Get Carter

“Ele foi o maior monstro da história!”, gritou um sujeito quando era revelado que a estátua de Lincoln tinha sido trocada por uma mais barata, representando Jimmy Carter. Logo depois, como era normal num episódio de “Os Simpsons”, a multidão enfurecida começou a saquear a cidade, usando a estátua como aríete.

“Maior monstro” era uma boa piada. Os republicanos adoram fazer troça de sua curta administração, e não é raro na FOX News algum comentarista se referir àqueles “anos catastróficos”. Um exagero. Jimmy foi presidente de um mandato só, ainda na ressaca de Watergate e Vietnã, quando os EUA tinham perdido muita influência. Mesmo a política externa, citada invariavelmente como um fracasso, teve seus pontos positivos. O acordo de paz entre Israel e Egito, que dura até hoje, pode ser creditado em parte à sua administração. Também foi Carter que estabeleceu algum tipo de contato com Cuba, ao abrir um escritório de interesses americanos (uma espécie de embaixada informal). Trocou a realpolitik que manchou a imagem dos EUA e sustentou uma longa lista de governos autoritários e assassinos – porém leais, “our son of a bitch” – por uma política de respeito aos direitos humanos. Mas é só.

Ao ler sobre seu encontro com a liderança do Hamas no Cairo, alguma coisa com “maior da história” me vem à cabeça. Maior estúpido é excessivo. Maior ingênuo em política externa talvez.

Vale lembrar que foi sua administração que assistiu impassível a Revolução Iraniana, a invasão do Afeganistão e o genocídio no Camboja.

Carter não é um mau sujeito. Não é como o ex-ministro da justiça de Lyndon Johnson, Ramsey Clark, que abraça ditadores e nazistas com prazer. Ele quebrou com uma tradição não-oficial de que ex-presidentes não se metem mais com política (Sarney… por que você não seguiu o exemplo?), mas fez coisas realmente louváveis. O trabalho de sua fundação em combater doenças na Indonésia é apenas um exemplo. Ele também ganhou o prêmio Nobel da Paz.

Mas o que aconteceu então?

Não é a primeira vez que Carter se reúne, na condição de ex-presidente, com pessoas pouco recomendáveis, daquelas que fizeram o século 20 ser considerado um desastre total. Já havia se reunido com Castro, Chavéz e Kim Il Sung. O falecido ditador norte-coreano (na estapafúrdia “constituição” do país, oficialmente ele ainda é o presidente), aliás, pregou a primeira das peças que se tornariam típicas no atual trabalho de Carter. Foi em 1994, quando a Coréia do Norte estava enriquecendo urânio, pra variar. Carter foi até o país e conseguiu um acordo. Foi elogiado, mas em 2005 a Coréia do Norte mudou de idéia (ou talvez nunca tenha mudado) e rasgou o acordo. Pode-se afirmar que Carter foi bem-intencionado e que a solução é persistir nessa política de “carrots” – ele se virou para a realpolitik depois de sair da presidência! Mas Carter não é um cidadão comum, se vale da sua condição de ex-presidente para que as portas se abram. E os ditadores se aproveitam disso. Se aquele batista do “New South” aparece com Chavéz, alguns podem pensar que o bufão de uniforme não é mau sujeito. Carter se tornou um embaraço para o departamento de Estado americano, e todas as suas “missões” são sempre acompanhadas de uma aviso de que não representam a visão do governo. Pode-se aceitar (e não obrigatoriamente concordar) com suas opiniões sobre o governo Bush, mas para que serve seu trabalho de diplomata “freelance”? Ele se reuniu com Castro em 2002. Nada disso colaborou para que o ditador abrandasse a mão de ferro sobre a ilha. Só com o afastamento de Castro em 2008 as coisas parecem estar evoluindo – embora timidamente – no país. Carter pretende se reunir com gente da pior espécie agora.

Seus encontros com Castro (eles também conversaram no Canadá) podem ter sido lamentáveis, mas o ditador não é um suicida ou um terrorista explícito. Carter já havia anunciado em 2007 que pretendia intermediar um acordo com o ETA e o governo espanhol. Com o Hamas é diferente. Não há busca pela independência ou coisa do gênero, o objetivo do grupo que controla a Faixa de Gaza é tão somente com a destruição de Israel e a instauração de um regime islâmico. Que tipo de diálogo ele espera ter? Adicione que Carter é uma persona non grata em Israel, por causa de suas opiniões absurdas que comparam a situação dos palestinos com o apartheid sul-africano e culminaram na publicação do livro “Palestine Peace Not Apartheid”. E o Hamas é considerado grupo terrorista tanto pelos EUA quanto pela UE.

É tudo inútil e vergonhoso para a biografia do ex-presidente. Será que um aperto de mão com Mugabe é o próximo passo?

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