Archive for the ‘“Yo soy baiano!”’ Category

A festa de Mugabe… e de Mswati III… e de Bokassa I

segunda-feira, março 9, 2009

Os números da festa nababesca que Robert Mugabe, o ditador do Zimbábue, ofereceu ao completar 85 anos, no dia 28 de fevereiro:

– Duas mil garrafas de champanhe Moët & Chandon

– Oito mil lagostas

– Três mil patos

– Quatro mil porções de caviar

– Oito mil caixas de chocolate Ferrero Rocher

– Cinco mil garrafas de uísque Johnny Walker Blue Label

– Cem quilos de camarão (Vergonhoso, Mugabe. Ibrahim Sued, na comemoração dos 30 anos de sua coluna em “O Globo”, em junho de 1983, ofereceu 120 quilos do crustáceo para seus convivas)

Segundo os organizadores, a festa custou cerca de US$ 250 mil (R$ 594 mil)

Alguns números do Zimbábue de Mugabe:

– Sete dos doze milhões de habitantes do Zimbábue precisarão de ajuda alimentícia este ano para sobreviver, segundo a ONU

– 94% de desemprego

– Três mil mortos num recente surto de cólera

– 1,8 milhão de zimbabuanos são portadores do HIV

– Expectativa de vida é de 37 anos para homens e 34 para as mulheres

– 98% de inflação diária (isso mesmo, diária)

– 3,4 milhões de refugiados

Post anterior sobre o Zimbábue e Mugabe.

E em algum lugar da África…

A festa de Mugabe pode ser considerada tímida para os padrões do continente. Em setembro de 2008, na Suazilândia, o rei Mswati III não poupou despesas na “Festa 40/40”, para comemorar os 40 anos da indepêndencia do país e o seu próprio aniversário. Mswati reina num dos países mais miseráveis da África e também a última monarquia absolutista do continente. Um rei playboy que não esconde o gosto pelo luxo, com uma coleção de 13 mulheres e dezenas de carrões. Mesmo com a economia do seu país sendo uma tragédia e 26.1% dos suazis infectados pelo HIV – ele propôs, em 2001, a abstinência sexual para todos os suazis como maneira de conter a epidemia –, Mswati  achou que havia motivos para comemorar. A tal “40/40” custou 1,5 milhão de libras. O ponto alto da festa foi sua entrada no estádio de Mbabane, a capital, desfilando num BMW novinho em folha – um dos 20 comprados para a ocasião – vestido em uma roupa feita de pele de leopardo. Robert Mugabe compareceu ao evento.

Bokassa Coronation

Mas as festas extravagantes desses déspotas africanos não são nada se comparadas à famosa coroação do “imperador” Jean-Bédel Bokassa, em 1976.

Governante da miserável República Centro-Africana de 1966 a 1979, o rídiculo Bokassa foi um político heterodoxo até para os padrões africanos – o que não é fácil no continente de Idi Amin, Mobutu e Muammar al-Gaddafi. Foi soldado do exército colonial francês, tendo participado da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Indochina. Chegou ao poder em seu país por um golpe de estado. Provocou um escândalo na França quando presenteou o então ministro das Finanças francês, seu amigo de Valéry Giscard d’Estaing, com dois enormes diamantes. Se converteu do catolicismo para o islamismo, quando quis se aproximar dos líbios, mas, alguns anos depois, mudou de idéia e voltou para a Igreja de Roma.

Como ditador, Bokassa não decepcionou ao fazer novas leis. Resolveu punir com multa ou prisão quem não tivesse emprego e permitir que tambores fossem tocados apenas à noite e nos finais de semana. (Fome, mosca tsé-tsé, pobreza e rebeldes eram – e continuam sendo – os principais problemas do país.)

Mas o ponto alto da sua carreira foi ter transformado a República Centro-Africana num império. Em 1976, Bokassa achou que o status de monarca proporcionaria mais respeito ao seu país miserável. Realizou uma cerimônia de coroação inspirada na de Napoleão Bonaparte – aquela em que o petit caporal tirou a coroa das mãos do papa, um exemplo para todos os megalomaníacos –, com custo estimado em 20 milhões de dólares (1/3 do orçamento do país; de fazer até os Bourbons corarem). Bokassa convidou dezenas de líderes estrangeiros para seu evento kitsch, mas ninguém compareceu.

Considerado um louco, Bokassa até mesmo foi – tal como Idi Amin – acusado de canibalismo. Tinha 17 mulheres e mais de 50 filhos. Em 1979, os franceses, já fartos de seu compartamento, apoiaram um golpe que derrubou o imperador e acabou com seu “Império Centro-Africano”. Bokassa morreu em 1996.

