Archive for abril \29\UTC 2008

Hitchens

terça-feira, abril 29, 2008

Perfil interessante de Christopher Hitchens na versão online da revista inglesa Prospect. Muita lenga-lenga sobre 1968, mas vale a leitura.

He go up diddley up-up, he go down diddley down-down!

quarta-feira, abril 23, 2008

or how I disappear from Paranaguá to the Atlantic in 25 hours 11 minutes

Vôo solo de Aderli de Carli, o padre dos balões.

Obs: Aderli não foi a primeira pessoa que realizou um vôo com balões de hélio. O americano Larry Walters não era padre, mas estava frustrado por não ter se tornado piloto. Em 1982 ele realizou um vôo parecido, com balões adquiridos numa loja de sobras do exército. Acabou preso e pagou uma multa de 4.000 dólares por violação do Código de Aviação Civil americano. Ele também ganhou uma “menção honrosa” no Darwin Awards, que premia as mortes mais estúpidas do mundo (ou “The Awards honour people who ensure the long-term survival of the human race by removing themselves from the gene pool in a sublimely idiotic fashion”; casos que mereceram o prêmio incluem um americano que jogou roleta russa com uma arma automática e um brasileiro querendo se certificar que um tanque de gasolina estava vazio iluminando o interior com um isqueiro).

Get Carter

sexta-feira, abril 18, 2008

“Ele foi o maior monstro da história!”, gritou um sujeito quando era revelado que a estátua de Lincoln tinha sido trocada por uma mais barata, representando Jimmy Carter. Logo depois, como era normal num episódio de “Os Simpsons”, a multidão enfurecida começou a saquear a cidade, usando a estátua como aríete.

“Maior monstro” era uma boa piada. Os republicanos adoram fazer troça de sua curta administração, e não é raro na FOX News algum comentarista se referir àqueles “anos catastróficos”. Um exagero. Jimmy foi presidente de um mandato só, ainda na ressaca de Watergate e Vietnã, quando os EUA tinham perdido muita influência. Mesmo a política externa, citada invariavelmente como um fracasso, teve seus pontos positivos. O acordo de paz entre Israel e Egito, que dura até hoje, pode ser creditado em parte à sua administração. Também foi Carter que estabeleceu algum tipo de contato com Cuba, ao abrir um escritório de interesses americanos (uma espécie de embaixada informal). Trocou a realpolitik que manchou a imagem dos EUA e sustentou uma longa lista de governos autoritários e assassinos – porém leais, “our son of a bitch” – por uma política de respeito aos direitos humanos. Mas é só.

Ao ler sobre seu encontro com a liderança do Hamas no Cairo, alguma coisa com “maior da história” me vem à cabeça. Maior estúpido é excessivo. Maior ingênuo em política externa talvez.

Vale lembrar que foi sua administração que assistiu impassível a Revolução Iraniana, a invasão do Afeganistão e o genocídio no Camboja.

Carter não é um mau sujeito. Não é como o ex-ministro da justiça de Lyndon Johnson, Ramsey Clark, que abraça ditadores e nazistas com prazer. Ele quebrou com uma tradição não-oficial de que ex-presidentes não se metem mais com política (Sarney… por que você não seguiu o exemplo?), mas fez coisas realmente louváveis. O trabalho de sua fundação em combater doenças na Indonésia é apenas um exemplo. Ele também ganhou o prêmio Nobel da Paz.

Mas o que aconteceu então?

Não é a primeira vez que Carter se reúne, na condição de ex-presidente, com pessoas pouco recomendáveis, daquelas que fizeram o século 20 ser considerado um desastre total. Já havia se reunido com Castro, Chavéz e Kim Il Sung. O falecido ditador norte-coreano (na estapafúrdia “constituição” do país, oficialmente ele ainda é o presidente), aliás, pregou a primeira das peças que se tornariam típicas no atual trabalho de Carter. Foi em 1994, quando a Coréia do Norte estava enriquecendo urânio, pra variar. Carter foi até o país e conseguiu um acordo. Foi elogiado, mas em 2005 a Coréia do Norte mudou de idéia (ou talvez nunca tenha mudado) e rasgou o acordo. Pode-se afirmar que Carter foi bem-intencionado e que a solução é persistir nessa política de “carrots” – ele se virou para a realpolitik depois de sair da presidência! Mas Carter não é um cidadão comum, se vale da sua condição de ex-presidente para que as portas se abram. E os ditadores se aproveitam disso. Se aquele batista do “New South” aparece com Chavéz, alguns podem pensar que o bufão de uniforme não é mau sujeito. Carter se tornou um embaraço para o departamento de Estado americano, e todas as suas “missões” são sempre acompanhadas de uma aviso de que não representam a visão do governo. Pode-se aceitar (e não obrigatoriamente concordar) com suas opiniões sobre o governo Bush, mas para que serve seu trabalho de diplomata “freelance”? Ele se reuniu com Castro em 2002. Nada disso colaborou para que o ditador abrandasse a mão de ferro sobre a ilha. Só com o afastamento de Castro em 2008 as coisas parecem estar evoluindo – embora timidamente – no país. Carter pretende se reunir com gente da pior espécie agora.

