Skulls and germans

quarta-feira, setembro 24, 2008

Em Windhoek, a Christuskirche e o Reiterdenkmal, monumento que homenageia os soldados alemães que morreram na “pacificação” da Namíbia

Crimes de guerra alemães remetem imediatamente ao Holocausto ou aos milhares de massacres na Segunda Guerra. Mas o assassinato de judeus e outras minorias não foi a primeira campanha de extermínio promovida pela Alemanha.

A descoberta de 47 crânios no Museu do Hospital La Charité, em Berlin, e de outras dezenas na universidade de Freiburg, por uma equipe de reportagem da rede pública ARD, relembrou um capítulo brutal do período colonial alemão.

Enviados para a Alemanha em 1907, os crânios seriam usados em um dos típicos estudos que pretendiam provar a superioridade da raça branca sobre a negra.

Também era um troféu de guerra.

Eram de membros das tribos herero e nama, habitantes da atual Namíbia, que se chamou Deutsch-Südwestafrika até 1915.

Em 1903, quando se revoltaram contra o jugo colonial e mataram mais de 200 colonos brancos, os hereros e namas foram perseguidos sem piedade pelas tropas comandadas pelo brutal general Lothar von Trotha. A campanha, que durou três anos, foi tão brutal que resultou no extermínio de quase 70% do povo herero (mais de 50 mil pessoas) e 50% dos namas (10 mil pessoas). Poços foram envenenados na rota de fuga das tribos e os capturados foram mandados para campos de concentração (os primeiros da história alemã) onde a taxa de mortalidade era alarmante. Os que conseguiram fugir foram para Botswana (à época uma colônia britânica).

A ONU e alguns historiadores consideram o extermínio dos hereros e namas um dos primeiros genocídios do século 20.

A Alemanha perdeu a Namíbia durante a Primeira Guerra, mas diferentemente das outras colônias, a influência alemã ainda é visível no país. Alguns milhares de colonos alemães permanecem até hoje. O passado alemão também pode ser visto na arquitetura de cidades como Windhoek (aquela que Lula disse ser tão limpa que nem parecia ser na África) e Lüderitz. O alemão também é uma das línguas oficiais do país. (Curiosidade: Heinrich Göring, pai de Hermann Göring, o criador da Luftwaffe e comparsa de Hitler, foi o primeiro Reichskommissar da colônia.)

A ligação com a antiga colônia há muito foi esquecida pela maioria dos alemães (até a década de 50, de acordo com meu pai, era comum os alemães mais velhos repreenderem uma pessoa que errasse a pronúncia de alguma palavra ou tivesse péssimos modos à mesa chamado-a de “hottentot“, nome pelo qual os namas também são conhecidos). Na Namíbia o genocídio é relembrado todo 26 de agosto.

A Alemanha se desculpou pelo genocídio em 2004. Até mesmo os descendentes do general Lothar von Trotha visitaram o país, em 2007, e lamentaram o destino dos hereros e namas.

O novo capítulo dos crânios provocou indignação em alguns setores da sociedade namibiana. O embaixador do país na Alemanha exigiu que as caveiras fossem repatriadas. Suspeita-se que existam talvez até 300 crânios de membros das tribos herero e nama em universidades alemãs. Um deles seria do líder dos namas, Cornelius Fredericks, morto na prisão.

Até agora nada foi feito para devolver os crânios. O governo alemão informou que só tomará providências se a Namíbia fizer um pedido oficial.

Quando perguntado sobre os crânios, o diretor do arquivo da universidade de Freiburg justificou: “É uma coleção cultural”.

O que alguns brasileiros escrevem sobre o 11 de Setembro (via BBC Brasil)

sábado, setembro 13, 2008

Se depender de quem escreveu no fórum “Osama Bin Laden” da BBC Brasil, o país dos bruzundangas não é muito diferente do Paquistão ou Egito. O velho antiamericanismo latino-americano se misturou bem com as mais vulgares teorias conspiratórias. Ninguém afirma que os judeus cometeram os atentados (como é comum nos países árabes), mas basta ler: a maior parte dos participantes acredita que o 11 de Setembro é uma farsa. Para piorar, muitos leitores nem acreditam na existência de Bin Laden. Mesclando português ruim com informações falsas (Michael Moore demais e bom jornalismo de menos), os participantes, muitos deles usando nome completo, demonstram uma ignorância profunda da história recente. Alguns exemplos (todos merecem “sic”):

“A questão não é pegar o Bin Laden ou não. A questão é descobrir se onze de setembro foir real ou não. Muito se comenta sobre se o próprio Bush não foi quem organizou os ataques para poder realizar seus objetivos.”