Obs: para quem não imagina até onde a locura de ditadores pode ir, a agência Magnum tem em seu acervo dezenas de fotos de Bokassa I e de sua inacreditável cerimônia de coroação.

 

Morreu o pai do Playmobil

quarta-feira, fevereiro 4, 2009

Quem foi criança na década de 80 ou princípio de 90 dificilmente deve ter ouvido falar de Hans Beck. Entretanto, a criação desse alemão de Zirndorf, que morreu dia 30 de janeiro, aos 79 anos, é bastante conhecida: os bonecos Playmobil.

O primeiro boneco de Beck foi comercializado em 1974. Foi o choque do petróleo de 1973 que levou a Geobra – empresa na qual Beck era criador e ainda hoje fabrica os bonecos – a dar início à linha de Playmobils. Até então a Geobra favorecia a fabricação de grandes bonecas e outros brinquedos que usavam bastante plástico. Com o aumento dos preços, era necessário fazer mais com menos. Os bonecos de Beck caíram como uma luva.

Desde o começo Beck estabeleceu os temas para os Playmobils. O faroeste e os serviços públicos eram bem famosos, mas cobiçados pelas crianças eram mesmo os grandes Playmobils, como o barco pirata e o caminhão de bombeiros – duas peças que ainda são capazes de encantar um adulto pela precisão e beleza.

Nos 20 anos seguintes os bonecos de cabelo destacável e mãos em forma de garra da Geobra foram exportados ou licenciados para 70 países. No Brasil, foram fabricados sob licenciamento pela Troll e pela Estrela. (Era grande a diferença entre os Playmobils alemães e os da Troll. A empresa brasileira vendia temas que há anos tinham saído de linha na Europa. Mais gritante, porém, era a qualidade do plástico, que dava um aspecto “pirata” para os Playmobils da Troll – o melhor teste de qualidade para esse material ainda continua sendo a mordida de uma criança.)

O Playmobil nunca teve a inventividade do Lego – tampouco sua popularidade –, mas tinha algo em comum com seu rival dinamarquês: a capacidade de incentivar coleções. O universo Playmobil era vasto e variado – como mostra o site Collectobil, que possui um catálogo de todos os Playmobils organizados por temas. Hoje em dia, alguns desse temas podem até ser considerados politicamente incorretos, como os bonecos operários de construção civil que vinham acompanhados de um engradado com garrafas de cerveja.

Certa vez, Hans Beck declarou que não gostaria de misturar os seus Playmobils com ETs, dinossauros e um Boeing 747. A Geobra não respeitou sua vontade: nos últimos anos, só o Jumbo ficou de fora.

Mas por onde andam os bonecos? Uma ida a uma loja de brinquedos brasileira mostra por que o Playmobil parece ter sumido do universo infantil: mesmo o dinossauro desprezado por Beck não custa menos de 150 reais. Depois que a estrela saiu de cena, o Playmobil ficou vários anos ausente do país, até que voltou pela Sunny Brinquedos, mas como produto importado da Alemanha. Diante da concorrência chinesa e seus brinquedos baratos cheios de chumbo e amianto, o Playmobil parece ter se tornado um brinquedo viável apenas para os mais apaixonados.

Ainda existem bons livros sobre Berlin

quinta-feira, julho 31, 2008

“Berlin: Portrait of a City” é, sem exagero, o mais belo livro de fotografias já organizado sobre uma cidade. Esqueça esses livros comemorativos lançados por secretarias de cultura ou aqueles patéticos catálogos para turistas. Esse é um trabalho ambicioso e apaixonado.

A editora responsável por essa obra-prima é a Taschen, famosa pelos livros gigantescos e gosto por temas polêmicos. A organização é de Hans-Christian Adam.

Reunir fotos de uma cidade pode parecer banal – ainda mais se comparado com outras obras da editora -, mas o resultado é grandioso e nada menos que emocionante. A contracapa avisa que esse é o “estudo mais abrangente já realizado sobre Berlin”. De fato, é difícil lembrar de um livro fotográfico mais completo sobre a cidade. São mais de 140 anos mostrados através das lentes de Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, Helmut Newton, Thomas Struth, Wolfgang Tillmans, Heinrich Zille etc.

O tratamento editorial é impecável, e o tamanho enorme de muitas das fotos permite examinar detalhes fascinantes da antiga paisagem urbana. Ganham vida as antigas indústrias, as velhas figuras dos “anos loucos” e, inevitavelmente, as conseqüências da guerra. A destruição sofrida pela cidade parece inacreditável, mas é emocionante notar que a vida cotidiana, apesar de tudo, continuou. E Berlin, nesses 140 anos, parece tão viva graças aos seus habitantes. A destruição da guerra dá lugar à tensão da Guerra Fria e à divisão da cidade, mas, novamente, nada disso é páreo para a coragem dos berlinenses, que reconstruíram o que parecia completamente perdido. Eles recebem uma bela homenagem nessa obra. Notável que esse livro tenha tratado marginalmente o nazismo e as figuras importantes da política, mas, começando na expansão urbana do século 19 e terminando nos arrojados edifícios pós-modernos, se concentrado nos rostos de gente comum e nas construções – e mostrado como essas coisas são afetadas pela história.