Seus encontros com Castro (eles também conversaram no Canadá) podem ter sido lamentáveis, mas o ditador não é um suicida ou um terrorista explícito. Carter já havia anunciado em 2007 que pretendia intermediar um acordo com o ETA e o governo espanhol. Com o Hamas é diferente. Não há busca pela independência ou coisa do gênero, o objetivo do grupo que controla a Faixa de Gaza é tão somente com a destruição de Israel e a instauração de um regime islâmico. Que tipo de diálogo ele espera ter? Adicione que Carter é uma persona non grata em Israel, por causa de suas opiniões absurdas que comparam a situação dos palestinos com o apartheid sul-africano e culminaram na publicação do livro “Palestine Peace Not Apartheid”. E o Hamas é considerado grupo terrorista tanto pelos EUA quanto pela UE.

É tudo inútil e vergonhoso para a biografia do ex-presidente. Será que um aperto de mão com Mugabe é o próximo passo?

“If you can’t stand the heat, get out of the kitchen”

sexta-feira, abril 18, 2008

Ramsay: “The French are so difficult. And they really do have bad breath. It’s disgusting. I had a French girlfriend. It was like going to bed with a rottweiler on your chest“.

Programas culinários são tão velhos quanto a televisão. Desde que “I Love to Eat”, considerado o primeiro programa do gênero, foi ao na NBC em 1946, incontáveis chefs comandaram atrações que não fugiam do velho esquema “um fogão e uma câmera”. Foi nesse formato que a franco-americana Julia Child e o alemão Clemens Wilmenrod se tornaram figuras familiares e ajudaram a tornar menos insossas as refeições em casa. Programas culinários sempre foram uma atração com produção barata, e muitos deles preenchiam horários considerados “mortos”, com a audiência restrita a donas-de-casa e desocupados.

Foi só décadas depois de “I love to Eat” que os chefs começaram a sair do estúdio e passaram a mostrar como escolher ingredientes no mercado local. Hoje, a velha senhora ou senhor deu lugar para gente mais jovem e espirituosa, e os programas culinários (seria até melhor chamá-los de gastronômicos) são comandados por chefs que viajam o mundo inteiro em busca de receitas e ingredientes e ensinam a preparar comidas pouco ortodoxas. O tal prato especial servido para a família em uma data especial foi substituído por refeições que são uma verdadeira experiência e incluem vinhos e condimentos raros. Algumas coisas permanecem intocadas. Um francês e uma panela ainda continuam sendo considerados sinal de sabedoria culinária – caso do simpático Claude Troisgros que apresenta um programa do GNT.

Um outro programa que à primeira vista pode ser considerado culinário vai além do prepraro de pratos. Comandado pelo desbocado escocês Gordon Ramsay, “Ramsay Kitchen Nightmares” propõe mostrar o que pode dar errado na cozinha de um restaurante e como a má administração leva ao afundamento do negócio. O formato é simples, o que só evidencia que não é preciso de pirotecnias exageradas para se produzir algo decente: Ramsay, um experiente e rico chef de cozinha, visita restaurantes que estão à beira de naufragar. No processo, ele mostra cozinheiros preguiçosos e sujos, outros que são arrogantes e incompetentes, donos que insistem no auto-engano e não sabem comandar seus funcionários. Depois aponta quais são os caminhos para sair do buraco, mas não antes de entrar em conflito com equipes agressivas e donos cabeça dura. O apresentador Gordon Ramsay por si só já é uma atração à parte: dificilmente deve ter existido um chef mais grosseiro e autoconfiante.

Há muita coisa de auto-ajuda e vários elementos podem ser vistos como lições bocós de administração pessoal, mas o aspecto documental da coisa, especialmente porque são problemas e pessoas reais, o dissociam da maioria dos deprimentes “reality shows”.

Ainda quero ver um programa que mostre a redação de um jornal decadente.

