“If you can’t stand the heat, get out of the kitchen”

Ramsay: “The French are so difficult. And they really do have bad breath. It’s disgusting. I had a French girlfriend. It was like going to bed with a rottweiler on your chest“.

Programas culinários são tão velhos quanto a televisão. Desde que “I Love to Eat”, considerado o primeiro programa do gênero, foi ao na NBC em 1946, incontáveis chefs comandaram atrações que não fugiam do velho esquema “um fogão e uma câmera”. Foi nesse formato que a franco-americana Julia Child e o alemão Clemens Wilmenrod se tornaram figuras familiares e ajudaram a tornar menos insossas as refeições em casa. Programas culinários sempre foram uma atração com produção barata, e muitos deles preenchiam horários considerados “mortos”, com a audiência restrita a donas-de-casa e desocupados.

Foi só décadas depois de “I love to Eat” que os chefs começaram a sair do estúdio e passaram a mostrar como escolher ingredientes no mercado local. Hoje, a velha senhora ou senhor deu lugar para gente mais jovem e espirituosa, e os programas culinários (seria até melhor chamá-los de gastronômicos) são comandados por chefs que viajam o mundo inteiro em busca de receitas e ingredientes e ensinam a preparar comidas pouco ortodoxas. O tal prato especial servido para a família em uma data especial foi substituído por refeições que são uma verdadeira experiência e incluem vinhos e condimentos raros. Algumas coisas permanecem intocadas. Um francês e uma panela ainda continuam sendo considerados sinal de sabedoria culinária – caso do simpático Claude Troisgros que apresenta um programa do GNT.

Um outro programa que à primeira vista pode ser considerado culinário vai além do prepraro de pratos. Comandado pelo desbocado escocês Gordon Ramsay, “Ramsay Kitchen Nightmares” propõe mostrar o que pode dar errado na cozinha de um restaurante e como a má administração leva ao afundamento do negócio. O formato é simples, o que só evidencia que não é preciso de pirotecnias exageradas para se produzir algo decente: Ramsay, um experiente e rico chef de cozinha, visita restaurantes que estão à beira de naufragar. No processo, ele mostra cozinheiros preguiçosos e sujos, outros que são arrogantes e incompetentes, donos que insistem no auto-engano e não sabem comandar seus funcionários. Depois aponta quais são os caminhos para sair do buraco, mas não antes de entrar em conflito com equipes agressivas e donos cabeça dura. O apresentador Gordon Ramsay por si só já é uma atração à parte: dificilmente deve ter existido um chef mais grosseiro e autoconfiante.

Há muita coisa de auto-ajuda e vários elementos podem ser vistos como lições bocós de administração pessoal, mas o aspecto documental da coisa, especialmente porque são problemas e pessoas reais, o dissociam da maioria dos deprimentes “reality shows”.

Ainda quero ver um programa que mostre a redação de um jornal decadente.

Obs: por falar em reality shows, Ramsay Kitchen Nightmares foi produzido pelo Channel 4 inglês. Digo “produzido” porque no final de 2007 o programa atravessou o Atlântico e passou a ser da FOX – a rede americana já produzia uma das séries de Ramsay, “Hell´s Kitchen”, um realitty show em que aspirantes a chef ralam e tentam sobreviver a Ramsay num restaurante de Los Angeles. O nome mudou para somente “Kitchen Nightmares”. Infelizmente, com essa transação, o ódio generalizado à cultura americana poderia fazer um pouco de sentido. O GNT ainda transmite os últimos episódios produzidos pelo Channel 4 (e que nos EUA iam ao ar pela BBC America), mas estão disponíveis no Youtube trechos da temporada americana. Se havia algo documental na série inglesa, tudo foi perdido numa edição mais apropriada ao programa “Cops”, com um narrador que ajuda a espremer até a última gota o conflito que não mais surge normalmente, mas é provocado artificialmente. Bate-bocas foram substituídos por violência física. Sugestões de reforma no espaço ganharam a estrutura de um “Extreme Makeover”, e cada bloco ganha uma retrospectiva do que aconteceu poucos minutos antes, como se o telespectador tivesse a memória de um peixe dourado. Pior ainda, a versão americana vem sendo acusada de inventar situações e falsificar os personagens. Parece até que o filme “Network” ganhou vida.

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