“Carajo, Fidel!”

Em maio de 2008, Lucie Ceccaldi publicou na França um livro em que atacava seu filho, Michel Houellebecq, um dos maiores e mais bem-sucedidos escritores do país. A causa do ataque foi o retrato dela como uma hippie sexualmente obcecada e egoísta no seu primeiro sucesso literário. A “velha vadia”, como Houellebecq costuma se referir à mãe, o abandonou ainda bebê e, envolvida com a causa comunista e do anticolonialismo, foi para a África trabalhar como médica. Ele acabou sendo criado pela avó paterna, de quem adotou o sobrenome.

Descontando a celebridade de Houellebecq, essa podia ser apenas mais uma história triste de abandono. Pais que se envolvem em seitas (seja a Igreja Universal ou a Internacional Comunista) e deixam os filhos em segundo plano também não são exatamente novidade. Mas e se os pais decidem mergulhar seus filhos nesse “experimento”?

Madame Ceccaldi abandonou seu filho e foi perseguir sua utopia sozinha. Bem diferente é o caso da família de la Mesa no excelente filme “A Culpa é do Fidel!” (“La Faute à Fidel!”, França, 2006).

Os de la Mesa são uma típica família burguesa francesa dos anos 70 – o avô tem um vinhedo, a mãe é jornalista e a filha mais velha freqüenta uma escola católica -, mas algo muda quando o cunhado comunista de Fernando (Stefano Accorsi), o chefe da família, é executado pela ditadura franquista. Fenando, deprimido, acaba acolhendo a irmã e a sobrinha. Depois de uma viagem ao Chile de Allende, ele e sua esposa (Julie Depardieu, filha de Gérard) decidem virar comunistas e viver de acordo com a ideologia.

A grande surpresa desse filme é a pequena Anna, a filha do casal interpretada pela talentosa Nina Kervel-Bey (mas você poderia achar que é a Mafalda do cartunista Quino). É através dos seus olhos que acompanhamos a família se mudar de uma grande e confortável casa para um apartamento minúsculo que rapidamente se converte num “aparelho” para atividades de apoio à causa comunista. Os pais se transformam (“Não quero você lendo esse Mickey fascista!”) muito para o desgosto da pequena Anna, uma criança egoísta e que gosta da boa vida como qualquer outra. A transformação é acompanhada de um pouco de hipocrisia. Instalados com segurança em Paris – a cidade do “Samba de Orly” que serviu de refúgio para todo esquerdista do planeta que sonhava com a revolução -, os pais discutem revolução na América Latina ao mesmo tempo em que negligenciam os filhos, cada vez mais confusos com a nova educação (“Eu quero brincar de Allende, você é o Franco”). O radicalismo dos pais chega ao ponto de levarem as crianças num protesto que termina em baderna e dispersão por gás lacrimogêneo – tudo com a câmera registrando o ponto de vista de Anna, que tem tamanho suficiente apenas para ver até a cintura de quem está à frente.

É engraçado e triste observar o efeito deixado nas crianças pelos presentes que os pais trazem do Chile (roupas andinas, aquelas de tocador de flauta boliviano). Em certo momento, Anna não se contém e se queixa dos “barbudos” que vivem entrando e saindo do apartamento (aqueles de centro acadêmico de universidade pública). Os eventos históricos da década estão lá, mas só fragmentos são absorvidos pela pequena protagonista, que faz confusão com eles mas percebe as contradições do idealismo dos pais. Porém, algo vai se transformando em Anna, que deixa de lado o egoísmo e passa a se interessar pelas histórias (parábolas, mitologia) que os refugiados políticos de passagem contam. Aos poucos, mas não abraçando a causa dos seus pais (afinal, é só uma criança), a menina que só se interessava em corrigir os outros se torna questionadora e percebe que nem tudo é preto ou branco – ao contrário de seus pais comunistas ou seus avós reacionários. A cena final pode ser vista como uma negação do que foi visto anteriormente ou, para quem viveu aquela época, uma conclusão de que o “caminho é outro”.

É o filme de estréia de Julie Gavras, que viveu uma história parecida com a da protagonista. Embora seja baseado num livro italiano com personagens italianos, “A Culpa” tem um quê de autobiográfico. Julie é filha do cineasta Costa Gavras, famoso pelos seus filmes engajados que denunciam golpes de estado – os excelentes “Z”, “Estado de Sítio”, “Missing” e os deprimentes “Atraiçoados” e “Quarto Poder”.

Num país que produziu tantos deslumbrados pelo comunismo (Debray, Sartre, Althusser) – sendo que vários deles, mesmo como “fellow travellers“, justificaram todo tipo de crime -, “A Culpa” poderia ser um acerto de contas (a la Houellebecq) ou uma mera ridicularização do passado, mas Gavras, e, sobretudo, a pequena Nina-Anna, conseguiram mostrar um retrato rico da vida em família. O casal de la Mesa pode ser excêntrico e estúpido em suas escolhas políticas, mas ama seus filhos.

Antes de passarem no caixa da Petrobras e pedirem um vale, os cineastas brasileiros que choram pela revolução perdida deveriam prestar atenção na pequena Anna.

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