Archive for the ‘“Coloca Ben-Hurrrr!’’ Category

Trama Internacional

terça-feira, julho 21, 2009

Trama InternacionalUm banco que mata pessoas. Como é podre o capitalismo. Você já viu a empresa que mata pessoas (“O Jardineiro Fiel”, “Ameaça Virtual”) e até o escritório de advocacia que responde à bala (“A Firma”, “Conduta de Risco”). Agora são os grandes bancos. Não bastam as maracutaias financeiras de sempre, “Eles querem o controle de tudo”, diz um personagem de “Trama Internacional” (2008) sobre o banco do filme, O IBBC. E, de fato, esse é um banco muito, muito mau.

Baseado em parte no escândalo do extinto BCCI, um banco paquistanês que lavava dinheiro de terroristas e traficantes, “Trama Internacional” mostra os esforços de uma agente da Interpol (Clive Owen) e de uma promotora de Nova York (Naomi Watts) para deter uma instituição financeira que quer controlar as guerras do Terceiro Mundo.

Anti-capitalist posterAlém desse plano digno de um episódio do Agente 86 (ou de um filme da série “Austin Powers”), o filme conta com diálogos que parecem ter saído de uma ópera de madame Mao ou de uma velha peça de Bertolt Brecht. “Você pode me matar, mas outros cem vão tomar meu lugar, e você sabe disso”, diz o banqueiro malvado, antes de levar um tiro. “Não comemorem a morte da besta, homens; a cadela que lhe deu a luz está no cio novamente”, poderia ter dito em seguida o personagem de Clive Owen.

E como matar essa cadela? Não é com CPIs e trabalho burocrático, mas com muitos tiros e socos. Um tiroteio no museu Guggenheim de Nova York toma 14 minutos do filme. É talvez a única seqüência interessante, mas deixa uma sensação de que tudo não passa de uma cópia rasteira da série “Jason Bourne”. O plágio parece ainda mais gritante porque, como na série estrelada por Matt Damon, “Trama” também tem uma queda pelo “circuito Elizabeth Arden”. Clive Owen passa por Berlin, Nova York, Milão, Lyon e Istambul – parece até um daqueles letreiros jecas de joalherias.

Não há nada errado em escolher símbolos do capitalismo como vilões. O tema já rendeu o excelente “Robocop”, de Paul Verhoeven, um filme que soube abusar do caricatural para falar de violência, privatizações e planos mirabolantes de combate ao crime. Mas o diretor de “Trama”, o alemão Tom Tykwer, responsável pelo superestimado “Corra, Lola, Corra”, não é nenhum Verhoeven. E seu IBBC não é nenhuma OCP.

O Leitor

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Mais um filme sobre o holocausto…”, seria apropriado dizer. Um tema já explorado ao extremo e que raramente resulta em boas surpresas – “O Pianista”, de 2002, foi a última –, ganha o que seria um novo olhar com “O Leitor”, atualmente em cartaz.

Um “novo olhar” porque esse filme propõe examinar o ponto de vista alemão do holocausto, a estranha convivência com assassinos no pós-guerra e o conhecido tema da “banalidade do mal”, em que os criminosos não se dão conta da brutalidade de seus atos e os justificam com a desculpa de que eram meramente parte de uma imensa engrenagem burocrática – “eu apenas cumpria ordens” deve ser uma das expressões alemãs mais famosas.

Alemanha, 1958, num dia chuvoso, o jovem Michael (David Kross), de 15 anos, está voltando para casa e começa a sentir mal. É acudido por uma mulher de trinta e tantos anos (Kate Winslet) que o acompanha até perto de sua casa. Passam-se alguns meses e Michael está melhor, pronto para visitar e agradecer a mulher que o acudiu. Uma cena de sedução depois, começa entre os dois um relacionamento sexual. Hanna também gosta que Michael leia para ela, de livros infantis a clássicos antigos. Certo dia, Hanna some da vida de Michael.

Anos depois, Michael, já um estudante de direito, é convidado por seu professor (Bruno Ganz) a acompanhar um julgamento. Para a surpresa de Michael, é Hanna, junto com outras mulheres, que está sentada no banco dos réus. A acusação: ter sido guarda de um campo de extermínio na Segunda Guerra.

“O Leitor” foi baseado na obra homônima do escritor alemão Bernhard Schlink. O livro ganhou notoriedade quando foi indicado pela influente apresentadora americana Oprah Winfrey em seu “Clube do Livro”. No Brasil foi publicado há dez anos pela Nova Fronteira, agora ganha uma nova edição pela Record (R$ 29).

Infelizmente, “O Leitor” é mais um filme burocrático, morno e previsível sobre o holocausto.

Não se pode culpar inteiramente o diretor Stephen Daldry (“As Horas”, “Billy Elliot”) pelo resultado. O próprio livro de Schlink não era lá grande coisa, mas Daldry leva seu filme de maneira previsível, abusando de alguns recursos (o filme está repleto de música dramática e inúteis recursos de sobreposição de imagens). A fragilidade da coisa toda fica óbvia quando é perceptível que Daldry preparou com satisfação – e com direito a flashbacks (é “Os Suspeitos” sempre fazendo escola) – uma surpresa que todos já haviam percebido no começo do filme

Para piorar, os atores não fazem melhor. Kate Winslet foi indicada ao Oscar por seu papel, mas ele o interpreta tão burocraticamente que mesmo suas cenas de nudez têm pouco apelo – o que é imperdoável para alguém que tem um belo corpo. Mas o pior mesmo fica com o Michael mais velho, interpretado pelo sempre soporífero Ralph Fiennes. São dele algumas das piores cenas do filme, incluindo um desnecessário momento de “eu vou te contar uma história”

Mais grave, porém, são os problemas morais do filme.

