Archive for julho \31\UTC 2008

Ainda existem bons livros sobre Berlin

quinta-feira, julho 31, 2008

“Berlin: Portrait of a City” é, sem exagero, o mais belo livro de fotografias já organizado sobre uma cidade. Esqueça esses livros comemorativos lançados por secretarias de cultura ou aqueles patéticos catálogos para turistas. Esse é um trabalho ambicioso e apaixonado.

A editora responsável por essa obra-prima é a Taschen, famosa pelos livros gigantescos e gosto por temas polêmicos. A organização é de Hans-Christian Adam.

Reunir fotos de uma cidade pode parecer banal – ainda mais se comparado com outras obras da editora -, mas o resultado é grandioso e nada menos que emocionante. A contracapa avisa que esse é o “estudo mais abrangente já realizado sobre Berlin”. De fato, é difícil lembrar de um livro fotográfico mais completo sobre a cidade. São mais de 140 anos mostrados através das lentes de Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, Helmut Newton, Thomas Struth, Wolfgang Tillmans, Heinrich Zille etc.

O tratamento editorial é impecável, e o tamanho enorme de muitas das fotos permite examinar detalhes fascinantes da antiga paisagem urbana. Ganham vida as antigas indústrias, as velhas figuras dos “anos loucos” e, inevitavelmente, as conseqüências da guerra. A destruição sofrida pela cidade parece inacreditável, mas é emocionante notar que a vida cotidiana, apesar de tudo, continuou. E Berlin, nesses 140 anos, parece tão viva graças aos seus habitantes. A destruição da guerra dá lugar à tensão da Guerra Fria e à divisão da cidade, mas, novamente, nada disso é páreo para a coragem dos berlinenses, que reconstruíram o que parecia completamente perdido. Eles recebem uma bela homenagem nessa obra. Notável que esse livro tenha tratado marginalmente o nazismo e as figuras importantes da política, mas, começando na expansão urbana do século 19 e terminando nos arrojados edifícios pós-modernos, se concentrado nos rostos de gente comum e nas construções – e mostrado como essas coisas são afetadas pela história.

Berlin, essa cidade de transformações e destruição, tantas vezes imortalizada na literatura e no cinema, tem um livro de fotografias à altura de sua grandeza.

Obs: Meu pai, que nasceu em Berlin, fez aniversário ontem (30 de julho). “Berlin: Portrait einer Stadt” foi o presente escolhido pelo meu irmão e minha cunhada.

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Celebridades Políticas

segunda-feira, julho 28, 2008

Clint e Arnie: eles são minoria na Califórnia

Para quais campanhas eleitorais as celebridades americanas fazem doações? O Newsmeat responde. Na lista, o que todo mundo já sabia: Hollywood é dominada pelos democratas. Mas existem republicanos. Os generosos do passado são as velhas figurinhas: James Stewart, Bob Hope, Frank Capra, Charlton Heston e James Cagney. No time dos vivos: Adam Sandler (?), Shirley Temple, Robert Duvall, Chuck Norris (claro), Prince (!?) e Jim Caviezel (Jesus é republicano). O horrível cantor José Feliciano também vota no Grand Old Party. Clint Eastwood, um dos atores republicanos mais famosos e ex-prefeito de Carmel pelo partido, doou 2.300 dólares para a campanha de John McCain.

O republicano que mais abre a carteira é o escritor Tom Clancy: 237.050 dólares, os mais recentes para o reacionário pré-candidato Duncan Hunter (saudades da Guerra Fria?). O falecido Frank Sinatra deve ter mesmo se desiludido com seu velho amigo John Kennedy: a maior parte de suas doações foi para candidatos republicanos – Ronald Reagan e George H. Bush incluídos.

Mas a maioria doa mesmo em campanhas locais. Em alguns casos, as celebridades doaram para os dois partidos. Só assim para o diretor Oliver-conspiração-Stone ter contribuído para a campanha de um republicano.

Obamania em Berlim

segunda-feira, julho 28, 2008

Berlim é a cidade que poderia resumir boa parte da história do século 20. Sofreu como nenhuma outra os efeitos das duas guerras mundiais e foi o palco principal da Guerra Fria. Natural que seu simbolismo seja grande. Para alguns presidentes americanos, Berlim também marcou momentos de triunfo oratório. John Kennedy disse “Eu sou um berlinense”, Ronald Reagan pediu “Sr. Gorbachev, derrube este muro!”. Menos lembrado é Bill Clinton: em 1994, ele comemorou “Berlim é livre!”.

