A festa de Mugabe… e de Mswati III… e de Bokassa I

Os números da festa nababesca que Robert Mugabe, o ditador do Zimbábue, ofereceu ao completar 85 anos, no dia 28 de fevereiro:

– Duas mil garrafas de champanhe Moët & Chandon

– Oito mil lagostas

– Três mil patos

– Quatro mil porções de caviar

– Oito mil caixas de chocolate Ferrero Rocher

– Cinco mil garrafas de uísque Johnny Walker Blue Label

– Cem quilos de camarão (Vergonhoso, Mugabe. Ibrahim Sued, na comemoração dos 30 anos de sua coluna em “O Globo”, em junho de 1983, ofereceu 120 quilos do crustáceo para seus convivas)

Segundo os organizadores, a festa custou cerca de US$ 250 mil (R$ 594 mil)

Alguns números do Zimbábue de Mugabe:

– Sete dos doze milhões de habitantes do Zimbábue precisarão de ajuda alimentícia este ano para sobreviver, segundo a ONU

– 94% de desemprego

– Três mil mortos num recente surto de cólera

– 1,8 milhão de zimbabuanos são portadores do HIV

– Expectativa de vida é de 37 anos para homens e 34 para as mulheres

– 98% de inflação diária (isso mesmo, diária)

– 3,4 milhões de refugiados

Post anterior sobre o Zimbábue e Mugabe.

E em algum lugar da África…

A festa de Mugabe pode ser considerada tímida para os padrões do continente. Em setembro de 2008, na Suazilândia, o rei Mswati III não poupou despesas na “Festa 40/40”, para comemorar os 40 anos da indepêndencia do país e o seu próprio aniversário. Mswati reina num dos países mais miseráveis da África e também a última monarquia absolutista do continente. Um rei playboy que não esconde o gosto pelo luxo, com uma coleção de 13 mulheres e dezenas de carrões. Mesmo com a economia do seu país sendo uma tragédia e 26.1% dos suazis infectados pelo HIV – ele propôs, em 2001, a abstinência sexual para todos os suazis como maneira de conter a epidemia –, Mswati  achou que havia motivos para comemorar. A tal “40/40” custou 1,5 milhão de libras. O ponto alto da festa foi sua entrada no estádio de Mbabane, a capital, desfilando num BMW novinho em folha – um dos 20 comprados para a ocasião – vestido em uma roupa feita de pele de leopardo. Robert Mugabe compareceu ao evento.

Bokassa Coronation

Mas as festas extravagantes desses déspotas africanos não são nada se comparadas à famosa coroação do “imperador” Jean-Bédel Bokassa, em 1976.

Governante da miserável República Centro-Africana de 1966 a 1979, o rídiculo Bokassa foi um político heterodoxo até para os padrões africanos – o que não é fácil no continente de Idi Amin, Mobutu e Muammar al-Gaddafi. Foi soldado do exército colonial francês, tendo participado da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Indochina. Chegou ao poder em seu país por um golpe de estado. Provocou um escândalo na França quando presenteou o então ministro das Finanças francês, seu amigo de Valéry Giscard d’Estaing, com dois enormes diamantes. Se converteu do catolicismo para o islamismo, quando quis se aproximar dos líbios, mas, alguns anos depois, mudou de idéia e voltou para a Igreja de Roma.

Como ditador, Bokassa não decepcionou ao fazer novas leis. Resolveu punir com multa ou prisão quem não tivesse emprego e permitir que tambores fossem tocados apenas à noite e nos finais de semana. (Fome, mosca tsé-tsé, pobreza e rebeldes eram – e continuam sendo – os principais problemas do país.)

Mas o ponto alto da sua carreira foi ter transformado a República Centro-Africana num império. Em 1976, Bokassa achou que o status de monarca proporcionaria mais respeito ao seu país miserável. Realizou uma cerimônia de coroação inspirada na de Napoleão Bonaparte – aquela em que o petit caporal tirou a coroa das mãos do papa, um exemplo para todos os megalomaníacos –, com custo estimado em 20 milhões de dólares (1/3 do orçamento do país; de fazer até os Bourbons corarem). Bokassa convidou dezenas de líderes estrangeiros para seu evento kitsch, mas ninguém compareceu.

Considerado um louco, Bokassa até mesmo foi – tal como Idi Amin – acusado de canibalismo. Tinha 17 mulheres e mais de 50 filhos. Em 1979, os franceses, já fartos de seu compartamento, apoiaram um golpe que derrubou o imperador e acabou com seu “Império Centro-Africano”. Bokassa morreu em 1996.

Obs: para quem não imagina até onde a locura de ditadores pode ir, a agência Magnum tem em seu acervo dezenas de fotos de Bokassa I e de sua inacreditável cerimônia de coroação.

 

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7 Respostas to “A festa de Mugabe… e de Mswati III… e de Bokassa I”

  1. guilherme Says:

    este é um excelente blogue.

  2. Stela Says:

    Querido Jean,
    Ótimos textos, nada daquela bobageira que eu digo em causa própria no Artificial.
    Geralmente pensasse, aqui desse lado do Atlântico, que disparidades de riqueza só ocorrem em países mais desenvolvidos, do ponto de vista econômico mesmo. Vê-se, pelo senso comum, e nessa eu me incluo, esses pequenos países da África como um campo minado pela miséria. Mas pouco se discute na imprensa a concentração de renda desses ditadores tão cruéis como os que reinaram (com ou sem coroa) pelas bandas de cá.
    Não chega a deixar Pinochet no chinelo, mas ainda que nenhum genocídio figurasse na ficha criminal desses absolutistas, o mau gasto do dinheiro público é tão cruel quanto qualquer Auschwitz.
    Beijo,
    Stela

  3. Stela Says:

    Ops, pensa-se. Não pensasse. Juro que foi erro de digitação!

  4. Vanessa Says:

    Quando é que vai sair uma crítica do Gran Torino?

  5. Mathieu Says:

    Jean-Philip,

    O resultado do programa de treinamento da Folha de São Paulo já está publicamente disponível:

    http://www1.folha.uol.com.br/folha/treinamento/ult76u594341.shtml

    Parabéns!

    Desejo que estes quatro meses sejam muito proveitosos e constituam a base do seu – merecido – sucesso profissional.

    Com admiração,

    Mathieu

    P.S. Mantenha este blog atualizado! Uma matéria por dia! (30 até a partida pra SP).

  6. Stela Guimarães Says:

    Jean! Perdi seus contatos no meu celular. Passe no meu e-mail, amigo. Vamos conversar. Queria saber desse processo aí de cima da Folha. Parabéns. Você virá pra SP? O André tá saindo de viagem e só volta em setembro. Então até lá, nada de ‘Curitibar’.
    Abração, amigo.

  7. selema socozine Says:

    saber que o rei tem muitas mulheres ja e triste, mas o pior e ele decretar um dia de abstenencia sexual em determento da pandemia HIV SIDA sendo k ele se relaciona sem protecao com 15 mulheres . e triste

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