“(…)[Osama] foi armado e recebeu milhões de dólares dos EUA para junto com os TALIBANS matar soldados russos que davam apôio ao governo eleito do Afganistão na década de 1980.”

“A familia BIN LADEN é umas das que mais tem investimentos nos EUA! A familia BUSH tem relaçõs de negocios com a de OSAMA!! (…) Pô gente, é claro que o BUSH não quer pegar o BIN.Na verdade eles são parceiros comerciais.”

“Bush não fez o suficiente para capturar Bin Laden pq os 2 no passado tinha relações comerciais estreitas.”

“toda a nação tem sempre oque merece e os estados unido plantou isso agora so colheu o que plantou por isso acho que qualquer ato terrorista contra americano é valido”

“Para os replublicanos, Osama é o melhor negócio da chinha. Se estiverem perdendo poder é só eles dizerem qualquer coisa sobre ele, muda tudo.”

“Acredito que Osama seja um mito,um diabo,um velho da montanha,inventado por eles para fazer o que querem.”

“Para min 11 de setembro não passa de uma farsa americana, que serviu de pretesto para envadirem o Iraque.”

“Não existe terrorista Bin Laden.. muito menos atentado terrorista de 11 de setembro. Bin Laden esta sendo usado pelo governo americano para gerar medo no povo americano, afim de conseguir apoio para estar no oriente médio extraindo petróleo. O WTC foi derrubado pelos proprios americanos. (…) o mundo é um palco e o WTC foi o espetáculo da vez.”

“(…) os estados unidos tem um grande interesse em manter Bim Ladem como um simbolo do medo, para se fazer a manutenção constante da venda de armas.”

“toda a nação tem sempre oque merece e os estados unido plantou isso agora so colheu o que plantou por isso acho que qualquer ato terrorista contra americano é valido”

“Se prenderem Osama Bin Laden, acabam com a Industria Bélica, e isso os EUA não tem interesse, Bin Laden é o urgulho dos americanos, ele está vivo sim e Bush sabe disso.”

“Quem realmente orquestrou o ataque do 11 de setembro foi o próprio governo dos EUA, para poder invadir os países ricos em petróleo, e com isso dominar o petróleo desses países com a desculpa de que estão atrás de terroristas. (…) .O BRASIL QUE SE CUIDE.”

“(…)isto de terrorismo me chera uma mentira total.”

Três livros

terça-feira, setembro 9, 2008

“História Universal da Destruição de Livros”, Fernando Báez

É famosa a advertência de Heine “onde queimam livros, acabam queimando pessoas”. Em Berlin existe um memorial onde a frase pode ser lida. Está no mesmo local onde, em 1933, os nazistas queimaram 20.000 livros considerados degenerados. Nessa cerimônia bárbara, além de Heine, foram destruídas obras de Bertolt Brecht, Karl Marx, Sigmund Freud, Ernest Hemingway – entre outros.

Menos conhecidos são outros eventos que culminaram na destruição de milhares de valor inestimável. A destruição da Biblioteca de Alexandria pelos romanos é o mais famoso evento desse tipo na Antigüidade. Mas e a perda do acervo da biblioteca de Bagdá logo depois da invasão americana? Nesse episódio, que à época foi obscurecido pelo saque ao Museu Nacional, foram perdidos mais de um milhão de livros – número que faz parecer insignificante a cerimônia dos nazistas.

O escritor venezuelano Fernando Báez, um especialista no assunto, estudou esse e outros casos na sua obra “História Universal da Destruição de Livros”, publicada no Brasil pela Ediouro (49,90, mas fácil de encontrar pela metade do pontas de estoque). Um livro sobre a destruição de outros livros. Uma idéia bastante interessante, mas que infelizmente resultou num livro que poderia ser resumido como um almanaque de eventos que resultaram na destruição de bibliotecas ou coleções particulares. Quer saber quantos livros foram perdidos no bombardeio de Heidelberg, na Segunda Guerra? Báez responde. Sabia que a primeira Biblioteca do Congresso americano pegou fogo – e que a segunda começou com a coleção particular de Thomas Jefferson? Está no livro.