Kennedy, ao contrário de Reagan e Clinton, não discursou à frente do Portão de Brandemburgo, mas tinha em comum com seus sucessores a condição de presidente.

O candidato democrata Barack Obama ainda não chegou lá, mas apostou que um discurso na capital alemã é o tipo de recado que deve passar para os que o julgam inapto em questões externas. Aposta arriscada. O governo alemão vetou o Portão, e Obama teve que se contentar com a Coluna da Vitória.

[Continua]

Documentários

domingo, julho 27, 2008

Para quem gosta de documentários, o canal pago GNT há muito deixou de ser uma boa opção. Se antes era possível assistir séries como “The World at War” e “Hitler´s Helfer”, agora, o assinante que sintonizar o canal só encontrará dezenas de programas desmiolados para o “público feminino” e explicações intermináveis sobre como fazer sexo anal com um vibrador. Com os canais Discovery não é muito melhor: é absurda a obsessão dos programadores com a construção do transatlântico Queen Mary II ou com os ridículos documentários sobre ufologia.

Felizmente bons documentários podem ser encontrados na internet.

“Général Idi Amin Dada: Autoportrait”(1976) é um deles. Realizado pelo francês Barbet Schroeder, “Genéral” acompanhou o sanguinário ditador de Uganda em reuniões ministeriais e em visitas oficiais. Como no ótimo “Entreatos” (2004), de João Moreira Salles, essas imagens não necessariamente promovem o personagem, mas o expõem ao rídiculo e mostram sua verdadeira natureza apenas pelo registro de ações. O “Autoportrait” se explica pela interferência de Amin, que chegou a ajudar na direção e até mesmo compôs a trilha sonora. Schroeder realizou duas versões, uma para exibição em Uganda, já que o ditador adorou as imagens, e outra para o exterior, contendo narração e descrição de atrocidades. O resultado é muito mais eficiente que o superestimado “O Último Rei da Escócia”. (O documentário está disponível em DVD no Brasil. O preço é salgado: 41 reais. A arte da capa é coisa de louco. Quem quiser gastar um pouco mais pode optar pela edição da Criterion.)

Não foi a última vez que Schroeder abordou personagens polêmicos. “L’avocat de la terreur” (2007), documentário sobre o advogado Jacques Vergès, defensor de monstros como o nazista Klaus Barbie e Carlos, o Chacal, está atualmente em cartaz na cidade de São Paulo.

“The Leader, His Driver and the Driver’s Wife” (1991) foi realizado pelo jornalista Nick Broomfield para o Channel 4. Fugindo da abordagem “voyeurística” do Cinéma vérité, o documentarista Broomfield é um personagem que apresenta suas reflexões, finge ser ingênuo para que seus entrevistados fiquem à vontade e exponham suas opiniões absurdas e, não raro, os coloca contra a parede. Foi um dos primeiros “Nouvelles Egotistes“, influenciando documentaristas como Michael Moore e Louis Theroux. Em “The Leader”, Broomfield expôs a AWB (Afrikaner Weerstandsbeweging), um grupo paramilitar de inspiração nazista formado por boers da África do Sul. Durante a maior parte do documentário, Broomfield tenta entrevistar o líder do movimento, o truculento Eugène Terre’Blanche. Como Gay Talese que não conseguiu entrevistar Sinatra, o documentarista teme que suas tentativas não dêem em nada. Se volta, então, para o motorista de Terre’Blanche e sua esposa. Em 2006, o documentário ganhou uma continuação, “His Big White Self”, onde Broomfield volta para a África do Sul e mostra como as vidas dos personagens de “The Leader” mudaram depois do fim do apartheid.

Dando continuidade para seu gosto pela polêmica, o último documentário de Broomfield abordou a matança de civis por marines na cidade de iraquiana de Haditha.

“The Death of Yugoslavia” é um documentário premiado realizado pela BBC em 1995. Com um formato bastante novo para época, “Death” mostrou cenas de arquivo inéditas intercaladas com opiniões dos principais personagens do conflito. Não envelheceu muito, mesmo considerando os acontecimentos posteriores na região. Alguns erros de tradução foram denunciados por pessoas fluentes em servo-croata. Mais grave, porém, são os supostos erros históricos apontados em alguns sites e resenhas. O documentário original tinha seis partes, mas, posteriormente, a BBC reduziu para três.

Primeira parte de “Général Idi Amin Dada: Autoportrait”. (É preciso um pouco de paciência porque o documentário está dividido em 17 partes.)


Primeira parte de “The Leader, His Driver and the Driver’s Wife”. Link para a primeira parte de “His Big White Self”.