Não é necessário ir tão longe como o escritor Ron Rosenbaum – autor do excelente “Explaining Hitler”, traduzido no Brasil com o inacreditável título de “Para entender Hitler” (Record) – que acusou o filme de sugerir que “lack of reading skills is more disgraceful than listening in bovine silence to the screams of 300 people as they are burned to death”.

O próprio livro é problemático. Ao usar a deficiência de Hanna como uma metáfora óbvia para a ignorância, Schlink passa para o leitor a idéia de que muitos assassinos foram empurrados para a máquina do holocausto pelo destino ou por motivos compreensíveis. Perguntar a alguém “O que você faria?”, como o filme e o livro fazem, e esperar um “Não sei” ou simples silêncio como resposta é repugnante.

Rosenbaum acertou em cheio quando disse que “não precisamos de mais um filme redentor sobre o holocausto”.

Para piorar, um filme que propagandeia as maravilhas da leitura.

“Sprechen sie talk?”

É conhecida a visão dos chefões de estúdio de que os americanos não gostam de ler legendas. Essa filosofia muitas vezes resulta em cenas engraçadas em que personagens estrangeiros falam alguma frase introdutória em uma língua qualquer para logo continuar o diálogo ou monólogo na língua do Dr. Johnson. Também acontece de os personagens forçarem um sotaque na língua que supostamente estariam falando. Assim não é incomum assistir a russos que falam entre si com sotaques pavorosos – famoso é o caso de Sean Connery, que usou o mesmo sotaque em “Os Intocáveis”, ao interpretar um irlandês, e em “A Caçada ao Outubro Vermelho”, ao vestir um uniforme russo.

Mas “O Leitor” inaugurou uma categoria totalmente nova na salada lingüística hollywoodiana: a leitura de textos em inglês por estrangeiros em seus respectivos países. Qual não é a surpresa observar que Michael, ao ler para Hanna, está segurando um livro em que se pode ler “The Adventures of Huckleberry Finn” em bom inglês! Recurso para facilitar a vida dos atores que devem entregar suas falas em inglês? As estantes de livros que aparecem ao longo também estão repletas de títulos em inglês… e publicados por editoras americanas. A escolha por facilitar a vida do espectador não familiarizado com alemão fica ainda mais cômica quando Hanna se alfabetiza e passa a escrever cartas em… inglês!

Pode ser um mero detalhe técnico, que para muitos não chega a influenciar, mas lembra aqueles filmes americanos deliciosamente toscos rodados no Brasil em que o merchandising aparece na forma de outdoors em inglês – quem assistiu “007 Contra o Foguete da Morte” deve saber do que estou falando.

O próprio Schlink insistiu para que o filme fosse rodado em inglês, justificando que a história da convivência numa sociedade pós-genocídio era universal – claro que a promoção inevitável de um filme americano nas vendas do seu livro também deve ter sido bem-vinda.

“Just die already!”

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Romances e contos quase sempre resultam em adaptações cinematográficas radicalmente diferentes ou, o que é mais comum, em filmes insatisfatórios. Existem exceções, é claro, e também existem até os filmes que eclipsam livros baratos. A discussão é antiga e raramente resulta em alguma opinião nova. Mas quando se trata de adaptar F. Scott Fitzgerald para o cinema, era de se esperar que o resultado fosse no mínimo digerível.

Mas as obras de Scott não têm sorte. Seu livro mais famoso, “O Grande Gatsby”, já rendeu quatro filmes. Pouco se sabe sobre o primeiro, atualmente perdido, mas as outras adaptações – inclusive uma roteirizada por Francis Ford Coppola, em 1974 – deixaram muito a desejar. Não foi diferente com “O Último Magnata” (1976) e “Suave é a Noite” (1962).

Agora é a vez de “O Curioso Caso de Benjamin Button”, um conto escrito por Fitzgerald em 1921, ganhar uma versão cinematográfica, atualmente em cartaz. No conto – publicado no Brasil na antologia “Seis Contos da Era do Jazz” (título estranho para um livro que contém nove contos) – Benjamin Button é uma criança que nasce com m problema curioso: é velha, sofrendo com todos os problemas de um típico ancião; alta; tem uma longa barba; fala como um adulto. Seus pais abastados, longe de comemorar o nascimento do primogênito, o desprezam imediatamente e o isolam, temendo serem ridicularizados pela sociedade local (Baltimore, década de 1860).

O que acontece a seguir é uma série de situações engraçadíssimas em que Benjamin (seus pais teriam preferido chamá-lo de Matusalém) é forçado pelo pai a se comportar de acordo com sua idade real – brincadeiras, travessuras; embora Benjamin prefira acender um charuto e conversar com seu avô sobre amenidades e o clima. Nada dá certo para Benjamin. Quando ele tenta entrar para a universidade de Yale, o reitor o expulsa porque acha que o velhinho que afirma ter dezoitos anos só pode ser um lunático.

Podia ser um conto de uma piada só, mas Fitzgerald adiciona mais um elemento fantástico: Benjamin, ao contrário, de todos que o cercam, está ficando a cada dia mais jovem. Não demora para ele arrumar uma esposa. Quando ela começa a se aproximar dos 40, Benjamin, que já parece ter menos de 30, passa a desprezá-la pela decadência física. A regressão física de Benjamin também é acompanhada da mental. Longe de ficar mais sábio, ele vai ficando mais imaturo, mais infantil. Até que…

É uma farsa de primeira, e é de se imaginar o que um Lubitsch ou um simples episódio de “Twilight Zone” teria feito com tal história. Infelizmente, ela demorou mais de 80 anos para ser adaptada e foi logo cair nas mãos do diretor David Fincher e do roteirista Eric Roth.

