Archive for the ‘Deu no…’ Category

Skulls and germans

quarta-feira, setembro 24, 2008

Em Windhoek, a Christuskirche e o Reiterdenkmal, monumento que homenageia os soldados alemães que morreram na “pacificação” da Namíbia

Crimes de guerra alemães remetem imediatamente ao Holocausto ou aos milhares de massacres na Segunda Guerra. Mas o assassinato de judeus e outras minorias não foi a primeira campanha de extermínio promovida pela Alemanha.

A descoberta de 47 crânios no Museu do Hospital La Charité, em Berlin, e de outras dezenas na universidade de Freiburg, por uma equipe de reportagem da rede pública ARD, relembrou um capítulo brutal do período colonial alemão.

Enviados para a Alemanha em 1907, os crânios seriam usados em um dos típicos estudos que pretendiam provar a superioridade da raça branca sobre a negra.

Também era um troféu de guerra.

Eram de membros das tribos herero e nama, habitantes da atual Namíbia, que se chamou Deutsch-Südwestafrika até 1915.

Em 1903, quando se revoltaram contra o jugo colonial e mataram mais de 200 colonos brancos, os hereros e namas foram perseguidos sem piedade pelas tropas comandadas pelo brutal general Lothar von Trotha. A campanha, que durou três anos, foi tão brutal que resultou no extermínio de quase 70% do povo herero (mais de 50 mil pessoas) e 50% dos namas (10 mil pessoas). Poços foram envenenados na rota de fuga das tribos e os capturados foram mandados para campos de concentração (os primeiros da história alemã) onde a taxa de mortalidade era alarmante. Os que conseguiram fugir foram para Botswana (à época uma colônia britânica).

A ONU e alguns historiadores consideram o extermínio dos hereros e namas um dos primeiros genocídios do século 20.

A Alemanha perdeu a Namíbia durante a Primeira Guerra, mas diferentemente das outras colônias, a influência alemã ainda é visível no país. Alguns milhares de colonos alemães permanecem até hoje. O passado alemão também pode ser visto na arquitetura de cidades como Windhoek (aquela que Lula disse ser tão limpa que nem parecia ser na África) e Lüderitz. O alemão também é uma das línguas oficiais do país. (Curiosidade: Heinrich Göring, pai de Hermann Göring, o criador da Luftwaffe e comparsa de Hitler, foi o primeiro Reichskommissar da colônia.)

A ligação com a antiga colônia há muito foi esquecida pela maioria dos alemães (até a década de 50, de acordo com meu pai, era comum os alemães mais velhos repreenderem uma pessoa que errasse a pronúncia de alguma palavra ou tivesse péssimos modos à mesa chamado-a de “hottentot“, nome pelo qual os namas também são conhecidos). Na Namíbia o genocídio é relembrado todo 26 de agosto.

A Alemanha se desculpou pelo genocídio em 2004. Até mesmo os descendentes do general Lothar von Trotha visitaram o país, em 2007, e lamentaram o destino dos hereros e namas.

O novo capítulo dos crânios provocou indignação em alguns setores da sociedade namibiana. O embaixador do país na Alemanha exigiu que as caveiras fossem repatriadas. Suspeita-se que existam talvez até 300 crânios de membros das tribos herero e nama em universidades alemãs. Um deles seria do líder dos namas, Cornelius Fredericks, morto na prisão.

Até agora nada foi feito para devolver os crânios. O governo alemão informou que só tomará providências se a Namíbia fizer um pedido oficial.

Quando perguntado sobre os crânios, o diretor do arquivo da universidade de Freiburg justificou: “É uma coleção cultural”.