Primeira parte da segunda versão de “The Death of Yugoslavia”. Link para a versão em seis partes.

“It’s an opera”

sexta-feira, julho 25, 2008

Três membros da “famiglia” Wagner, senhores do Festival de Bayreuth

A ópera não é  considerada o gênero musical predileto de multidões. Mas o Festival de Bayreuth, que começa hoje, tem um público de causar inveja a qualquer artista, não importando o tipo de música que toque. Na sua 97° edição, o festival, que dura um mês, vai receber quase 60 mil apreciadores das obras do compositor alemão Richard Wagner. E esses cerca de 60 mil são considerados “sortudos”, já que o festival é disputadíssimo e conseguir um ingresso pode exigir anos na lista de espera. Quase 500 mil pessoas tentaram, em vão, comprar ingressos para esta edição.

Mas pessoas famosas e autoridades não precisam se preocupar em conseguir ingressos. Para eles, a organização do festival estende, literalmente, um tapete vermelho – a chanceler alemã, Angela Merkel, por exemplo, há anos freqüenta o festival.

Para os organizadores, afagar quem está no poder não é apenas um sinal de vaidade – e vaidade é o que não falta no festival -, mas uma questão de sobrevivência. Como qualquer festival de ópera, Bayreuth dá prejuízo, mesmo com um público cativo. É o Estado Alemão que cobre a diferença injetando 17 milhões de euros anuais – uma quantia considerada baixa para os padrões europeus.

O subsídio é tão Bayreuth quanto “Siegfried”. Uma tradição que começou com o fundador, o compositor romântico Richard Wagner. Com uma carreira cheia de altos e baixos até 1864, e no ostracismo por causa da sua vida privada escandalosa, Wagner teve a sorte de cair nas graças de um admirador poderoso: o jovem rei da Baviera Ludwig II, considerado um louco. Ludwig serviu de mecenas para Wagner, financiando generosamente suas obras posteriores e a construção de um teatro na pequena cidade de Bayreuth, exclusivamente para a encenação das obras do compositor. Foi um sucesso. O festival logo se tornou um evento para gente importante – até mesmo o nosso imperador D. Pedro II deu as caras. Nietzsche, obviamente, também era uma presença assídua.

Após a morte do compositor, em 1883, o teatro e o festival passaram a ser administrados pelos descendentes de Richard.

Num caso raro de continuidade, a família Wagner controla a organização do festival até hoje. Como um feudo, não é um negócio tocado com discrição. Os jornais alemães estão repletos de histórias sobre brigas entre membros da família. Atualmente é Wolfgang Wagner, neto de Richard e bisneto de Franz Liszt, que organiza o festival.

Nazismo e mudanças

Wagner não é nem um pouco popular em Israel. Suas óperas repletas de elementos do folclore germânico são consideradas por alguns a trilha sonora do Holocausto. Nos primeiros anos de poder, Hitler era um freqüentador assíduo do festival. Chegou a aumentar o subsídio que o teatro recebia do governo. Por anos, o relacionamento que matinha com Winifred Wagner, filha de Richard, foi alvo de especulação – suspeitava-se que ela fosse sua amante. O festival floresceu nos tempos de Hitler e, por estranho que pareça, foi durante o nazismo que aconteceram as primeiras mudanças depois da morte de Richard. Até então, todas as óperas eram encenadas com os mesmos cenários do século 19. Alguns tradicionalistas, incluindo o maestro Arturo Toscanini e o compositor Richard Strauss, protestaram.

Albert Speer, ministro e um dos favoritos de Hitler, contou em suas memórias que na esperança de agradar ao führer, muitos nazistas compareciam ao festival. Mas a duração de óperas como “Parsifal”, que tem mais de cinco horas (!), levava muitos desses nazistas de baixo  clero, mais habituados a quebrar crânios de comunistas nos tempos de freikorps, ao sono – para desgosto de Hitler.

Hitler nunca mais pôs os pés em Bayreuth depois de 1939, mas ele sempre foi uma sombra no festival. Até hoje a filha do marechal fanfarrão de Hitler, Hermann Göring, um grande amigo da família, recebe ingressos gratuitos. (História curiosa: poucos antes de sua morte, o filho de Rudolf Hess, Wolf Rüdiger, soube que a filha de Göring recebia ingressos. Reclamou. Desde então, também passou a ter entrada livre.)