Berlin, essa cidade de transformações e destruição, tantas vezes imortalizada na literatura e no cinema, tem um livro de fotografias à altura de sua grandeza.

Obs: Meu pai, que nasceu em Berlin, fez aniversário ontem (30 de julho). “Berlin: Portrait einer Stadt” foi o presente escolhido pelo meu irmão e minha cunhada.

Celebridades Políticas

segunda-feira, julho 28, 2008

Clint e Arnie: eles são minoria na Califórnia

Para quais campanhas eleitorais as celebridades americanas fazem doações? O Newsmeat responde. Na lista, o que todo mundo já sabia: Hollywood é dominada pelos democratas. Mas existem republicanos. Os generosos do passado são as velhas figurinhas: James Stewart, Bob Hope, Frank Capra, Charlton Heston e James Cagney. No time dos vivos: Adam Sandler (?), Shirley Temple, Robert Duvall, Chuck Norris (claro), Prince (!?) e Jim Caviezel (Jesus é republicano). O horrível cantor José Feliciano também vota no Grand Old Party. Clint Eastwood, um dos atores republicanos mais famosos e ex-prefeito de Carmel pelo partido, doou 2.300 dólares para a campanha de John McCain.

O republicano que mais abre a carteira é o escritor Tom Clancy: 237.050 dólares, os mais recentes para o reacionário pré-candidato Duncan Hunter (saudades da Guerra Fria?). O falecido Frank Sinatra deve ter mesmo se desiludido com seu velho amigo John Kennedy: a maior parte de suas doações foi para candidatos republicanos – Ronald Reagan e George H. Bush incluídos.

Mas a maioria doa mesmo em campanhas locais. Em alguns casos, as celebridades doaram para os dois partidos. Só assim para o diretor Oliver-conspiração-Stone ter contribuído para a campanha de um republicano.

Obamania em Berlim

segunda-feira, julho 28, 2008

Berlim é a cidade que poderia resumir boa parte da história do século 20. Sofreu como nenhuma outra os efeitos das duas guerras mundiais e foi o palco principal da Guerra Fria. Natural que seu simbolismo seja grande. Para alguns presidentes americanos, Berlim também marcou momentos de triunfo oratório. John Kennedy disse “Eu sou um berlinense”, Ronald Reagan pediu “Sr. Gorbachev, derrube este muro!”. Menos lembrado é Bill Clinton: em 1994, ele comemorou “Berlim é livre!”.

Kennedy, ao contrário de Reagan e Clinton, não discursou à frente do Portão de Brandemburgo, mas tinha em comum com seus sucessores a condição de presidente.

O candidato democrata Barack Obama ainda não chegou lá, mas apostou que um discurso na capital alemã é o tipo de recado que deve passar para os que o julgam inapto em questões externas. Aposta arriscada. O governo alemão vetou o Portão, e Obama teve que se contentar com a Coluna da Vitória.

[Continua]

“It’s an opera”

sexta-feira, julho 25, 2008

Três membros da “famiglia” Wagner, senhores do Festival de Bayreuth

A ópera não é  considerada o gênero musical predileto de multidões. Mas o Festival de Bayreuth, que começa hoje, tem um público de causar inveja a qualquer artista, não importando o tipo de música que toque. Na sua 97° edição, o festival, que dura um mês, vai receber quase 60 mil apreciadores das obras do compositor alemão Richard Wagner. E esses cerca de 60 mil são considerados “sortudos”, já que o festival é disputadíssimo e conseguir um ingresso pode exigir anos na lista de espera. Quase 500 mil pessoas tentaram, em vão, comprar ingressos para esta edição.

Mas pessoas famosas e autoridades não precisam se preocupar em conseguir ingressos. Para eles, a organização do festival estende, literalmente, um tapete vermelho – a chanceler alemã, Angela Merkel, por exemplo, há anos freqüenta o festival.

Para os organizadores, afagar quem está no poder não é apenas um sinal de vaidade – e vaidade é o que não falta no festival -, mas uma questão de sobrevivência. Como qualquer festival de ópera, Bayreuth dá prejuízo, mesmo com um público cativo. É o Estado Alemão que cobre a diferença injetando 17 milhões de euros anuais – uma quantia considerada baixa para os padrões europeus.

