Archive for the ‘Politics’ Category

Diplomas machistas

quarta-feira, setembro 24, 2008

Sufragistas americanas: vocês esqueceram a flexão no diploma!

Reforma política? Desoneração fiscal?

Não. Existem coisas mais urgentes. Você, mulher, se sentiu pouco feminina ao pegar seu diploma? Pois é, estava escrito “advogado”, assim mesmo, naquele espaço que informa qual é sua nova profissão. Você, mulher, achou que o diploma era uma conquista, algo que a diferenciava de sua avó condenada desde cedo à escravidão na cozinha e sua linha de montagem de negas malucas, mas o “advogado” denunciou que você só tinha caído em mais uma armadilha dos porcos chauvinistas, fazendo você se sentir uma mera reprodutora da era vitoriana.

Calma, não é preciso queimar sutiãs e desenterrar Betty Friedan, um projeto de lei em discussão no senado quer determinar “o emprego obrigatório da flexão de gênero para nomear profissão ou grau em diplomas”.  A autora do projeto, a senadorA Serys Slhessarenko (PT-MT), justifica a medida (só mesmo os porcos chauvinistas precisam de uma justificativa) porque “muitas instituições de ensino continuam a emitir seus diplomas, para todos, indistintamente, na flexão masculina, como se as profissões fossem designadas sempre por substantivos comuns para os dois gêneros”. E segue: “Ao contrário do que fazem os consultórios, os escritórios, as repartições públicas etc”.

O melhor de tudo é que a lei será estendida (“baseado no senso de justiça”) para os diplomas antigos – e gratuitamente ainda por cima. Basta você, mulher, exigir.

Mas e se você, mulher, for membro(a) do Corpo de Bombeiros ou da Polícia Militar? “Capitão” (você chegou lá, garota!) é algo tão feminino quanto levantar a tampa do vaso. Calma, um projeto de lei similar está em discussão na Assembléia Legislativa do Paraná, essa Berkeley das araucárias. Pretende que “a flexão do gênero deverá estar em consonância com o sexo do candidato ou ocupante do cargo eletivo, assim como nas designações de patentes, postos e graduações dos militares e do Corpo de Bombeiros”. O autor é o deputado Luiz Carlos Martins (PDT), que apresentou o projeto a pedido do escritor Albino de Brito Freire (num esforço conjunto para combater a obrigação genética e cultural que faz os homens se comportarem como patres famílias).

Além disso, “o projeto representará a normatização da nomenclatura dos cargos públicos”.

Ainda é pouco.

Celebridades Políticas

segunda-feira, julho 28, 2008

Clint e Arnie: eles são minoria na Califórnia

Para quais campanhas eleitorais as celebridades americanas fazem doações? O Newsmeat responde. Na lista, o que todo mundo já sabia: Hollywood é dominada pelos democratas. Mas existem republicanos. Os generosos do passado são as velhas figurinhas: James Stewart, Bob Hope, Frank Capra, Charlton Heston e James Cagney. No time dos vivos: Adam Sandler (?), Shirley Temple, Robert Duvall, Chuck Norris (claro), Prince (!?) e Jim Caviezel (Jesus é republicano). O horrível cantor José Feliciano também vota no Grand Old Party. Clint Eastwood, um dos atores republicanos mais famosos e ex-prefeito de Carmel pelo partido, doou 2.300 dólares para a campanha de John McCain.

O republicano que mais abre a carteira é o escritor Tom Clancy: 237.050 dólares, os mais recentes para o reacionário pré-candidato Duncan Hunter (saudades da Guerra Fria?). O falecido Frank Sinatra deve ter mesmo se desiludido com seu velho amigo John Kennedy: a maior parte de suas doações foi para candidatos republicanos – Ronald Reagan e George H. Bush incluídos.

Mas a maioria doa mesmo em campanhas locais. Em alguns casos, as celebridades doaram para os dois partidos. Só assim para o diretor Oliver-conspiração-Stone ter contribuído para a campanha de um republicano.

Obamania em Berlim

segunda-feira, julho 28, 2008

Berlim é a cidade que poderia resumir boa parte da história do século 20. Sofreu como nenhuma outra os efeitos das duas guerras mundiais e foi o palco principal da Guerra Fria. Natural que seu simbolismo seja grande. Para alguns presidentes americanos, Berlim também marcou momentos de triunfo oratório. John Kennedy disse “Eu sou um berlinense”, Ronald Reagan pediu “Sr. Gorbachev, derrube este muro!”. Menos lembrado é Bill Clinton: em 1994, ele comemorou “Berlim é livre!”.