Durante a guerra, boa parte da cidade foi destruída, o teatro, porém, ficou relativamente intacto. Mas foi só em 1951 que o festival recomeçou. Winifred foi banida pelos americanos por ser considerada uma nazista incorrigível. Mas o negócio não deixou de ser familiar, e a organização e a direção passaram para seus filhos, Wolfgang e Wieland.

Assumindo a direção, Wieland revolucionou o festival nos primeiros anos. Despindo as obras de seu caráter nacionalista, ele buscou um apelo mais universal. Também trocou os elaborados cenários tradicionais por outros com elementos mais modernos e simples. Muitos críticos acusaram as mudanças de serem uma traição aos ideais germânicos – lembrando em muito os nazistas e sua perseguição à “arte degenerada”. O público, por sua vez, vaiou.

Wieland se defendeu como pôde, mas sua morte prematura em 1966 abriu caminho para seu irmão Wolfgang, considerado menos brilhante. (Com o tempo, vários críticos reconheceram que a abordagem de Wieland era ideal.) Mais tradicionalista que seu irmão, Wolfgang reverteu todas as mudanças e se voltou para a abordagem pré-guerra. Espantou as vaias, mas os críticos começaram a achar que o festival estava engessado demais. O seu reinado já começou a ser contestado no começo da década de 70. Wolfgang então resolveu criar a “Oficina de Bayreuth”, convidando diretores de outras óperas e até mesmo do cinema para mostrarem suas abordagens da obra de Wagner. Wolfgang ficou responsável apenas pela administração do festival. Mas em 1973, por pressão do governo da Baviera e por brigas com outros Wagners, ele teve que entregar parte do poder. Foi criada a Fundação Richard Wagner, com outros membros da família e algumas figuras públicas. Porém, Wolfgang, um sobrevivente nato, continuou na chefia.

Há anos sofrendo pressão para se aposentar, ele finalmente entregou os pontos este ano, aos 89 anos, em parte por causa de sua saúde debilitada. Esta edição é a última sob seu comando.

É o fim da era Wolgang, mas a família Wagner continua. Duas Wagners estão sendo cogitadas como sucessoras. Eva e Katharina, filhas de Wolfgang e bisnetas de Richard. Elas já estão brigando pelo cargo. Os Wagners são mesmo personagens de opereta.

O voto obrigatório

quinta-feira, julho 17, 2008

O número de eleitores só aumenta a cada eleição. Chegará a 130 milhões na próxima. Seria um número para se comemorar e um indicativo de que o Brasil é um país bastante politizado não fosse uma anomalia que pareceria absurda na maior parte das democracias do mundo.

No Brasil, é quase certo um jovem de 18 anos escapar do serviço militar obrigatório. Sucateamento do exército e excesso de recrutas colaboram para que ninguém tenha que servir contra a vontade. Mas de uma coisa a pessoa que fizer 18, mulher ou homem, não pode escapar (não até fazer 70 anos): é obrigatório se inscrever numa lista eleitoral e comparecer na seção em dia de eleição.

Não é o método Mugabe de ameaçar fisicamente a população a comparecer e conseqüentemente legitimar um pleito fraudulento, mas algo que colabora para uma série de distorções e injustiças.

Na prática, o cidadão que não comparecer – e 16% não o fez em 2006 – pode contar com a justificativa que pode ser feita até 60 dias depois das eleições. Mas esse dispositivo, que poderia relaxar o absurdo da obrigatoriedade, implica na manutenção de uma burocracia que existe apenas para julgar a veracidade da versão dos ausentes. É espantoso que uma quantidade enorme de tempo e dinheiro sejam gastos para analisar uma questão sem qualquer importância. E o que dizer da série de chantagens que são colocadas em prática para forçar o eleitor a comparecer? Não votando em três turnos consecutivos, o eleitor ausente não pode participar de concursos públicos, se matricular numa universidade pública e tirar uma cédula de identidade. Terá também que pagar uma multa. E se quiser cair fora do país porque ficou indignado com tudo isso, também está lascado: tirar passaporte, só com o comprovante de voto na última eleição.

É paradoxal punir alguém que simplesmente se recusou a exercer um direito. A maioria das democracias nunca flertou com essa idéia. Alguns defensores do voto obrigatório reconhecem que essa anomalia não existe em países como os EUA, Reino Unido, França e Alemanha, mas contra-argumentam os defensores do voto facultativo citando a Itália, a Austrália e a Bélgica – países ricos que obrigam seus cidadãos a comparecerem nas seções eleitorais a cada eleição. Não parece ter ocorrido que esses três países são exceções nas democracias tradicionais. Obviamente o voto obrigatório não é a causa, mas a Bélgica e Itália também são péssimos exemplos de governos representativos. Há meses a Bélgica passa por uma crise que impede a formação ou trava o funcionamento de qualquer governo. A Itália, eternamente bagunçada e com sua média de um governo diferente a cada ano, também não deveria ser um exemplo. E mesmo esses dois países não aplicam medidas tão punitivas como as brasileiras. De qualquer forma, não é uma questão de se espelhar nos outros, mas sim debater a legitimidade da obrigação, um resquício de autoritarismo numa democracia que, apesar de muitos tropeços, está consolidada.