O subsídio é tão Bayreuth quanto “Siegfried”. Uma tradição que começou com o fundador, o compositor romântico Richard Wagner. Com uma carreira cheia de altos e baixos até 1864, e no ostracismo por causa da sua vida privada escandalosa, Wagner teve a sorte de cair nas graças de um admirador poderoso: o jovem rei da Baviera Ludwig II, considerado um louco. Ludwig serviu de mecenas para Wagner, financiando generosamente suas obras posteriores e a construção de um teatro na pequena cidade de Bayreuth, exclusivamente para a encenação das obras do compositor. Foi um sucesso. O festival logo se tornou um evento para gente importante – até mesmo o nosso imperador D. Pedro II deu as caras. Nietzsche, obviamente, também era uma presença assídua.

Após a morte do compositor, em 1883, o teatro e o festival passaram a ser administrados pelos descendentes de Richard.

Num caso raro de continuidade, a família Wagner controla a organização do festival até hoje. Como um feudo, não é um negócio tocado com discrição. Os jornais alemães estão repletos de histórias sobre brigas entre membros da família. Atualmente é Wolfgang Wagner, neto de Richard e bisneto de Franz Liszt, que organiza o festival.

Nazismo e mudanças

Wagner não é nem um pouco popular em Israel. Suas óperas repletas de elementos do folclore germânico são consideradas por alguns a trilha sonora do Holocausto. Nos primeiros anos de poder, Hitler era um freqüentador assíduo do festival. Chegou a aumentar o subsídio que o teatro recebia do governo. Por anos, o relacionamento que matinha com Winifred Wagner, filha de Richard, foi alvo de especulação – suspeitava-se que ela fosse sua amante. O festival floresceu nos tempos de Hitler e, por estranho que pareça, foi durante o nazismo que aconteceram as primeiras mudanças depois da morte de Richard. Até então, todas as óperas eram encenadas com os mesmos cenários do século 19. Alguns tradicionalistas, incluindo o maestro Arturo Toscanini e o compositor Richard Strauss, protestaram.

Albert Speer, ministro e um dos favoritos de Hitler, contou em suas memórias que na esperança de agradar ao führer, muitos nazistas compareciam ao festival. Mas a duração de óperas como “Parsifal”, que tem mais de cinco horas (!), levava muitos desses nazistas de baixo  clero, mais habituados a quebrar crânios de comunistas nos tempos de freikorps, ao sono – para desgosto de Hitler.

Hitler nunca mais pôs os pés em Bayreuth depois de 1939, mas ele sempre foi uma sombra no festival. Até hoje a filha do marechal fanfarrão de Hitler, Hermann Göring, um grande amigo da família, recebe ingressos gratuitos. (História curiosa: poucos antes de sua morte, o filho de Rudolf Hess, Wolf Rüdiger, soube que a filha de Göring recebia ingressos. Reclamou. Desde então, também passou a ter entrada livre.)

Durante a guerra, boa parte da cidade foi destruída, o teatro, porém, ficou relativamente intacto. Mas foi só em 1951 que o festival recomeçou. Winifred foi banida pelos americanos por ser considerada uma nazista incorrigível. Mas o negócio não deixou de ser familiar, e a organização e a direção passaram para seus filhos, Wolfgang e Wieland.

Assumindo a direção, Wieland revolucionou o festival nos primeiros anos. Despindo as obras de seu caráter nacionalista, ele buscou um apelo mais universal. Também trocou os elaborados cenários tradicionais por outros com elementos mais modernos e simples. Muitos críticos acusaram as mudanças de serem uma traição aos ideais germânicos – lembrando em muito os nazistas e sua perseguição à “arte degenerada”. O público, por sua vez, vaiou.

Wieland se defendeu como pôde, mas sua morte prematura em 1966 abriu caminho para seu irmão Wolfgang, considerado menos brilhante. (Com o tempo, vários críticos reconheceram que a abordagem de Wieland era ideal.) Mais tradicionalista que seu irmão, Wolfgang reverteu todas as mudanças e se voltou para a abordagem pré-guerra. Espantou as vaias, mas os críticos começaram a achar que o festival estava engessado demais. O seu reinado já começou a ser contestado no começo da década de 70. Wolfgang então resolveu criar a “Oficina de Bayreuth”, convidando diretores de outras óperas e até mesmo do cinema para mostrarem suas abordagens da obra de Wagner. Wolfgang ficou responsável apenas pela administração do festival. Mas em 1973, por pressão do governo da Baviera e por brigas com outros Wagners, ele teve que entregar parte do poder. Foi criada a Fundação Richard Wagner, com outros membros da família e algumas figuras públicas. Porém, Wolfgang, um sobrevivente nato, continuou na chefia.

Há anos sofrendo pressão para se aposentar, ele finalmente entregou os pontos este ano, aos 89 anos, em parte por causa de sua saúde debilitada. Esta edição é a última sob seu comando.