Fincher se notabilizou por dirigir filmes falsamente densos que foram sucessos de público, como “Clube da Luta” e “Seven”. Neste filme ele usa a mesma mão pesada e pouco imaginativa para transformar o que devia ser uma comédia num dramalhão interminável. A culpa não é só dele, já que é gritante a influência do roteirista Eric Roth. Responsável pelo roteiro de “Forrest Gump”, Roth repete a fórmula do sucesso de 1994: Button não mais vive no século 19, agora ele nasce do último dia da Primeira Guerra e sua trajetória se confunde com os acontecimentos do século 20. Ele “sai para ver o mundo”, indo para lugares exóticos e conhecendo gente curiosa. Um único elemento do conto permanece inalterado: o fato de Benjamin nascer velho e se tornar mais jovem a cada dia que passa.

Ao contrário de “Forrest Gump”, Button não participa de tantos e interessantes acontecimentos, mas muitos elementos do filme anterior de Roth estão lá: a história é contada em flashback (embora que pela leitura de um diário – não conseguem pensar em coisa melhor em Hollywood?), Button vive um amor impossível e todas as pessoas que encontra o brindam com pequenas pérolas de sabedoria (não diferindo muito daquelas de biscoitos da sorte).

Desta vez, “A vida é uma caixa de bombons” dá lugar para uma gororoba sobre aceitar a morte e o inevitável fim. Button, que é interpretado por Brad Pitt (que na maior parte do filme está coberto de maquiagem, mais parecendo uma versão piorada do rosto de Jon Voight),parece ser um mero espectador da vida. Pitt não acrescenta nada para esse dramalhão, passando na maior parte do tempo a impressão que Fincher e seu diretor de fotografia estão gritando para que ele fique parado bem naquele ponto da tela verde e não atrapalhe os técnicos de efeitos especiais.

Com um protagonista desinteressante, o peso recai sobre os coadjuvantes. É cansativo identificar os óbvios alívios cômicos – lembre-se: transformaram o conto num dramalhão –: a galeria inclui a negra sem papas na língua, o capitão bêbado e o velhinho que conta histórias bizarras. Se no conto Benjamin se voltava contra seu amor de modo egoísta, aqui ele vive uma saga que atravessa décadas para tentar ficar com a personagem interpretada por Cate Blanchet (também coberta de maquiagem e manipulada digitalmente). É Cate que resolve, na velhice, contar para sua filha como foi viver um grande amor – um recurso já batido em “Titanic”. Nessas cenas “atuais”, Cate está agonizando numa cama de hospital de Nova Orleans enquanto o Katrina – um coadjuvante que não faz sentido – está batendo à porta.

Além das mancadas históricas – Pitt-Button passa uma boa temporada na Rússia em 1941, nem parece que o país está em guerra –, existem os problemas de narrativa. Por exemplo, em dado momento, Pitt descreve um acidente que Cate sofre em Paris (Paris, acidente – que novelão). O problema é que ele não estava lá para, posteriormente, fazer observações sobre a influência do acaso. Lembrou os furos do trash “Tubarão IV, A Vingança”.

Não é surpreendente que um filme tão ruim tenha recebido 13 indicações ao Oscar. Fincher, mesmo que não compartilhe com seu colega Martin Scorsese a lamentável obsessão de ganhar um Oscar, que leva à obrigatória realização de filmes insípidos, fez um filme sob medida para a Academia. Filmes carregados de dramalhão gratuito e eficiente direção de arte, como “Uma Mente Brilhante” e “O Paciente Inglês”, já levaram a estatueta em outras ocasiões. Com Benjamin Button não deve ser diferente.

Aliás, do péssimo “O Paciente Inglês” só se salvou uma coisa. Num episódio clássico do seriado “Seinfeld”, o chefe de Elaine a leva para assistir ao filme do ano que está sendo comentado por todo mundo: “O Paciente Inglês”. Diante dos flashbacks do moribundo Ralph Fiennes, Elaine, que já não agüenta mais o filme, não se contém e, em pleno cinema, grita: “Oh. No. I can’t do this any more. I can’t. It’s too long. Quit telling your stupid story, about the stupid desert, and just die already!”, para espanto de todos que estão se emocionando com o drama.

É só trocar Fiennes por Blanchet.

Obs: se é para assistir a um filme-fábula sobre a inevitabilidade da morte, repleto de aventuras e um grande amor – e como bônus uma reflexão sobre a paternidade -, fique com o excelente “Peixe Grande” (2003), de Tim Burton.

What a Way to Go!

terça-feira, outubro 14, 2008

Pega esse bolivianos, Newman!

Paul Newman (1925-2008 )

Esqueça o Stanislavski-Strasberg e as comparações com Brando, Clift e Dean. Paul Newman não merece ser lembrado pelos maneirismos bestas do método russo ou porque fez parte de alguma geração. Os papéis de sujeito atormentado nem sempre lhe caíram bem. Seus trabalhos com grandes diretores – Hitchcock, Scorsese, Huston e Preminger – resultaram em filmes abomináveis ou tristemente datados. (Em “Cortina Rasgada”, de Hitchcock, Newman estava tão antipático que fez os vilões comunistas parecerem boa gente.)

Não, Newman não merece isso. Ele não fez mais que dez filmes decentes, mas é difícil imaginar alguém tão perfeito para os papéis que interpretou. Newman teve mais carisma que Brando, Clift e Dean juntos. Talvez por ter tido uma vida mais “careta” (foi casado por mais de 50 anos), ao contrário de seus três colegas, sabia ser engraçado. Brando ficaria rídiculo no papel de um presidiário rebelde que vira herói de seus companheiros, mas isso não aconteceu com Newman em “Cool Hand Luke”, um de seus filmes mais famosos.

O melhor Newman foi o de papéis que parecem descompromissados, em filmes que à primeira vista parecem banais. Ele foi genial em “Harper”, um típico filme policial dos anos 60 que servia de veículo para um astro. A trama mirabolante, que mistura a investigação de um seqüestro e culmina na descoberta de uma seita religiosa que contrabandeia imigrantes mexicanos, não é o principal atrativo. É Newman, um investigador picareta que vive pregando peças na ex-mulher, que segura o filme.