Kennedy, ao contrário de Reagan e Clinton, não discursou à frente do Portão de Brandemburgo, mas tinha em comum com seus sucessores a condição de presidente.

O candidato democrata Barack Obama ainda não chegou lá, mas apostou que um discurso na capital alemã é o tipo de recado que deve passar para os que o julgam inapto em questões externas. Aposta arriscada. O governo alemão vetou o Portão, e Obama teve que se contentar com a Coluna da Vitória.

[Continua]

O voto obrigatório

quinta-feira, julho 17, 2008

O número de eleitores só aumenta a cada eleição. Chegará a 130 milhões na próxima. Seria um número para se comemorar e um indicativo de que o Brasil é um país bastante politizado não fosse uma anomalia que pareceria absurda na maior parte das democracias do mundo.

No Brasil, é quase certo um jovem de 18 anos escapar do serviço militar obrigatório. Sucateamento do exército e excesso de recrutas colaboram para que ninguém tenha que servir contra a vontade. Mas de uma coisa a pessoa que fizer 18, mulher ou homem, não pode escapar (não até fazer 70 anos): é obrigatório se inscrever numa lista eleitoral e comparecer na seção em dia de eleição.

Não é o método Mugabe de ameaçar fisicamente a população a comparecer e conseqüentemente legitimar um pleito fraudulento, mas algo que colabora para uma série de distorções e injustiças.

Na prática, o cidadão que não comparecer – e 16% não o fez em 2006 – pode contar com a justificativa que pode ser feita até 60 dias depois das eleições. Mas esse dispositivo, que poderia relaxar o absurdo da obrigatoriedade, implica na manutenção de uma burocracia que existe apenas para julgar a veracidade da versão dos ausentes. É espantoso que uma quantidade enorme de tempo e dinheiro sejam gastos para analisar uma questão sem qualquer importância. E o que dizer da série de chantagens que são colocadas em prática para forçar o eleitor a comparecer? Não votando em três turnos consecutivos, o eleitor ausente não pode participar de concursos públicos, se matricular numa universidade pública e tirar uma cédula de identidade. Terá também que pagar uma multa. E se quiser cair fora do país porque ficou indignado com tudo isso, também está lascado: tirar passaporte, só com o comprovante de voto na última eleição.

É paradoxal punir alguém que simplesmente se recusou a exercer um direito. A maioria das democracias nunca flertou com essa idéia. Alguns defensores do voto obrigatório reconhecem que essa anomalia não existe em países como os EUA, Reino Unido, França e Alemanha, mas contra-argumentam os defensores do voto facultativo citando a Itália, a Austrália e a Bélgica – países ricos que obrigam seus cidadãos a comparecerem nas seções eleitorais a cada eleição. Não parece ter ocorrido que esses três países são exceções nas democracias tradicionais. Obviamente o voto obrigatório não é a causa, mas a Bélgica e Itália também são péssimos exemplos de governos representativos. Há meses a Bélgica passa por uma crise que impede a formação ou trava o funcionamento de qualquer governo. A Itália, eternamente bagunçada e com sua média de um governo diferente a cada ano, também não deveria ser um exemplo. E mesmo esses dois países não aplicam medidas tão punitivas como as brasileiras. De qualquer forma, não é uma questão de se espelhar nos outros, mas sim debater a legitimidade da obrigação, um resquício de autoritarismo numa democracia que, apesar de muitos tropeços, está consolidada.

Autoritária e exótica, a obrigatoriedade até que surgiu com boas intenções. Estreou no Brasil em 1932, por decreto do governo provisório de Getúlio Vargas. Foi pensada, junto com outras medidas, para acabar com as fraudes eleitorais que caracterizaram a República Velha. Sem qualquer controle unificado, currais eleitorais podiam recusar ou intimidar qualquer eleitor que não estivesse na mesma sintonia dos poderosos locais. Acabou sendo incluída na Constituição de 1934 e nunca desapareceu, mesmo com os períodos em que era “obrigatório não votar” para alguns ou todos os cargos (1937-1945 e 1964-1985). Com as fraudes eleitorais ficando para trás, a justificativa inicial acabou perdendo o sentido.

