de sua casa. Passam-se alguns meses e Michael está melhor, pronto para visitar e agradecer a mulher que o acudiu. Uma cena de sedução depois, começa entre os dois um relacionamento sexual. Hanna também gosta que Michael leia para ela, de livros infantis a clássicos antigos. Certo dia, Hanna some da vida de Michael.

Anos depois, Michael, já um estudante de direito, é convidado por seu professor (Bruno Ganz) a acompanhar um julgamento. Para a surpresa de Michael, é Hanna, junto com outras mulheres, que está sentada no banco dos réus. A acusação: ter sido guarda de um campo de extermínio na Segunda Guerra.

“O Leitor” foi baseado na obra homônima do escritor alemão Bernhard Schlink. O livro ganhou notoriedade quando foi indicado pela influente apresentadora americana Oprah Winfrey em seu “Clube do Livro”. No Brasil foi publicado há dez anos pela Nova Fronteira, agora ganha uma nova edição pela Record (R$ 29).

Infelizmente, “O Leitor” é mais um filme burocrático, morno e previsível sobre o holocausto.

Não se pode culpar inteiramente o diretor Stephen Daldry (“As Horas”, “Billy Elliot”) pelo resultado. O próprio livro de Schlink não era lá grande coisa, mas Daldry leva seu filme de maneira previsível, abusando de alguns recursos (o filme está repleto de música dramática e inúteis recursos de sobreposição de imagens). A fragilidade da coisa toda fica óbvia quando é perceptível que Daldry preparou com satisfação – e com direito a flashbacks (é “Os Suspeitos” sempre fazendo escola) – uma surpresa que todos já haviam percebido no começo do filme

Para piorar, os atores não fazem melhor. Kate Winslet foi indicada ao Oscar por seu papel, mas ele o interpreta tão burocraticamente que mesmo suas cenas de nudez têm pouco apelo – o que é imperdoável para alguém que tem um belo corpo. Mas o pior mesmo fica com o Michael mais velho, interpretado pelo sempre soporífero Ralph Fiennes. São dele algumas das piores cenas do filme, incluindo um desnecessário momento de “eu vou te contar uma história”

Mais grave, porém, são os problemas morais do filme.

Não é necessário ir tão longe como o escritor Ron Rosenbaum – autor do excelente “Explaining Hitler”, traduzido no Brasil com o inacreditável título de “Para entender Hitler” (Record) – que acusou o filme de sugerir que “lack of reading skills is more disgraceful than listening in bovine silence to the screams of 300 people as they are burned to death”.

O próprio livro é problemático. Ao usar a deficiência de Hanna como uma metáfora óbvia para a ignorância, Schlink passa para o leitor a idéia de que muitos assassinos foram empurrados para a máquina do holocausto pelo destino ou por motivos compreensíveis. Perguntar a alguém “O que você faria?”, como o filme e o livro fazem, e esperar um “Não sei” ou simples silêncio como resposta é repugnante.

Rosenbaum acertou em cheio quando disse que “não precisamos de mais um filme redentor sobre o holocausto”.

Para piorar, um filme que propagandeia as maravilhas da leitura.

“Sprechen sie talk?”

É conhecida a visão dos chefões de estúdio de que os americanos não gostam de ler legendas. Essa filosofia muitas vezes resulta em cenas engraçadas em que personagens estrangeiros falam alguma frase introdutória em uma língua qualquer para logo continuar o diálogo ou monólogo na língua do Dr. Johnson. Também acontece de os personagens forçarem um sotaque na língua que supostamente estariam falando. Assim não é incomum assistir a russos que falam entre si com sotaques pavorosos – famoso é o caso de Sean Connery, que usou o mesmo sotaque em “Os Intocáveis”, ao interpretar um irlandês, e em “A Caçada ao Outubro Vermelho”, ao vestir um uniforme russo.

Mas “O Leitor” inaugurou uma categoria totalmente nova na salada lingüística hollywoodiana: a leitura de textos em inglês por estrangeiros em seus respectivos países. Qual não é a surpresa observar que Michael, ao ler para Hanna, está segurando um livro em que se pode ler “The Adventures of Huckleberry Finn” em bom inglês! Recurso para facilitar a vida dos atores que devem entregar suas falas em inglês? As estantes de livros que aparecem ao longo também estão repletas de títulos em inglês… e publicados por editoras americanas. A escolha por facilitar a vida do espectador não familiarizado com alemão fica ainda mais cômica quando Hanna se alfabetiza e passa a escrever cartas em… inglês!

Pode ser um mero detalhe técnico, que para muitos não chega a influenciar, mas lembra aqueles filmes americanos deliciosamente toscos rodados no Brasil em que o merchandising aparece na forma de outdoors em inglês – quem assistiu “007 Contra o Foguete da Morte” deve saber do que estou falando.