“Harper” pode não ser um dos filmes mais memoráveis de Newman, mas o que dizer das duas dobradinhas com Redford em “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (por que os distribuidores brasileiros não gostavam do Sundance?) e “Golpe de Mestre”? Esses dois filmes foram dirigidos por George Roy Hill, que também chamou Newman para estrelar a (sem exagero) obra-prima “Slap Shot”, de 1977.

Nesse filme em que a violência no esporte – e num dos esportes mais violentos, o hóquei – foi usada na forma mais grotesca e engraçada já imaginada, Newman interpretou o capitão de uma equipe fracassada (em número de títulos e público) prestes a ser vendida. Ele não é responsável pelas cenas mais engraçadas – Newman sabia fazer rir, mas não era do tipo comediante -, é, antes de tudo, o sujeito que mantém a equipe unida e tenta reverter o destino de seus protegidos.

“Slap Shot” foi o último grande filme de Newman. Nos 30 anos seguintes ele até interpretou papéis dignos de nota em “The Verdict” (1982) e “Hudsucker Proxy” (1994), mas ganhou um Oscar justamente pelo fraco “The Color of Money” (1986), de Scorsese, uma continuação de “The Hustler” (1961), que Newman protagonizou 25 anos antes – “The Hustler” foi um dos poucos filmes em que Newman se saiu bem ao interpretar um personagem “atormentado”.

Deixando o ativismo político para trás – Richard Nixon o incluiu na sua famosa “lista de inimigos” por causa de seu apoio à candidatura de Eugene McCarthy – Newman se concentrou na filantropia. Doou todo o lucro de sua empresa de molhos de salada, a Newman’s Ow (que foi mais rentável que sua carreira cinematográfica), para a caridade.

Os últimos anos de Newman não deixaram filmes memoráveis. Ele passou a ser um coadjuvante de luxo em produções esquecíveis como “Road to Perdition”(2002) e “Message in a Bottle” (1999), e pareceu padecer do mesmo mal que acomete Michael Caine e atores das antigas pornochanchadas: ficar velho o torna mais respeitável e perdoa interpretações no piloto automático.

Em 54 anos de carreira cinematográfica, Newman se tornou uma figura tão familiar nas telas, seja nos grandes filmes ou nos medíocres, que sua perda não só causa lamentos pelo fim de um grande ator, mas também tristeza pela perda de um velho conhecido.

O que vale a pena assistir de Newman na opinião deste blogueiro (pra variar, os títulos brasileiros são, em todos os casos, tenebrosos):

“The Long, Hot Summer” (1958 ) – “O Mercador das Almas”

“The Hustler” (1961) – “Desafio à corrupção”

“Hud” (1963) – “ O Indomado”

“Harper” (1966) – “Harper – O Caçador de Aventuras”

“Cool Hand Luke” (1967) – “Rebeldia Indomável”

“Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969) – “Butch Cassidy”

“The Sting”(1973) – “Golpe de Mestre”

“Slap Shot” (1977) – “Vale Tudo”

“Carajo, Fidel!”

domingo, setembro 7, 2008

Em maio de 2008, Lucie Ceccaldi publicou na França um livro em que atacava seu filho, Michel Houellebecq, um dos maiores e mais bem-sucedidos escritores do país. A causa do ataque foi o retrato dela como uma hippie sexualmente obcecada e egoísta no seu primeiro sucesso literário. A “velha vadia”, como Houellebecq costuma se referir à mãe, o abandonou ainda bebê e, envolvida com a causa comunista e do anticolonialismo, foi para a África trabalhar como médica. Ele acabou sendo criado pela avó paterna, de quem adotou o sobrenome.

Descontando a celebridade de Houellebecq, essa podia ser apenas mais uma história triste de abandono. Pais que se envolvem em seitas (seja a Igreja Universal ou a Internacional Comunista) e deixam os filhos em segundo plano também não são exatamente novidade. Mas e se os pais decidem mergulhar seus filhos nesse “experimento”?

Madame Ceccaldi abandonou seu filho e foi perseguir sua utopia sozinha. Bem diferente é o caso da família de la Mesa no excelente filme “A Culpa é do Fidel!” (“La Faute à Fidel!”, França, 2006).

Os de la Mesa são uma típica família burguesa francesa dos anos 70 – o avô tem um vinhedo, a mãe é jornalista e a filha mais velha freqüenta uma escola católica -, mas algo muda quando o cunhado comunista de Fernando (Stefano Accorsi), o chefe da família, é executado pela ditadura franquista. Fenando, deprimido, acaba acolhendo a irmã e a sobrinha. Depois de uma viagem ao Chile de Allende, ele e sua esposa (Julie Depardieu, filha de Gérard) decidem virar comunistas e viver de acordo com a ideologia.

A grande surpresa desse filme é a pequena Anna, a filha do casal interpretada pela talentosa Nina Kervel-Bey (mas você poderia achar que é a Mafalda do cartunista Quino). É através dos seus olhos que acompanhamos a família se mudar de uma grande e confortável casa para um apartamento minúsculo que rapidamente se converte num “aparelho” para atividades de apoio à causa comunista. Os pais se transformam (“Não quero você lendo esse Mickey fascista!”) muito para o desgosto da pequena Anna, uma criança egoísta e que gosta da boa vida como qualquer outra. A transformação é acompanhada de um pouco de hipocrisia. Instalados com segurança em Paris – a cidade do “Samba de Orly” que serviu de refúgio para todo esquerdista do planeta que sonhava com a revolução -, os pais discutem revolução na América Latina ao mesmo tempo em que negligenciam os filhos, cada vez mais confusos com a nova educação (“Eu quero brincar de Allende, você é o Franco”). O radicalismo dos pais chega ao ponto de levarem as crianças num protesto que termina em baderna e dispersão por gás lacrimogêneo – tudo com a câmera registrando o ponto de vista de Anna, que tem tamanho suficiente apenas para ver até a cintura de quem está à frente.

