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A lei de Pelé

sábado, fevereiro 28, 2009

Entrevista de Pelé à revista Veja (Edição 2102, 4/3):

“Ganhei dinheiro com palestras e publicidade depois que parei de jogar. Fiz muitos comerciais, mas nunca de bebida alcoólica, política, religião ou tabaco.”

Claro…

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O Leitor

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Mais um filme sobre o holocausto…”, seria apropriado dizer. Um tema já explorado ao extremo e que raramente resulta em boas surpresas – “O Pianista”, de 2002, foi a última –, ganha o que seria um novo olhar com “O Leitor”, atualmente em cartaz.

Um “novo olhar” porque esse filme propõe examinar o ponto de vista alemão do holocausto, a estranha convivência com assassinos no pós-guerra e o conhecido tema da “banalidade do mal”, em que os criminosos não se dão conta da brutalidade de seus atos e os justificam com a desculpa de que eram meramente parte de uma imensa engrenagem burocrática – “eu apenas cumpria ordens” deve ser uma das expressões alemãs mais famosas.

Alemanha, 1958, num dia chuvoso, o jovem Michael (David Kross), de 15 anos, está voltando para casa e começa a sentir mal. É acudido por uma mulher de trinta e tantos anos (Kate Winslet) que o acompanha até perto de sua casa. Passam-se alguns meses e Michael está melhor, pronto para visitar e agradecer a mulher que o acudiu. Uma cena de sedução depois, começa entre os dois um relacionamento sexual. Hanna também gosta que Michael leia para ela, de livros infantis a clássicos antigos. Certo dia, Hanna some da vida de Michael.

Anos depois, Michael, já um estudante de direito, é convidado por seu professor (Bruno Ganz) a acompanhar um julgamento. Para a surpresa de Michael, é Hanna, junto com outras mulheres, que está sentada no banco dos réus. A acusação: ter sido guarda de um campo de extermínio na Segunda Guerra.

“O Leitor” foi baseado na obra homônima do escritor alemão Bernhard Schlink. O livro ganhou notoriedade quando foi indicado pela influente apresentadora americana Oprah Winfrey em seu “Clube do Livro”. No Brasil foi publicado há dez anos pela Nova Fronteira, agora ganha uma nova edição pela Record (R$ 29).

Infelizmente, “O Leitor” é mais um filme burocrático, morno e previsível sobre o holocausto.

Não se pode culpar inteiramente o diretor Stephen Daldry (“As Horas”, “Billy Elliot”) pelo resultado. O próprio livro de Schlink não era lá grande coisa, mas Daldry leva seu filme de maneira previsível, abusando de alguns recursos (o filme está repleto de música dramática e inúteis recursos de sobreposição de imagens). A fragilidade da coisa toda fica óbvia quando é perceptível que Daldry preparou com satisfação – e com direito a flashbacks (é “Os Suspeitos” sempre fazendo escola) – uma surpresa que todos já haviam percebido no começo do filme

Para piorar, os atores não fazem melhor. Kate Winslet foi indicada ao Oscar por seu papel, mas ele o interpreta tão burocraticamente que mesmo suas cenas de nudez têm pouco apelo – o que é imperdoável para alguém que tem um belo corpo. Mas o pior mesmo fica com o Michael mais velho, interpretado pelo sempre soporífero Ralph Fiennes. São dele algumas das piores cenas do filme, incluindo um desnecessário momento de “eu vou te contar uma história”

Mais grave, porém, são os problemas morais do filme.

Não é necessário ir tão longe como o escritor Ron Rosenbaum – autor do excelente “Explaining Hitler”, traduzido no Brasil com o inacreditável título de “Para entender Hitler” (Record) – que acusou o filme de sugerir que “lack of reading skills is more disgraceful than listening in bovine silence to the screams of 300 people as they are burned to death”.

O próprio livro é problemático. Ao usar a deficiência de Hanna como uma metáfora óbvia para a ignorância, Schlink passa para o leitor a idéia de que muitos assassinos foram empurrados para a máquina do holocausto pelo destino ou por motivos compreensíveis. Perguntar a alguém “O que você faria?”, como o filme e o livro fazem, e esperar um “Não sei” ou simples silêncio como resposta é repugnante.

Rosenbaum acertou em cheio quando disse que “não precisamos de mais um filme redentor sobre o holocausto”.

Para piorar, um filme que propagandeia as maravilhas da leitura.

“Sprechen sie talk?”