No Congresso já foram propostos 24 projetos para acabar com a obrigatoriedade, e de vez em quando algum político reformista aparece defendendo seu fim (o último digno de nota foi o então senador Sérgio Cabral em 2004), mas com a protelação interminável da reforma política qualquer movimento nesse sentido é logo esquecido. É possível concluir que por não se tratar de uma questão que beneficie os políticos – como fundo partidário, fidelidade etc -, mas sim os eleitores, ela nunca vai suscitar pressa ou vontade no Congresso.

É difícil determinar se o comparecimento nas eleições iria cair significativamente com o fim da obrigatoriedade, mas para os políticos a legislação atual obviamente é confortável. Só têm que convecer o eleitorado a votar neles, convencer os eleitores a saírem de casa já está assegurado – ao contrário dos EUA e maior parte da Europa, onde as campanhas devem ter um apelo muito maior por causa do baixo comparecimento. Mas por que os eleitores se sujeitam a isso? Certo, se trata de apenas um domingo, talvez dois, a cada dois anos – contrastando com os 12 meses de serviço militar, este sim de provocar temor e indignação nas mães de classe média -, e também existe como contornar as punições, mesmo que pagando. Também existem as anistias. Mas parece que a população, mesmo com a indignação generalizada com a classe política, parece achar natural a obrigatoriedade. Pesquisas mostram 60%, 75% ou 80% defendendo o voto facultativo, mas qualquer demonstração ou movimento mais barulhento inexistem.

Pode-se argumentar que a obrigatoriedade vale a pena para incentivar (ou forçar?) as pessoas a se integrarem ao sistema político. Mas é uma saída fácil, não implicando em melhorar a educação e a politização do eleitorado. Aliás, os defensores do voto facultativo caem numa armadilha similar, argumentando que seria melhor  “só os mais educados saírem para votar”. De novo, sem estender essa educação para toda a população, mas partindo do pressuposto que só quem tivesse educação (ou consciência) teria vontade de votar numa eleição sem obrigatoriedade. Um argumento pra lá de elitista. É importante lembrar que países com voto facultativo também têm muitos problemas com suas classes políticas. E o comparecimento em países desenvolvidos é considerado baixo, nem mesmo os “conscientes” têm vontade de votar. E mesmo que a qualidade dos políticos desses países seja melhor, a diferença é que os mecanismos para combater a corrupção são mais eficientes.

Resultados práticos ou diferenças com outros países fogem da  questão principal: ninguém deve ser obrigado a exercer um direito – e muito menos ser punido por isso. Simples assim. A Constituição brasileira explica como deve ser exercido o voto. Está na seção “Direitos Políticos”. Por causa da obrigatoriedade, seria mais apropriado escrever “Deveres Políticos”.

“What is the capital of Assyria?”

quinta-feira, julho 10, 2008

Alemanha: o portão não está aberto a todos

Com uma das taxas de fertilidade mais baixas do mundo, a Alemanha pode ter sua população reduzida de forma significativa em 2050. Uma projeção apontou que até lá a população atual de 82 milhões pode cair para 69 milhões. Mesmo esse número pessimista leva em conta uma imigração anual de 100 mil pessoas para o país. Com 200 mil imigrantes o problema só diminui um pouco: a população seria de 74 milhões.

É um problema que assombra o país há quase 20 anos.  Ainda não se concluiu se os incentivos à natalidade – que também existem em vários oitros países europeus – vão dar resultados. Mesmo assim pouco está sendo feito para facilitar a entrada de imigrantes.

Até 2000, o direito à cidadania alemã era baseado no sangue (“princípio da descendência”). Não fazia diferença se a pessoa tinha nascido na Alemanha: só quem tinha parentes alemães tinha o direito assegurado. O resultado foi gerações de pessoas nascidas no país que continuavam com o status de estrangeiras. O problema atingiu particularmente os que tinha ascedência turca – de longe a maior comunidade estrangeira no país. A lei mudou, e mesmo não sendo retroativa, começou a resolver parte do problema de muitos filhos de imigrantes.

Em 2005, o país reformou sua lei de imigração. Pouca coisa mudou. Mesmo sendo um dos destinos europeus mais procurados pelos ilegais, é muito difícil para um trabalhador pouco qualificado conseguir obter a naturalização ou mesmo a versão local do Green Card. O país só incentiva a entrada de profissionais bem qualificados, e basicamente em programas de trabalho temporário. Nada disso resolve o problema da taxa de natalidade. Para piorar, em 2007, 113 mil estrangeiros adquiriram a cidadania alemã, 9,5% a menos do que no ano anterior. Paradoxalmente, a Alemanha é o membro da UE que abriga mais asilados políticos – mais de 200 mil, e muitos deles recebem ajuda estatal.