É engraçado e triste observar o efeito deixado nas crianças pelos presentes que os pais trazem do Chile (roupas andinas, aquelas de tocador de flauta boliviano). Em certo momento, Anna não se contém e se queixa dos “barbudos” que vivem entrando e saindo do apartamento (aqueles de centro acadêmico de universidade pública). Os eventos históricos da década estão lá, mas só fragmentos são absorvidos pela pequena protagonista, que faz confusão com eles mas percebe as contradições do idealismo dos pais. Porém, algo vai se transformando em Anna, que deixa de lado o egoísmo e passa a se interessar pelas histórias (parábolas, mitologia) que os refugiados políticos de passagem contam. Aos poucos, mas não abraçando a causa dos seus pais (afinal, é só uma criança), a menina que só se interessava em corrigir os outros se torna questionadora e percebe que nem tudo é preto ou branco – ao contrário de seus pais comunistas ou seus avós reacionários. A cena final pode ser vista como uma negação do que foi visto anteriormente ou, para quem viveu aquela época, uma conclusão de que o “caminho é outro”.

É o filme de estréia de Julie Gavras, que viveu uma história parecida com a da protagonista. Embora seja baseado num livro italiano com personagens italianos, “A Culpa” tem um quê de autobiográfico. Julie é filha do cineasta Costa Gavras, famoso pelos seus filmes engajados que denunciam golpes de estado – os excelentes “Z”, “Estado de Sítio”, “Missing” e os deprimentes “Atraiçoados” e “Quarto Poder”.

Num país que produziu tantos deslumbrados pelo comunismo (Debray, Sartre, Althusser) – sendo que vários deles, mesmo como “fellow travellers“, justificaram todo tipo de crime -, “A Culpa” poderia ser um acerto de contas (a la Houellebecq) ou uma mera ridicularização do passado, mas Gavras, e, sobretudo, a pequena Nina-Anna, conseguiram mostrar um retrato rico da vida em família. O casal de la Mesa pode ser excêntrico e estúpido em suas escolhas políticas, mas ama seus filhos.

Antes de passarem no caixa da Petrobras e pedirem um vale, os cineastas brasileiros que choram pela revolução perdida deveriam prestar atenção na pequena Anna.

Armas em filmes

segunda-feira, agosto 11, 2008

Hans Grüber: o vilão de Duro de Matar usa Heckler & Koch P7M8

Gosta de armas e filmes e quer saber qual pistola ou metralhadora o personagem usou para matar um inimigo? O Internet Movie Firearms Database responde. (A dica é do Nonsense.)

Documentários

domingo, julho 27, 2008

Para quem gosta de documentários, o canal pago GNT há muito deixou de ser uma boa opção. Se antes era possível assistir séries como “The World at War” e “Hitler´s Helfer”, agora, o assinante que sintonizar o canal só encontrará dezenas de programas desmiolados para o “público feminino” e explicações intermináveis sobre como fazer sexo anal com um vibrador. Com os canais Discovery não é muito melhor: é absurda a obsessão dos programadores com a construção do transatlântico Queen Mary II ou com os ridículos documentários sobre ufologia.

Felizmente bons documentários podem ser encontrados na internet.

“Général Idi Amin Dada: Autoportrait”(1976) é um deles. Realizado pelo francês Barbet Schroeder, “Genéral” acompanhou o sanguinário ditador de Uganda em reuniões ministeriais e em visitas oficiais. Como no ótimo “Entreatos” (2004), de João Moreira Salles, essas imagens não necessariamente promovem o personagem, mas o expõem ao rídiculo e mostram sua verdadeira natureza apenas pelo registro de ações. O “Autoportrait” se explica pela interferência de Amin, que chegou a ajudar na direção e até mesmo compôs a trilha sonora. Schroeder realizou duas versões, uma para exibição em Uganda, já que o ditador adorou as imagens, e outra para o exterior, contendo narração e descrição de atrocidades. O resultado é muito mais eficiente que o superestimado “O Último Rei da Escócia”. (O documentário está disponível em DVD no Brasil. O preço é salgado: 41 reais. A arte da capa é coisa de louco. Quem quiser gastar um pouco mais pode optar pela edição da Criterion.)

Não foi a última vez que Schroeder abordou personagens polêmicos. “L’avocat de la terreur” (2007), documentário sobre o advogado Jacques Vergès, defensor de monstros como o nazista Klaus Barbie e Carlos, o Chacal, está atualmente em cartaz na cidade de São Paulo.

“The Leader, His Driver and the Driver’s Wife” (1991) foi realizado pelo jornalista Nick Broomfield para o Channel 4. Fugindo da abordagem “voyeurística” do Cinéma vérité, o documentarista Broomfield é um personagem que apresenta suas reflexões, finge ser ingênuo para que seus entrevistados fiquem à vontade e exponham suas opiniões absurdas e, não raro, os coloca contra a parede. Foi um dos primeiros “Nouvelles Egotistes“, influenciando documentaristas como Michael Moore e Louis Theroux. Em “The Leader”, Broomfield expôs a AWB (Afrikaner Weerstandsbeweging), um grupo paramilitar de inspiração nazista formado por boers da África do Sul. Durante a maior parte do documentário, Broomfield tenta entrevistar o líder do movimento, o truculento Eugène Terre’Blanche. Como Gay Talese que não conseguiu entrevistar Sinatra, o documentarista teme que suas tentativas não dêem em nada. Se volta, então, para o motorista de Terre’Blanche e sua esposa. Em 2006, o documentário ganhou uma continuação, “His Big White Self”, onde Broomfield volta para a África do Sul e mostra como as vidas dos personagens de “The Leader” mudaram depois do fim do apartheid.

Dando continuidade para seu gosto pela polêmica, o último documentário de Broomfield abordou a matança de civis por marines na cidade de iraquiana de Haditha.