O próprio Schlink insistiu para que o filme fosse rodado em inglês, justificando que a história da convivência numa sociedade pós-genocídio era universal – claro que a promoção inevitável de um filme americano nas vendas do seu livro também deve ter sido bem-vinda.

Anúncios

Morreu o pai do Playmobil

quarta-feira, fevereiro 4, 2009

Quem foi criança na década de 80 ou princípio de 90 dificilmente deve ter ouvido falar de Hans Beck. Entretanto, a criação desse alemão de Zirndorf, que morreu dia 30 de janeiro, aos 79 anos, é bastante conhecida: os bonecos Playmobil.

O primeiro boneco de Beck foi comercializado em 1974. Foi o choque do petróleo de 1973 que levou a Geobra – empresa na qual Beck era criador e ainda hoje fabrica os bonecos – a dar início à linha de Playmobils. Até então a Geobra favorecia a fabricação de grandes bonecas e outros brinquedos que usavam bastante plástico. Com o aumento dos preços, era necessário fazer mais com menos. Os bonecos de Beck caíram como uma luva.

Desde o começo Beck estabeleceu os temas para os Playmobils. O faroeste e os serviços públicos eram bem famosos, mas cobiçados pelas crianças eram mesmo os grandes Playmobils, como o barco pirata e o caminhão de bombeiros – duas peças que ainda são capazes de encantar um adulto pela precisão e beleza.

Nos 20 anos seguintes os bonecos de cabelo destacável e mãos em forma de garra da Geobra foram exportados ou licenciados para 70 países. No Brasil, foram fabricados sob licenciamento pela Troll e pela Estrela. (Era grande a diferença entre os Playmobils alemães e os da Troll. A empresa brasileira vendia temas que há anos tinham saído de linha na Europa. Mais gritante, porém, era a qualidade do plástico, que dava um aspecto “pirata” para os Playmobils da Troll – o melhor teste de qualidade para esse material ainda continua sendo a mordida de uma criança.)

O Playmobil nunca teve a inventividade do Lego – tampouco sua popularidade –, mas tinha algo em comum com seu rival dinamarquês: a capacidade de incentivar coleções. O universo Playmobil era vasto e variado – como mostra o site Collectobil, que possui um catálogo de todos os Playmobils organizados por temas. Hoje em dia, alguns desse temas podem até ser considerados politicamente incorretos, como os bonecos operários de construção civil que vinham acompanhados de um engradado com garrafas de cerveja.

Certa vez, Hans Beck declarou que não gostaria de misturar os seus Playmobils com ETs, dinossauros e um Boeing 747. A Geobra não respeitou sua vontade: nos últimos anos, só o Jumbo ficou de fora.

Mas por onde andam os bonecos? Uma ida a uma loja de brinquedos brasileira mostra por que o Playmobil parece ter sumido do universo infantil: mesmo o dinossauro desprezado por Beck não custa menos de 150 reais. Depois que a estrela saiu de cena, o Playmobil ficou vários anos ausente do país, até que voltou pela Sunny Brinquedos, mas como produto importado da Alemanha. Diante da concorrência chinesa e seus brinquedos baratos cheios de chumbo e amianto, o Playmobil parece ter se tornado um brinquedo viável apenas para os mais apaixonados.

Skulls and germans

quarta-feira, setembro 24, 2008

Em Windhoek, a Christuskirche e o Reiterdenkmal, monumento que homenageia os soldados alemães que morreram na “pacificação” da Namíbia

Crimes de guerra alemães remetem imediatamente ao Holocausto ou aos milhares de massacres na Segunda Guerra. Mas o assassinato de judeus e outras minorias não foi a primeira campanha de extermínio promovida pela Alemanha.

A descoberta de 47 crânios no Museu do Hospital La Charité, em Berlin, e de outras dezenas na universidade de Freiburg, por uma equipe de reportagem da rede pública ARD, relembrou um capítulo brutal do período colonial alemão.

Enviados para a Alemanha em 1907, os crânios seriam usados em um dos típicos estudos que pretendiam provar a superioridade da raça branca sobre a negra.

Também era um troféu de guerra.

Eram de membros das tribos herero e nama, habitantes da atual Namíbia, que se chamou Deutsch-Südwestafrika até 1915.

Em 1903, quando se revoltaram contra o jugo colonial e mataram mais de 200 colonos brancos, os hereros e namas foram perseguidos sem piedade pelas tropas comandadas pelo brutal general Lothar von Trotha. A campanha, que durou três anos, foi tão brutal que resultou no extermínio de quase 70% do povo herero (mais de 50 mil pessoas) e 50% dos namas (10 mil pessoas). Poços foram envenenados na rota de fuga das tribos e os capturados foram mandados para campos de concentração (os primeiros da história alemã) onde a taxa de mortalidade era alarmante. Os que conseguiram fugir foram para Botswana (à época uma colônia britânica).

