Skulls and germans

Em Windhoek, a Christuskirche e o Reiterdenkmal, monumento que homenageia os soldados alemães que morreram na “pacificação” da Namíbia

Crimes de guerra alemães remetem imediatamente ao Holocausto ou aos milhares de massacres na Segunda Guerra. Mas o assassinato de judeus e outras minorias não foi a primeira campanha de extermínio promovida pela Alemanha.

A descoberta de 47 crânios no Museu do Hospital La Charité, em Berlin, e de outras dezenas na universidade de Freiburg, por uma equipe de reportagem da rede pública ARD, relembrou um capítulo brutal do período colonial alemão.

Enviados para a Alemanha em 1907, os crânios seriam usados em um dos típicos estudos que pretendiam provar a superioridade da raça branca sobre a negra.

Também era um troféu de guerra.

Eram de membros das tribos herero e nama, habitantes da atual Namíbia, que se chamou Deutsch-Südwestafrika até 1915.

Em 1903, quando se revoltaram contra o jugo colonial e mataram mais de 200 colonos brancos, os hereros e namas foram perseguidos sem piedade pelas tropas comandadas pelo brutal general Lothar von Trotha. A campanha, que durou três anos, foi tão brutal que resultou no extermínio de quase 70% do povo herero (mais de 50 mil pessoas) e 50% dos namas (10 mil pessoas). Poços foram envenenados na rota de fuga das tribos e os capturados foram mandados para campos de concentração (os primeiros da história alemã) onde a taxa de mortalidade era alarmante. Os que conseguiram fugir foram para Botswana (à época uma colônia britânica).

A ONU e alguns historiadores consideram o extermínio dos hereros e namas um dos primeiros genocídios do século 20.

A Alemanha perdeu a Namíbia durante a Primeira Guerra, mas diferentemente das outras colônias, a influência alemã ainda é visível no país. Alguns milhares de colonos alemães permanecem até hoje. O passado alemão também pode ser visto na arquitetura de cidades como Windhoek (aquela que Lula disse ser tão limpa que nem parecia ser na África) e Lüderitz. O alemão também é uma das línguas oficiais do país. (Curiosidade: Heinrich Göring, pai de Hermann Göring, o criador da Luftwaffe e comparsa de Hitler, foi o primeiro Reichskommissar da colônia.)

A ligação com a antiga colônia há muito foi esquecida pela maioria dos alemães (até a década de 50, de acordo com meu pai, era comum os alemães mais velhos repreenderem uma pessoa que errasse a pronúncia de alguma palavra ou tivesse péssimos modos à mesa chamado-a de “hottentot“, nome pelo qual os namas também são conhecidos). Na Namíbia o genocídio é relembrado todo 26 de agosto.

A Alemanha se desculpou pelo genocídio em 2004. Até mesmo os descendentes do general Lothar von Trotha visitaram o país, em 2007, e lamentaram o destino dos hereros e namas.

O novo capítulo dos crânios provocou indignação em alguns setores da sociedade namibiana. O embaixador do país na Alemanha exigiu que as caveiras fossem repatriadas. Suspeita-se que existam talvez até 300 crânios de membros das tribos herero e nama em universidades alemãs. Um deles seria do líder dos namas, Cornelius Fredericks, morto na prisão.

Até agora nada foi feito para devolver os crânios. O governo alemão informou que só tomará providências se a Namíbia fizer um pedido oficial.

Quando perguntado sobre os crânios, o diretor do arquivo da universidade de Freiburg justificou: “É uma coleção cultural”.

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Uma resposta to “Skulls and germans”

  1. Guilherme Says:

    Interessante! Quem poderia imaginar que os nazistas já eram nazistas antes de serem nazistas? (hehehe)

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