É o fim da era Wolgang, mas a família Wagner continua. Duas Wagners estão sendo cogitadas como sucessoras. Eva e Katharina, filhas de Wolfgang e bisnetas de Richard. Elas já estão brigando pelo cargo. Os Wagners são mesmo personagens de opereta.

“What is the capital of Assyria?”

quinta-feira, julho 10, 2008

Alemanha: o portão não está aberto a todos

Com uma das taxas de fertilidade mais baixas do mundo, a Alemanha pode ter sua população reduzida de forma significativa em 2050. Uma projeção apontou que até lá a população atual de 82 milhões pode cair para 69 milhões. Mesmo esse número pessimista leva em conta uma imigração anual de 100 mil pessoas para o país. Com 200 mil imigrantes o problema só diminui um pouco: a população seria de 74 milhões.

É um problema que assombra o país há quase 20 anos.  Ainda não se concluiu se os incentivos à natalidade – que também existem em vários oitros países europeus – vão dar resultados. Mesmo assim pouco está sendo feito para facilitar a entrada de imigrantes.

Até 2000, o direito à cidadania alemã era baseado no sangue (“princípio da descendência”). Não fazia diferença se a pessoa tinha nascido na Alemanha: só quem tinha parentes alemães tinha o direito assegurado. O resultado foi gerações de pessoas nascidas no país que continuavam com o status de estrangeiras. O problema atingiu particularmente os que tinha ascedência turca – de longe a maior comunidade estrangeira no país. A lei mudou, e mesmo não sendo retroativa, começou a resolver parte do problema de muitos filhos de imigrantes.

Em 2005, o país reformou sua lei de imigração. Pouca coisa mudou. Mesmo sendo um dos destinos europeus mais procurados pelos ilegais, é muito difícil para um trabalhador pouco qualificado conseguir obter a naturalização ou mesmo a versão local do Green Card. O país só incentiva a entrada de profissionais bem qualificados, e basicamente em programas de trabalho temporário. Nada disso resolve o problema da taxa de natalidade. Para piorar, em 2007, 113 mil estrangeiros adquiriram a cidadania alemã, 9,5% a menos do que no ano anterior. Paradoxalmente, a Alemanha é o membro da UE que abriga mais asilados políticos – mais de 200 mil, e muitos deles recebem ajuda estatal.

A história mostra que a Alemanha sempre foi um país que acolheu muitos imigrantes. O Wirtschaftswunder (“Milagre Alemão”), como é chamada a ascensão do país como potência ecônomica no pós-guerra, contou com a ajuda dos Gastarbeiter, os “trabalhadores convidados” – sobretudo dos países mediterrâneos, na época miseráveis -, que foram ao país às centenas de milhares para suprir a demanda da indústria por trabalhadores. Os turcos, em grande quantidade, foram a segunda leva. Mas não foram recebidos de braços abertos como seus antecessores, e logo se tornaram indesejáveis. (As condições degradantes a que muitos turcos foram submetidos foram denunciadas pelo jornalista Günter Wallraff no seu devastador livro “Cabeça de Turco”.)

Questionário

Mesmo com algumas iniciativas tímidas para atrair imigrantes qualificados, alguns setores da sociedade alemã acham que algumas coisas vieram para dificultar. Além de cumprir regras como morar no país há oito anos, não ter antecedentes criminais, ganhar o necessário para se sustentar e ter conhecimentos suficientes do idioma alemão, a partir de 1° de setembro o interessado terá que responder um questionário sobre história e sociedade alemã. Várias associações que representam os turcos, além do Partido Verde, reclamaram do teste. Um porta-voz de uma dessas associações ironizou que nem mesmo um alemão comum seria capaz de responder muitas das questões.

Elaborado pela Universidade de Humboldt, de Berlin, o teste consiste em 33 perguntas – de um estoque de 300. O site da revista Der Spiegel disponibilizou uma das versões. Não é uma prova muito difícil, considerando que apenas 17 precisam ser respondidas corretamente. Muitas questões independem de conhecer a Alemanha e podem ser respondidas pelo senso comum. Exemplo: “Qual é o papel de um júri?”. Ou: “Qual o papel da polícia?”. Quatro opções são dadas, sendo uma sempre estapafúrdia. Mesmo as questões sobre história podem ser respondidas com pouco estudo. “Como acabou a guerra na Europa?” “Quem foi o primeiro chanceler?” Outras coisas são curiosas: “O que os alemães fazem na Páscoa?”. Resposta: “Pintam ovos”. Este blogueiro acertou 30 questões. As três erradas foram justamente o tipo de pergunta que gerou controvérsia. Alguém sabe quais são as cores da bandeira da Renânia do Norte-Vestfália? Não fazia a mínima idéia. Existem também as perguntas clássicas sobre capitais e Estados.