É uma obra envolvente, mas que carece de uma perspectiva mais aprofundada sobre a destruição da memória ou – porque muitos livros foram destruídos deliberadamente, seja porque eram subversivos ou considerados imorais – “genocídio cultural”. É provável que Báez tenha pensado que o leitor chegaria à conclusão que o maior inimigo das bibliotecas é o próprio homem – e não as traças, embora exista, acredite, um capítulo sobre elas. O autor se sai melhor contando sua experiência no Iraque – é um assessor da Unesco -, mas o relato tem apenas umas poucas páginas.

Báez dedicou 12 anos à elaboração da obra. Mas não foi desta vez que um tema tão rico recebeu o livro que merece.

“O Grande Livro do Jornalismo”, John E. Lewis (José Olympio, R$ 49,00)

Essa edição de nome exagerado sugere que os 55 textos reunidos são “obras-primas” do jornalismo. Esse elogio, definitivamente, não vale para todos os textos. Há muita coisa banal adicionada com o claro propósito de estabelecer uma cronologia histórica. Mas o pior fica para os excertos de livros – como é o caso de reportagens de George Orwell, Michael Herr e John Hersey. Não faz sentido para quem possui as obras e, no caso de quem não leu, são frustrantes porque estão incompletas.

Infelizmente, não há nenhum brasileiro no livro – as reportagens são, sem exceção, escritas por anglo-saxões; o título mais apropriado teria sido “O Grande Livro do Jornalismo em Língua Inglesa”. Mas há muitos textos que tornam esse livro um coletânea valiosa – embora a sensação ao terminar o volume seja mesmo de frustração. Gloria Steinem e Martha Gellhorn, duas mulheres num livro repleto de textos escritos por homens, assinam duas das reportagens mais interessantes. “Eu Fui uma Coelhinha da Playboy”, onde a ativista feminista Steinem se infiltrou na seleção de mulheres que trabalhavam nos antigos “Playboy Clubs”, revelando toda a degradação sofrida pelas candidatas. Em “Justiça à Noite”, Gelhorn, a esposa de Hemingway, descreveu um linchamento que presenciou no Sul dos EUA.

O livro tem alguns méritos. Um deles é não se limitar a um gênero de matéria jornalística, mas incluir entrevistas, ensaios e editoriais – o editorial do Times sobre a prisão de Mick Jagger é sensacional; levando a pensar que seria bom ler um livro que reunisse grandes textos da “página três”.

De qualquer forma, “O Grande Livro do Jornalismo” é necessário porque não estão disponíveis em português muitos títulos que reúnam jornalistas tão diferentes e valiosos.

“McMáfia: Crime sem Fronteiras”, Misha Glenny

Não se deixe enganar pelo título que sugere um panfleto contra corporações de fast-food. Os vilões dessa obra são bem mais violentos. Do insuspeito Canadá até a fracassada Nigéria, das estatais corruptas do Leste Europeu às cadeias controladas pelo PCC, o autor de “McMáfia” (Cia. das Letras, R$ 48,00), o jornalista Misha Glenny, mostra um painel rico e envolvente sobre essas organizações criminosas que só prosperam com a globalização – e que, em muitos casos, são mais “globalizadas” que os maiores bancos – e a falta de pulso dos governos para combaterem o crime.

Existem poucos heróis e sobram bandidos. As histórisa sobre o contrabando de cigarros e gasolina durante as inúmeras guerras dos Balcãs são impressionantes. Longe de assumirem as brigas ancestrais da região – ou como a imprensa fez parecer a coisa toda -, os criminosos mostraram um senso de negócios que superava qualquer barreira cultural. Sérvios negociavam gasolina com croatas que repassavam o combustível para seu exército – que ia matar outros sérvios. Croatas traziam cigarros para os sérvios e assim por diante. Até mesmo o notavo Estado do Montenegro pagava suas contas com cigarros que eram contrabandeados para a Itália, separada por apenas alguns quilômetros de mar. A corrupção dos Estados não é novidade, mas o caso de Montenegro é assustador porque toda a receita do governo provinha de atividades criminosas.

Não é exatamente o caso da Nigéria, que recebe um capítulo delicioso e assustador no livro. Rica em petróleo mas com a maior parte da população vivendo miseravelmente, esse país é um grande exportador, mas também se notabilizou por uma prática que só prosperou com a globalização: a fraude da comissão adiantada – ou o “golpe 419”, como é designada no código penal nigeriano.

