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A “revitalização” da praça do Japão

quarta-feira, outubro 15, 2008

Eleitoreira ou necessária, a reforma da praça do Japão, em Curitiba, teve o efeito de uma bomba nuclear. A prefeitura chamou a coisa de “revitalização”, mas conseguiu piorar o espaço em quase todos os aspectos.

O antigo piso foi trocado por uma versão mais barata e feia. Grandes extensões do gramado foram cobertas por esse piso, com o claro propósito de abrir mais espaço para barracas de comidas típicas no Haru Matsuri.

O novo piso teria a vantagem de ser “antiderrapante” e permitir a absorção de água da chuva (black rain) – claro, como se a praça enfrentasse problemas de drenagem e todos escorregassem por causa de mau carma…

Mas o aspecto mais deplorável – e visível – da reforma é a nova iluminação. A maior parte da praça recebeu luminárias dignas da área de serviço da casa de praia mais chinfrim. Mas o pior não é proporcionado pelas luzes “à la IML”: o portal e o pagode agora são iluminados por luzes violetas (!).

Conseguiram mesmo fazer a praça parecer um pedacinho do Japão: o dos bordéis freqüentados pelas tropas americanas durante a ocupação.

Enquanto isso, os usuários da praça continuam sofrendo o velho problema de acesso. Sem uma faixa de pedestres ou um semáforo, na hora do rush é quase uma missão kamikaze chegar até ela.

Atualização (21/10): a praça é do Japão mas as lâmpadas são made in China. As novas luzes violetas já apresentam defeitos. Reforçando a aparência de bordel, agora elas piscam.

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What a Way to Go!

terça-feira, outubro 14, 2008

Pega esse bolivianos, Newman!

Paul Newman (1925-2008 )

Esqueça o Stanislavski-Strasberg e as comparações com Brando, Clift e Dean. Paul Newman não merece ser lembrado pelos maneirismos bestas do método russo ou porque fez parte de alguma geração. Os papéis de sujeito atormentado nem sempre lhe caíram bem. Seus trabalhos com grandes diretores – Hitchcock, Scorsese, Huston e Preminger – resultaram em filmes abomináveis ou tristemente datados. (Em “Cortina Rasgada”, de Hitchcock, Newman estava tão antipático que fez os vilões comunistas parecerem boa gente.)

Não, Newman não merece isso. Ele não fez mais que dez filmes decentes, mas é difícil imaginar alguém tão perfeito para os papéis que interpretou. Newman teve mais carisma que Brando, Clift e Dean juntos. Talvez por ter tido uma vida mais “careta” (foi casado por mais de 50 anos), ao contrário de seus três colegas, sabia ser engraçado. Brando ficaria rídiculo no papel de um presidiário rebelde que vira herói de seus companheiros, mas isso não aconteceu com Newman em “Cool Hand Luke”, um de seus filmes mais famosos.

O melhor Newman foi o de papéis que parecem descompromissados, em filmes que à primeira vista parecem banais. Ele foi genial em “Harper”, um típico filme policial dos anos 60 que servia de veículo para um astro. A trama mirabolante, que mistura a investigação de um seqüestro e culmina na descoberta de uma seita religiosa que contrabandeia imigrantes mexicanos, não é o principal atrativo. É Newman, um investigador picareta que vive pregando peças na ex-mulher, que segura o filme.

“Harper” pode não ser um dos filmes mais memoráveis de Newman, mas o que dizer das duas dobradinhas com Redford em “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (por que os distribuidores brasileiros não gostavam do Sundance?) e “Golpe de Mestre”? Esses dois filmes foram dirigidos por George Roy Hill, que também chamou Newman para estrelar a (sem exagero) obra-prima “Slap Shot”, de 1977.

Nesse filme em que a violência no esporte – e num dos esportes mais violentos, o hóquei – foi usada na forma mais grotesca e engraçada já imaginada, Newman interpretou o capitão de uma equipe fracassada (em número de títulos e público) prestes a ser vendida. Ele não é responsável pelas cenas mais engraçadas – Newman sabia fazer rir, mas não era do tipo comediante -, é, antes de tudo, o sujeito que mantém a equipe unida e tenta reverter o destino de seus protegidos.

“Slap Shot” foi o último grande filme de Newman. Nos 30 anos seguintes ele até interpretou papéis dignos de nota em “The Verdict” (1982) e “Hudsucker Proxy” (1994), mas ganhou um Oscar justamente pelo fraco “The Color of Money” (1986), de Scorsese, uma continuação de “The Hustler” (1961), que Newman protagonizou 25 anos antes – “The Hustler” foi um dos poucos filmes em que Newman se saiu bem ao interpretar um personagem “atormentado”.

Deixando o ativismo político para trás – Richard Nixon o incluiu na sua famosa “lista de inimigos” por causa de seu apoio à candidatura de Eugene McCarthy – Newman se concentrou na filantropia. Doou todo o lucro de sua empresa de molhos de salada, a Newman’s Ow (que foi mais rentável que sua carreira cinematográfica), para a caridade.

Os últimos anos de Newman não deixaram filmes memoráveis. Ele passou a ser um coadjuvante de luxo em produções esquecíveis como “Road to Perdition”(2002) e “Message in a Bottle” (1999), e pareceu padecer do mesmo mal que acomete Michael Caine e atores das antigas pornochanchadas: ficar velho o torna mais respeitável e perdoa interpretações no piloto automático.

Em 54 anos de carreira cinematográfica, Newman se tornou uma figura tão familiar nas telas, seja nos grandes filmes ou nos medíocres, que sua perda não só causa lamentos pelo fim de um grande ator, mas também tristeza pela perda de um velho conhecido.

O que vale a pena assistir de Newman na opinião deste blogueiro (pra variar, os títulos brasileiros são, em todos os casos, tenebrosos):

“The Long, Hot Summer” (1958 ) – “O Mercador das Almas”

“The Hustler” (1961) – “Desafio à corrupção”

“Hud” (1963) – “ O Indomado”

“Harper” (1966) – “Harper – O Caçador de Aventuras”

“Cool Hand Luke” (1967) – “Rebeldia Indomável”

“Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969) – “Butch Cassidy”

“The Sting”(1973) – “Golpe de Mestre”

“Slap Shot” (1977) – “Vale Tudo”