Obs: por falar em reality shows, Ramsay Kitchen Nightmares foi produzido pelo Channel 4 inglês. Digo “produzido” porque no final de 2007 o programa atravessou o Atlântico e passou a ser da FOX – a rede americana já produzia uma das séries de Ramsay, “Hell´s Kitchen”, um realitty show em que aspirantes a chef ralam e tentam sobreviver a Ramsay num restaurante de Los Angeles. O nome mudou para somente “Kitchen Nightmares”. Infelizmente, com essa transação, o ódio generalizado à cultura americana poderia fazer um pouco de sentido. O GNT ainda transmite os últimos episódios produzidos pelo Channel 4 (e que nos EUA iam ao ar pela BBC America), mas estão disponíveis no Youtube trechos da temporada americana. Se havia algo documental na série inglesa, tudo foi perdido numa edição mais apropriada ao programa “Cops”, com um narrador que ajuda a espremer até a última gota o conflito que não mais surge normalmente, mas é provocado artificialmente. Bate-bocas foram substituídos por violência física. Sugestões de reforma no espaço ganharam a estrutura de um “Extreme Makeover”, e cada bloco ganha uma retrospectiva do que aconteceu poucos minutos antes, como se o telespectador tivesse a memória de um peixe dourado. Pior ainda, a versão americana vem sendo acusada de inventar situações e falsificar os personagens. Parece até que o filme “Network” ganhou vida.

“Tantas escolhas em um dia”

sexta-feira, abril 11, 2008

Uma farmácia da rede Drogamed, abril de 2008.

He finally really did it!

segunda-feira, abril 7, 2008


Morre o ator americano Charlton Heston

Pope Julius II: When will you make an end?
Michelangelo (Heston): When I am finished!

Bom e velho Charlton Heston. Não era o melhor dos atores, boa parte de sua carreira foi repleta de épicos que são puro lixo… e ainda assim ele era um dos melhores, um dos últimos.
Combateu romanos, japoneses, egípcios, chineses, franceses, vampiros, um papa, policiais corruptos, nazistas, fanáticos islâmicos, macacos e formigas saúvas – sempre como Heston. Era facilmente identificável com o ideal de herói. “If you need a ceiling painted, a chariot race run, a city besieged, or the Red Sea parted, you think of me.

Sempre foi engajado, e inicialmente seu papel foi fazer campanha pelos direitos civis e propagandear a “Grande Sociedade” de LBJ. Até que bandeou para o lado conservador que incluía John Wayne e seu amigo Ronald Reagan. Pela sua associação com a NRA, uma certeza de discursos lamentáveis, ficou marcado como direitão, e seu passado pelos direitos civis foi convenientemente esquecido. Foi presidente do sindicato dos atores mas preferiu se manter longe da política. “I’d rather play a senator than be one.” Nos últimos anos, o ator que tinha chorado na frente da Estátua da Liberdade arruinada de “O Planeta dos Macacos” tinha se tornado mais pessimista, lamentando o que os EUA estavam se tornando. Jean-Luc Godard dizia que odiava o John Wayne de “Os Boinas Verdes” (filme de propaganda sobre a Guerra do Vietnã), mas amava o que estendia o braço para sua sobrinha criada pelo índios de “Rastros de Ódio”. Seria estúpido não lembrar de Heston da mesma maneira.
No caso de atores como Heston, os obituários costumam citar os papéis e fatos relevantes da vida pública e pessoal, não tendo muito o que dizer sobre interpretação. Heston não fazia as macaquices afetadas de Marlon Brando, sendo que estava mais para Gregory Peck ou, quem sabe?, John Wayne. Seu carisma era suficiente. Sua beleza parece estranha para os padrões de hoje, mas seu aspecto forte era ideal para o que ele representava, sempre o tipo de homem determinado para quem a vontade é o que basta. Era contido, o que dava a seus momentos de fúria um destaque especial, sempre auxiliado por alguma frase genial – “Soylent Green is people!” e “Take your stinking paws off me, you damn dirty ape!” são coisas que não saem da cabeça facilmente. Fez mais bombas que a Krupp, mas interpretou papéis inesquecíveis – como imaginar outro sujeito na pele do Taylor de “O Planeta dos Macacos” ou Ben-Hur? Também trabalhou com diretores de primeira linha como William Wyler, Franklin J. Schaffner, Carol Reed e Orson Welles.

Tinha seu lado rídiculo, e vários de seus papéis são deliciosamente risíveis – o fazendeiro virgem que reluta em dormir com sua esposa encomendada pelo correio e lá pelo final é quase devorado por saúvas em “A Selva Nua” valeu um comentário de Paulo Francis de que “nossa vida seria infinitamente mais árida sem a chamada meca do cinema”.