O que alguns brasileiros escrevem sobre o 11 de Setembro (via BBC Brasil)

sábado, setembro 13, 2008

Se depender de quem escreveu no fórum “Osama Bin Laden” da BBC Brasil, o país dos bruzundangas não é muito diferente do Paquistão ou Egito. O velho antiamericanismo latino-americano se misturou bem com as mais vulgares teorias conspiratórias. Ninguém afirma que os judeus cometeram os atentados (como é comum nos países árabes), mas basta ler: a maior parte dos participantes acredita que o 11 de Setembro é uma farsa. Para piorar, muitos leitores nem acreditam na existência de Bin Laden. Mesclando português ruim com informações falsas (Michael Moore demais e bom jornalismo de menos), os participantes, muitos deles usando nome completo, demonstram uma ignorância profunda da história recente. Alguns exemplos (todos merecem “sic”):

“A questão não é pegar o Bin Laden ou não. A questão é descobrir se onze de setembro foir real ou não. Muito se comenta sobre se o próprio Bush não foi quem organizou os ataques para poder realizar seus objetivos.”

“(…)[Osama] foi armado e recebeu milhões de dólares dos EUA para junto com os TALIBANS matar soldados russos que davam apôio ao governo eleito do Afganistão na década de 1980.”

“A familia BIN LADEN é umas das que mais tem investimentos nos EUA! A familia BUSH tem relaçõs de negocios com a de OSAMA!! (…) Pô gente, é claro que o BUSH não quer pegar o BIN.Na verdade eles são parceiros comerciais.”

“Bush não fez o suficiente para capturar Bin Laden pq os 2 no passado tinha relações comerciais estreitas.”

“toda a nação tem sempre oque merece e os estados unido plantou isso agora so colheu o que plantou por isso acho que qualquer ato terrorista contra americano é valido”

“Para os replublicanos, Osama é o melhor negócio da chinha. Se estiverem perdendo poder é só eles dizerem qualquer coisa sobre ele, muda tudo.”

“Acredito que Osama seja um mito,um diabo,um velho da montanha,inventado por eles para fazer o que querem.”

“Para min 11 de setembro não passa de uma farsa americana, que serviu de pretesto para envadirem o Iraque.”

“Não existe terrorista Bin Laden.. muito menos atentado terrorista de 11 de setembro. Bin Laden esta sendo usado pelo governo americano para gerar medo no povo americano, afim de conseguir apoio para estar no oriente médio extraindo petróleo. O WTC foi derrubado pelos proprios americanos. (…) o mundo é um palco e o WTC foi o espetáculo da vez.”

“(…) os estados unidos tem um grande interesse em manter Bim Ladem como um simbolo do medo, para se fazer a manutenção constante da venda de armas.”

“toda a nação tem sempre oque merece e os estados unido plantou isso agora so colheu o que plantou por isso acho que qualquer ato terrorista contra americano é valido”

“Se prenderem Osama Bin Laden, acabam com a Industria Bélica, e isso os EUA não tem interesse, Bin Laden é o urgulho dos americanos, ele está vivo sim e Bush sabe disso.”

“Quem realmente orquestrou o ataque do 11 de setembro foi o próprio governo dos EUA, para poder invadir os países ricos em petróleo, e com isso dominar o petróleo desses países com a desculpa de que estão atrás de terroristas. (…) .O BRASIL QUE SE CUIDE.”

“(…)isto de terrorismo me chera uma mentira total.”

Deutsches requiem

segunda-feira, setembro 8, 2008

Dieguito Maradona. Você compraria um livro desse homem?

Em 2007, a Feira do Livro de Frankfurt provocou polêmica com os espanhóis ao homenagear os catalães, com quem tem um relacionamento tenso. Agora é a vez dos filhotes hispânicos, nossos “hermanos” argentinos, ficarem furiosos. Deu na Folha: a feira de 2010 terá como tema a Argentina (em 1994 foi a vez do Brasil). Até aí nada demais, mas vejam só quem vão ser os ícones argentinos nessa tradicional feira literária e editorial: Diego Maradona, Carlos Gardel, Eva Duarte de Perón e Ernesto Che Guevara! (Até onde se sabe, os dois primeiros nunca escreveram nada. Evita, aquela cujo marido gostava dizer “alpargatas sí, libros no“, escreveu um best-seller, mas com a ajuda de um ghostwriter. Guevara deixou várias obras, mas não foi com a ajuda de uma Olivetti que fez sua fama.)

