Três livros

“História Universal da Destruição de Livros”, Fernando Báez

É famosa a advertência de Heine “onde queimam livros, acabam queimando pessoas”. Em Berlin existe um memorial onde a frase pode ser lida. Está no mesmo local onde, em 1933, os nazistas queimaram 20.000 livros considerados degenerados. Nessa cerimônia bárbara, além de Heine, foram destruídas obras de Bertolt Brecht, Karl Marx, Sigmund Freud, Ernest Hemingway – entre outros.

Menos conhecidos são outros eventos que culminaram na destruição de milhares de valor inestimável. A destruição da Biblioteca de Alexandria pelos romanos é o mais famoso evento desse tipo na Antigüidade. Mas e a perda do acervo da biblioteca de Bagdá logo depois da invasão americana? Nesse episódio, que à época foi obscurecido pelo saque ao Museu Nacional, foram perdidos mais de um milhão de livros – número que faz parecer insignificante a cerimônia dos nazistas.

O escritor venezuelano Fernando Báez, um especialista no assunto, estudou esse e outros casos na sua obra “História Universal da Destruição de Livros”, publicada no Brasil pela Ediouro (49,90, mas fácil de encontrar pela metade do pontas de estoque). Um livro sobre a destruição de outros livros. Uma idéia bastante interessante, mas que infelizmente resultou num livro que poderia ser resumido como um almanaque de eventos que resultaram na destruição de bibliotecas ou coleções particulares. Quer saber quantos livros foram perdidos no bombardeio de Heidelberg, na Segunda Guerra? Báez responde. Sabia que a primeira Biblioteca do Congresso americano pegou fogo – e que a segunda começou com a coleção particular de Thomas Jefferson? Está no livro.

É uma obra envolvente, mas que carece de uma perspectiva mais aprofundada sobre a destruição da memória ou – porque muitos livros foram destruídos deliberadamente, seja porque eram subversivos ou considerados imorais – “genocídio cultural”. É provável que Báez tenha pensado que o leitor chegaria à conclusão que o maior inimigo das bibliotecas é o próprio homem – e não as traças, embora exista, acredite, um capítulo sobre elas. O autor se sai melhor contando sua experiência no Iraque – é um assessor da Unesco -, mas o relato tem apenas umas poucas páginas.

Báez dedicou 12 anos à elaboração da obra. Mas não foi desta vez que um tema tão rico recebeu o livro que merece.

“O Grande Livro do Jornalismo”, John E. Lewis (José Olympio, R$ 49,00)

Essa edição de nome exagerado sugere que os 55 textos reunidos são “obras-primas” do jornalismo. Esse elogio, definitivamente, não vale para todos os textos. Há muita coisa banal adicionada com o claro propósito de estabelecer uma cronologia histórica. Mas o pior fica para os excertos de livros – como é o caso de reportagens de George Orwell, Michael Herr e John Hersey. Não faz sentido para quem possui as obras e, no caso de quem não leu, são frustrantes porque estão incompletas.

Infelizmente, não há nenhum brasileiro no livro – as reportagens são, sem exceção, escritas por anglo-saxões; o título mais apropriado teria sido “O Grande Livro do Jornalismo em Língua Inglesa”. Mas há muitos textos que tornam esse livro um coletânea valiosa – embora a sensação ao terminar o volume seja mesmo de frustração. Gloria Steinem e Martha Gellhorn, duas mulheres num livro repleto de textos escritos por homens, assinam duas das reportagens mais interessantes. “Eu Fui uma Coelhinha da Playboy”, onde a ativista feminista Steinem se infiltrou na seleção de mulheres que trabalhavam nos antigos “Playboy Clubs”, revelando toda a degradação sofrida pelas candidatas. Em “Justiça à Noite”, Gelhorn, a esposa de Hemingway, descreveu um linchamento que presenciou no Sul dos EUA.

