“The play was a great success, but the audience was a disaster”

Público recorde de 160 mil. Média de ocupação de 80% nos espaços. Os velhos problemas de sempre: peças canceladas, teatros inadequados, atrasos. Alguém não gostou do palavreado numa apresentação de rua e sacou uma arma (Hermann Göring teria gostado). Panelaço de 150 artistas pedindo mais apoio do governo (sua grana).

Acabou o 17° Festival de Teatro de Curitiba, ou Festival de Curitiba de agora em diante.

Alguns comentários de três peças que assisti. Alguns trechos dão a entender que as peças ainda estão em cartaz, ignorem isso.
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Aqueles Dois

20/03

A peça baseada no conto de Caio Fernando Abreu foi um dos destaques do festival. É difícil entender por quê. Um dos problemas da montagem do grupo mineiro Cia. Luna Lunera é o excesso de objetos e cenários no palco, não só por ser um espetáculo encenado no Teatro Paiol, uma sala apropriada para apresentações mais espartanas, mas porque revelavam logo de cara uma afetação e confusão que caracterizou quase todo a montagem. São caixas de madeira, cadeiras, aparelhos de som, várias máquinas de escrever e telefones num espaço pequeno demais. Vários conversas de trabalho dos personagens soam falsas (A CLT! A CLT!) e não muito elaboradas – os mineiros do Grupo Galpão foram mais competentes em adaptar histórias que careciam de diálogos em “Pequenos Milagres”. Referências a atores, filmes e cantores (River Phoenix, Sessão da Tarde), a maioria delas não presentes no conto, parecem fora de lugar. E Cazuza como trilha sonora é óbvio demais.

Embora o recurso de “duplicar” os dois personagens do conto, que na peça são interpretados por quatro atores (Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves e Rômulo Braga), algo que lembra o filme “Doze Homens e uma Sentença”, seja original e deixe o espetáculo mais dinâmico, assim como os papéis serem trocados a todo momento, com os quatro interpretando tanto Saul e Raul, os dois personagens, a impressão inicial, agravada por um primeiro ato cansativo que pretendia mostrar a rotina de escritório, é de incompreensão. E não é uma incompreensão que provoque curiosidade, mas desatenção e sensação de se estar assistindo uma bomba e que os seus trinta reais mereciam um destino melhor naquele domingo à noite.

Mas nem tudo é ruim na montagem. Depois de uma primeira meia hora confusa, o espetáculo consegue se recuperar e gerar interesse. É quando Raul e Saul, dois funcionários de um escritório se aproximam e descobrem gostos em comum. O escritor e jornalista gaúcho Caio Fernando Abreu (1949-1996) abordou o homossexualismo, e a intolerância que cerca o assunto, em vários de seus contos. “Aqueles Dois”, apesar do final pessimista, não pode ser reduzido simplesmente a uma ferramenta de militância. A montagem também consegue escapar com êxito dessas armadilhas e, por mais que seja provável que algumas pessoas tenham ido assisti-la “querendo sangue”, nenhuma agenda é seguida. A nudez explícita dos atores em uma determinada cena não é ofensiva ou transgressora, mas um recurso necessário (com exceção de uma “quebra” que acontece nessa cena, em que os atores agradecem ao público e elogiam o espaço, algo mais apropriado para o final da peça). A solidão, o amor e o medo abordados na montagem são temas universais.
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O Homem Inesperado

23/03

Antes uma observação: o Festival de Curitiba consegue reunir um público que cresce a cada edição, mas parte dele ainda não aprendeu a se comportar numa sala. Era previsível que uma peça que contava com dois atores globais fosse atrair pessoas que querem ver as estrelas de perto, mas nem por isso foi menos incômodo ter que agüentar máquinas fotográficas disparando flashes mesmo quando o espetáculo já havia começado. Aliás, o que essas pessoas pretendem registrar fotografando com flashes do balcão do Teatro Guaíra? Nucas?

A peça: dois passageiros num trem que vai de Paris a Frankfurt, um escritor e uma senhora que é sua fã, dividem o mesmo vagão enquanto divagam sobre o passado e imaginam as possibilidades que esse encontro pode gerar. O texto é da francesa Yasmina Reza e já foi encenado em outros países. Misto de comédia e drama, “O Homem Inesperado” trata sobretudo dos ardis que as pessoas criam para não se aproximarem umas das outras. Um problema que não diminui com a idade.

– Vocês aí com as máquinas, façamos uma troca. Vocês podem disparar seus flashes se eu puder jogar uns tomates na pessoa que escreveu essa porcaria.

Tomates? Ora, o texto é sofrível, antiquado e parece um pastiche de alguma obra de W. Somerset Maugham ou Stefan Zweig (o personagem do escritor até mesmo faz uma comparação da situação com uma obra de Zweig, mas os leitores do popular autor da primeira metade so século 20 não vão deixar de notar que isso faz a peça parecer ainda mais fraca). É o tipo de montagem que nunca ganharia destaque e que faria o público passar longe se não contasse com dois velhos atores de peso. E os dois atores de peso, mesmo com sua competência, não poderiam evitar transparecer que seus papéis foram mal elaborados e a coisa toda não tem nenhum conteúdo. A tal senhora fala de Brahms, de seus amigos e de restaurantes, acende um cigarro e parece sofisticada. O escritor é um velho resmungão e pretende parecer cômico como um senhor que fala palavrões. Os dois pensam em voz alta e só travam um diálogo lá pelo final da peça. Tudo parece um misto de especial para TV com um horrível romance em paperback de alguma autora esquecida da década de 60 (seria para ler na piscina de clube?). O que mais? Hum… Onde consigo aqueles tomates?