Ficaram de fora Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Ernesto Sabato, José Hernández etc – uma lista interminável como uma biblioteca do primeiro.

Ignorância alemã? Nein, foi o próprio comitê organizador da representação argentina que escolheu esses nomes. O presidente da Academia Argentina de Letras, Pedro Luis Barcia ficou horrorizado: “É como se o Brasil escolhesse Pelé e João Gilberto no lugar de Machado de Assis e Guimarães Rosa. Ou como se pedíssemos a Messi para entrar na Olimpíada com uma foto de Borges. Estão misturando as coisas.” Marcos Aguinis, autor de “O Atroz Encanto de Ser Argentino” (numa comparação grosseira, um “Raízes do Brasil” argentino), foi além: “É lamentável que o populismo se alie à ignorância para produzir um resultado catastrófico.”

Os responsáveis pelo imbróglio se defenderam. “Com esses ícones, queremos simbolizar distintos aspectos da vida argentina”, afirmou Magdalena Faillace, responsável pela comissão organizadora.

Barraco armado, o comitê organizador cedeu um pouco: Borges e Cortázar acabaram incluídos. Mas não pensaram em nenhum escritor vivo – sorry, Sabato.

Mais sobre essa história aqui e aqui.

Put Out More Flags

quinta-feira, agosto 14, 2008

Custei a acreditar no deslize da BBC Brasil. Já aconteceu de um jornal italiano confundir o ator Daniel Dantas com o banqueiro. Agora é a vez da BBC trocar a imagem de homônimos. A confusão foi com a guerra não declarada entre a Rússia e a pequena Geórgia.

Os russos estão chegando em Atlanta? Na chamada de uma matéria que explica “quem ganha e quem perde na Geórgia“, algum editor se confundiu e colocou a bandeira do Estado americano da Geórgia – terra natal de Jimmy Carter e da CNN (e não de Stalin e Beria) -, numa montagem com as bandeiras russa e americana.

Esta é a bandeira da nação georgiana:

A atual bandeira do Estado americano da Geórgia:

(O Estado já teve outras cinco bandeiras. A versão de 1956, considerada ofensiva por incorporar a Battle Flag, a bandeira confederada, e que provocou críticas durante as olimpíadas de 1996, foi substituída em 2001. Porém, a sucessora não fez sucesso. Obra de um comitê, incorporou todas as bandeiras anteriores e pecou pelo excesso. Acabou sendo substituída em 2003 pela bandeira que a BBC pensou ser do país europeu.

Armas em filmes

segunda-feira, agosto 11, 2008

Hans Grüber: o vilão de Duro de Matar usa Heckler & Koch P7M8

Gosta de armas e filmes e quer saber qual pistola ou metralhadora o personagem usou para matar um inimigo? O Internet Movie Firearms Database responde. (A dica é do Nonsense.)

Celebridades Políticas

segunda-feira, julho 28, 2008

Clint e Arnie: eles são minoria na Califórnia

Para quais campanhas eleitorais as celebridades americanas fazem doações? O Newsmeat responde. Na lista, o que todo mundo já sabia: Hollywood é dominada pelos democratas. Mas existem republicanos. Os generosos do passado são as velhas figurinhas: James Stewart, Bob Hope, Frank Capra, Charlton Heston e James Cagney. No time dos vivos: Adam Sandler (?), Shirley Temple, Robert Duvall, Chuck Norris (claro), Prince (!?) e Jim Caviezel (Jesus é republicano). O horrível cantor José Feliciano também vota no Grand Old Party. Clint Eastwood, um dos atores republicanos mais famosos e ex-prefeito de Carmel pelo partido, doou 2.300 dólares para a campanha de John McCain.