“The Death of Yugoslavia” é um documentário premiado realizado pela BBC em 1995. Com um formato bastante novo para época, “Death” mostrou cenas de arquivo inéditas intercaladas com opiniões dos principais personagens do conflito. Não envelheceu muito, mesmo considerando os acontecimentos posteriores na região. Alguns erros de tradução foram denunciados por pessoas fluentes em servo-croata. Mais grave, porém, são os supostos erros históricos apontados em alguns sites e resenhas. O documentário original tinha seis partes, mas, posteriormente, a BBC reduziu para três.

Primeira parte de “Général Idi Amin Dada: Autoportrait”. (É preciso um pouco de paciência porque o documentário está dividido em 17 partes.)


Primeira parte de “The Leader, His Driver and the Driver’s Wife”. Link para a primeira parte de “His Big White Self”.

Primeira parte da segunda versão de “The Death of Yugoslavia”. Link para a versão em seis partes.

Die Brücke

quinta-feira, junho 12, 2008

Por motivos óbvios, a Alemanha não tem muita tradição em filmes de guerra. “Die Brücke”, de 1959, um filme não muito conhecido no Brasil, é, junto com “Das Boot”, uma exceção. Como não poderia deixar de ser, é um filme pacifista que denuncia a futilidade da guerra – “Nada de Novo no Front” vem imediatamente à mente.

Só alguém muito estúpido ou fanático (estou sendo redundante) poderia estar feliz em servir na Wehrmacht em abril de 1945. Mas é isso que acontece com um grupo de garotos de um vilarejo alemão ainda não muito afetado pela guerra. O falecido diretor Bernhard Wicki (que dirigiu as seqüências alemãs de “O Mais Longo dos Dias”) nos mostra como é o dia-a-dia desses garotos antes deles serem atirados nos horrores de um combate. Não é muito interessante, tirando uma ou outra cena sobre decepção ou pais temerosos com o destino de seus filhos, o cotidiano deles parece um tanto artificial nessa cidade sem refugiados e Juventude Hitlerista. É na véspera do combate e na luta em si que Wicki realmente consegue prender a atenção do espectador. E como ele consegue chocar. Os garotos recebem uma missão de vigiar a ponte local até a equipe de demolição chegar. Um incidente faz com que o sargento responsável, o único homem, esteja ausente. E assim os garotos resolvem lutar contra os americanos. Um a um eles vão morrendo.

Fanáticos por filmes de guerra devem adorar a cena da panzerfaust queimando o rosto de um civil, assim como a chocante morte de um G.I. americano, que fica com as tripas para fora ao ser baleado depois de implorar aos garotos (“kindergarten”) que voltem para casa. Tudo isso com uma qualidade impressionante para um filme do final dos anos 50. O ronco dos tanques americanos se aproximando é assustador, e um aviso que a guerra, em especial aquela guerra, é coisa para gente grande. Manter aquela ponte era coisa mais fútil que eles poderiam ter feito. Isso fica óbvio numa cena emblemática e bastante devastadora de um comboio de caminhões repletos de soldados feridos e desesperados passando pela ponte, e deixando os garotos para trás. Uma das melhores seqüências sobre o caos e futilidade que caracterizaram a Alemanha naqueles últimos dias da guerra.

Screwball

segunda-feira, junho 2, 2008

“Durante a Grande Depressão, as comédias e musicais eram uma válvula de escape para as dificuldades” é uma frase que já se tornou senso comum. Mas e a qualidade? Isso foi mérito de diretores talentosos, roteiristas inspirados, atores na sua melhor forma, e o cinema hollywoodiano que passou a dominar a vantagem do som na sua plenitude. Num período que começa em 1934 e dura até 1944, apenas dez anos, um novo gênero de comédia, que trocava as gags visuais por sofisticação e duelos verbais, nasceu e atingiu a perfeição. Era a screwball comedy, que nasceu com “Aconteceu Naquela Noite” (1934), de Frank Capra, e começou a rarear (tanto em quantidade e qualidade) a partir de “Arsenic and Old Lace” (1944), também de Frank Capra. Screwball é um termo técnico do beisebol, sem equivalente em português, que descreve uma bola que segue um trajetória errática mas que atinge o objetivo – ideal para descrever as reviravoltas de trama e confusões que acontecem em cena.

Parente direta das comédias farsescas da Broadway, a screwball comedy normalmente tem uma fórmula simples que varia pouco. Homem-pobre-se-apaixona-por-moça-rica, troca-de-identidades-gera-confusão, pessoas-diferentes-tendo-que-aceitar-as-outras, pessoa-rica-tendo-que-se-virar-no-mundo-real, casal-se-divorcia-para-depois-se-reconciliar etc. É também aquele tipo de filme onde o homem e a mulher se detestam inicialmente para depois se apaixonarem. Tudo isso em cenários de classe média alta e, com poucas exceções, na Costa Leste dos EUA. Os ricos estão longe de serem perfeitos (e os pobres também); as mulheres, apesar de dependentes, são inteligentes e pensam rápido; o divórcio é um tema quase banal; os homens são espirituosos e não levam nada a sério; quase todo mundo bebe além da conta. Os duelos verbais e discussões, sempre numa velocidade alucinante – típicos do teatro, de onde saíram muitas das histórias -, são o acabamento final. Nada é vulgar e apelativo nesses filmes. O crítico de cinema Andrew Sarris definiu a screwball comedy como “uma comédia sexual sem o sexo”.

Cary Grant pode ser lembrado como o protagonista dos suspenses de Hitchcock – diretor que, aliás, dirigiu um screwball, o fraco “Mr. and Mrs. Smith” (1941) -, mas ele é o rosto mais identificável das screwballs. Ele estrelou vários filmes, os mais notáveis “The Awful Truth”, “Bringing Up Baby”, “Holiday “, “His Girl Friday”, “The Philadelphia Story” e “Arsenic and Old Lace” – todos eles, sem exceção, foram lançados no Brasil com títulos escabrosos. Vários desses filmes foram dirigidos por mestres como Howard Hawks, George Cukor e Frank Capra. Em todos eles Grant tentava se entender com uma mulher complicada ou dominadora. Esse tipo de papel era sempre interpretado por talentosas atrizes como Jean Arthur ou Katharine Hepburn – a última, como Grant, é a “cara” do gênero. Outros atores que se aventuraram com sucesso foram Claudette Colbert, Gary Cooper, Melvyn Douglas, Clark Gable, Carole Lombard, Myrna Loy, William Powell e James Stewart.