A ONU e alguns historiadores consideram o extermínio dos hereros e namas um dos primeiros genocídios do século 20.

A Alemanha perdeu a Namíbia durante a Primeira Guerra, mas diferentemente das outras colônias, a influência alemã ainda é visível no país. Alguns milhares de colonos alemães permanecem até hoje. O passado alemão também pode ser visto na arquitetura de cidades como Windhoek (aquela que Lula disse ser tão limpa que nem parecia ser na África) e Lüderitz. O alemão também é uma das línguas oficiais do país. (Curiosidade: Heinrich Göring, pai de Hermann Göring, o criador da Luftwaffe e comparsa de Hitler, foi o primeiro Reichskommissar da colônia.)

A ligação com a antiga colônia há muito foi esquecida pela maioria dos alemães (até a década de 50, de acordo com meu pai, era comum os alemães mais velhos repreenderem uma pessoa que errasse a pronúncia de alguma palavra ou tivesse péssimos modos à mesa chamado-a de “hottentot“, nome pelo qual os namas também são conhecidos). Na Namíbia o genocídio é relembrado todo 26 de agosto.

A Alemanha se desculpou pelo genocídio em 2004. Até mesmo os descendentes do general Lothar von Trotha visitaram o país, em 2007, e lamentaram o destino dos hereros e namas.

O novo capítulo dos crânios provocou indignação em alguns setores da sociedade namibiana. O embaixador do país na Alemanha exigiu que as caveiras fossem repatriadas. Suspeita-se que existam talvez até 300 crânios de membros das tribos herero e nama em universidades alemãs. Um deles seria do líder dos namas, Cornelius Fredericks, morto na prisão.

Até agora nada foi feito para devolver os crânios. O governo alemão informou que só tomará providências se a Namíbia fizer um pedido oficial.

Quando perguntado sobre os crânios, o diretor do arquivo da universidade de Freiburg justificou: “É uma coleção cultural”.

Ainda existem bons livros sobre Berlin

quinta-feira, julho 31, 2008

“Berlin: Portrait of a City” é, sem exagero, o mais belo livro de fotografias já organizado sobre uma cidade. Esqueça esses livros comemorativos lançados por secretarias de cultura ou aqueles patéticos catálogos para turistas. Esse é um trabalho ambicioso e apaixonado.

A editora responsável por essa obra-prima é a Taschen, famosa pelos livros gigantescos e gosto por temas polêmicos. A organização é de Hans-Christian Adam.

Reunir fotos de uma cidade pode parecer banal – ainda mais se comparado com outras obras da editora -, mas o resultado é grandioso e nada menos que emocionante. A contracapa avisa que esse é o “estudo mais abrangente já realizado sobre Berlin”. De fato, é difícil lembrar de um livro fotográfico mais completo sobre a cidade. São mais de 140 anos mostrados através das lentes de Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, Helmut Newton, Thomas Struth, Wolfgang Tillmans, Heinrich Zille etc.

O tratamento editorial é impecável, e o tamanho enorme de muitas das fotos permite examinar detalhes fascinantes da antiga paisagem urbana. Ganham vida as antigas indústrias, as velhas figuras dos “anos loucos” e, inevitavelmente, as conseqüências da guerra. A destruição sofrida pela cidade parece inacreditável, mas é emocionante notar que a vida cotidiana, apesar de tudo, continuou. E Berlin, nesses 140 anos, parece tão viva graças aos seus habitantes. A destruição da guerra dá lugar à tensão da Guerra Fria e à divisão da cidade, mas, novamente, nada disso é páreo para a coragem dos berlinenses, que reconstruíram o que parecia completamente perdido. Eles recebem uma bela homenagem nessa obra. Notável que esse livro tenha tratado marginalmente o nazismo e as figuras importantes da política, mas, começando na expansão urbana do século 19 e terminando nos arrojados edifícios pós-modernos, se concentrado nos rostos de gente comum e nas construções – e mostrado como essas coisas são afetadas pela história.

Berlin, essa cidade de transformações e destruição, tantas vezes imortalizada na literatura e no cinema, tem um livro de fotografias à altura de sua grandeza.

Obs: Meu pai, que nasceu em Berlin, fez aniversário ontem (30 de julho). “Berlin: Portrait einer Stadt” foi o presente escolhido pelo meu irmão e minha cunhada.