No Brasil, muita gente já recebeu um e-mail ou, antigamente, um fax de alguém que representava um figurão da Nigéria. Na mensagem, o remetente oferecia quantias fabulosas de dinheiro provenientes de comissões da venda de petróleo ou de obras de infra-estrutura no país. Bastava que o destinatário financiasse o início dessa empreitada. O negócio, claro, era uma fraude. Difícil acreditar que alguém seria tão ingênuo de cair nessa. O livro apresenta a história de Nelson Saka­gu­chi, gerente do Banco Noroeste (hoje absorvido pelo Santander). É uma história que, como tantas outras no Brasil já caiu no esquecimento, mas veio à público em 1997. Depois de receber uma dessas propostas, Saka­gu­chi desviou enormes somas do banco que estavam guardadas em paraísos fiscais na esperança de ganhar mais. Não acreditando – ou não querendo acreditar – que fôra vítima de um golpe, começou a desviar cada vez mais dinheiro para os nigerianos, que pediam mais um “pouquinho” porque o negócio estava supostamente saindo. A situação foi ficando cada vez mais estranha. Correndo contra o relógio antes que as contas fossem auditadas, Saka­gu­chi pagou 20 milhões para uma mãe-de-santo sacrificar 120 mil pombas brancas (isso mesmo). Dona Maria Rodrigues não resolveu o problema, mas isso não a impediu de arrancar mais dinheiro – desta vez para o sacrifício de 120 mil pombas negras. A casa acabou caindo para Saka­gu­chi, e ele foi para a cadeia. Ao todo foram desviados 242 milhões de dólares. O grosso do dinheiro foi parar nos bolsos de Emmanuel Nwude, chefe tribal e maior golpista desse gênero na Nigéria – e um herói nacional (os nigerianos não vêem problema em arrancar dinheiro dos “brancos”). Nwude conta com a proteção dos governantes do país. Uma história comum na África. E no Brasil.

Mostrando que entende do assunto, não se deixando levar pelo deslumbramento, algo comum nos jornalistas estrangeiros no Brasil, Glenny, que esteve presente na última Flip, também aborda outros três casos de crime organizado no Brasil: Law Kin Chong e seus produtos falsificados; os cybercrimes; e o PCC. A polícia, é claro, é mostrada como organização corrupta. As exceções ficam para alguns setores da PF, com elogios para o agora célebre delegado Protógenes Queiroz. Esse painel de organizações criminosas variadas também faz parte de outros países estudados, com destaque para a Rússia e a China.

O caso russo oferece uma análise sobre o papel das minorias no crime. É um tema perigoso, fácil de resultar em generalizações racistas, mas Glenny, preocupado com isso, se sai bem. Ele mostra como os judeus russos, que constituem apenas uma fração da população, são maioria nessas organizações. Barrados do serviço público durante o período comunista, sobrou para os judeus sobreviverem de outras formas. Muitos se voltaram para a vocação mercantil que caracteriza seu povo, algo que numa terra sem regras para o mercado teria como resultado o crime. As atividades não ficaram restritas à Rússia. Com a imigração maciça de judeus russos para Israel na década de 90, até mesmo esse país mediterrâneo se acostumou com os carrões vulgares e  o tráfico de mulheres – uma das atividades mais deprimentes descritas no livro.

Além do tráfico de mulheres para alimentar a prostituição em países ricos – com as vítimas mantidas em regime de escravidão -, essas organizações se especializaram em muitas outras coisas. As drogas, como sempre; o contrabando; a venda de “proteção”; a falsificação. O último crime recebe atenção especial no capítulo sobre a China. Glenny demonstra de maneira convincente que a falsificação, que parece inofensiva para muitos, é apenas a ponta do iceberg. As mesmas organizações que falsificam bolsas Louis Vuitton também financiam o tráfico de drogas e o assassinato de rivais. Até mesmo a stalinista Coréia do Norte é pródiga nesse tipo de atividade: Raijin, uma pequena zona de livre comércio do país, é um centro de falsificação de cigarros.