É conhecida a visão dos chefões de estúdio de que os americanos não gostam de ler legendas. Essa filosofia muitas vezes resulta em cenas engraçadas em que personagens estrangeiros falam alguma frase introdutória em uma língua qualquer para logo continuar o diálogo ou monólogo na língua do Dr. Johnson. Também acontece de os personagens forçarem um sotaque na língua que supostamente estariam falando. Assim não é incomum assistir a russos que falam entre si com sotaques pavorosos – famoso é o caso de Sean Connery, que usou o mesmo sotaque em “Os Intocáveis”, ao interpretar um irlandês, e em “A Caçada ao Outubro Vermelho”, ao vestir um uniforme russo.

Mas “O Leitor” inaugurou uma categoria totalmente nova na salada lingüística hollywoodiana: a leitura de textos em inglês por estrangeiros em seus respectivos países. Qual não é a surpresa observar que Michael, ao ler para Hanna, está segurando um livro em que se pode ler “The Adventures of Huckleberry Finn” em bom inglês! Recurso para facilitar a vida dos atores que devem entregar suas falas em inglês? As estantes de livros que aparecem ao longo também estão repletas de títulos em inglês… e publicados por editoras americanas. A escolha por facilitar a vida do espectador não familiarizado com alemão fica ainda mais cômica quando Hanna se alfabetiza e passa a escrever cartas em… inglês!

Pode ser um mero detalhe técnico, que para muitos não chega a influenciar, mas lembra aqueles filmes americanos deliciosamente toscos rodados no Brasil em que o merchandising aparece na forma de outdoors em inglês – quem assistiu “007 Contra o Foguete da Morte” deve saber do que estou falando.

O próprio Schlink insistiu para que o filme fosse rodado em inglês, justificando que a história da convivência numa sociedade pós-genocídio era universal – claro que a promoção inevitável de um filme americano nas vendas do seu livro também deve ter sido bem-vinda.

Morreu o pai do Playmobil

quarta-feira, fevereiro 4, 2009

Quem foi criança na década de 80 ou princípio de 90 dificilmente deve ter ouvido falar de Hans Beck. Entretanto, a criação desse alemão de Zirndorf, que morreu dia 30 de janeiro, aos 79 anos, é bastante conhecida: os bonecos Playmobil.

O primeiro boneco de Beck foi comercializado em 1974. Foi o choque do petróleo de 1973 que levou a Geobra – empresa na qual Beck era criador e ainda hoje fabrica os bonecos – a dar início à linha de Playmobils. Até então a Geobra favorecia a fabricação de grandes bonecas e outros brinquedos que usavam bastante plástico. Com o aumento dos preços, era necessário fazer mais com menos. Os bonecos de Beck caíram como uma luva.

Desde o começo Beck estabeleceu os temas para os Playmobils. O faroeste e os serviços públicos eram bem famosos, mas cobiçados pelas crianças eram mesmo os grandes Playmobils, como o barco pirata e o caminhão de bombeiros – duas peças que ainda são capazes de encantar um adulto pela precisão e beleza.

Nos 20 anos seguintes os bonecos de cabelo destacável e mãos em forma de garra da Geobra foram exportados ou licenciados para 70 países. No Brasil, foram fabricados sob licenciamento pela Troll e pela Estrela. (Era grande a diferença entre os Playmobils alemães e os da Troll. A empresa brasileira vendia temas que há anos tinham saído de linha na Europa. Mais gritante, porém, era a qualidade do plástico, que dava um aspecto “pirata” para os Playmobils da Troll – o melhor teste de qualidade para esse material ainda continua sendo a mordida de uma criança.)

O Playmobil nunca teve a inventividade do Lego – tampouco sua popularidade –, mas tinha algo em comum com seu rival dinamarquês: a capacidade de incentivar coleções. O universo Playmobil era vasto e variado – como mostra o site Collectobil, que possui um catálogo de todos os Playmobils organizados por temas. Hoje em dia, alguns desse temas podem até ser considerados politicamente incorretos, como os bonecos operários de construção civil que vinham acompanhados de um engradado com garrafas de cerveja.

Certa vez, Hans Beck declarou que não gostaria de misturar os seus Playmobils com ETs, dinossauros e um Boeing 747. A Geobra não respeitou sua vontade: nos últimos anos, só o Jumbo ficou de fora.

Mas por onde andam os bonecos? Uma ida a uma loja de brinquedos brasileira mostra por que o Playmobil parece ter sumido do universo infantil: mesmo o dinossauro desprezado por Beck não custa menos de 150 reais. Depois que a estrela saiu de cena, o Playmobil ficou vários anos ausente do país, até que voltou pela Sunny Brinquedos, mas como produto importado da Alemanha. Diante da concorrência chinesa e seus brinquedos baratos cheios de chumbo e amianto, o Playmobil parece ter se tornado um brinquedo viável apenas para os mais apaixonados.