Autoritária e exótica, a obrigatoriedade até que surgiu com boas intenções. Estreou no Brasil em 1932, por decreto do governo provisório de Getúlio Vargas. Foi pensada, junto com outras medidas, para acabar com as fraudes eleitorais que caracterizaram a República Velha. Sem qualquer controle unificado, currais eleitorais podiam recusar ou intimidar qualquer eleitor que não estivesse na mesma sintonia dos poderosos locais. Acabou sendo incluída na Constituição de 1934 e nunca desapareceu, mesmo com os períodos em que era “obrigatório não votar” para alguns ou todos os cargos (1937-1945 e 1964-1985). Com as fraudes eleitorais ficando para trás, a justificativa inicial acabou perdendo o sentido.

No Congresso já foram propostos 24 projetos para acabar com a obrigatoriedade, e de vez em quando algum político reformista aparece defendendo seu fim (o último digno de nota foi o então senador Sérgio Cabral em 2004), mas com a protelação interminável da reforma política qualquer movimento nesse sentido é logo esquecido. É possível concluir que por não se tratar de uma questão que beneficie os políticos – como fundo partidário, fidelidade etc -, mas sim os eleitores, ela nunca vai suscitar pressa ou vontade no Congresso.

É difícil determinar se o comparecimento nas eleições iria cair significativamente com o fim da obrigatoriedade, mas para os políticos a legislação atual obviamente é confortável. Só têm que convecer o eleitorado a votar neles, convencer os eleitores a saírem de casa já está assegurado – ao contrário dos EUA e maior parte da Europa, onde as campanhas devem ter um apelo muito maior por causa do baixo comparecimento. Mas por que os eleitores se sujeitam a isso? Certo, se trata de apenas um domingo, talvez dois, a cada dois anos – contrastando com os 12 meses de serviço militar, este sim de provocar temor e indignação nas mães de classe média -, e também existe como contornar as punições, mesmo que pagando. Também existem as anistias. Mas parece que a população, mesmo com a indignação generalizada com a classe política, parece achar natural a obrigatoriedade. Pesquisas mostram 60%, 75% ou 80% defendendo o voto facultativo, mas qualquer demonstração ou movimento mais barulhento inexistem.

Pode-se argumentar que a obrigatoriedade vale a pena para incentivar (ou forçar?) as pessoas a se integrarem ao sistema político. Mas é uma saída fácil, não implicando em melhorar a educação e a politização do eleitorado. Aliás, os defensores do voto facultativo caem numa armadilha similar, argumentando que seria melhor  “só os mais educados saírem para votar”. De novo, sem estender essa educação para toda a população, mas partindo do pressuposto que só quem tivesse educação (ou consciência) teria vontade de votar numa eleição sem obrigatoriedade. Um argumento pra lá de elitista. É importante lembrar que países com voto facultativo também têm muitos problemas com suas classes políticas. E o comparecimento em países desenvolvidos é considerado baixo, nem mesmo os “conscientes” têm vontade de votar. E mesmo que a qualidade dos políticos desses países seja melhor, a diferença é que os mecanismos para combater a corrupção são mais eficientes.

Resultados práticos ou diferenças com outros países fogem da  questão principal: ninguém deve ser obrigado a exercer um direito – e muito menos ser punido por isso. Simples assim. A Constituição brasileira explica como deve ser exercido o voto. Está na seção “Direitos Políticos”. Por causa da obrigatoriedade, seria mais apropriado escrever “Deveres Políticos”.

“What is the capital of Assyria?”

quinta-feira, julho 10, 2008

Alemanha: o portão não está aberto a todos

Com uma das taxas de fertilidade mais baixas do mundo, a Alemanha pode ter sua população reduzida de forma significativa em 2050. Uma projeção apontou que até lá a população atual de 82 milhões pode cair para 69 milhões. Mesmo esse número pessimista leva em conta uma imigração anual de 100 mil pessoas para o país. Com 200 mil imigrantes o problema só diminui um pouco: a população seria de 74 milhões.