A história mostra que a Alemanha sempre foi um país que acolheu muitos imigrantes. O Wirtschaftswunder (“Milagre Alemão”), como é chamada a ascensão do país como potência ecônomica no pós-guerra, contou com a ajuda dos Gastarbeiter, os “trabalhadores convidados” – sobretudo dos países mediterrâneos, na época miseráveis -, que foram ao país às centenas de milhares para suprir a demanda da indústria por trabalhadores. Os turcos, em grande quantidade, foram a segunda leva. Mas não foram recebidos de braços abertos como seus antecessores, e logo se tornaram indesejáveis. (As condições degradantes a que muitos turcos foram submetidos foram denunciadas pelo jornalista Günter Wallraff no seu devastador livro “Cabeça de Turco”.)

Questionário

Mesmo com algumas iniciativas tímidas para atrair imigrantes qualificados, alguns setores da sociedade alemã acham que algumas coisas vieram para dificultar. Além de cumprir regras como morar no país há oito anos, não ter antecedentes criminais, ganhar o necessário para se sustentar e ter conhecimentos suficientes do idioma alemão, a partir de 1° de setembro o interessado terá que responder um questionário sobre história e sociedade alemã. Várias associações que representam os turcos, além do Partido Verde, reclamaram do teste. Um porta-voz de uma dessas associações ironizou que nem mesmo um alemão comum seria capaz de responder muitas das questões.

Elaborado pela Universidade de Humboldt, de Berlin, o teste consiste em 33 perguntas – de um estoque de 300. O site da revista Der Spiegel disponibilizou uma das versões. Não é uma prova muito difícil, considerando que apenas 17 precisam ser respondidas corretamente. Muitas questões independem de conhecer a Alemanha e podem ser respondidas pelo senso comum. Exemplo: “Qual é o papel de um júri?”. Ou: “Qual o papel da polícia?”. Quatro opções são dadas, sendo uma sempre estapafúrdia. Mesmo as questões sobre história podem ser respondidas com pouco estudo. “Como acabou a guerra na Europa?” “Quem foi o primeiro chanceler?” Outras coisas são curiosas: “O que os alemães fazem na Páscoa?”. Resposta: “Pintam ovos”. Este blogueiro acertou 30 questões. As três erradas foram justamente o tipo de pergunta que gerou controvérsia. Alguém sabe quais são as cores da bandeira da Renânia do Norte-Vestfália? Não fazia a mínima idéia. Existem também as perguntas clássicas sobre capitais e Estados.

Os autores do teste disseram que em média 80% dos candidatos devem passar. O ministro do Interior, Wolfgang Schäuble, afirmou que a gritaria é exagerada, e comparou o teste com os conhecimentos necessários para a obtenção da carteira de motorista.

Outros questionários

Outros países também aplicam testes similares. O mais famoso é o americano. O site da MSNBC fornece um modelo. Nada impossível, mas algumas questões, se comparadas com algumas do teste alemão, são bastante difíceis, e provavelmente a maioria dos americanos não saberia responder. Abordam artigos da constituição e o funcionamento do Executivo. “Quem assume se o presidente e seu vice não estiverem disponíveis?” Até o ex-secretário de Estado Alexander Haig não sabia essa quando Reagan foi baleado. “Quem tem poder para declarar guerra?” “Qual desses artigos da constituição não menciona liberdades?” “Quais são os 49° e 50° Estados americanos?” E isso é só o teste. A maioria dos candidatos não será barrada aí, mas antes, porque será incapaz de cumprir outras exigências. Para muitos é mais garantido pular a cerca ou tentar a sorte com uma balsa…

Os ingleses, como era de se esperar, junto com perguntas sérias, aplicam um teste bastante bem-humorado e prático – baseado no livro “Life in U.K.”, um guia para estrangeiros. Não, não perguntam qual a capital Assíria antes de você passar pela ponte da Morte. Mas coisas como: “Num pub, se você derrubar a cerveja de alguém, qual é o procedimento?” “Paga outra ou briga?” “Se você apanhar e se ferir por causa desse incidente, qual o número que você deve chamar?” “Onde os ingleses acham que o Papai Noel mora?” “Lapônia ou Pólo Norte?” “Qual a obrigação de quem tem animal de estimação?”

Deve ter sido preparado pelo Minister of Silly Walks… Uma simulação foi elaborada pela BBC.