Glenny também demonstra que as organizações criminosas não ficam restritas à golpes e atividades tradicionais, mas sempre buscam o prêmio maior, se infiltrando em cada parte do tecido social e até provocando crises econômicas. Foi a tolerância do governo japonês com a Yakuza que permitiu que a organização tivesse um grande papel na bolha imobiliária do país, no começo dos anos 90. Uma situação parecida está acontecendo nos Emirados Árabes Unidos, um novo pólo imobiliário e um país que faz poucas perguntas sobre a origem do dinheiro dos investidores.

Sobram críticas sobre o papel dos EUA nessas questões. Enquanto pressionam para a desregulamentação dos mercados de outros países, as autoridades do país nada fazem para combater os paraísos fiscais, um porto seguro para o dinheiro sujo. A impressão que o livro deixa é que os criminosos sempre estão um passo à frente dos governos – isso quando eles estão dispostos a reprimir.

Uma leitura imperdível.

(Algumas informações desse livro que parece tão fresco já estão desatualizadas. Glenny propõe a legalização das drogas como uma das formas para reduzir a influência das máfias. Nada de errado aí. Mas o caso colombiano, em especial o Plano Colômbia, é rechaçado porque a guerrilha não está sendo derrotada. O cenário, porém, agora é outro.)

Deutsches requiem

segunda-feira, setembro 8, 2008

Dieguito Maradona. Você compraria um livro desse homem?

Em 2007, a Feira do Livro de Frankfurt provocou polêmica com os espanhóis ao homenagear os catalães, com quem tem um relacionamento tenso. Agora é a vez dos filhotes hispânicos, nossos “hermanos” argentinos, ficarem furiosos. Deu na Folha: a feira de 2010 terá como tema a Argentina (em 1994 foi a vez do Brasil). Até aí nada demais, mas vejam só quem vão ser os ícones argentinos nessa tradicional feira literária e editorial: Diego Maradona, Carlos Gardel, Eva Duarte de Perón e Ernesto Che Guevara! (Até onde se sabe, os dois primeiros nunca escreveram nada. Evita, aquela cujo marido gostava dizer “alpargatas sí, libros no“, escreveu um best-seller, mas com a ajuda de um ghostwriter. Guevara deixou várias obras, mas não foi com a ajuda de uma Olivetti que fez sua fama.)

Ficaram de fora Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Ernesto Sabato, José Hernández etc – uma lista interminável como uma biblioteca do primeiro.

Ignorância alemã? Nein, foi o próprio comitê organizador da representação argentina que escolheu esses nomes. O presidente da Academia Argentina de Letras, Pedro Luis Barcia ficou horrorizado: “É como se o Brasil escolhesse Pelé e João Gilberto no lugar de Machado de Assis e Guimarães Rosa. Ou como se pedíssemos a Messi para entrar na Olimpíada com uma foto de Borges. Estão misturando as coisas.” Marcos Aguinis, autor de “O Atroz Encanto de Ser Argentino” (numa comparação grosseira, um “Raízes do Brasil” argentino), foi além: “É lamentável que o populismo se alie à ignorância para produzir um resultado catastrófico.”

Os responsáveis pelo imbróglio se defenderam. “Com esses ícones, queremos simbolizar distintos aspectos da vida argentina”, afirmou Magdalena Faillace, responsável pela comissão organizadora.

Barraco armado, o comitê organizador cedeu um pouco: Borges e Cortázar acabaram incluídos. Mas não pensaram em nenhum escritor vivo – sorry, Sabato.

Mais sobre essa história aqui e aqui.

“Carajo, Fidel!”

domingo, setembro 7, 2008

Em maio de 2008, Lucie Ceccaldi publicou na França um livro em que atacava seu filho, Michel Houellebecq, um dos maiores e mais bem-sucedidos escritores do país. A causa do ataque foi o retrato dela como uma hippie sexualmente obcecada e egoísta no seu primeiro sucesso literário. A “velha vadia”, como Houellebecq costuma se referir à mãe, o abandonou ainda bebê e, envolvida com a causa comunista e do anticolonialismo, foi para a África trabalhar como médica. Ele acabou sendo criado pela avó paterna, de quem adotou o sobrenome.

Descontando a celebridade de Houellebecq, essa podia ser apenas mais uma história triste de abandono. Pais que se envolvem em seitas (seja a Igreja Universal ou a Internacional Comunista) e deixam os filhos em segundo plano também não são exatamente novidade. Mas e se os pais decidem mergulhar seus filhos nesse “experimento”?