O republicano que mais abre a carteira é o escritor Tom Clancy: 237.050 dólares, os mais recentes para o reacionário pré-candidato Duncan Hunter (saudades da Guerra Fria?). O falecido Frank Sinatra deve ter mesmo se desiludido com seu velho amigo John Kennedy: a maior parte de suas doações foi para candidatos republicanos – Ronald Reagan e George H. Bush incluídos.

Mas a maioria doa mesmo em campanhas locais. Em alguns casos, as celebridades doaram para os dois partidos. Só assim para o diretor Oliver-conspiração-Stone ter contribuído para a campanha de um republicano.

Documentários

domingo, julho 27, 2008

Para quem gosta de documentários, o canal pago GNT há muito deixou de ser uma boa opção. Se antes era possível assistir séries como “The World at War” e “Hitler´s Helfer”, agora, o assinante que sintonizar o canal só encontrará dezenas de programas desmiolados para o “público feminino” e explicações intermináveis sobre como fazer sexo anal com um vibrador. Com os canais Discovery não é muito melhor: é absurda a obsessão dos programadores com a construção do transatlântico Queen Mary II ou com os ridículos documentários sobre ufologia.

Felizmente bons documentários podem ser encontrados na internet.

“Général Idi Amin Dada: Autoportrait”(1976) é um deles. Realizado pelo francês Barbet Schroeder, “Genéral” acompanhou o sanguinário ditador de Uganda em reuniões ministeriais e em visitas oficiais. Como no ótimo “Entreatos” (2004), de João Moreira Salles, essas imagens não necessariamente promovem o personagem, mas o expõem ao rídiculo e mostram sua verdadeira natureza apenas pelo registro de ações. O “Autoportrait” se explica pela interferência de Amin, que chegou a ajudar na direção e até mesmo compôs a trilha sonora. Schroeder realizou duas versões, uma para exibição em Uganda, já que o ditador adorou as imagens, e outra para o exterior, contendo narração e descrição de atrocidades. O resultado é muito mais eficiente que o superestimado “O Último Rei da Escócia”. (O documentário está disponível em DVD no Brasil. O preço é salgado: 41 reais. A arte da capa é coisa de louco. Quem quiser gastar um pouco mais pode optar pela edição da Criterion.)

Não foi a última vez que Schroeder abordou personagens polêmicos. “L’avocat de la terreur” (2007), documentário sobre o advogado Jacques Vergès, defensor de monstros como o nazista Klaus Barbie e Carlos, o Chacal, está atualmente em cartaz na cidade de São Paulo.

“The Leader, His Driver and the Driver’s Wife” (1991) foi realizado pelo jornalista Nick Broomfield para o Channel 4. Fugindo da abordagem “voyeurística” do Cinéma vérité, o documentarista Broomfield é um personagem que apresenta suas reflexões, finge ser ingênuo para que seus entrevistados fiquem à vontade e exponham suas opiniões absurdas e, não raro, os coloca contra a parede. Foi um dos primeiros “Nouvelles Egotistes“, influenciando documentaristas como Michael Moore e Louis Theroux. Em “The Leader”, Broomfield expôs a AWB (Afrikaner Weerstandsbeweging), um grupo paramilitar de inspiração nazista formado por boers da África do Sul. Durante a maior parte do documentário, Broomfield tenta entrevistar o líder do movimento, o truculento Eugène Terre’Blanche. Como Gay Talese que não conseguiu entrevistar Sinatra, o documentarista teme que suas tentativas não dêem em nada. Se volta, então, para o motorista de Terre’Blanche e sua esposa. Em 2006, o documentário ganhou uma continuação, “His Big White Self”, onde Broomfield volta para a África do Sul e mostra como as vidas dos personagens de “The Leader” mudaram depois do fim do apartheid.

Dando continuidade para seu gosto pela polêmica, o último documentário de Broomfield abordou a matança de civis por marines na cidade de iraquiana de Haditha.

