“This is London”

Dezoito de junho de 1940 deve ter sido um dia interessante para quem sintonizou a BBC. No dia que marcou os 125 anos da batalha de Waterloo, dois homens, representantes de nações que combateram naquele campo da Bélgica, um de um país derrotado horas antes daquele 18 de junho, e outro que já tinha convocado seus compatriotas a permanecerem na luta, pronunciaram discursos históricos.

Não fazia dois dias que a França havia concordado em se render aos alemães – que também celebravam a derrota de Napoleão em Waterloo para os prussianos de Blücher, aliados dos ingleses naquele distante 18 de junho de 1815 -, mas o general Charles de Gaulle já cruzara o Canal da Mancha (“O Rubicão de sua vida”) e estava em Londres. Churchill, que tanto havia feito para que os franceses permanecessem na guerra, o deixou ler seu “L’appel du 18 juin 1940“.

O apelo, que pouca gente ouviu na França em vias de ser quase totalmente ocupada, é carregado de impôrtancia para esse país que fez muito pouco para derrotar Hitler. Similar em significado ao discurso de Churchill em 4 de junho (“We shall fight on the beaches“), de Gaulle afirmou que seu país “havia perdido uma batalha, mas não a guerra”. Nesse momento as forças britânicas já estavam completando a Retirada de Dunquerque e os exércitos franceses se rendiam por toda a parte. De Gaulle convocou todos os soldados franceses disponíveis para prosseguirem a luta com ele, em Londres. Com isso salvou um pouco da honra de uma França manchada até hoje pela colaboração com os nazistas.

Vários políticos britânicos se opuseram ao apelo, temendo o efeito sobre os franceses que pretendiam um acordo com os alemães (ou seja, o novo governo de Pétain), mas o sinal verde de Churchill, que já não simpatizava muito com de Gaulle, foi decisivo. Curiosamente, os técnicos da BBC não acharam que o apelo valia uma gavação, e quando o general soube que não havia sido feito um registro, leu tudo novamente no dia 22. Desta vez gravado e ouvido por muito mais franceses – a gravação, que guardou o título “L’appel du 18 juin 1940“, assim como o rascunho e o famoso cartaz “À tous les Français” (este do dia 3 de agosto), hoje é um documento preservado pela Unesco.

Naquela mesma tarde, na Câmara dos Comuns, Churchill pronunciou um de seus mais famosos discursos, o “Their Finest Hour“, em que, longe de admitir uma derrota que naquele momento parecia próxima, afirmava que a luta deveria prosseguir e “if the British Empire and its Commonwealth last for a thousand years, men will still say, `This was their finest hour´“. Como a BBC não dispunha de meios para transmitir diretamente do parlamento, Churchill normalmente lia novamente seus discursos no estúdio, para que o público os ouvisse. Quatro horas depois de sair da Câmara, “Their Finest Hour” foi ao ar.

Uma lenda afirma que Churchill não gravou seus famosos discursos, e que a voz que nós conhecemos na verdade é a do ator britânico Norman Shelley. Bobagem, dizem os historiadores especializados nesse período. Mas “Their Finest Hour” foi com certeza lido no ar pelo próprio Churchill… junto com uns drinks a mais – e ele adorava um whisky. Como lembra o historiador John Lukacs, baseado nas memórias de algumas personalidades da época, a transmissão de 18 de junho foi considerada medonha. Ouvindo a gravação em MP3, é possível perceber que Churchill não estava mesmo em seus melhores dias. De qualquer forma, descontando o estilo por vezes exagerado do discurso (e intelectuais como Evelyn Waugh e George Orwell nunca gostaram dos textos grandiloqüentes de Churchill), ele tem várias passagens marcantes. A frase final, sem dúvida, é uma delas, mas o aviso de que seria melhor não apontar culpados pela situação militar ter chegado àquele ponto, “if we open a quarrel between the past and the present, we shall find that we have lost the future“, também é marcante. Orwell escreveu poucos dias depois que “as pessoas de pouco estudo são com freqüência tocadas por um discurso solene, que na verdade não compreendem mas sentem que impressiona”. O Departamento de Inteligência Interna do Ministério da Informação (que foi alvo do satirista Waugh na sua trilogia “Sword of Honour“) concordaria com Orwell. Num relatório sobre “Their Finest Hour“, o departamento concluiu que a população aguardava os discursos com ansiedade, considerando-os corajosos e esperançosos, mas com a ressalva de que a forma como eram apresentados suscitava todo tipo de comentário sobre o estado de Churchill.

John Luckas também lembra que 1940 marcou os 297 anos da batalha de Rocroi, onde os franceses derrotaram os decadentes espanhóis. Isso foi em 19 de maio de 1643. Cinco dias antes, Louis XIV, com apenas cinco anos de idade, foi coroado rei. Esse período foi marcado pela ascensão da França como maior potência do mundo. Waterloo, em 1815, quando a França disputava influência com a Inglaterra e uma Prússia renascida cada vez mais poderosa, não foi o começo do declínio, mas um catalisador. Em 18 de junho de 1940, a França não era nem sombra do que foi na época de Louis XIV.

Nesse mesmo 18 de junho de 1940, a Grã-Bretanha estava acuada, mas seu império, intacto – mesmo com algumas rachaduras. Os historiadores concordam que a decisão de prosseguir com a guerra, e a conseqüente derrocada financeira do país, acelerou a perda do império. Churchill pode até mesmo ser acusado de “perder a paz” em Yalta.

Mas ele ganhou a guerra.

Obs: Nada a ver com Churchill ou de Gaulle, só um aviso para quem usa o WordPress: a nova versão do Firefox 3 não parece se dar bem com as ferramentas de texto do blog.

Atualização: dia 20/06, o Firefox 3 e o WordPress parecem ter se entendido.

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