É um problema que assombra o país há quase 20 anos.  Ainda não se concluiu se os incentivos à natalidade – que também existem em vários oitros países europeus – vão dar resultados. Mesmo assim pouco está sendo feito para facilitar a entrada de imigrantes.

Até 2000, o direito à cidadania alemã era baseado no sangue (“princípio da descendência”). Não fazia diferença se a pessoa tinha nascido na Alemanha: só quem tinha parentes alemães tinha o direito assegurado. O resultado foi gerações de pessoas nascidas no país que continuavam com o status de estrangeiras. O problema atingiu particularmente os que tinha ascedência turca – de longe a maior comunidade estrangeira no país. A lei mudou, e mesmo não sendo retroativa, começou a resolver parte do problema de muitos filhos de imigrantes.

Em 2005, o país reformou sua lei de imigração. Pouca coisa mudou. Mesmo sendo um dos destinos europeus mais procurados pelos ilegais, é muito difícil para um trabalhador pouco qualificado conseguir obter a naturalização ou mesmo a versão local do Green Card. O país só incentiva a entrada de profissionais bem qualificados, e basicamente em programas de trabalho temporário. Nada disso resolve o problema da taxa de natalidade. Para piorar, em 2007, 113 mil estrangeiros adquiriram a cidadania alemã, 9,5% a menos do que no ano anterior. Paradoxalmente, a Alemanha é o membro da UE que abriga mais asilados políticos – mais de 200 mil, e muitos deles recebem ajuda estatal.

A história mostra que a Alemanha sempre foi um país que acolheu muitos imigrantes. O Wirtschaftswunder (“Milagre Alemão”), como é chamada a ascensão do país como potência ecônomica no pós-guerra, contou com a ajuda dos Gastarbeiter, os “trabalhadores convidados” – sobretudo dos países mediterrâneos, na época miseráveis -, que foram ao país às centenas de milhares para suprir a demanda da indústria por trabalhadores. Os turcos, em grande quantidade, foram a segunda leva. Mas não foram recebidos de braços abertos como seus antecessores, e logo se tornaram indesejáveis. (As condições degradantes a que muitos turcos foram submetidos foram denunciadas pelo jornalista Günter Wallraff no seu devastador livro “Cabeça de Turco”.)

Questionário

Mesmo com algumas iniciativas tímidas para atrair imigrantes qualificados, alguns setores da sociedade alemã acham que algumas coisas vieram para dificultar. Além de cumprir regras como morar no país há oito anos, não ter antecedentes criminais, ganhar o necessário para se sustentar e ter conhecimentos suficientes do idioma alemão, a partir de 1° de setembro o interessado terá que responder um questionário sobre história e sociedade alemã. Várias associações que representam os turcos, além do Partido Verde, reclamaram do teste. Um porta-voz de uma dessas associações ironizou que nem mesmo um alemão comum seria capaz de responder muitas das questões.

Elaborado pela Universidade de Humboldt, de Berlin, o teste consiste em 33 perguntas – de um estoque de 300. O site da revista Der Spiegel disponibilizou uma das versões. Não é uma prova muito difícil, considerando que apenas 17 precisam ser respondidas corretamente. Muitas questões independem de conhecer a Alemanha e podem ser respondidas pelo senso comum. Exemplo: “Qual é o papel de um júri?”. Ou: “Qual o papel da polícia?”. Quatro opções são dadas, sendo uma sempre estapafúrdia. Mesmo as questões sobre história podem ser respondidas com pouco estudo. “Como acabou a guerra na Europa?” “Quem foi o primeiro chanceler?” Outras coisas são curiosas: “O que os alemães fazem na Páscoa?”. Resposta: “Pintam ovos”. Este blogueiro acertou 30 questões. As três erradas foram justamente o tipo de pergunta que gerou controvérsia. Alguém sabe quais são as cores da bandeira da Renânia do Norte-Vestfália? Não fazia a mínima idéia. Existem também as perguntas clássicas sobre capitais e Estados.

Os autores do teste disseram que em média 80% dos candidatos devem passar. O ministro do Interior, Wolfgang Schäuble, afirmou que a gritaria é exagerada, e comparou o teste com os conhecimentos necessários para a obtenção da carteira de motorista.