E, para terminar, existe o francês. Assim como seus “primos”, ele é pouco determinante. Proposto pelo então ministro do Interior Nicolas Sarkozy em 2003, aborda questões culturais que parecem ter sido feitas sob medida para os imigrantes islâmicos. Exemplo: “Um homem pode ser condenado por estuprar sua esposa?” “O casamento é uma questão de interesse dos parentes ou apenas do casal?”

No Brasil, o estrangeiro que quiser se naturalizar não precisa saber quais são as cores da bandeira da Paraíba ou o que fazer se derrubar a Brahma de alguém. Depois de cumprir algumas obrigações, basta fazer uma prova de português.

“This is London”

quarta-feira, junho 18, 2008

Dezoito de junho de 1940 deve ter sido um dia interessante para quem sintonizou a BBC. No dia que marcou os 125 anos da batalha de Waterloo, dois homens, representantes de nações que combateram naquele campo da Bélgica, um de um país derrotado horas antes daquele 18 de junho, e outro que já tinha convocado seus compatriotas a permanecerem na luta, pronunciaram discursos históricos.

Não fazia dois dias que a França havia concordado em se render aos alemães – que também celebravam a derrota de Napoleão em Waterloo para os prussianos de Blücher, aliados dos ingleses naquele distante 18 de junho de 1815 -, mas o general Charles de Gaulle já cruzara o Canal da Mancha (“O Rubicão de sua vida”) e estava em Londres. Churchill, que tanto havia feito para que os franceses permanecessem na guerra, o deixou ler seu “L’appel du 18 juin 1940“.

O apelo, que pouca gente ouviu na França em vias de ser quase totalmente ocupada, é carregado de impôrtancia para esse país que fez muito pouco para derrotar Hitler. Similar em significado ao discurso de Churchill em 4 de junho (“We shall fight on the beaches“), de Gaulle afirmou que seu país “havia perdido uma batalha, mas não a guerra”. Nesse momento as forças britânicas já estavam completando a Retirada de Dunquerque e os exércitos franceses se rendiam por toda a parte. De Gaulle convocou todos os soldados franceses disponíveis para prosseguirem a luta com ele, em Londres. Com isso salvou um pouco da honra de uma França manchada até hoje pela colaboração com os nazistas.

Vários políticos britânicos se opuseram ao apelo, temendo o efeito sobre os franceses que pretendiam um acordo com os alemães (ou seja, o novo governo de Pétain), mas o sinal verde de Churchill, que já não simpatizava muito com de Gaulle, foi decisivo. Curiosamente, os técnicos da BBC não acharam que o apelo valia uma gavação, e quando o general soube que não havia sido feito um registro, leu tudo novamente no dia 22. Desta vez gravado e ouvido por muito mais franceses – a gravação, que guardou o título “L’appel du 18 juin 1940“, assim como o rascunho e o famoso cartaz “À tous les Français” (este do dia 3 de agosto), hoje é um documento preservado pela Unesco.

Naquela mesma tarde, na Câmara dos Comuns, Churchill pronunciou um de seus mais famosos discursos, o “Their Finest Hour“, em que, longe de admitir uma derrota que naquele momento parecia próxima, afirmava que a luta deveria prosseguir e “if the British Empire and its Commonwealth last for a thousand years, men will still say, `This was their finest hour´“. Como a BBC não dispunha de meios para transmitir diretamente do parlamento, Churchill normalmente lia novamente seus discursos no estúdio, para que o público os ouvisse. Quatro horas depois de sair da Câmara, “Their Finest Hour” foi ao ar.

Uma lenda afirma que Churchill não gravou seus famosos discursos, e que a voz que nós conhecemos na verdade é a do ator britânico Norman Shelley. Bobagem, dizem os historiadores especializados nesse período. Mas “Their Finest Hour” foi com certeza lido no ar pelo próprio Churchill… junto com uns drinks a mais – e ele adorava um whisky. Como lembra o historiador John Lukacs, baseado nas memórias de algumas personalidades da época, a transmissão de 18 de junho foi considerada medonha. Ouvindo a gravação em MP3, é possível perceber que Churchill não estava mesmo em seus melhores dias. De qualquer forma, descontando o estilo por vezes exagerado do discurso (e intelectuais como Evelyn Waugh e George Orwell nunca gostaram dos textos grandiloqüentes de Churchill), ele tem várias passagens marcantes. A frase final, sem dúvida, é uma delas, mas o aviso de que seria melhor não apontar culpados pela situação militar ter chegado àquele ponto, “if we open a quarrel between the past and the present, we shall find that we have lost the future“, também é marcante. Orwell escreveu poucos dias depois que “as pessoas de pouco estudo são com freqüência tocadas por um discurso solene, que na verdade não compreendem mas sentem que impressiona”. O Departamento de Inteligência Interna do Ministério da Informação (que foi alvo do satirista Waugh na sua trilogia “Sword of Honour“) concordaria com Orwell. Num relatório sobre “Their Finest Hour“, o departamento concluiu que a população aguardava os discursos com ansiedade, considerando-os corajosos e esperançosos, mas com a ressalva de que a forma como eram apresentados suscitava todo tipo de comentário sobre o estado de Churchill.