Depois de “Arsenic and Old Lace”, em 1944, a screwball foi sumindo das telas. Culpa da televisão e do desmantelamento do velho sistema de estúdios. Depois de 1944, alguns cineastas tentaram ressuscitar o gênero. Billy Wilder, que na época de ouro apenas escrevia roteiros, é um dos poucos dignos de nota. Seus “Some Like It Hot” (1959) e “One, Two, Three” (1961) são filmes inesquecíveis. Outros, seja pela falta de qualidade ou conseqüência da liberação do tema sexo nas telas, quebraram a cara – Peter Bogdanovich, com seu sofrível “What’s Up, Doc?” (1972), foi um deles. Até mesmo Billy Wilder experimentou o declínio ao forçar a barra em screwball posteriores.

Hoje, o gênero faz apenas aparências ocasionais. Os irmãos Coen tentaram duas vezes, com “The Hudsucker Proxy” (1994; quase uma refilmagem de “Mr. Deeds Goes to Town”) e “Intolerable Cruelty” (2003), sem nem chegar perto da época de ouro.

Uma screwball de primeira: “My Man Godfrey”


O ator William Powell ficou famoso como Nick Charles, o detetive amador que adora festar e beber, casado com a não menos excêntrica Nora (Myrna Loy), numa série de seis filmes que começa com “The Thin Man”, em 1934. Os “Thin Man” incorporavam elementos da screwball comedy, e o casal Charles sabia provocar ótimas gargalhadas, mas a essência era sempre a resolução de um crime. (No filme ‘Murder by Death”, de 1976, que tinha Truman Capote no elenco, Nick e Nora foram parodiados como Dick e Dora por um casal interpretado por David Niven e Maggie Smith.)

William Powell também estrelou em 1934 uma screwball mais “pura”, chamada “My Man Godfrey”. Numa história que parecia ideal para o período da Grande Depressão – mas que não deixa de ser um tanto estapafúrdia -, Powell é um mendigo chamado Godfrey que vive num lixão à beira do rio East e acaba virando um item numa gincana organizada por um bando de ricaços, que precisam trazer um “forgotten man” para vencer. Estranho? Fica ainda melhor quando uma menina mimada (interpretada por Carole Lombard, na época ex-mulher de Powell), depois de ouvir recriminações de Godfrey, que achou a gincana uma coisa deplorável, resolve contratá-lo como mordomo. Godfrey acaba se revelando um mordomo acima da média, e é a pessoa mais normal numa casa sustentada por um pai à beira de um ataque de nervos, uma mãe desmiolada que serve de mecenas para um vagabundo comilão com afetação artística, e duas filhas mimadas. Logo a personagem de Carole Lombard se apaixona por Godfrey, e usa todo tipo de chantagem emocional para chamar sua atenção, enquanto sua irmã invejosa tenta destruir o novo mordomo. Logo é revelado que o bem educado Godfrey não é simplesmente um ex-mendigo.

O final é um tanto piegas, mas uma redenção apropriada para uma screwball. Pode-se também criticar certos exageros de Lombard, mas muitas das melhores falas do filme são dela – mérito maior do roteirista Morrie Ryskind, que costumava reescrever as falas no set. Como não rir quando ela vaga no meio de uma festa dizendo que “seu coração foi despedaçado”, enquanto ninguém parece ligar? E a cena em que ela grita que Godfrey a ama porque a enfiou num banho gelado depois de um falso desmaio? Powell só aceitou fazer o filme se sua ex-mulher fosse parceira da cena. Uma imposição feliz. Mas o filme funciona porque Godfrey também é maravilhosamante construído. Powell e o hoje esquecido diretor Gregory La Cava discutiram como seria o personagem numa noite de bebedeira. No dia seguinte, Powell não apareceu no set de filmagens por causa da ressaca, mas mandou uma mensagem que dizia “”We may have found Godfrey last night but we lost Powell. See you Tomorrow“. Powell, aliás, sabia interpretar um bêbado como ninguém – é só ver os filmes “Thin Man” -, e quando Godfrey resolve aproveitar um dia de folga para beber…

“My Man Godfrey” foi indicado aos Oscars de melhor filme, roteiro, ator, atriz, atriz coadjuvante e diretor – o primeiro filme a concorrer em todas as cinco categorias principais. Infelizmente, não levou nada. Não importa, “My Man Godfrey” – que está disponível na Criterion Collection – dispensa prêmios.

O novo Indiana Jones é uma bomba

quinta-feira, maio 29, 2008

Spielberg got lost in his own museum?

George Lucas está se tornando um especialista em frustrar grandes expectativas e esperas intermináveis. Foram 19 anos para desenvolver um roteiro para o novo Indiana Jones, e ele, junto com David Koepp, acabou entregando esse “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”. Mesmo Spielberg, que alternando altos e baixos nesses 19 anos conseguiu manter um padrão de qualidade, parece estar cansado. “Caveira de Cristal” está mais para o péssimo “Rambo IV” do que o até bem-sucedido “Duro de Matar 4.0”, se for para ficar nessas continuações tardias. Faz feio até mesmo se comprado à série de TV “O Jovem Indiana Jones”.