“The Death of Yugoslavia” é um documentário premiado realizado pela BBC em 1995. Com um formato bastante novo para época, “Death” mostrou cenas de arquivo inéditas intercaladas com opiniões dos principais personagens do conflito. Não envelheceu muito, mesmo considerando os acontecimentos posteriores na região. Alguns erros de tradução foram denunciados por pessoas fluentes em servo-croata. Mais grave, porém, são os supostos erros históricos apontados em alguns sites e resenhas. O documentário original tinha seis partes, mas, posteriormente, a BBC reduziu para três.

Primeira parte de “Général Idi Amin Dada: Autoportrait”. (É preciso um pouco de paciência porque o documentário está dividido em 17 partes.)


Primeira parte de “The Leader, His Driver and the Driver’s Wife”. Link para a primeira parte de “His Big White Self”.

Primeira parte da segunda versão de “The Death of Yugoslavia”. Link para a versão em seis partes.

Waterboard meeting

terça-feira, julho 8, 2008

Hitchens experimenta o afogamento “simulado”

Quando ainda disputava a indicação pelo Partido Republicano, John McCain recriminou os pré-candidatos Mitt Romney e Rudolph Giuliani por não terem uma posição firme contra a tortura de prisioneiros da guerra contra o terror. Num dos debates, diante da argumentação estapafúrdia de Romney de que a tortura, em especial a técnica de waterboarding (afogamento simulado), não era uma questão federal, McCain encerrou o assunto afirmando que os EUA eram signatários da Convenção de Genebra – que, não custa lembrar, proíbe até mesmo o waterboarding. Mas em fevereiro de 2008, o senador McCain, esse antigo soldado que foi feito prisioneiro e sofreu nas mãos de seus captores vietnamitas, votou contra um projeto que bania o uso do waterboarding pela CIA. O projeto, elaborado pelos democratas, previa a adoção do manual de interrogatório do exército americano – que não tem procedimentos de tortura – por todas as agências do país. Mesmo com o “não” de McCain, o projeto passou, mas acabou engavetado por Bush. A aura de defensor de princípios e a propagandeada firmeza de McCain saíram arranhadas. Ele foi acusado de querer agradar os membros mais conservadores do seu partido e evitar um conflito com Bush.

Ficando apenas atrás de Guantánamo nos protestos que exigem respeito aos direitos humanos nos EUA, a técnica de afogamento simulado consiste em imobilizar o suspeito numa tábua e encharcar seu rosto. A posição da cabeça, que fica para trás, e a água provocam, quase imediatamente, o reflexo faríngeo – a sensação de afogamento. Existem variações na execução, mas o princípio imobilização-água é sempre o mesmo. A CIA já admitiu ter usado a técnica em alguns interrogatórios.

Os defensores da prática – McCain, apesar do seu voto, declarou que continua sendo contra – afirmam que a simulação não é a mesma coisa que tortura. Comparada com o eletrochoque, espancamento e o nosso pau-de-arara ela seria mais “suave”, além de não provocar muitos danos. O jornalista Christopher Hitchens, que adora uma boa polêmica, quis saber mais. Com a ajuda de soldados que praticam a técnica – não em interrogatórios, mas para que seus colegas de farda aprendam a resistir se caírem nas mãos do inimigo -, ele serviu de cobaia numa sessão de simulação de afogamento. Hitchens, que tem 59 anos e detesta terroristas, contou como foi essa experiência num artigo para a revista Vanity Fair. Não só com argumentos de quem experimentou, ele concluiu: “(…) if waterboarding does not constitute torture, then there is no such thing as torture“.

