“What is the capital of Assyria?”

Alemanha: o portão não está aberto a todos

Com uma das taxas de fertilidade mais baixas do mundo, a Alemanha pode ter sua população reduzida de forma significativa em 2050. Uma projeção apontou que até lá a população atual de 82 milhões pode cair para 69 milhões. Mesmo esse número pessimista leva em conta uma imigração anual de 100 mil pessoas para o país. Com 200 mil imigrantes o problema só diminui um pouco: a população seria de 74 milhões.

É um problema que assombra o país há quase 20 anos.  Ainda não se concluiu se os incentivos à natalidade – que também existem em vários oitros países europeus – vão dar resultados. Mesmo assim pouco está sendo feito para facilitar a entrada de imigrantes.

Até 2000, o direito à cidadania alemã era baseado no sangue (“princípio da descendência”). Não fazia diferença se a pessoa tinha nascido na Alemanha: só quem tinha parentes alemães tinha o direito assegurado. O resultado foi gerações de pessoas nascidas no país que continuavam com o status de estrangeiras. O problema atingiu particularmente os que tinha ascedência turca – de longe a maior comunidade estrangeira no país. A lei mudou, e mesmo não sendo retroativa, começou a resolver parte do problema de muitos filhos de imigrantes.

Em 2005, o país reformou sua lei de imigração. Pouca coisa mudou. Mesmo sendo um dos destinos europeus mais procurados pelos ilegais, é muito difícil para um trabalhador pouco qualificado conseguir obter a naturalização ou mesmo a versão local do Green Card. O país só incentiva a entrada de profissionais bem qualificados, e basicamente em programas de trabalho temporário. Nada disso resolve o problema da taxa de natalidade. Para piorar, em 2007, 113 mil estrangeiros adquiriram a cidadania alemã, 9,5% a menos do que no ano anterior. Paradoxalmente, a Alemanha é o membro da UE que abriga mais asilados políticos – mais de 200 mil, e muitos deles recebem ajuda estatal.

A história mostra que a Alemanha sempre foi um país que acolheu muitos imigrantes. O Wirtschaftswunder (“Milagre Alemão”), como é chamada a ascensão do país como potência ecônomica no pós-guerra, contou com a ajuda dos Gastarbeiter, os “trabalhadores convidados” – sobretudo dos países mediterrâneos, na época miseráveis -, que foram ao país às centenas de milhares para suprir a demanda da indústria por trabalhadores. Os turcos, em grande quantidade, foram a segunda leva. Mas não foram recebidos de braços abertos como seus antecessores, e logo se tornaram indesejáveis. (As condições degradantes a que muitos turcos foram submetidos foram denunciadas pelo jornalista Günter Wallraff no seu devastador livro “Cabeça de Turco”.)

Questionário

Mesmo com algumas iniciativas tímidas para atrair imigrantes qualificados, alguns setores da sociedade alemã acham que algumas coisas vieram para dificultar. Além de cumprir regras como morar no país há oito anos, não ter antecedentes criminais, ganhar o necessário para se sustentar e ter conhecimentos suficientes do idioma alemão, a partir de 1° de setembro o interessado terá que responder um questionário sobre história e sociedade alemã. Várias associações que representam os turcos, além do Partido Verde, reclamaram do teste. Um porta-voz de uma dessas associações ironizou que nem mesmo um alemão comum seria capaz de responder muitas das questões.

Elaborado pela Universidade de Humboldt, de Berlin, o teste consiste em 33 perguntas – de um estoque de 300. O site da revista Der Spiegel disponibilizou uma das versões. Não é uma prova muito difícil, considerando que apenas 17 precisam ser respondidas corretamente. Muitas questões independem de conhecer a Alemanha e podem ser respondidas pelo senso comum. Exemplo: “Qual é o papel de um júri?”. Ou: “Qual o papel da polícia?”. Quatro opções são dadas, sendo uma sempre estapafúrdia. Mesmo as questões sobre história podem ser respondidas com pouco estudo. “Como acabou a guerra na Europa?” “Quem foi o primeiro chanceler?” Outras coisas são curiosas: “O que os alemães fazem na Páscoa?”. Resposta: “Pintam ovos”. Este blogueiro acertou 30 questões. As três erradas foram justamente o tipo de pergunta que gerou controvérsia. Alguém sabe quais são as cores da bandeira da Renânia do Norte-Vestfália? Não fazia a mínima idéia. Existem também as perguntas clássicas sobre capitais e Estados.

Os autores do teste disseram que em média 80% dos candidatos devem passar. O ministro do Interior, Wolfgang Schäuble, afirmou que a gritaria é exagerada, e comparou o teste com os conhecimentos necessários para a obtenção da carteira de motorista.

Outros questionários

Outros países também aplicam testes similares. O mais famoso é o americano. O site da MSNBC fornece um modelo. Nada impossível, mas algumas questões, se comparadas com algumas do teste alemão, são bastante difíceis, e provavelmente a maioria dos americanos não saberia responder. Abordam artigos da constituição e o funcionamento do Executivo. “Quem assume se o presidente e seu vice não estiverem disponíveis?” Até o ex-secretário de Estado Alexander Haig não sabia essa quando Reagan foi baleado. “Quem tem poder para declarar guerra?” “Qual desses artigos da constituição não menciona liberdades?” “Quais são os 49° e 50° Estados americanos?” E isso é só o teste. A maioria dos candidatos não será barrada aí, mas antes, porque será incapaz de cumprir outras exigências. Para muitos é mais garantido pular a cerca ou tentar a sorte com uma balsa…

Os ingleses, como era de se esperar, junto com perguntas sérias, aplicam um teste bastante bem-humorado e prático – baseado no livro “Life in U.K.”, um guia para estrangeiros. Não, não perguntam qual a capital Assíria antes de você passar pela ponte da Morte. Mas coisas como: “Num pub, se você derrubar a cerveja de alguém, qual é o procedimento?” “Paga outra ou briga?” “Se você apanhar e se ferir por causa desse incidente, qual o número que você deve chamar?” “Onde os ingleses acham que o Papai Noel mora?” “Lapônia ou Pólo Norte?” “Qual a obrigação de quem tem animal de estimação?”

Deve ter sido preparado pelo Minister of Silly Walks… Uma simulação foi elaborada pela BBC.

E, para terminar, existe o francês. Assim como seus “primos”, ele é pouco determinante. Proposto pelo então ministro do Interior Nicolas Sarkozy em 2003, aborda questões culturais que parecem ter sido feitas sob medida para os imigrantes islâmicos. Exemplo: “Um homem pode ser condenado por estuprar sua esposa?” “O casamento é uma questão de interesse dos parentes ou apenas do casal?”

No Brasil, o estrangeiro que quiser se naturalizar não precisa saber quais são as cores da bandeira da Paraíba ou o que fazer se derrubar a Brahma de alguém. Depois de cumprir algumas obrigações, basta fazer uma prova de português.

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3 Respostas to ““What is the capital of Assyria?””

  1. Norman Says:

    Muito engraçado o comentário sobre o estupro de esposas. Fico imaginando alguém fazendo o teste e pensando “malditos franceses!”

  2. Galeb Says:

    O problema é se um estrangeiro derruba um caneco de Bitter e compra sem saber uma Mild . Aí é briga na certa.

    Quanto ao teste no msnbc (40%): Mmmm. Do you really want to be a citizen? This kind of performance isn’t going to impress those nice immigration folks.
    Devo impressionar mais com meu sobrenome.

  3. Jean-Philip Albert Struck Says:

    Qual é mesmo teu blog, Galeb?

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