Flughafen Tempelhof

Em tempos de apagão aéreo, overbooking e filas intermináveis é difícil imaginar que voar já foi um sinal de status e um sinônimo de luxo. Um ícone dessa era, e um epaço que poderia resumir boa parte da história do século 20, o aeroporto de Tempelhof, em Berlin, teve seu destino selado. Na contramão do Brasil, que insiste e até promove aeroportos como o sobrecarregado Congonhas, mas também beneficiado por uma malha ferroviária das mais eficientes, as autoridades de Berlin decidiram fechar o histórico aeroporto da cidade, que se tornou pouco prático para atender aeronaves cada vez maiores e ficou ilhado no meio da expansão urbana. Nos últimos meses um grupo de cidadãos contra o fechamento se organizou e pediu um plebiscito, mas a apatia dos eleitores (eram necessários 25% dos votos), que não se incomodaram em sair de casa, não conseguiu mudar a decisão. Tempelhof fecha em outubro.

É uma decisão triste, mas talvez necessária. Nos tempos do Muro, Berlin era servida por quatro aeroportos – tudo em duplicata por causa da divisão da cidade. Com Tempelhof também se aposenta o aeroporto de Tegel, construído pelos americanos – o aeroporto em que meu avô levou meu pai para assistir à interminável fila de C-47s que traziam comida para a cidade durante o Bloqueio de Berlin, em 1948; um belo espetáculo para uma criança de sete anos. Tegel fecha em 2011. Todos os vôos vão ser concentrados em Berlin-Schönefeld, o aeroporto que servia a antiga parte oriental da cidade, bem afastado do centro. A expansão de Schönefeld está sendo vista com entusiasmo, já que o aeroporto vai criar 40 mil empregos numa área onde a taxa de desemprego é bastante alta. A estimativa é que a partir de 2011 aeroporto vai atender 25 milhões de passageiros por ano.

Um prédio na história

Mais que um aeroporto, Tempelhof é como um museu, mas não no sentido de repositório de objetos: cada parede e metro da pista contam uma história diferente. O exemplo mais próximo seria o carioca Santos-Dumont, ainda que mais pela beleza do que significado histórico. Seu edifício principal é enorme: é listado como o 18° maior prédio do mundo, sua fachada tem 1.230 metros de comprimento. Uma construção imponente em art déco, erguida entre os anos de 1936 e 1941 por Ernst Sagebiel, que pretendia impressionar os visitantes e transformar o aeroporto em símbolo daquela que se acreditava ser a nova capital de uma Europa dominada pelos nazistas. Sagebiel também é autor da antiga sede da Luftwaffe nazista na cidade, prédio atualmente ocupado pelo Ministério das Finanças.

Sonhos delirantes. O edifício foi bastante castigado durante os bombardeios da Segunda Guerra, várias partes do aeroporto também nunca foram completadas, e posteriormente ele acabou sofrendo várias alterações feitas pelos americanos, que assumiram o local depois da divisão da cidade. O imponente hall de entrada teve sua altura de três andares reduzida e foi instalada um base militar da USAF no local. Nos anos da Guerra Fria, Tempelhof foi um aeroporto misto, recebendo aeronaves militares e vôos comerciais. Na década de 70, com os aviões ficando cada vez maiores, grandes companhias como a Pan Am e a British Airways transferiram suas atividades para Tegel. Com o fim da Guerra Fria, em 1994 a USAF entregou suas instalações para o governo alemão. Com cada vez menos vôos (ano passado o aeroporto só atendeu 350 mil passageiros), Tempelhof foi definhando.

Mas a história de Tempelhof não começa com os nazistas e seus sonhos de grandeza. Tempelhof, como o nome diz, era um local pertencente à Ordem dos Cavaleiros Templários. Embora não tenha sido usado militarmente na Segunda Guerra, por séculos o campo de Tempelhof foi associado com essas atividades. Era lá que os soldados do exército prussiano faziam exercícios militares e, durante o II Reich, era comum ver o kaiser assistindo demonstrações no local.

Os vôos começam em 1909, com o francês Armand Zipfel, seguido justamente por um dos pais da aviação, Orville Wright, que conseguiu voar por um minuto num vôo de demonstração. Em 1926, foi construído o primeiro terminal, que logo abrigou a Lufthansa. Aviões ofereciam vôos para a Suíça. Zeppelins, invenção sempre identificada com os alemães, passaram a usar o aeroporto. Os nazistas derrubaram o velho terminal, e o atual aeroporto é um dos poucos exemplos do que sobrou do seu regime.

Aquele que já foi um dos aeroportos mais movimentados do mundo, Tempelhof também foi cenário de vários filmes. Em “Indiana Jones e a Última Cruzada”, o personagem de Harrison Ford embarcava escondido num zeppelin que decolava (esse termo se aplica aos zeppelins?) do aeroporto. O terminal principal também pode ser visto em “One, Two, Three” (“Cupido não tem bandeira”, no Brasil), de Billy Wilder, e “A Supremacia Bourne”.

O destino de Tempelhof ainda é incerto. A construção é tombada pelo Patrimônio Histórico da cidade, mudanças drásticas não podem ser feitas. Algumas companhias cinematográficas alemãs mostraram interesse em transformar o local em um estúdio. O Museu Aliado da cidade também já manifestou que pretende assumir Tempelhof. A única certeza é que a era da aviação na”mãe de todos os aeroportos” – como classificou o arquiteto Normam Foster – terminou.

Obs: na terça-feira (27 de maio) foi celebrado os 60 anos da Ponte Aérea de Berlin na abertura do Festival Aéreo da cidade. Vários veteranos americanos participaram, incluindo Gail Halverson, o piloto que jogou chocolates do seu C-47 para as crianças berlinenses. A cerimônia principal foi realizada, ironicamente – ou com um mau gosto não intencional-, em Schönefeld.

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