A terra prometida dos biarticulados

Um amarelinho para ilustrar

Photo by Mathieu Struck
Licensed under CC-BY-NC-ND

Foi pura reciclagem da velha propaganda lernista a reportagem especial sobre o transporte urbano que foi ao ar pelo Jornal Nacional no dia 15/05. Parecia que a televisão estava sintonizada em algum dia de 1988-2002. Só faltou a Família Folha. O sistema de transporte coletivo de Curitiba foi mostrado como um exemplo de eficiência. Não bastasse essa sandice, um urbanista afirmou que “São Paulo precisa imitar Curitiba”. Ignorando por completo que agora se estuda construir um metrô para Curitiba. Também ignora, apesar de terem achado uma personagem que vendeu o carro porque prefere ônibus (!), que Curitiba caminha rapidamente para a equação “um carro = um habitante”, e que o trânsito por aqui está cada vez pior.

Curitiba não é São Paulo, mas o que se viu na reportagem foi que a propaganda lernista tem o efeito de um sinal de rádio no vácuo espacial, ainda vai durar décadas. O sistema de Curitiba (e que aqui falo da espinha dorsal, os biarticulados) é sem dúvida original, como nossa aranha marrom, mas não em eficiência. É original porque não se pode levar a sério – e fora de Curitiba, ninguém nunca levou, visto que nenhuma outra cidade do mesmo porte resolveu deixar o grosso de sua população ser transportado num sistema tão estúpido. Os ônibus são lentos, barulhentos, seu combustível está sempre sujeito à variação do preço do barril (e seria tão fácil eletrificar os corredores, fazer trólebus, e como bônus eliminar o barulho), lotam rapidamente e o intervalo entre cada um nunca é fixo. E o que dizer das estações-tubo? São pequenas demais, o projeto de somente uma porta de embarque teve como conseqüência passageiros lutando uns contra os outros para poder passar – nos terminais, com as cinco portas sendo utilizadas, não é melhor, já que o embarque e desembarque são feitos pelas mesmas portas -, são frias no inverno e se transformam em fornos no verão. Mas o problema essencial é a superlotação. Rosa Parks, se fosse daqui, nunca ia conseguir ir para a frente do ônibus.

Na reportagem, os tenebrosos corredores de ônibus, com destaque para o da Sete de Setembro, avenida que pela ausência de árvores e excesso de feiúra parece ter sofrido um raide de mil B-29s, aparecem como uma solução. Até mesmo a estação-tubo da Eufrásio Correia, estreita como o Chile, um espaço onde é impossível se deslocar com rapidez e conforto para fazer uma baldeação, o melhor exemplo de como o sistema de biarticulados é totalmente equivocado, foi descrita como fazendo parte de “estações que permitem acesso rápido sem escadas”. Só isso.

Sobrou propaganda e faltou conferir o transporte nos horários-chave. Não sei ao certo qual foi o dia e horário da captura das imagens, mas, sem dúvida, não foi numa hora das mais movimentadas. Sobrava espaço até mesmo nos ônibus, e não havia muito trânsito nas ruas.

O pior mesmo ficou para o final, quando a reportagem fez uso novamente da personagem, a mulher que “reconhece o valor de morar numa cidade planejada para o transporte coletivo”, para concluir a história. Ela disse que ia pensando na vida quando pegava o ônibus. Na hora do rush, espremido como uma sardinha, eu também penso na vida. Em como ela pode ser uma merda.

Link para a reportagem.

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5 Respostas to “A terra prometida dos biarticulados”

  1. Breno Says:

    Melhor frase. “Rosa Parks, se fosse daqui, nunca ia conseguir ir para a frente do ônibus.”

  2. Norman Says:

    Reportagem lamentável mesmo. Confirmando o que vc disse, vou dar meu depoimento. Quando quero pegar o Pinheirinho às 6 da tarde, às vezes o tubo já está lotado de gente esperando o Santa Cândida e tenho que ficar na fila enquanto um Pinheironho passa quase vazio e ninguém entra. Quando já estou dentro costumo ter que empurrar gordas imbecis que ficam paradas na porta barrando a entrada porque querem ser as primeiras a entrar no Santa.Outra coisa: às vezes sobra um monte de espaço no fundo do tubo e as pessoas ficam esperando na fila em dias de chuva porque aquele espaço é inútil.

    Ah, sim, escutar Mendelsohn no ônibus depois de tudo isso só torna as coisas piores!

  3. Nikola Says:

    A verdadeira revolução do tubo é que em vez de ficar apertado apenas no ônibus, você também pode ficar esprimido no ponto de ônibus.
    Enquanto isso, no resto do mundo os ônibus perderam os degraus e tornaram-se planos, assim como os bondes, sendo que calefação e ar condicionado são praxe.

    Crotram TMK 2200

    Bonde de Zagreb, cidade com .quase 1 milhão de habitantes e orçamento equivalente ao curitibano.

  4. luan Says:

    isso foi só para depois de alguns dias o josé serra anunciar que não construirá mais um metrô ligado a zona leste de sp a zona norte,argumentando que o bus é melhor…O FIM DA PICADA!

  5. uohaa Says:

    Meu amigo prefiro ficar dentro de um BUS que ficar dentro de um carro neste calor que esta aqui em Nova York com a gasolina deste preco, e nem penso em ligar o ar! A viad e sempre mais dificil para nos que para os outros!
    uoha. com te espera dia 1 de agosto

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