John Luckas também lembra que 1940 marcou os 297 anos da batalha de Rocroi, onde os franceses derrotaram os decadentes espanhóis. Isso foi em 19 de maio de 1643. Cinco dias antes, Louis XIV, com apenas cinco anos de idade, foi coroado rei. Esse período foi marcado pela ascensão da França como maior potência do mundo. Waterloo, em 1815, quando a França disputava influência com a Inglaterra e uma Prússia renascida cada vez mais poderosa, não foi o começo do declínio, mas um catalisador. Em 18 de junho de 1940, a França não era nem sombra do que foi na época de Louis XIV.

Nesse mesmo 18 de junho de 1940, a Grã-Bretanha estava acuada, mas seu império, intacto – mesmo com algumas rachaduras. Os historiadores concordam que a decisão de prosseguir com a guerra, e a conseqüente derrocada financeira do país, acelerou a perda do império. Churchill pode até mesmo ser acusado de “perder a paz” em Yalta.

Mas ele ganhou a guerra.

Obs: Nada a ver com Churchill ou de Gaulle, só um aviso para quem usa o WordPress: a nova versão do Firefox 3 não parece se dar bem com as ferramentas de texto do blog.

Atualização: dia 20/06, o Firefox 3 e o WordPress parecem ter se entendido.

Ve still vant ze money, Lebowski

quinta-feira, junho 12, 2008

Esses são os deputados paranaenses que votaram a favor da criação da nova CPMF:

PMDB
Hermes Parcianello
Marcelo Almeida
Moacir Micheletto
Odílio Balbinotti
Osmar Serraglio

PP
Nelson Meurer
Ricardo Barros

PR
Airton Roveda

PR
Chico da Princesa
Giacobo

PSC
Takayama

PT
Angelo Vanhoni
Dr. Rosinha*

PDT
Alex Canziani

A criação da CSS (Contribuição “Social” para a Saúde; as aspas são minhas), como é chamada a nova CPMF, ainda está longe de se concretizar, já que o placar apertado (apenas dois votos de diferença) na Câmara não foi suficiente para uma emenda constitucional e sinaliza que o o governo vai encontrar dificuldades no Senado, que ainda precisa votar o projeto.

* O Dr. Rosinha também é defensor do “Imposto Sobre Grandes Fortunas” (IGF). Na opinião do deputado, grandes fortunas deveriam ser taxadas com uma alíquota progressiva entre 0,8% a 1,2%.

Peguem esses bilionários sonegadores! Mas, peraí… O que são exatamente grandes fortunas? Para o deputado, é qualquer patrimônio superior a um milhão de reais – isso mesmo, qualquer pessoa que ao somar o carro, apartamento e casa de praia tenha um milhão de reais, é considerada detendora de uma “grande fortuna”.

“Ronald Reagan? The actor?”

quinta-feira, junho 12, 2008

Reagan discursa em Berlin Ocidental. O vidro atrás dele era à prova de balas. Precaução contra possíveis atiradores em Berlin Oriental.

Vinte e um anos atrás, em 12 de junho de 1987, Ronald Reagan discursou para uma multidão de 20 mil pessoas em Berlin Ocidental. Em frente ao Portão de Brandenburgo, ainda atrás do muro, em outro país, num pedido enérgico ele disse uma das frases mais famosas da Guerra Fria: “Mr. Gorbachev, tear down this wall!“.

Foi um momento de triunfo para Reagan. E quando ele morreu, em 2004, as revistas Time e Newsweek estamparam em suas capas a mesma foto de Reagan em frente ao Portão-Muro. Não é Churchill em “Aces High” do Iron Maiden, mas comparável ao “Ich bin ein Berliner” de Kennedy, 24 anos antes.