Obamania em Berlim

segunda-feira, julho 28, 2008

Berlim é a cidade que poderia resumir boa parte da história do século 20. Sofreu como nenhuma outra os efeitos das duas guerras mundiais e foi o palco principal da Guerra Fria. Natural que seu simbolismo seja grande. Para alguns presidentes americanos, Berlim também marcou momentos de triunfo oratório. John Kennedy disse “Eu sou um berlinense”, Ronald Reagan pediu “Sr. Gorbachev, derrube este muro!”. Menos lembrado é Bill Clinton: em 1994, ele comemorou “Berlim é livre!”.

Kennedy, ao contrário de Reagan e Clinton, não discursou à frente do Portão de Brandemburgo, mas tinha em comum com seus sucessores a condição de presidente.

O candidato democrata Barack Obama ainda não chegou lá, mas apostou que um discurso na capital alemã é o tipo de recado que deve passar para os que o julgam inapto em questões externas. Aposta arriscada. O governo alemão vetou o Portão, e Obama teve que se contentar com a Coluna da Vitória.

[Continua]

“It’s an opera”

sexta-feira, julho 25, 2008

Três membros da “famiglia” Wagner, senhores do Festival de Bayreuth

A ópera não é  considerada o gênero musical predileto de multidões. Mas o Festival de Bayreuth, que começa hoje, tem um público de causar inveja a qualquer artista, não importando o tipo de música que toque. Na sua 97° edição, o festival, que dura um mês, vai receber quase 60 mil apreciadores das obras do compositor alemão Richard Wagner. E esses cerca de 60 mil são considerados “sortudos”, já que o festival é disputadíssimo e conseguir um ingresso pode exigir anos na lista de espera. Quase 500 mil pessoas tentaram, em vão, comprar ingressos para esta edição.

Mas pessoas famosas e autoridades não precisam se preocupar em conseguir ingressos. Para eles, a organização do festival estende, literalmente, um tapete vermelho – a chanceler alemã, Angela Merkel, por exemplo, há anos freqüenta o festival.

Para os organizadores, afagar quem está no poder não é apenas um sinal de vaidade – e vaidade é o que não falta no festival -, mas uma questão de sobrevivência. Como qualquer festival de ópera, Bayreuth dá prejuízo, mesmo com um público cativo. É o Estado Alemão que cobre a diferença injetando 17 milhões de euros anuais – uma quantia considerada baixa para os padrões europeus.

O subsídio é tão Bayreuth quanto “Siegfried”. Uma tradição que começou com o fundador, o compositor romântico Richard Wagner. Com uma carreira cheia de altos e baixos até 1864, e no ostracismo por causa da sua vida privada escandalosa, Wagner teve a sorte de cair nas graças de um admirador poderoso: o jovem rei da Baviera Ludwig II, considerado um louco. Ludwig serviu de mecenas para Wagner, financiando generosamente suas obras posteriores e a construção de um teatro na pequena cidade de Bayreuth, exclusivamente para a encenação das obras do compositor. Foi um sucesso. O festival logo se tornou um evento para gente importante – até mesmo o nosso imperador D. Pedro II deu as caras. Nietzsche, obviamente, também era uma presença assídua.

Após a morte do compositor, em 1883, o teatro e o festival passaram a ser administrados pelos descendentes de Richard.

Num caso raro de continuidade, a família Wagner controla a organização do festival até hoje. Como um feudo, não é um negócio tocado com discrição. Os jornais alemães estão repletos de histórias sobre brigas entre membros da família. Atualmente é Wolfgang Wagner, neto de Richard e bisneto de Franz Liszt, que organiza o festival.

Nazismo e mudanças

Wagner não é nem um pouco popular em Israel. Suas óperas repletas de elementos do folclore germânico são consideradas por alguns a trilha sonora do Holocausto. Nos primeiros anos de poder, Hitler era um freqüentador assíduo do festival. Chegou a aumentar o subsídio que o teatro recebia do governo. Por anos, o relacionamento que matinha com Winifred Wagner, filha de Richard, foi alvo de especulação – suspeitava-se que ela fosse sua amante. O festival floresceu nos tempos de Hitler e, por estranho que pareça, foi durante o nazismo que aconteceram as primeiras mudanças depois da morte de Richard. Até então, todas as óperas eram encenadas com os mesmos cenários do século 19. Alguns tradicionalistas, incluindo o maestro Arturo Toscanini e o compositor Richard Strauss, protestaram.

Albert Speer, ministro e um dos favoritos de Hitler, contou em suas memórias que na esperança de agradar ao führer, muitos nazistas compareciam ao festival. Mas a duração de óperas como “Parsifal”, que tem mais de cinco horas (!), levava muitos desses nazistas de baixo  clero, mais habituados a quebrar crânios de comunistas nos tempos de freikorps, ao sono – para desgosto de Hitler.

