George Carlin

…And what’s all this shit
about children nowadays?
‘Save the children!’
‘Help the children!’
‘What about the children?’
Well you know what I say?
FUCK the children!
Fuck ‘em!
They get entirely too much attention already.

Jerry Seinfeld diria: “What’s the deal with airplane peanuts?“. George Carlin até poderia abordar o assunto dos amendoins, mas daria um jeito de inserir um monte de “fucks” na frase e, pode apostar, mudaria o sentido para ofender religiosos e qualquer categoria de gente com ouvidos sensíveis.

Não muito conhecido no Brasil, Carlin, que morreu no dia 22 de junho, aos 71 anos, foi um dos comediantes de stand-up mais bem-sucedidos e influentes dos EUA.

Agora que o stand-up parece ter conquistado um bom espaço no Brasil, com vários comediantes desse gênero se tornando celebridades e qualquer cidade de tamanho respeitável contar com apresentações regulares, é difícil acreditar que no passado esse tipo de número poderia dar cadeia. Com Carlin foi assim. Como o lendário Lenny Bruce na década de 60, Carlin sempre falou palavrões nas suas apresentações. Em 1972, lançou um LP com o número “Seven Words You Can Never Say on Television“, onde fazia piadas denunciando o absurdo de banir palavrões da televisão e do rádio. Ao apresentar seu número em Milwaukee, foi preso por obscenidade – aliás, as sete palavras são Shit, Piss, Fuck, Cunt, Cocksucker, Motherfucker e Tits. Em 1973, um outro LP que abordava o mesmo assunto foi ao ar sem censura numa rádio nova-iorquina. Mais uma acusão de obscenidade contra Carlin. O caso foi parar na Suprema Corte do país, no que ficou conhecido como “FCC vs Pacifica Foundation”. O FCC (Federal Communications Commission) é o órgão responsável por regulamentar as concessões de televisão e rádio – mas é famoso pelas brigas com o radialista Howard Stern e por aplicar multas pelo que julga ser indecente na televisão. No caso Carlin, a Suprema Corte julgou que o número era “indecent but not obscene“. A FCC ganhou, e os sete palavrões – Carlin adicionaria mais três: Fart, Turd, Twat – desde então só podem ser ouvidos depois das 22 horas, quando as crianças já deveriam estar na cama.

Com a notoriedade ganha no caso, Carlin abandonou um pouco os palcos na segunda metade da década de 70 e se voltou para a televisão – onde ele já tinha aparecido várias vezes no The Ed Sullivan Show e no The Tonight Show. Foi o primeiro apresentador do Saturday Night Live, em 1975. Em 1977, mesmo fragilizado pelo primeiro de três ataques cardíacos que sofreria na vida, gravou seu primeiro especial para a HBO, ainda um canal pago novato. Um grande sucesso, ele faria um total de 14 apresentações no canal, sendo a última delas em março de 2008.

A briga com a FCC pelos palavrões só não foi maior que a cruzada contra o alvo predileto de Carlin: a religião. Como ele próprio explicou: “the duty of the comedian to find out where the line is drawn and cross it deliberately“. Seguiu à risca essa filosofia. Ateu militante, não perdia a oportunidade de ridicularizar os maiores símbolos do cristianismo – e suas piadas são bem mais eficientes que qualquer argumento higienista de um Dawkins. Criou duas frases clássicas: “Atheism: a non-prophet organization” e “Thou shalt keep thy religion to thyself“. É só observar o número de sites dedicados ao ateísmo que lamentaram a morte de Carlin.

Participou de alguns filmes, a maioria esquecível, sendo um deles “Dogma” (1999), de Kevin Smith, que na época deixou muito religioso furioso.

Suas piadas, entregues numa forma quase niilista, mostravam o lado de crítico social. Ainda assim, fazia o tipo mal-humorado (“I’m not giving anything back to the community. You know why? Because I didn’t take nothing. You can search my fucking house.”). Detestava eufemismos, como atestam seus palavrões, e era genial ao brincar com a língua inglesa (“I put a dollar in a change machine. Nothing changed“). Freqüentemente denunciava o lado absurdo do cotidiano americano (“One guy, about a month ago, was given three consecutive life terms, plus two death penalties. How the fuck do you serve that? Even David Copperfield can’t do that shit. In order to do that, you’d have to be a Hindu.”) e nos últimos anos estava cada vez mais indignado com a presidência de George W. Bush.

O mundo fica menos engraçado – less fucking funny – sem Carlin.

Obs: existem centenas de vídeos de Carlin no Youtube.

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Uma resposta to “George Carlin”

  1. Carlos Henrique Says:

    Realmente o mundoo ficou menos engraçado sem George Carlin.Graças a ele comecei a ver o Stand up commedy.Apesar da pratica já ter ganhado um bom espaço no Brasil e já estar caindo no gosto do povo, confesso que não vejo muita graça.Shows pouco inteligentes e nem se comparam ao humor intelectual/sarcástico de George Carlin.

    Que Joe Pesci o tenha.

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