Os autores do teste disseram que em média 80% dos candidatos devem passar. O ministro do Interior, Wolfgang Schäuble, afirmou que a gritaria é exagerada, e comparou o teste com os conhecimentos necessários para a obtenção da carteira de motorista.

Outros questionários

Outros países também aplicam testes similares. O mais famoso é o americano. O site da MSNBC fornece um modelo. Nada impossível, mas algumas questões, se comparadas com algumas do teste alemão, são bastante difíceis, e provavelmente a maioria dos americanos não saberia responder. Abordam artigos da constituição e o funcionamento do Executivo. “Quem assume se o presidente e seu vice não estiverem disponíveis?” Até o ex-secretário de Estado Alexander Haig não sabia essa quando Reagan foi baleado. “Quem tem poder para declarar guerra?” “Qual desses artigos da constituição não menciona liberdades?” “Quais são os 49° e 50° Estados americanos?” E isso é só o teste. A maioria dos candidatos não será barrada aí, mas antes, porque será incapaz de cumprir outras exigências. Para muitos é mais garantido pular a cerca ou tentar a sorte com uma balsa…

Os ingleses, como era de se esperar, junto com perguntas sérias, aplicam um teste bastante bem-humorado e prático – baseado no livro “Life in U.K.”, um guia para estrangeiros. Não, não perguntam qual a capital Assíria antes de você passar pela ponte da Morte. Mas coisas como: “Num pub, se você derrubar a cerveja de alguém, qual é o procedimento?” “Paga outra ou briga?” “Se você apanhar e se ferir por causa desse incidente, qual o número que você deve chamar?” “Onde os ingleses acham que o Papai Noel mora?” “Lapônia ou Pólo Norte?” “Qual a obrigação de quem tem animal de estimação?”

Deve ter sido preparado pelo Minister of Silly Walks… Uma simulação foi elaborada pela BBC.

E, para terminar, existe o francês. Assim como seus “primos”, ele é pouco determinante. Proposto pelo então ministro do Interior Nicolas Sarkozy em 2003, aborda questões culturais que parecem ter sido feitas sob medida para os imigrantes islâmicos. Exemplo: “Um homem pode ser condenado por estuprar sua esposa?” “O casamento é uma questão de interesse dos parentes ou apenas do casal?”

No Brasil, o estrangeiro que quiser se naturalizar não precisa saber quais são as cores da bandeira da Paraíba ou o que fazer se derrubar a Brahma de alguém. Depois de cumprir algumas obrigações, basta fazer uma prova de português.

Texas vigilante

quinta-feira, julho 3, 2008

Paul Kersey, o personagem mais famoso de Charles Bronson

Os personagens mais marcantes de Charles Bronson saíam matando bandidos depois de terem a família inteira estuprada e assassinada. Bronson, que até era sujeito pacato, popularizou os justiceiros no cinema (nos EUA são chamados de “vigilante”). Para o texano Joe Horn, um aposentado de 61 anos e morador de um subúrbio tranqüilo de Pasadena, não foi preciso tanto para se tornar um “vigilante”. Quando ele viu dois sujeitos invadindo a casa de seu vizinho, achou que ligar para a polícia não era suficiente. Ignorando os apelos do atendente do serviço de emergência, saiu de casa e enfrentou os ladrões, que nessa hora estavam passando pelo seu gramado. Foram dois tiros precisos de rifle calibre 12. Pelas costas, a uma distância de quatro metros. Miguel Antonio Dejesus, de 38 anos, e Diego Ortiz, de 30, morreram na hora. O produto do roubo era de mais ou menos 2.000 dólares em dinheiro e jóias. Isso aconteceu em novembro de 2007.

A conversa entre Horn e atendente do 911 foi divulgada para a imprensa. Nela se ouve um Horn cada vez mais agitado com a demora dos policiais, e avisando a todo momento que pretende fazer alguma coisa. O atendente pede mais de 30 vezes para que Horn não faça nada além de esperar. Inútil. Antes de sair, Horn avisa para o atendente ouvir o click da arma sendo engatilhada. Depois ele grita “Move, and you’re dead!” para os ladrões, e atira.

Um caso que dividiu opiniões não apenas na tranqüila Pasadena, mas em todo os EUA.

Famoso pela cultura de armas e pelas execuções em cadeias, o Texas também possui uma lei que autoriza o uso de força letal para defender propriedades. E Horn conhecia bem essa lei. Ele chega a citá-la na ligação para o 911 – além de afirmar que seu rifle não é ilegal.

Depois do tiroteio, foi revelado que Miguel e Diego, os dois ladrões, eram imigrantes ilegais da Colômbia e criminosos reincidentes. Além disso, eram membros de um quadrilha especializada em furtos na região de Houston, no Texas.