Hitler nunca mais pôs os pés em Bayreuth depois de 1939, mas ele sempre foi uma sombra no festival. Até hoje a filha do marechal fanfarrão de Hitler, Hermann Göring, um grande amigo da família, recebe ingressos gratuitos. (História curiosa: poucos antes de sua morte, o filho de Rudolf Hess, Wolf Rüdiger, soube que a filha de Göring recebia ingressos. Reclamou. Desde então, também passou a ter entrada livre.)

Durante a guerra, boa parte da cidade foi destruída, o teatro, porém, ficou relativamente intacto. Mas foi só em 1951 que o festival recomeçou. Winifred foi banida pelos americanos por ser considerada uma nazista incorrigível. Mas o negócio não deixou de ser familiar, e a organização e a direção passaram para seus filhos, Wolfgang e Wieland.

Assumindo a direção, Wieland revolucionou o festival nos primeiros anos. Despindo as obras de seu caráter nacionalista, ele buscou um apelo mais universal. Também trocou os elaborados cenários tradicionais por outros com elementos mais modernos e simples. Muitos críticos acusaram as mudanças de serem uma traição aos ideais germânicos – lembrando em muito os nazistas e sua perseguição à “arte degenerada”. O público, por sua vez, vaiou.

Wieland se defendeu como pôde, mas sua morte prematura em 1966 abriu caminho para seu irmão Wolfgang, considerado menos brilhante. (Com o tempo, vários críticos reconheceram que a abordagem de Wieland era ideal.) Mais tradicionalista que seu irmão, Wolfgang reverteu todas as mudanças e se voltou para a abordagem pré-guerra. Espantou as vaias, mas os críticos começaram a achar que o festival estava engessado demais. O seu reinado já começou a ser contestado no começo da década de 70. Wolfgang então resolveu criar a “Oficina de Bayreuth”, convidando diretores de outras óperas e até mesmo do cinema para mostrarem suas abordagens da obra de Wagner. Wolfgang ficou responsável apenas pela administração do festival. Mas em 1973, por pressão do governo da Baviera e por brigas com outros Wagners, ele teve que entregar parte do poder. Foi criada a Fundação Richard Wagner, com outros membros da família e algumas figuras públicas. Porém, Wolfgang, um sobrevivente nato, continuou na chefia.

Há anos sofrendo pressão para se aposentar, ele finalmente entregou os pontos este ano, aos 89 anos, em parte por causa de sua saúde debilitada. Esta edição é a última sob seu comando.

É o fim da era Wolgang, mas a família Wagner continua. Duas Wagners estão sendo cogitadas como sucessoras. Eva e Katharina, filhas de Wolfgang e bisnetas de Richard. Elas já estão brigando pelo cargo. Os Wagners são mesmo personagens de opereta.

“What is the capital of Assyria?”

quinta-feira, julho 10, 2008

Alemanha: o portão não está aberto a todos

Com uma das taxas de fertilidade mais baixas do mundo, a Alemanha pode ter sua população reduzida de forma significativa em 2050. Uma projeção apontou que até lá a população atual de 82 milhões pode cair para 69 milhões. Mesmo esse número pessimista leva em conta uma imigração anual de 100 mil pessoas para o país. Com 200 mil imigrantes o problema só diminui um pouco: a população seria de 74 milhões.

É um problema que assombra o país há quase 20 anos.  Ainda não se concluiu se os incentivos à natalidade – que também existem em vários oitros países europeus – vão dar resultados. Mesmo assim pouco está sendo feito para facilitar a entrada de imigrantes.

Até 2000, o direito à cidadania alemã era baseado no sangue (“princípio da descendência”). Não fazia diferença se a pessoa tinha nascido na Alemanha: só quem tinha parentes alemães tinha o direito assegurado. O resultado foi gerações de pessoas nascidas no país que continuavam com o status de estrangeiras. O problema atingiu particularmente os que tinha ascedência turca – de longe a maior comunidade estrangeira no país. A lei mudou, e mesmo não sendo retroativa, começou a resolver parte do problema de muitos filhos de imigrantes.

Em 2005, o país reformou sua lei de imigração. Pouca coisa mudou. Mesmo sendo um dos destinos europeus mais procurados pelos ilegais, é muito difícil para um trabalhador pouco qualificado conseguir obter a naturalização ou mesmo a versão local do Green Card. O país só incentiva a entrada de profissionais bem qualificados, e basicamente em programas de trabalho temporário. Nada disso resolve o problema da taxa de natalidade. Para piorar, em 2007, 113 mil estrangeiros adquiriram a cidadania alemã, 9,5% a menos do que no ano anterior. Paradoxalmente, a Alemanha é o membro da UE que abriga mais asilados políticos – mais de 200 mil, e muitos deles recebem ajuda estatal.