Madame Ceccaldi abandonou seu filho e foi perseguir sua utopia sozinha. Bem diferente é o caso da família de la Mesa no excelente filme “A Culpa é do Fidel!” (“La Faute à Fidel!”, França, 2006).

Os de la Mesa são uma típica família burguesa francesa dos anos 70 – o avô tem um vinhedo, a mãe é jornalista e a filha mais velha freqüenta uma escola católica -, mas algo muda quando o cunhado comunista de Fernando (Stefano Accorsi), o chefe da família, é executado pela ditadura franquista. Fenando, deprimido, acaba acolhendo a irmã e a sobrinha. Depois de uma viagem ao Chile de Allende, ele e sua esposa (Julie Depardieu, filha de Gérard) decidem virar comunistas e viver de acordo com a ideologia.

A grande surpresa desse filme é a pequena Anna, a filha do casal interpretada pela talentosa Nina Kervel-Bey (mas você poderia achar que é a Mafalda do cartunista Quino). É através dos seus olhos que acompanhamos a família se mudar de uma grande e confortável casa para um apartamento minúsculo que rapidamente se converte num “aparelho” para atividades de apoio à causa comunista. Os pais se transformam (“Não quero você lendo esse Mickey fascista!”) muito para o desgosto da pequena Anna, uma criança egoísta e que gosta da boa vida como qualquer outra. A transformação é acompanhada de um pouco de hipocrisia. Instalados com segurança em Paris – a cidade do “Samba de Orly” que serviu de refúgio para todo esquerdista do planeta que sonhava com a revolução -, os pais discutem revolução na América Latina ao mesmo tempo em que negligenciam os filhos, cada vez mais confusos com a nova educação (“Eu quero brincar de Allende, você é o Franco”). O radicalismo dos pais chega ao ponto de levarem as crianças num protesto que termina em baderna e dispersão por gás lacrimogêneo – tudo com a câmera registrando o ponto de vista de Anna, que tem tamanho suficiente apenas para ver até a cintura de quem está à frente.

É engraçado e triste observar o efeito deixado nas crianças pelos presentes que os pais trazem do Chile (roupas andinas, aquelas de tocador de flauta boliviano). Em certo momento, Anna não se contém e se queixa dos “barbudos” que vivem entrando e saindo do apartamento (aqueles de centro acadêmico de universidade pública). Os eventos históricos da década estão lá, mas só fragmentos são absorvidos pela pequena protagonista, que faz confusão com eles mas percebe as contradições do idealismo dos pais. Porém, algo vai se transformando em Anna, que deixa de lado o egoísmo e passa a se interessar pelas histórias (parábolas, mitologia) que os refugiados políticos de passagem contam. Aos poucos, mas não abraçando a causa dos seus pais (afinal, é só uma criança), a menina que só se interessava em corrigir os outros se torna questionadora e percebe que nem tudo é preto ou branco – ao contrário de seus pais comunistas ou seus avós reacionários. A cena final pode ser vista como uma negação do que foi visto anteriormente ou, para quem viveu aquela época, uma conclusão de que o “caminho é outro”.

É o filme de estréia de Julie Gavras, que viveu uma história parecida com a da protagonista. Embora seja baseado num livro italiano com personagens italianos, “A Culpa” tem um quê de autobiográfico. Julie é filha do cineasta Costa Gavras, famoso pelos seus filmes engajados que denunciam golpes de estado – os excelentes “Z”, “Estado de Sítio”, “Missing” e os deprimentes “Atraiçoados” e “Quarto Poder”.

Num país que produziu tantos deslumbrados pelo comunismo (Debray, Sartre, Althusser) – sendo que vários deles, mesmo como “fellow travellers“, justificaram todo tipo de crime -, “A Culpa” poderia ser um acerto de contas (a la Houellebecq) ou uma mera ridicularização do passado, mas Gavras, e, sobretudo, a pequena Nina-Anna, conseguiram mostrar um retrato rico da vida em família. O casal de la Mesa pode ser excêntrico e estúpido em suas escolhas políticas, mas ama seus filhos.

Antes de passarem no caixa da Petrobras e pedirem um vale, os cineastas brasileiros que choram pela revolução perdida deveriam prestar atenção na pequena Anna.

Put Out More Flags

quinta-feira, agosto 14, 2008

Custei a acreditar no deslize da BBC Brasil. Já aconteceu de um jornal italiano confundir o ator Daniel Dantas com o banqueiro. Agora é a vez da BBC trocar a imagem de homônimos. A confusão foi com a guerra não declarada entre a Rússia e a pequena Geórgia.