O.k., um pouco de justiça: talvez o maior equívoco tenha sido um texto que privilegia monólogos interiores ter ganhado uma montagem. A impressão é que o texto, mesmo com seus defeitos, deve fluir melhor se lido.

O casal Nicette Bruno e Paulo Goulart, com o carisma e competência que só vai se acentuando com a idade, carregam a peça nas costas (a montagem americana tinha os veteranos Alan Bates e Eileen Atkins). Mas Nicette e Paulo, que já moraram em Curitiba por muitos anos e deram aulas de interpretação no Guaíra, mereciam atuar em coisa melhor.

A peça ainda conta com recursos cênicos simples mas bastante eficientes para passar a sensação de distância emocional que afasta os personagens. Também ambienta de maneira competente a viagem que vai se desenrolando – embora, infelizmente, lembre, entre uma parada e outra, que o trem ainda está em Strasburgo e faltam 200 km para a peça acabar.

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Macho Não Ganha Flor

26/03

Com dedo do próprio Dalton Trevisan que selecionou alguns contos de sua última obra, “Macho Não Ganha Flor” é uma montagem sóbria e bastante eficiente que dá vida aos personagens marginais do escritor curitibano. Os monólogos não são nem um pouco cansativos, sendo que a obra é de Trevisan é ideal para ser encenada nos palcos. Logo no começo, uma surpresa: o ator paranaense Marino Jr., bastante inspirado, solta uma série de impropérios contra a obra de Trevisan. Em seguida, ele interpreta a galeria que inclui estupradores, assassinos, ladrões e outros monstros não muito recomendáveis.

A montagem é do grupo Cia. Máscaras de Teatro, que já havia encenado “O Vampiro Contra Curitiba”, também de Trevisan. A direção é de João Luiz Fiani.

Sobre Fiani, não o diretor e ator, mas o teatro, uma observação: o espaço onde foi encenado “Macho Não Ganha Flor” revelou mais algumas das precariedades do festival que já se tornaram comuns. Extremamente abafado e apertado, com cadeiras de escritório para garantir mais lugares, o Teatro João Luiz Fiani é uma vergonha para a cena teatral curitibana. Chamar essa despensa de “sala intimista” é um eufemismo e tanto.

“Macho Não Ganha Flor” só mereceria elogios não fosse por uma besteira dita por Marino Jr. quando o espetáculo acabou. Depois de receber os aplausos, ele, numa coisa previsível e até necessária para uma peça local, pediu para que o público comentasse e divulgasse o espetáculo, mas resolveu dizer “até mesmo porque a gente faz a peça para os críticos e eles não vêm”. Uma observação bastante estúpida e ofensiva para o público que pagou e apreciou a peça.

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5 Respostas to ““The play was a great success, but the audience was a disaster””

  1. Iris Says:

    Apenas respondendo o recado deixado no Blá blá blá…

    Que eu bem me lembre não fui eu que fui barrada na entrada do show.

  2. Iris Says:

    Jean,

    Muito bom o apontamento sobre a peça de Marino Jr. É uma pena que os diretores, escritores e atores pensem e digam para o público (otário) que assistiu a peça que ela foi feita para o críticos (que na sua esperteza não foram vê-la).
    Me parece lógico que com tantas peças ao mesmo tempo muitas passariam despecebidas durante o festival.

    Só uma dúvida: o teatro tem a ver com o diretor? O nome não seria João Luiz Fiani?

  3. Jean-Philip Albert Struck Says:

    Iris, o teatro tem a ver com o diretor. Ah, e obrigado por observar a grafia do nome, acho que cometi um ato falho ou uma distração besta. Bj.

  4. MARINO JR Says:

    Jean,

    Ao fazer uma pesquisa sobre meu espetáculo que retorna ao Festival de Teatro deste ano, depois de passar pelo Rio e São Paulo, deparei-me (quase um ano depois) com seus comentários aqui colocados.

    Primeiramente gostaria de agradecer pela opinião à respeito do trabalho.

    Todavia gostaria de esclarecer os fatos acima escritos. Quando fiz o comentário me referia aos horários em que estava me apresentando. Ou seja durante o Festival nos empenhamos para realizar o espetáculo em horários alternativos, por vezes à pedido do próprio festival, para que os críticos possam assistir aos espetáculos em horários diferentes da Mostra Contemporânea. Isso gera inclusive custos de teatro, luz, som, pessoal etc.

    Quando fiz a “observação estúpida”, foi no sentido de dividir com o público presente a minha indignação para com a imprensa, pois esta, limita-se à assistir espetáculos do Fringe já consagrados fora de Curitiba. Não cobrem o festival de forma imparcial e democrática. Este foi o motivo de minha observação.

    Jean, eu não sou “estúpido” e por isso não faço teatro para crítico, faço para o todo o tipo de público que como você, paga ingresso. Se estivesse fazendo o espetáculo em horários “normais” certamente teria tido mais público e todos sairiam mais contentes. Apenas isso…

    Mais uma coisa, meu público não é otário como foi dito pela Iris. São pessoas que acompanham minha carreira há mais de 10 anos e certamente foram inteligentes o suficiente para entender meu comentário.

    Com relação ao teatro, gostaria de dizer que ele pertence e é administrado pelo Shopping Novo Batel. Assim encaminhei pessoalmente seus comentários ao Dr. Luis Celso Branco proprietário da “despensa” para que ele tome as providências que julgar cabíveis.

    abraço

  5. Jean-Philip Albert Struck Says:

    Olá Marino,

    Obrigado pela visita.

    Já faz quase um ano que escrevi sobre sua peça, mas seu comentário foi bastante esclarecedor. Ficará aqui para quem quiser consultar.

    E boa sorte – ou melhor, “break a leg” – com as peças do próximo festival.

    Abraço

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