A história mostra que a Alemanha sempre foi um país que acolheu muitos imigrantes. O Wirtschaftswunder (“Milagre Alemão”), como é chamada a ascensão do país como potência ecônomica no pós-guerra, contou com a ajuda dos Gastarbeiter, os “trabalhadores convidados” – sobretudo dos países mediterrâneos, na época miseráveis -, que foram ao país às centenas de milhares para suprir a demanda da indústria por trabalhadores. Os turcos, em grande quantidade, foram a segunda leva. Mas não foram recebidos de braços abertos como seus antecessores, e logo se tornaram indesejáveis. (As condições degradantes a que muitos turcos foram submetidos foram denunciadas pelo jornalista Günter Wallraff no seu devastador livro “Cabeça de Turco”.)

Questionário

Mesmo com algumas iniciativas tímidas para atrair imigrantes qualificados, alguns setores da sociedade alemã acham que algumas coisas vieram para dificultar. Além de cumprir regras como morar no país há oito anos, não ter antecedentes criminais, ganhar o necessário para se sustentar e ter conhecimentos suficientes do idioma alemão, a partir de 1° de setembro o interessado terá que responder um questionário sobre história e sociedade alemã. Várias associações que representam os turcos, além do Partido Verde, reclamaram do teste. Um porta-voz de uma dessas associações ironizou que nem mesmo um alemão comum seria capaz de responder muitas das questões.

Elaborado pela Universidade de Humboldt, de Berlin, o teste consiste em 33 perguntas – de um estoque de 300. O site da revista Der Spiegel disponibilizou uma das versões. Não é uma prova muito difícil, considerando que apenas 17 precisam ser respondidas corretamente. Muitas questões independem de conhecer a Alemanha e podem ser respondidas pelo senso comum. Exemplo: “Qual é o papel de um júri?”. Ou: “Qual o papel da polícia?”. Quatro opções são dadas, sendo uma sempre estapafúrdia. Mesmo as questões sobre história podem ser respondidas com pouco estudo. “Como acabou a guerra na Europa?” “Quem foi o primeiro chanceler?” Outras coisas são curiosas: “O que os alemães fazem na Páscoa?”. Resposta: “Pintam ovos”. Este blogueiro acertou 30 questões. As três erradas foram justamente o tipo de pergunta que gerou controvérsia. Alguém sabe quais são as cores da bandeira da Renânia do Norte-Vestfália? Não fazia a mínima idéia. Existem também as perguntas clássicas sobre capitais e Estados.

Os autores do teste disseram que em média 80% dos candidatos devem passar. O ministro do Interior, Wolfgang Schäuble, afirmou que a gritaria é exagerada, e comparou o teste com os conhecimentos necessários para a obtenção da carteira de motorista.

Outros questionários

Outros países também aplicam testes similares. O mais famoso é o americano. O site da MSNBC fornece um modelo. Nada impossível, mas algumas questões, se comparadas com algumas do teste alemão, são bastante difíceis, e provavelmente a maioria dos americanos não saberia responder. Abordam artigos da constituição e o funcionamento do Executivo. “Quem assume se o presidente e seu vice não estiverem disponíveis?” Até o ex-secretário de Estado Alexander Haig não sabia essa quando Reagan foi baleado. “Quem tem poder para declarar guerra?” “Qual desses artigos da constituição não menciona liberdades?” “Quais são os 49° e 50° Estados americanos?” E isso é só o teste. A maioria dos candidatos não será barrada aí, mas antes, porque será incapaz de cumprir outras exigências. Para muitos é mais garantido pular a cerca ou tentar a sorte com uma balsa…

Os ingleses, como era de se esperar, junto com perguntas sérias, aplicam um teste bastante bem-humorado e prático – baseado no livro “Life in U.K.”, um guia para estrangeiros. Não, não perguntam qual a capital Assíria antes de você passar pela ponte da Morte. Mas coisas como: “Num pub, se você derrubar a cerveja de alguém, qual é o procedimento?” “Paga outra ou briga?” “Se você apanhar e se ferir por causa desse incidente, qual o número que você deve chamar?” “Onde os ingleses acham que o Papai Noel mora?” “Lapônia ou Pólo Norte?” “Qual a obrigação de quem tem animal de estimação?”

Deve ter sido preparado pelo Minister of Silly Walks… Uma simulação foi elaborada pela BBC.

E, para terminar, existe o francês. Assim como seus “primos”, ele é pouco determinante. Proposto pelo então ministro do Interior Nicolas Sarkozy em 2003, aborda questões culturais que parecem ter sido feitas sob medida para os imigrantes islâmicos. Exemplo: “Um homem pode ser condenado por estuprar sua esposa?” “O casamento é uma questão de interesse dos parentes ou apenas do casal?”