Os russos estão chegando em Atlanta? Na chamada de uma matéria que explica “quem ganha e quem perde na Geórgia“, algum editor se confundiu e colocou a bandeira do Estado americano da Geórgia – terra natal de Jimmy Carter e da CNN (e não de Stalin e Beria) -, numa montagem com as bandeiras russa e americana.

Esta é a bandeira da nação georgiana:

A atual bandeira do Estado americano da Geórgia:

(O Estado já teve outras cinco bandeiras. A versão de 1956, considerada ofensiva por incorporar a Battle Flag, a bandeira confederada, e que provocou críticas durante as olimpíadas de 1996, foi substituída em 2001. Porém, a sucessora não fez sucesso. Obra de um comitê, incorporou todas as bandeiras anteriores e pecou pelo excesso. Acabou sendo substituída em 2003 pela bandeira que a BBC pensou ser do país europeu.

Armas em filmes

segunda-feira, agosto 11, 2008

Hans Grüber: o vilão de Duro de Matar usa Heckler & Koch P7M8

Gosta de armas e filmes e quer saber qual pistola ou metralhadora o personagem usou para matar um inimigo? O Internet Movie Firearms Database responde. (A dica é do Nonsense.)

“The mob has many heads, but no brains”

segunda-feira, agosto 4, 2008

Frases da multidão que acompanhava “Mulher que ameaçava se matar“, hoje, no centro de Curitiba:

“Ela só vai sair do carro quando o Grêmio sair da liderança! Ninguém segura o Grêmio!”, gritou um sujeito, arrancando gargalhadas.

“Se ela não se matar, eu vou lá matar ela. Imagina! Andar duas quadras por causa dela!”

“Tem que dar uma ajudazinha. Ela tá sem coragem.”

“Deve ser a TPM!”

“Ah! É TPM!”, de uma mulher que observava.

“Por que foi escolher o centro?”

“Isso é falta de homem!”

“Se mata logo!”

“Nóis qué trabalhá!”

“Se ela quer se matar, por que não deixam ela? Que exagero!”

“Cheio de serviço e me aparece essa!”, de um passante, depois que já passava das 18h.

“Porra! Fechar a praça por causa dela?”

“Não, eu não tenho pena. Tanta gente doente por aí, e ela com saúde…”

“Só pode ser por causa de homem!”

“Tá grávida? Agora que esse cara [o suposto namorado que morava na praça] some de vez. Esse cara tá longe.”

“Parece que é a mulher de um garçom do [bar] Stuart.”

“Tem que atirar na mão dela!”

“Isso aqui tá parecendo o Rio.”

“Se mata logo!”, grito de uma mulher na janela de um prédio, antes de uma longa gargalhada.

“Cadê a televisão?”

“Por que ela não se mata logo? Fica enrolando…”

“Cadê o carro? Ah… não dá pra ver… Não tem nada para ver aqui…”

“Enquanto ela não se mata os bandidos estão soltos por aí.”

“Se quiser se matar, se mate! Mas atrapalhar o trânsito?”

“Meu carro está ali, bem perto. Eu bem que pensei em estacionar lá”, apontando para a direção oposta, “mas, que merda!, não fui.”

– “Eu quero passar”, diz a mulher com uma sacola.
– “Senhora, só dando a volta na quadra”, informa o policial.
– “Mas eu vou naquele prédio ali.”
– “Não pode. Fica bem na frente da mulher. A senhora não quer ela atire na senhora, né? Em qual prédio que é mesmo?”
– “É… hum… aquele, aquele ali.”

Depois de contar uma série de piadas sobre a situação e tentar passar à força o bloqueio policial, a mulher com a sacola volta à carga:

– “Mas eu preciso passar. É logo ali. Eu vou abaixadinha.”
– “Não, minha senhora. Não pode”, responde o policial.
– “Mas eu preciso levar isso aqui!”, diz a mulher, apontando para a sacola.

Mais piadas (“ela qué o Lula!”), nova tentativa:

– “Mas meu filho está doente!”
– “Que doença ele tem?”, pergunta uma policial.
– “Leucemia!”
– “Hum… não dá, não pode”, responde a policial, desconfiada.

A mulher fura o bloqueio, rindo, mas é detida.