O livro tem alguns méritos. Um deles é não se limitar a um gênero de matéria jornalística, mas incluir entrevistas, ensaios e editoriais – o editorial do Times sobre a prisão de Mick Jagger é sensacional; levando a pensar que seria bom ler um livro que reunisse grandes textos da “página três”.

De qualquer forma, “O Grande Livro do Jornalismo” é necessário porque não estão disponíveis em português muitos títulos que reúnam jornalistas tão diferentes e valiosos.

“McMáfia: Crime sem Fronteiras”, Misha Glenny

Não se deixe enganar pelo título que sugere um panfleto contra corporações de fast-food. Os vilões dessa obra são bem mais violentos. Do insuspeito Canadá até a fracassada Nigéria, das estatais corruptas do Leste Europeu às cadeias controladas pelo PCC, o autor de “McMáfia” (Cia. das Letras, R$ 48,00), o jornalista Misha Glenny, mostra um painel rico e envolvente sobre essas organizações criminosas que só prosperam com a globalização – e que, em muitos casos, são mais “globalizadas” que os maiores bancos – e a falta de pulso dos governos para combaterem o crime.

Existem poucos heróis e sobram bandidos. As histórisa sobre o contrabando de cigarros e gasolina durante as inúmeras guerras dos Balcãs são impressionantes. Longe de assumirem as brigas ancestrais da região – ou como a imprensa fez parecer a coisa toda -, os criminosos mostraram um senso de negócios que superava qualquer barreira cultural. Sérvios negociavam gasolina com croatas que repassavam o combustível para seu exército – que ia matar outros sérvios. Croatas traziam cigarros para os sérvios e assim por diante. Até mesmo o notavo Estado do Montenegro pagava suas contas com cigarros que eram contrabandeados para a Itália, separada por apenas alguns quilômetros de mar. A corrupção dos Estados não é novidade, mas o caso de Montenegro é assustador porque toda a receita do governo provinha de atividades criminosas.

Não é exatamente o caso da Nigéria, que recebe um capítulo delicioso e assustador no livro. Rica em petróleo mas com a maior parte da população vivendo miseravelmente, esse país é um grande exportador, mas também se notabilizou por uma prática que só prosperou com a globalização: a fraude da comissão adiantada – ou o “golpe 419”, como é designada no código penal nigeriano.

No Brasil, muita gente já recebeu um e-mail ou, antigamente, um fax de alguém que representava um figurão da Nigéria. Na mensagem, o remetente oferecia quantias fabulosas de dinheiro provenientes de comissões da venda de petróleo ou de obras de infra-estrutura no país. Bastava que o destinatário financiasse o início dessa empreitada. O negócio, claro, era uma fraude. Difícil acreditar que alguém seria tão ingênuo de cair nessa. O livro apresenta a história de Nelson Saka­gu­chi, gerente do Banco Noroeste (hoje absorvido pelo Santander). É uma história que, como tantas outras no Brasil já caiu no esquecimento, mas veio à público em 1997. Depois de receber uma dessas propostas, Saka­gu­chi desviou enormes somas do banco que estavam guardadas em paraísos fiscais na esperança de ganhar mais. Não acreditando – ou não querendo acreditar – que fôra vítima de um golpe, começou a desviar cada vez mais dinheiro para os nigerianos, que pediam mais um “pouquinho” porque o negócio estava supostamente saindo. A situação foi ficando cada vez mais estranha. Correndo contra o relógio antes que as contas fossem auditadas, Saka­gu­chi pagou 20 milhões para uma mãe-de-santo sacrificar 120 mil pombas brancas (isso mesmo). Dona Maria Rodrigues não resolveu o problema, mas isso não a impediu de arrancar mais dinheiro – desta vez para o sacrifício de 120 mil pombas negras. A casa acabou caindo para Saka­gu­chi, e ele foi para a cadeia. Ao todo foram desviados 242 milhões de dólares. O grosso do dinheiro foi parar nos bolsos de Emmanuel Nwude, chefe tribal e maior golpista desse gênero na Nigéria – e um herói nacional (os nigerianos não vêem problema em arrancar dinheiro dos “brancos”). Nwude conta com a proteção dos governantes do país. Uma história comum na África. E no Brasil.