No Brasil, o estrangeiro que quiser se naturalizar não precisa saber quais são as cores da bandeira da Paraíba ou o que fazer se derrubar a Brahma de alguém. Depois de cumprir algumas obrigações, basta fazer uma prova de português.

“Das Runde muss ins Eckige”

quinta-feira, junho 26, 2008

Da comentarista da Record: “A Alemanha se torna letal quando ocupa vastos espaços [do campo]”

A Alemanha está na final da Eurocopa. Mas o resultado de 3 x 2 sobre os turcos não disfarçou o péssimo futebol dos alemães. Foram muitos passes errados, pouca marcação e um memorável frango do goleiro Lehmann. Sorte que a Turquia estava desfalcada, com nove jogadores suspensos ou contundidos. Mesmo assim, os turcos dominaram o começo da partida. Foi só final do primeiro tempo que a coragem e raça dos turcos começou a ser eclipsada pela inexperiência. Nesse jogo, coube aos alemães o papel de turcos que vencem a partida no final. Lahm marcou o terceiro gol da Alemanha aos 45 do segundo tempo.

Foi difícil acompanhar a partida pela televisão. O jogo foi na Basiléia, mas uma tempestade em Viena, de onde o sinal era transmitido, interrompeu a partida três vezes no segundo tempo. O segundo gol da Alemanha se perdeu nesses buracos. Lembrou o “missing reel” do filme “Planeta Terror”. Estranho que a rede Record não tivesse um repórter para telefonar do estádio e informar o que estava acontecendo.

Hillary Clinton’s Sunset Boulevard e o Pai Obama

sábado, junho 7, 2008

Porque a senadora finalmente jogou a toalha:

Obama

Na Alemanha, o jornal berlinense Die Tageszeitung (TZ) mostrou uma falta de tato inacreditável na manchete que anunciou Obama como o candidato democrata: uma foto da Casa Branca veio acompanhada da frase “Onkel Baracks Hütte” (“A Cabana do Pai Obama”, brincando com o título do livro pró-abolicionista de Harriet Beecher Stowe, “Uncle Tom’s Cabin”, que na edição brasileira trocou o “tio” pelo “pai”).

Escândalo armado, os editores do jornal esquerdista justificaram que pretendiam usar a manchete de forma satírica, fazendo os leitores refletirem sobre estereótipos.

E que estereótipos eles evocaram! Quando lançado em 1852, “Uncle Tom’s Cabin” foi um tremendo sucesso editorial, vendendo 300 mil cópias apenas no primeiro ano. Embora tenha sido um livro influente para a causa abolicionista, nas últimas décadas “Uncle Tom´s Cabin” está sendo destituído de sua importância histórica por acadêmicos que se queixam dos personagens negros da trama, sobretudo Tom-Tomás, o escravo submisso e ansioso por agradar seus donos brancos. (Em 1969, uma novela da Rede Globo inspirada no livro provocou um escândalo quando escalou o branco Sérgio Cardoso para interpretar o negro Tom. As comparações com os racistas “Minstrel shows” do século 19 foram imediatas.)

Não é a primeira vez que o Die Tageszeitung mistura negros americanos e o livro de Stowe. Em 2004, quando Condoleezza Rice foi escolhida para o cargo de secretária de Estado, a manchete foi “Onkel Toms Rice“.

No mínimo um caso de falta de originalidade.

Mais sobre essa história na edição eletrônica da revista Der Spiegel (em alemão e inglês).

Flughafen Tempelhof

sexta-feira, maio 30, 2008

Em tempos de apagão aéreo, overbooking e filas intermináveis é difícil imaginar que voar já foi um sinal de status e um sinônimo de luxo. Um ícone dessa era, e um epaço que poderia resumir boa parte da história do século 20, o aeroporto de Tempelhof, em Berlin, teve seu destino selado. Na contramão do Brasil, que insiste e até promove aeroportos como o sobrecarregado Congonhas, mas também beneficiado por uma malha ferroviária das mais eficientes, as autoridades de Berlin decidiram fechar o histórico aeroporto da cidade, que se tornou pouco prático para atender aeronaves cada vez maiores e ficou ilhado no meio da expansão urbana. Nos últimos meses um grupo de cidadãos contra o fechamento se organizou e pediu um plebiscito, mas a apatia dos eleitores (eram necessários 25% dos votos), que não se incomodaram em sair de casa, não conseguiu mudar a decisão. Tempelhof fecha em outubro.