Como nos filmes de Bronson, muita gente gostou do que Horn fez. Dúzias de motoqueiros e outras pessoas usando camisetas de bandas metaleiras apareceram em frente à sua casa para manifestar apoio. No Youtube, existem vários vídeos da ligação para o 911 com títulos como “Vizinho do ano e “Herói Americano”. A maioria dá destaque para o fato dos ladrões serem imigrantes ilegais. Com pouco tato, o canal FOX News abordou a história usando o título “Herói ou Vigilante?”. O apresentador Bill O´Reilly, famoso pelas suas opiniões raivosas, não disfarçou a simpatia que sentiu por Horn, e afirmou que os dois criminosos morreram por causa de leis e ações ineficientes em combater a imigração ilegal. (Houston, assim como Nova York e outras grandes cidades, é uma “Sanctuary City”, um lugar em que os imigrantes colaboram com a polícia e em troca não são questionados sobre sua situação no país.)

Mas outras pessoas ficaram ultrajadas com a ação de Horn. Porém, os protestos que mais ganharam destaque não abordaram a questão de se fazer justiça com as próprias mãos (ou rifle), mas acusaram Horn de racismo – Miguel e Diego eram negros. Quanell X, nascido Quanell Ralph Evans, convertido ao islã e líder dos Novos Panteras Negras de Houston, liderou dois protestos em frente à casa de Horn. Nas duas ocasiões, ele e seu grupo entraram em choque com motoqueiros simpáticos a Horn que gritavam “USA! USA! USA!”. Quanell X, que na juventude cumpriu pena por posse e venda de drogas, afirmou que Horn não seria condenado e que a “lei branca” devia ser combatida. (Em 2001, Jeffrey Battle, um dos antigos seguranças de Quanell, ficou famoso como um dos Portland Seven, um grupo de americanos convertidos ao islã que tentou se juntar ao Talebã. Foi condenado a 18 anos de prisão por traição.)

Excessiva, legal, ou racista: a controvérsia continua. Mas Horn nunca foi preso. E nunca mais será. Um júri do Texas o inocentou de qualquer acusação em 30 de junho de 2008.

Obs: o áudio da ligação pode ser ouvido aqui.

“Ronald Reagan? The actor?”

quinta-feira, junho 12, 2008

Reagan discursa em Berlin Ocidental. O vidro atrás dele era à prova de balas. Precaução contra possíveis atiradores em Berlin Oriental.

Vinte e um anos atrás, em 12 de junho de 1987, Ronald Reagan discursou para uma multidão de 20 mil pessoas em Berlin Ocidental. Em frente ao Portão de Brandenburgo, ainda atrás do muro, em outro país, num pedido enérgico ele disse uma das frases mais famosas da Guerra Fria: “Mr. Gorbachev, tear down this wall!“.

Foi um momento de triunfo para Reagan. E quando ele morreu, em 2004, as revistas Time e Newsweek estamparam em suas capas a mesma foto de Reagan em frente ao Portão-Muro. Não é Churchill em “Aces High” do Iron Maiden, mas comparável ao “Ich bin ein Berliner” de Kennedy, 24 anos antes.

Goste-se ou não de Reagan (e em Berlin Ocidental, no dia anterior à visita, um protesto anti-EUA reuniu 25 mil pessoas), “Tear down” é um discurso que ficou na história. Na época, com exceção de alguns protestos da agência soviética Tass, o texto quase passou em branco. Depois de sete anos de presidência, Reagan já era uma figura menor, em parte pelo escândalo Irã-Contras. Mas as palavras foram ganhando importância com o queda do muro dois anos depois.

O discurso, assim como o famoso pedido a Gorbachev, foi escrito por Peter Robinson, na época redator da Casa Branca (que tem uma tradição de redatores talentosos, sendo o ex-colunista do New York Times Wiliam Safire o mais famoso). Ele conta mais sobre a elaboração do texto e a visita de Reagan na página do Arquivo Nacional dos EUA.

A França e a noiva que não era virgem

terça-feira, junho 3, 2008

Túmulos de soldados muçulmanos pichados na França. Intolerância dos franceses e obscurantismo de alguns muçulmanos provoca isolamento das comunidades.

Em 2007, o caso de uma alemã espancada pelo marido muçulmano que teve seu pedido de divórcio recusado por uma juíza de Frankfurt, sob a alegação que o Corão permite o espancamento da esposa – e que no Marrocos, país de origem do casal, essa era um prática comum -, gerou uma indignação sem precedentes no país.

A decisão da juíza Christa Datz-Winter foi classificada como estúpida e retrógrada – valendo até mesmo o repúdio das maiores organizações muçulmanas da Alemanha – e ela acabou retirada do caso.

Agora é na França que aparece uma história envolvendo muçulmanos e a discussão do casamento num tribunal ocidental.