Goste-se ou não de Reagan (e em Berlin Ocidental, no dia anterior à visita, um protesto anti-EUA reuniu 25 mil pessoas), “Tear down” é um discurso que ficou na história. Na época, com exceção de alguns protestos da agência soviética Tass, o texto quase passou em branco. Depois de sete anos de presidência, Reagan já era uma figura menor, em parte pelo escândalo Irã-Contras. Mas as palavras foram ganhando importância com o queda do muro dois anos depois.

O discurso, assim como o famoso pedido a Gorbachev, foi escrito por Peter Robinson, na época redator da Casa Branca (que tem uma tradição de redatores talentosos, sendo o ex-colunista do New York Times Wiliam Safire o mais famoso). Ele conta mais sobre a elaboração do texto e a visita de Reagan na página do Arquivo Nacional dos EUA.

“Insufficient data for meaningful answer”

sábado, maio 31, 2008

Em 2008, um computador chamado Multivac faz perguntas para um “eleitor representativo” previamente escolhido, uma pessoa comum, e calcula com exatidão qual vai ser o presidenciável vencedor. Tudo isso sem precisar passar pelos incovenientes de uma eleição normal. A idéia saiu da imaginação de Isaac Asimov, e está registrada no conto “Franchise” (“Eleição”, saiu no Brasil na coletânea “A Terra tem espaço”, atualmente esgotada). Norman Muller, o eleitor escolhido como “Voter of the Year“, e que vai ser submetido ao Multivac – computador que aparece também em outros contos do autor -, aceita a tarefa com temor, imaginando que se o resultado for ruim, vão botar a culpa nele. Depois das conclusões do computador, Muller fica surpreso que a população está feliz por ter exercido o direito de votar.

“Franchise” é um conto irônico – e faz um paralelo com as pesquisas de opinião da época (1955) -, mas, tirando o “futuro próximo” 2008, é um tanto complicado traçar um paralelo com a eleição americana deste ano. Eu, num post anterior, tinha apostado que Hillary ia levar facilmente a indicação democrata. Ela ainda não desistiu da corrida, mas é mais que provável que o faça. Errei. Não tinha imaginado a “Obama Fever“, nem o conseqüente desgaste do Partido Democrata. Muita gente errou também. E não foi só com Hillary: McCain também foi uma zebra. Ano passado ninguém teria apostado no senador e veterano de guerra. Ele não tinha dinheiro e era visto com desconfiança pelos eleitores mais conservadores do seu partido. Conseguiu também (por enquanto) contornar as críticas à sua idade avançada e levou a indicação. Agora, o único interesse imediato em sua candidatura é saber quem ele vai escolher como vice. Será um conservador para agradar essa ala do partido? Alguém mais liberal para conquistar os indecisos?

As redes de TV como a CNN e a FOX News adoram abordar as tendências eleitorais de certos grupos (brancos, negros, latinos, brancos de classe média, brancos universitários, ex-militares, operários, americanos no exterior, negros religiosos, caipiras armados etc). Para dividir e identificar, o Multivac existe, na forma de “quadros mágicos” (CNN) e outros gráficos. O problema mesmo é segurar essas conclusões e somá-las em novembro. Até lá vai ser um longo caminho. Pesquisas podem mostrar vantagem de um candidato sobre o outro para, na semana seguinte, inverter os resultados – Bush, por exemplo, estava empatado com Gore em maio de 2000. A febre Obama também não é um identificador confiável. Nas prévias do Partido Democrata, Obama levou em Estados que não contam muito na eleição de novembro (é importante ter em mente o sistema de colégio eleitoral) e em prévias que eram abertas para qualquer eleitor. Ganhou ainda nos Estados em que o sistema de caucus (um colegiado) decide. Hillary levou em Estados importantes, e seu eleitorado tem o perfil de votantes regulares. Nos EUA, nem todo mundo tem paciência para se registrar e sair de casa no domingo para votar – a febre pode apenas ser quente enquanto novidade. E na provável candidatura de Obama, Hillary vai ter um papel de destaque?

As próximas prévias vão acontecer dia 3 de junho (terça-feira). Estão em jogo Dakota do Sul e Montana. Talvez a indefinição acabe.

Cadê o Multivac?

Get Carter

sexta-feira, abril 18, 2008

“Ele foi o maior monstro da história!”, gritou um sujeito quando era revelado que a estátua de Lincoln tinha sido trocada por uma mais barata, representando Jimmy Carter. Logo depois, como era normal num episódio de “Os Simpsons”, a multidão enfurecida começou a saquear a cidade, usando a estátua como aríete.