Outros questionários

Outros países também aplicam testes similares. O mais famoso é o americano. O site da MSNBC fornece um modelo. Nada impossível, mas algumas questões, se comparadas com algumas do teste alemão, são bastante difíceis, e provavelmente a maioria dos americanos não saberia responder. Abordam artigos da constituição e o funcionamento do Executivo. “Quem assume se o presidente e seu vice não estiverem disponíveis?” Até o ex-secretário de Estado Alexander Haig não sabia essa quando Reagan foi baleado. “Quem tem poder para declarar guerra?” “Qual desses artigos da constituição não menciona liberdades?” “Quais são os 49° e 50° Estados americanos?” E isso é só o teste. A maioria dos candidatos não será barrada aí, mas antes, porque será incapaz de cumprir outras exigências. Para muitos é mais garantido pular a cerca ou tentar a sorte com uma balsa…

Os ingleses, como era de se esperar, junto com perguntas sérias, aplicam um teste bastante bem-humorado e prático – baseado no livro “Life in U.K.”, um guia para estrangeiros. Não, não perguntam qual a capital Assíria antes de você passar pela ponte da Morte. Mas coisas como: “Num pub, se você derrubar a cerveja de alguém, qual é o procedimento?” “Paga outra ou briga?” “Se você apanhar e se ferir por causa desse incidente, qual o número que você deve chamar?” “Onde os ingleses acham que o Papai Noel mora?” “Lapônia ou Pólo Norte?” “Qual a obrigação de quem tem animal de estimação?”

Deve ter sido preparado pelo Minister of Silly Walks… Uma simulação foi elaborada pela BBC.

E, para terminar, existe o francês. Assim como seus “primos”, ele é pouco determinante. Proposto pelo então ministro do Interior Nicolas Sarkozy em 2003, aborda questões culturais que parecem ter sido feitas sob medida para os imigrantes islâmicos. Exemplo: “Um homem pode ser condenado por estuprar sua esposa?” “O casamento é uma questão de interesse dos parentes ou apenas do casal?”

No Brasil, o estrangeiro que quiser se naturalizar não precisa saber quais são as cores da bandeira da Paraíba ou o que fazer se derrubar a Brahma de alguém. Depois de cumprir algumas obrigações, basta fazer uma prova de português.

Waterboard meeting

terça-feira, julho 8, 2008

Hitchens experimenta o afogamento “simulado”

Quando ainda disputava a indicação pelo Partido Republicano, John McCain recriminou os pré-candidatos Mitt Romney e Rudolph Giuliani por não terem uma posição firme contra a tortura de prisioneiros da guerra contra o terror. Num dos debates, diante da argumentação estapafúrdia de Romney de que a tortura, em especial a técnica de waterboarding (afogamento simulado), não era uma questão federal, McCain encerrou o assunto afirmando que os EUA eram signatários da Convenção de Genebra – que, não custa lembrar, proíbe até mesmo o waterboarding. Mas em fevereiro de 2008, o senador McCain, esse antigo soldado que foi feito prisioneiro e sofreu nas mãos de seus captores vietnamitas, votou contra um projeto que bania o uso do waterboarding pela CIA. O projeto, elaborado pelos democratas, previa a adoção do manual de interrogatório do exército americano – que não tem procedimentos de tortura – por todas as agências do país. Mesmo com o “não” de McCain, o projeto passou, mas acabou engavetado por Bush. A aura de defensor de princípios e a propagandeada firmeza de McCain saíram arranhadas. Ele foi acusado de querer agradar os membros mais conservadores do seu partido e evitar um conflito com Bush.

Ficando apenas atrás de Guantánamo nos protestos que exigem respeito aos direitos humanos nos EUA, a técnica de afogamento simulado consiste em imobilizar o suspeito numa tábua e encharcar seu rosto. A posição da cabeça, que fica para trás, e a água provocam, quase imediatamente, o reflexo faríngeo – a sensação de afogamento. Existem variações na execução, mas o princípio imobilização-água é sempre o mesmo. A CIA já admitiu ter usado a técnica em alguns interrogatórios.

Os defensores da prática – McCain, apesar do seu voto, declarou que continua sendo contra – afirmam que a simulação não é a mesma coisa que tortura. Comparada com o eletrochoque, espancamento e o nosso pau-de-arara ela seria mais “suave”, além de não provocar muitos danos. O jornalista Christopher Hitchens, que adora uma boa polêmica, quis saber mais. Com a ajuda de soldados que praticam a técnica – não em interrogatórios, mas para que seus colegas de farda aprendam a resistir se caírem nas mãos do inimigo -, ele serviu de cobaia numa sessão de simulação de afogamento. Hitchens, que tem 59 anos e detesta terroristas, contou como foi essa experiência num artigo para a revista Vanity Fair. Não só com argumentos de quem experimentou, ele concluiu: “(…) if waterboarding does not constitute torture, then there is no such thing as torture“.