Mas o”affaire” é mais complicado.

O caso aconteceu há um mês, mas só foi divulgado na semana passada, depois que o jornal Libération citou um artigo de uma revista jurídica. Num tribunal da região de Lille (norte do país), um francês convertido ao islã pediu a anulação do casamento porque a noiva tinha mentido sobre a sua condição de virgem – fato reportado no meio da noite de núpcias aos pais da noiva, que tiveram que acolher o “produto defeituoso”. Apoiado numa lei que garante a anulação em casos de “erro das qualidades essenciais” do cônjuge, o marido enganado conseguiu ter o pedido acatado pelo juiz.

Na França, conservadores e socialistas só concordam numa coisa: a defesa do Estado laico. O caso da burca das alunas de escolas públicas já tinha terminado com o banimento de qualquer adereço que exprimisse a identidade religiosa dos alunos. Agora é o “caso da virgindade” que provoca a ira dos políticos franceses. Ninguém disse “racaille” (gentalha) desta vez, mas vários políticos e intelectuais apontaram que a religião está se infiltrando nos tribunais. A ministra da Justiça, Rachida Dati – ela própria de origem marroquina -, não queria interferir no caso, afirmando que a anulação sem dúvida seria melhor para a mulher, mas, diante da gritaria, resolveu agir e pediu para que o promotor de Lille entre com uma apelação. Mas ela também acusou os socialistas de hipocrisia, culpando sua política de integração em governos anteriores por ter esquecido milhares de jovens muçulmanas e deixando-as à mercê de maridos machistas e tradições medievais. De fato, 8% da população francesa é muçulmana, e a integração de muitos é difícil. A lembrança da explosão das banlieues (subúrbios) em 2005 ainda está fresca. Prática típica dos países muçulmanos mais atrasados, o casamento arranjado acontece em plena Paris e outras cidades francesas que concentram praticantes do islã ou membros de etnias específicas – sem que exista uma política concreta para combatê-lo. Cirurgias para reconstrução do hímen, que são oferecidas por valores que variam de 500 até 1.300 euros em clínicas especializadas, podem ser vistas como uma excentricidade, mas acabam sendo a salvação de muitas mulheres muçulmanas que não querem passar pela vergonha de serem rejeitadas pelo marido ou família.

A secretária de Estado do Direito das Mulheres, Valérie Letard, ficou consternada “por ver como hoje em dia na França algumas disposições do Código Civil levam, de acordo com a forma como são interpretadas, a uma regressão do estatuto da mulher”.

Feministas e políticos tem toda a razão de achar repugnante um marido que rejeita sua mulher com base na religião. Mas o caso da esposa que não era virgem vai além da condenação de uma religião ou grupo que insiste numa condição que faz pouco sentido numa sociedade cada vez mais individualizada.

No Brasil, a lei arcaica que garantia a anulação do casamento no caso da esposa não ser virgem foi abolida em 2003. Mas na França, os juízes justificaram que o casamento em questão não foi anulado porque a esposa não era virgem, e sim porque a lei é bastante subjetiva em casos de anulação. O “erro das qualidades essenciais”, como a lei prevê, já garantiu a anulação de casamentos em que um cônjuge mentiu sobre seu passado, ou sua condição sexual, ou por ter omitido a incapacidade de ter filhos. Na França, são realizados 230 mil casamentos por ano, destes, apenas 600 são anulados, um percentual insignificante – com a instituição do divórcio, em 1975, a anulação virou uma curiosidade em faculdades de Direito. Mas quem define o que é um “erro das qualidades essenciais”? Os juízes entenderam que ao mentir sobre a condição de virgem, a mulher estava ciente que enganava seu marido numa questão que importava muito para ele. Portanto, “qualidade essencial” é o que o casal define como importante. O problema todo é que a lei não se adaptou e corrigiu a subjetividade, banindo a condição de virgindade. Só agora reformas estão sendo discutidas. O próprio Ministério da Justiça reconheceu que não se lembra de qualquer caso similar num tribunal francês.

A esposa do marido enganado concordou com a anulação. O Le Monde apontou que na história toda, a reação dos juristas está sendo mais cautelosa que a dos políticos. O juiz francês Jean-Pierre Rosenczveig comentou em seu blog que a virgindade nunca foi a questão e que o juízes analisaram a mentira. Mas o website do jornal também destacou a advertência feita num blog local, que o caso pode criar um precedente perigoso para outros casos de anulação com base na mentira e “erro das qualidades essenciais”, como, por exemplo, casos em que o marido ou a esposa exige a anulação porque não sabia que o cônjuge pertencia a uma raça, etnia ou religião em particular.

No país que julgou o capitão Dreyfuss nada é simples de resolver nos tribunais.