A história do filme é a seguinte: em 1957, um bando de russos – que aqui assumem o lugar dos nazistas como vilões – seqüestram Indy e o forçam a encontrar uma caixa na famosa Área 51. O conteúdo é magnético e esconde um ET (!). Tiroteios, uma bomba nuclear e perseguições depois, Indy escapa e acaba sendo interrogado pelo FBI. Perde o emprego de professor. Um rapaz (Shia LaBeouf) que afirma ter sido criado por um antigo amigo de Indy (Ox, John Hurt), aparece e pede ajuda para salvar sua mãe, que é refém dos russos. Perseguições depois, eles embarcam para o Peru à procura da tal caveira de cristal. Um segredo sobre o rapaz e Indy, que a essa altura já é bastante óbvio para o espectador, é revelado. A parceira romântica de Indy no primeiro filme, Marion Ravenwood, interpretada por Karen Allen (o tempo é cruel com as pessoas), aparece em cena. Com os russos no encalço, eles partem para devolver a caveira ao seu lugar. Mas aí a trama toda já se tornou bizantina demais.

O roteiro é, sem dúvida, a maior fraqueza do filme, mas as interpretações também não fazem melhor. Os russos-estão-chegando são liderados por Cate Blanchett, que aqui faz uma Ninotchka-dominatrix-com-poderes-mentais (“a favorita de Stalin”) que é ruim até o osso. Um inglês chamado Mac, (Ray Winstone) que fez amizade com Indy na Segunda Guerra, é o personagem dúbio que repetidamente trai todo o grupo que o acompanha. Essa amizade é estranhamente apresentada. O filme não tem muito a dizer sobre a relação desses dois homens, e o ritmo alucinante da trama não permite que eles tomem um cafezinho ou analisem a relação – o que também acontece com todos os personagens. Karen Allen está totalmente subaproveitada. John Hurt está patético e são dele algumas das falas mais constrangedoras do filme – “the space between spaces” merecia que seu peito explodisse. Shia LaBeouf está abominável como o apoio de Indy, e seu cópia barata de Marlon Brando parece ter sido mesmo escrita apenas para ser um rosto “jovem” num bando de velhos e assim atrair adolescentes. Mesmo Harrison Ford, que mostra ainda ser capaz de usar o fedora e encarnar um dos personagens mais queridos do cinema, vai decepcionar o espectador. Indy está excessivamente sardônico, respondendo qualquer pergunta com tiradas rápidas que logo se tornam cansativas.

Qualquer aventura do desenho Duck Tales é mais criativa que o novo Indiana Jones. Os filmes anteriores já “pegavam” idéias de aventuras mais antigas (“Templo da Perdição” de “Gunga Din”, “Última Cruzada” do francês “L´as des As”; grandes filmes), mas o novo Indy parece ter se inspirando em coisas de qualidade duvidosa, como “Stargate”, o até divertido “Alien vs Predador”, “A Lenda do Tesouro Perdido” e o próprio pastiche “A Múmia” (você já viu as formigas antes), assim como no ritmo exagerado de “Piratas do Caribe”. Tudo isso com uma trama constrangedora de ETs que deixaria orgulhoso o picareta Erich von Däniken. “Goonies”, que também é plagiado, deixa “Caveira de Cristal” no chinelo.

Não há nada de grave nos erros factuais do filme – os anteriores já estavam cheios disso -, mas “Caveira” é repleto de erros de lógica. A afirmação de Indy de que aprendeu quéchua (língua dos Andes) com o mexicano Pancho Villa pode deixar acadêmicos de cabelo em pé, mas o espectador vai ficar mais indignado com os poderes da caveira. Ora ela é magnética, ora ela deixa de ser. E por que diabos eles foram até a Área 51 se a caveira sempre esteve no Peru? Como alguém pode permanecer sentado num veículo anfíbio depois dele cair por duas cachoeiras? O que aconteceu com a caveira do corpo recuperado na área 51? Bah… Não adianta insistir.

Com um roteiro fraco – e o dedo de Lucas, que deve ter enfiando todos aqueles cães da pradaria e macacos no filme -, era de se esperar que pelo menos o filme tivesse o clima dos anteriores. Errou de novo. Não há suspense nem antecipação quando Indy e sua turma entram nas ruínas, nada de misterioso ou curioso nas histórias por trás da caveira. Isso parecia acontecer quando nativos cercavam Indy e sua trupe (é, ele nunca está sozinho), mas a cena logo acaba e parte para outro cenário exótico. Logo no começo, a cena da área 51 em que o espectador tem um rápido vislumbre da arca do primeiro filme serve como o exemplo perfeito de que “Caveira” não vai entregar nada do que foi visto nas aventuras anteriores. As tão elaboradas cenas de perseguição acabam saindo pela culatra por serem demasiadamente exageradas. O duelo de espadas em veículos que disparam por uma Transamazônica duplicada que nunca acaba (“You fight like a young man: quick to begin, quick to finish”) só não é pior que a performance de Shia LeBoeuf encarnando Tarzan nos cipós. Ninguém fuma nesse filme família que pretende representar a década de 50 e a caveira do título nada mais é que uma peça barata de plástico e papel alumínio plagiada dos monstros de “Alien”. Em toda a brincadeira foram gastos 200 milhões de dólares.

No final, como era de se esperar, o vilão derrete e o cenário desmorona. O filme tinha desmoronado muito antes.

Uma vergonha.

Obs: “Templo da Perdição” e “Arca Perdida” eram VHS sempre alugados em casa, mas assisti “Indiana Jones e a Última Cruzada” no finado Cine Itália de Curitiba. Tinha apenas seis anos. Foi uma das melhores coisas que já tinha visto. Zeppelins, alemães malvados, tanques de guerra, caças, o sobrenatural. Meu pai, que nunca foi um grande fã, teve que levar eu e meu irmão mais duas vezes para assistir, de tanto que insistimos. Ele sempre será parte da minha infância. Depois do filme, eu gostava de pegar um pequeno caminhão Playmobil e enfiá-lo de ponta cabeça no canhão de um tanque Comandos em Ação, imitando uma das cenas mais famosas da aventura. Duvido que “Caveira de Cristal” tenha essa capacidade de encantar uma criança.