Mostrando que entende do assunto, não se deixando levar pelo deslumbramento, algo comum nos jornalistas estrangeiros no Brasil, Glenny, que esteve presente na última Flip, também aborda outros três casos de crime organizado no Brasil: Law Kin Chong e seus produtos falsificados; os cybercrimes; e o PCC. A polícia, é claro, é mostrada como organização corrupta. As exceções ficam para alguns setores da PF, com elogios para o agora célebre delegado Protógenes Queiroz. Esse painel de organizações criminosas variadas também faz parte de outros países estudados, com destaque para a Rússia e a China.

O caso russo oferece uma análise sobre o papel das minorias no crime. É um tema perigoso, fácil de resultar em generalizações racistas, mas Glenny, preocupado com isso, se sai bem. Ele mostra como os judeus russos, que constituem apenas uma fração da população, são maioria nessas organizações. Barrados do serviço público durante o período comunista, sobrou para os judeus sobreviverem de outras formas. Muitos se voltaram para a vocação mercantil que caracteriza seu povo, algo que numa terra sem regras para o mercado teria como resultado o crime. As atividades não ficaram restritas à Rússia. Com a imigração maciça de judeus russos para Israel na década de 90, até mesmo esse país mediterrâneo se acostumou com os carrões vulgares e  o tráfico de mulheres – uma das atividades mais deprimentes descritas no livro.

Além do tráfico de mulheres para alimentar a prostituição em países ricos – com as vítimas mantidas em regime de escravidão -, essas organizações se especializaram em muitas outras coisas. As drogas, como sempre; o contrabando; a venda de “proteção”; a falsificação. O último crime recebe atenção especial no capítulo sobre a China. Glenny demonstra de maneira convincente que a falsificação, que parece inofensiva para muitos, é apenas a ponta do iceberg. As mesmas organizações que falsificam bolsas Louis Vuitton também financiam o tráfico de drogas e o assassinato de rivais. Até mesmo a stalinista Coréia do Norte é pródiga nesse tipo de atividade: Raijin, uma pequena zona de livre comércio do país, é um centro de falsificação de cigarros.

Glenny também demonstra que as organizações criminosas não ficam restritas à golpes e atividades tradicionais, mas sempre buscam o prêmio maior, se infiltrando em cada parte do tecido social e até provocando crises econômicas. Foi a tolerância do governo japonês com a Yakuza que permitiu que a organização tivesse um grande papel na bolha imobiliária do país, no começo dos anos 90. Uma situação parecida está acontecendo nos Emirados Árabes Unidos, um novo pólo imobiliário e um país que faz poucas perguntas sobre a origem do dinheiro dos investidores.

Sobram críticas sobre o papel dos EUA nessas questões. Enquanto pressionam para a desregulamentação dos mercados de outros países, as autoridades do país nada fazem para combater os paraísos fiscais, um porto seguro para o dinheiro sujo. A impressão que o livro deixa é que os criminosos sempre estão um passo à frente dos governos – isso quando eles estão dispostos a reprimir.

Uma leitura imperdível.

(Algumas informações desse livro que parece tão fresco já estão desatualizadas. Glenny propõe a legalização das drogas como uma das formas para reduzir a influência das máfias. Nada de errado aí. Mas o caso colombiano, em especial o Plano Colômbia, é rechaçado porque a guerrilha não está sendo derrotada. O cenário, porém, agora é outro.)

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2 Respostas to “Três livros”

  1. Norman Chap Says:

    Impressionante essa história do tal Sakaguchi. Não fiquei sabendo na época. Parece muito bom esse McMafia. Interessante também que ele vá a fundo em uma história como a de Law Kin Chong, algo que nunca vi no jornalismo nativo.

  2. Iris Says:

    Ganha o livro e ainda reclama!

    ahahuhuahuahuahuahu

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