“Maior monstro” era uma boa piada. Os republicanos adoram fazer troça de sua curta administração, e não é raro na FOX News algum comentarista se referir àqueles “anos catastróficos”. Um exagero. Jimmy foi presidente de um mandato só, ainda na ressaca de Watergate e Vietnã, quando os EUA tinham perdido muita influência. Mesmo a política externa, citada invariavelmente como um fracasso, teve seus pontos positivos. O acordo de paz entre Israel e Egito, que dura até hoje, pode ser creditado em parte à sua administração. Também foi Carter que estabeleceu algum tipo de contato com Cuba, ao abrir um escritório de interesses americanos (uma espécie de embaixada informal). Trocou a realpolitik que manchou a imagem dos EUA e sustentou uma longa lista de governos autoritários e assassinos – porém leais, “our son of a bitch” – por uma política de respeito aos direitos humanos. Mas é só.

Ao ler sobre seu encontro com a liderança do Hamas no Cairo, alguma coisa com “maior da história” me vem à cabeça. Maior estúpido é excessivo. Maior ingênuo em política externa talvez.

Vale lembrar que foi sua administração que assistiu impassível a Revolução Iraniana, a invasão do Afeganistão e o genocídio no Camboja.

Carter não é um mau sujeito. Não é como o ex-ministro da justiça de Lyndon Johnson, Ramsey Clark, que abraça ditadores e nazistas com prazer. Ele quebrou com uma tradição não-oficial de que ex-presidentes não se metem mais com política (Sarney… por que você não seguiu o exemplo?), mas fez coisas realmente louváveis. O trabalho de sua fundação em combater doenças na Indonésia é apenas um exemplo. Ele também ganhou o prêmio Nobel da Paz.

Mas o que aconteceu então?

Não é a primeira vez que Carter se reúne, na condição de ex-presidente, com pessoas pouco recomendáveis, daquelas que fizeram o século 20 ser considerado um desastre total. Já havia se reunido com Castro, Chavéz e Kim Il Sung. O falecido ditador norte-coreano (na estapafúrdia “constituição” do país, oficialmente ele ainda é o presidente), aliás, pregou a primeira das peças que se tornariam típicas no atual trabalho de Carter. Foi em 1994, quando a Coréia do Norte estava enriquecendo urânio, pra variar. Carter foi até o país e conseguiu um acordo. Foi elogiado, mas em 2005 a Coréia do Norte mudou de idéia (ou talvez nunca tenha mudado) e rasgou o acordo. Pode-se afirmar que Carter foi bem-intencionado e que a solução é persistir nessa política de “carrots” – ele se virou para a realpolitik depois de sair da presidência! Mas Carter não é um cidadão comum, se vale da sua condição de ex-presidente para que as portas se abram. E os ditadores se aproveitam disso. Se aquele batista do “New South” aparece com Chavéz, alguns podem pensar que o bufão de uniforme não é mau sujeito. Carter se tornou um embaraço para o departamento de Estado americano, e todas as suas “missões” são sempre acompanhadas de uma aviso de que não representam a visão do governo. Pode-se aceitar (e não obrigatoriamente concordar) com suas opiniões sobre o governo Bush, mas para que serve seu trabalho de diplomata “freelance”? Ele se reuniu com Castro em 2002. Nada disso colaborou para que o ditador abrandasse a mão de ferro sobre a ilha. Só com o afastamento de Castro em 2008 as coisas parecem estar evoluindo – embora timidamente – no país. Carter pretende se reunir com gente da pior espécie agora.

Seus encontros com Castro (eles também conversaram no Canadá) podem ter sido lamentáveis, mas o ditador não é um suicida ou um terrorista explícito. Carter já havia anunciado em 2007 que pretendia intermediar um acordo com o ETA e o governo espanhol. Com o Hamas é diferente. Não há busca pela independência ou coisa do gênero, o objetivo do grupo que controla a Faixa de Gaza é tão somente com a destruição de Israel e a instauração de um regime islâmico. Que tipo de diálogo ele espera ter? Adicione que Carter é uma persona non grata em Israel, por causa de suas opiniões absurdas que comparam a situação dos palestinos com o apartheid sul-africano e culminaram na publicação do livro “Palestine Peace Not Apartheid”. E o Hamas é considerado grupo terrorista tanto pelos EUA quanto pela UE.

É tudo inútil e vergonhoso para a biografia do ex-presidente. Será que um aperto de mão com Mugabe é o próximo passo?