Texas vigilante

quinta-feira, julho 3, 2008

Paul Kersey, o personagem mais famoso de Charles Bronson

Os personagens mais marcantes de Charles Bronson saíam matando bandidos depois de terem a família inteira estuprada e assassinada. Bronson, que até era sujeito pacato, popularizou os justiceiros no cinema (nos EUA são chamados de “vigilante”). Para o texano Joe Horn, um aposentado de 61 anos e morador de um subúrbio tranqüilo de Pasadena, não foi preciso tanto para se tornar um “vigilante”. Quando ele viu dois sujeitos invadindo a casa de seu vizinho, achou que ligar para a polícia não era suficiente. Ignorando os apelos do atendente do serviço de emergência, saiu de casa e enfrentou os ladrões, que nessa hora estavam passando pelo seu gramado. Foram dois tiros precisos de rifle calibre 12. Pelas costas, a uma distância de quatro metros. Miguel Antonio Dejesus, de 38 anos, e Diego Ortiz, de 30, morreram na hora. O produto do roubo era de mais ou menos 2.000 dólares em dinheiro e jóias. Isso aconteceu em novembro de 2007.

A conversa entre Horn e atendente do 911 foi divulgada para a imprensa. Nela se ouve um Horn cada vez mais agitado com a demora dos policiais, e avisando a todo momento que pretende fazer alguma coisa. O atendente pede mais de 30 vezes para que Horn não faça nada além de esperar. Inútil. Antes de sair, Horn avisa para o atendente ouvir o click da arma sendo engatilhada. Depois ele grita “Move, and you’re dead!” para os ladrões, e atira.

Um caso que dividiu opiniões não apenas na tranqüila Pasadena, mas em todo os EUA.

Famoso pela cultura de armas e pelas execuções em cadeias, o Texas também possui uma lei que autoriza o uso de força letal para defender propriedades. E Horn conhecia bem essa lei. Ele chega a citá-la na ligação para o 911 – além de afirmar que seu rifle não é ilegal.

Depois do tiroteio, foi revelado que Miguel e Diego, os dois ladrões, eram imigrantes ilegais da Colômbia e criminosos reincidentes. Além disso, eram membros de um quadrilha especializada em furtos na região de Houston, no Texas.

Como nos filmes de Bronson, muita gente gostou do que Horn fez. Dúzias de motoqueiros e outras pessoas usando camisetas de bandas metaleiras apareceram em frente à sua casa para manifestar apoio. No Youtube, existem vários vídeos da ligação para o 911 com títulos como “Vizinho do ano e “Herói Americano”. A maioria dá destaque para o fato dos ladrões serem imigrantes ilegais. Com pouco tato, o canal FOX News abordou a história usando o título “Herói ou Vigilante?”. O apresentador Bill O´Reilly, famoso pelas suas opiniões raivosas, não disfarçou a simpatia que sentiu por Horn, e afirmou que os dois criminosos morreram por causa de leis e ações ineficientes em combater a imigração ilegal. (Houston, assim como Nova York e outras grandes cidades, é uma “Sanctuary City”, um lugar em que os imigrantes colaboram com a polícia e em troca não são questionados sobre sua situação no país.)

Mas outras pessoas ficaram ultrajadas com a ação de Horn. Porém, os protestos que mais ganharam destaque não abordaram a questão de se fazer justiça com as próprias mãos (ou rifle), mas acusaram Horn de racismo – Miguel e Diego eram negros. Quanell X, nascido Quanell Ralph Evans, convertido ao islã e líder dos Novos Panteras Negras de Houston, liderou dois protestos em frente à casa de Horn. Nas duas ocasiões, ele e seu grupo entraram em choque com motoqueiros simpáticos a Horn que gritavam “USA! USA! USA!”. Quanell X, que na juventude cumpriu pena por posse e venda de drogas, afirmou que Horn não seria condenado e que a “lei branca” devia ser combatida. (Em 2001, Jeffrey Battle, um dos antigos seguranças de Quanell, ficou famoso como um dos Portland Seven, um grupo de americanos convertidos ao islã que tentou se juntar ao Talebã. Foi condenado a 18 anos de prisão por traição.)

Excessiva, legal, ou racista: a controvérsia continua. Mas Horn nunca foi preso. E nunca mais será. Um júri do Texas o inocentou de qualquer acusação em 30 de junho de 2008.

Obs: o áudio da ligação pode ser ouvido aqui.