Texas vigilante

quinta-feira, julho 3, 2008

Paul Kersey, o personagem mais famoso de Charles Bronson

Os personagens mais marcantes de Charles Bronson saíam matando bandidos depois de terem a família inteira estuprada e assassinada. Bronson, que até era sujeito pacato, popularizou os justiceiros no cinema (nos EUA são chamados de “vigilante”). Para o texano Joe Horn, um aposentado de 61 anos e morador de um subúrbio tranqüilo de Pasadena, não foi preciso tanto para se tornar um “vigilante”. Quando ele viu dois sujeitos invadindo a casa de seu vizinho, achou que ligar para a polícia não era suficiente. Ignorando os apelos do atendente do serviço de emergência, saiu de casa e enfrentou os ladrões, que nessa hora estavam passando pelo seu gramado. Foram dois tiros precisos de rifle calibre 12. Pelas costas, a uma distância de quatro metros. Miguel Antonio Dejesus, de 38 anos, e Diego Ortiz, de 30, morreram na hora. O produto do roubo era de mais ou menos 2.000 dólares em dinheiro e jóias. Isso aconteceu em novembro de 2007.

A conversa entre Horn e atendente do 911 foi divulgada para a imprensa. Nela se ouve um Horn cada vez mais agitado com a demora dos policiais, e avisando a todo momento que pretende fazer alguma coisa. O atendente pede mais de 30 vezes para que Horn não faça nada além de esperar. Inútil. Antes de sair, Horn avisa para o atendente ouvir o click da arma sendo engatilhada. Depois ele grita “Move, and you’re dead!” para os ladrões, e atira.

Um caso que dividiu opiniões não apenas na tranqüila Pasadena, mas em todo os EUA.

Famoso pela cultura de armas e pelas execuções em cadeias, o Texas também possui uma lei que autoriza o uso de força letal para defender propriedades. E Horn conhecia bem essa lei. Ele chega a citá-la na ligação para o 911 – além de afirmar que seu rifle não é ilegal.

Depois do tiroteio, foi revelado que Miguel e Diego, os dois ladrões, eram imigrantes ilegais da Colômbia e criminosos reincidentes. Além disso, eram membros de um quadrilha especializada em furtos na região de Houston, no Texas.

Como nos filmes de Bronson, muita gente gostou do que Horn fez. Dúzias de motoqueiros e outras pessoas usando camisetas de bandas metaleiras apareceram em frente à sua casa para manifestar apoio. No Youtube, existem vários vídeos da ligação para o 911 com títulos como “Vizinho do ano e “Herói Americano”. A maioria dá destaque para o fato dos ladrões serem imigrantes ilegais. Com pouco tato, o canal FOX News abordou a história usando o título “Herói ou Vigilante?”. O apresentador Bill O´Reilly, famoso pelas suas opiniões raivosas, não disfarçou a simpatia que sentiu por Horn, e afirmou que os dois criminosos morreram por causa de leis e ações ineficientes em combater a imigração ilegal. (Houston, assim como Nova York e outras grandes cidades, é uma “Sanctuary City”, um lugar em que os imigrantes colaboram com a polícia e em troca não são questionados sobre sua situação no país.)

Mas outras pessoas ficaram ultrajadas com a ação de Horn. Porém, os protestos que mais ganharam destaque não abordaram a questão de se fazer justiça com as próprias mãos (ou rifle), mas acusaram Horn de racismo – Miguel e Diego eram negros. Quanell X, nascido Quanell Ralph Evans, convertido ao islã e líder dos Novos Panteras Negras de Houston, liderou dois protestos em frente à casa de Horn. Nas duas ocasiões, ele e seu grupo entraram em choque com motoqueiros simpáticos a Horn que gritavam “USA! USA! USA!”. Quanell X, que na juventude cumpriu pena por posse e venda de drogas, afirmou que Horn não seria condenado e que a “lei branca” devia ser combatida. (Em 2001, Jeffrey Battle, um dos antigos seguranças de Quanell, ficou famoso como um dos Portland Seven, um grupo de americanos convertidos ao islã que tentou se juntar ao Talebã. Foi condenado a 18 anos de prisão por traição.)

Excessiva, legal, ou racista: a controvérsia continua. Mas Horn nunca foi preso. E nunca mais será. Um júri do Texas o inocentou de qualquer acusação em 30 de junho de 2008.

Obs: o áudio da ligação pode ser ouvido aqui.