É uma decisão triste, mas talvez necessária. Nos tempos do Muro, Berlin era servida por quatro aeroportos – tudo em duplicata por causa da divisão da cidade. Com Tempelhof também se aposenta o aeroporto de Tegel, construído pelos americanos – o aeroporto em que meu avô levou meu pai para assistir à interminável fila de C-47s que traziam comida para a cidade durante o Bloqueio de Berlin, em 1948; um belo espetáculo para uma criança de sete anos. Tegel fecha em 2011. Todos os vôos vão ser concentrados em Berlin-Schönefeld, o aeroporto que servia a antiga parte oriental da cidade, bem afastado do centro. A expansão de Schönefeld está sendo vista com entusiasmo, já que o aeroporto vai criar 40 mil empregos numa área onde a taxa de desemprego é bastante alta. A estimativa é que a partir de 2011 aeroporto vai atender 25 milhões de passageiros por ano.

Um prédio na história

Mais que um aeroporto, Tempelhof é como um museu, mas não no sentido de repositório de objetos: cada parede e metro da pista contam uma história diferente. O exemplo mais próximo seria o carioca Santos-Dumont, ainda que mais pela beleza do que significado histórico. Seu edifício principal é enorme: é listado como o 18° maior prédio do mundo, sua fachada tem 1.230 metros de comprimento. Uma construção imponente em art déco, erguida entre os anos de 1936 e 1941 por Ernst Sagebiel, que pretendia impressionar os visitantes e transformar o aeroporto em símbolo daquela que se acreditava ser a nova capital de uma Europa dominada pelos nazistas. Sagebiel também é autor da antiga sede da Luftwaffe nazista na cidade, prédio atualmente ocupado pelo Ministério das Finanças.

Sonhos delirantes. O edifício foi bastante castigado durante os bombardeios da Segunda Guerra, várias partes do aeroporto também nunca foram completadas, e posteriormente ele acabou sofrendo várias alterações feitas pelos americanos, que assumiram o local depois da divisão da cidade. O imponente hall de entrada teve sua altura de três andares reduzida e foi instalada um base militar da USAF no local. Nos anos da Guerra Fria, Tempelhof foi um aeroporto misto, recebendo aeronaves militares e vôos comerciais. Na década de 70, com os aviões ficando cada vez maiores, grandes companhias como a Pan Am e a British Airways transferiram suas atividades para Tegel. Com o fim da Guerra Fria, em 1994 a USAF entregou suas instalações para o governo alemão. Com cada vez menos vôos (ano passado o aeroporto só atendeu 350 mil passageiros), Tempelhof foi definhando.

Mas a história de Tempelhof não começa com os nazistas e seus sonhos de grandeza. Tempelhof, como o nome diz, era um local pertencente à Ordem dos Cavaleiros Templários. Embora não tenha sido usado militarmente na Segunda Guerra, por séculos o campo de Tempelhof foi associado com essas atividades. Era lá que os soldados do exército prussiano faziam exercícios militares e, durante o II Reich, era comum ver o kaiser assistindo demonstrações no local.

Os vôos começam em 1909, com o francês Armand Zipfel, seguido justamente por um dos pais da aviação, Orville Wright, que conseguiu voar por um minuto num vôo de demonstração. Em 1926, foi construído o primeiro terminal, que logo abrigou a Lufthansa. Aviões ofereciam vôos para a Suíça. Zeppelins, invenção sempre identificada com os alemães, passaram a usar o aeroporto. Os nazistas derrubaram o velho terminal, e o atual aeroporto é um dos poucos exemplos do que sobrou do seu regime.

Aquele que já foi um dos aeroportos mais movimentados do mundo, Tempelhof também foi cenário de vários filmes. Em “Indiana Jones e a Última Cruzada”, o personagem de Harrison Ford embarcava escondido num zeppelin que decolava (esse termo se aplica aos zeppelins?) do aeroporto. O terminal principal também pode ser visto em “One, Two, Three” (“Cupido não tem bandeira”, no Brasil), de Billy Wilder, e “A Supremacia Bourne”.

O destino de Tempelhof ainda é incerto. A construção é tombada pelo Patrimônio Histórico da cidade, mudanças drásticas não podem ser feitas. Algumas companhias cinematográficas alemãs mostraram interesse em transformar o local em um estúdio. O Museu Aliado da cidade também já manifestou que pretende assumir Tempelhof. A única certeza é que a era da aviação na”mãe de todos os aeroportos” – como classificou o arquiteto Normam Foster – terminou.

Obs: na terça-feira (27 de maio) foi celebrado os 60 anos da Ponte Aérea de Berlin na abertura do Festival Aéreo da cidade. Vários veteranos americanos participaram, incluindo Gail Halverson, o piloto que jogou chocolates do seu C-47 para as crianças berlinenses. A cerimônia principal foi realizada, ironicamente – ou com um mau gosto não intencional-, em Schönefeld.