“Se até no Iraque ele vão filmar…”, de um policial explicando para um colega o porquê de ter deixado uma equipe de reportagem passar pelo bloqueio.

“Tem uma ‘psicótica’ com uma pistola num carro. Já efetuou vários disparos. Tá atirando em todo mundo que aparece”, de um guarda municipal.

“Se é uma pistola, ela deve ter um monte de tiros. Quantas balas vai? Doze, catorze?”

(Não ouvi ninguém dizer “Meu Deus!” ou qualquer interjeição de espanto ou tristeza.)

Ainda existem bons livros sobre Berlin

quinta-feira, julho 31, 2008

“Berlin: Portrait of a City” é, sem exagero, o mais belo livro de fotografias já organizado sobre uma cidade. Esqueça esses livros comemorativos lançados por secretarias de cultura ou aqueles patéticos catálogos para turistas. Esse é um trabalho ambicioso e apaixonado.

A editora responsável por essa obra-prima é a Taschen, famosa pelos livros gigantescos e gosto por temas polêmicos. A organização é de Hans-Christian Adam.

Reunir fotos de uma cidade pode parecer banal – ainda mais se comparado com outras obras da editora -, mas o resultado é grandioso e nada menos que emocionante. A contracapa avisa que esse é o “estudo mais abrangente já realizado sobre Berlin”. De fato, é difícil lembrar de um livro fotográfico mais completo sobre a cidade. São mais de 140 anos mostrados através das lentes de Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, Helmut Newton, Thomas Struth, Wolfgang Tillmans, Heinrich Zille etc.

O tratamento editorial é impecável, e o tamanho enorme de muitas das fotos permite examinar detalhes fascinantes da antiga paisagem urbana. Ganham vida as antigas indústrias, as velhas figuras dos “anos loucos” e, inevitavelmente, as conseqüências da guerra. A destruição sofrida pela cidade parece inacreditável, mas é emocionante notar que a vida cotidiana, apesar de tudo, continuou. E Berlin, nesses 140 anos, parece tão viva graças aos seus habitantes. A destruição da guerra dá lugar à tensão da Guerra Fria e à divisão da cidade, mas, novamente, nada disso é páreo para a coragem dos berlinenses, que reconstruíram o que parecia completamente perdido. Eles recebem uma bela homenagem nessa obra. Notável que esse livro tenha tratado marginalmente o nazismo e as figuras importantes da política, mas, começando na expansão urbana do século 19 e terminando nos arrojados edifícios pós-modernos, se concentrado nos rostos de gente comum e nas construções – e mostrado como essas coisas são afetadas pela história.

Berlin, essa cidade de transformações e destruição, tantas vezes imortalizada na literatura e no cinema, tem um livro de fotografias à altura de sua grandeza.

Obs: Meu pai, que nasceu em Berlin, fez aniversário ontem (30 de julho). “Berlin: Portrait einer Stadt” foi o presente escolhido pelo meu irmão e minha cunhada.

Celebridades Políticas

segunda-feira, julho 28, 2008

Clint e Arnie: eles são minoria na Califórnia

Para quais campanhas eleitorais as celebridades americanas fazem doações? O Newsmeat responde. Na lista, o que todo mundo já sabia: Hollywood é dominada pelos democratas. Mas existem republicanos. Os generosos do passado são as velhas figurinhas: James Stewart, Bob Hope, Frank Capra, Charlton Heston e James Cagney. No time dos vivos: Adam Sandler (?), Shirley Temple, Robert Duvall, Chuck Norris (claro), Prince (!?) e Jim Caviezel (Jesus é republicano). O horrível cantor José Feliciano também vota no Grand Old Party. Clint Eastwood, um dos atores republicanos mais famosos e ex-prefeito de Carmel pelo partido, doou 2.300 dólares para a campanha de John McCain.

O republicano que mais abre a carteira é o escritor Tom Clancy: 237.050 dólares, os mais recentes para o reacionário pré-candidato Duncan Hunter (saudades da Guerra Fria?). O falecido Frank Sinatra deve ter mesmo se desiludido com seu velho amigo John Kennedy: a maior parte de suas doações foi para candidatos republicanos – Ronald Reagan e George H. Bush incluídos.

Mas a maioria doa mesmo em campanhas locais. Em alguns casos, as celebridades doaram para os dois partidos. Só assim para o diretor Oliver-conspiração-Stone ter contribuído para a campanha de um republicano.