Heston tinha 84 anos.

“The play was a great success, but the audience was a disaster”

terça-feira, abril 1, 2008

Público recorde de 160 mil. Média de ocupação de 80% nos espaços. Os velhos problemas de sempre: peças canceladas, teatros inadequados, atrasos. Alguém não gostou do palavreado numa apresentação de rua e sacou uma arma (Hermann Göring teria gostado). Panelaço de 150 artistas pedindo mais apoio do governo (sua grana).

Acabou o 17° Festival de Teatro de Curitiba, ou Festival de Curitiba de agora em diante.

Alguns comentários de três peças que assisti. Alguns trechos dão a entender que as peças ainda estão em cartaz, ignorem isso.
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Aqueles Dois

20/03

A peça baseada no conto de Caio Fernando Abreu foi um dos destaques do festival. É difícil entender por quê. Um dos problemas da montagem do grupo mineiro Cia. Luna Lunera é o excesso de objetos e cenários no palco, não só por ser um espetáculo encenado no Teatro Paiol, uma sala apropriada para apresentações mais espartanas, mas porque revelavam logo de cara uma afetação e confusão que caracterizou quase todo a montagem. São caixas de madeira, cadeiras, aparelhos de som, várias máquinas de escrever e telefones num espaço pequeno demais. Vários conversas de trabalho dos personagens soam falsas (A CLT! A CLT!) e não muito elaboradas – os mineiros do Grupo Galpão foram mais competentes em adaptar histórias que careciam de diálogos em “Pequenos Milagres”. Referências a atores, filmes e cantores (River Phoenix, Sessão da Tarde), a maioria delas não presentes no conto, parecem fora de lugar. E Cazuza como trilha sonora é óbvio demais.

Embora o recurso de “duplicar” os dois personagens do conto, que na peça são interpretados por quatro atores (Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves e Rômulo Braga), algo que lembra o filme “Doze Homens e uma Sentença”, seja original e deixe o espetáculo mais dinâmico, assim como os papéis serem trocados a todo momento, com os quatro interpretando tanto Saul e Raul, os dois personagens, a impressão inicial, agravada por um primeiro ato cansativo que pretendia mostrar a rotina de escritório, é de incompreensão. E não é uma incompreensão que provoque curiosidade, mas desatenção e sensação de se estar assistindo uma bomba e que os seus trinta reais mereciam um destino melhor naquele domingo à noite.

Mas nem tudo é ruim na montagem. Depois de uma primeira meia hora confusa, o espetáculo consegue se recuperar e gerar interesse. É quando Raul e Saul, dois funcionários de um escritório se aproximam e descobrem gostos em comum. O escritor e jornalista gaúcho Caio Fernando Abreu (1949-1996) abordou o homossexualismo, e a intolerância que cerca o assunto, em vários de seus contos. “Aqueles Dois”, apesar do final pessimista, não pode ser reduzido simplesmente a uma ferramenta de militância. A montagem também consegue escapar com êxito dessas armadilhas e, por mais que seja provável que algumas pessoas tenham ido assisti-la “querendo sangue”, nenhuma agenda é seguida. A nudez explícita dos atores em uma determinada cena não é ofensiva ou transgressora, mas um recurso necessário (com exceção de uma “quebra” que acontece nessa cena, em que os atores agradecem ao público e elogiam o espaço, algo mais apropriado para o final da peça). A solidão, o amor e o medo abordados na montagem são temas universais.
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O Homem Inesperado

23/03

Antes uma observação: o Festival de Curitiba consegue reunir um público que cresce a cada edição, mas parte dele ainda não aprendeu a se comportar numa sala. Era previsível que uma peça que contava com dois atores globais fosse atrair pessoas que querem ver as estrelas de perto, mas nem por isso foi menos incômodo ter que agüentar máquinas fotográficas disparando flashes mesmo quando o espetáculo já havia começado. Aliás, o que essas pessoas pretendem registrar fotografando com flashes do balcão do Teatro Guaíra? Nucas?

A peça: dois passageiros num trem que vai de Paris a Frankfurt, um escritor e uma senhora que é sua fã, dividem o mesmo vagão enquanto divagam sobre o passado e imaginam as possibilidades que esse encontro pode gerar. O texto é da francesa Yasmina Reza e já foi encenado em outros países. Misto de comédia e drama, “O Homem Inesperado” trata sobretudo dos ardis que as pessoas criam para não se aproximarem umas das outras. Um problema que não diminui com a idade.

– Vocês aí com as máquinas, façamos uma troca. Vocês podem disparar seus flashes se eu puder jogar uns tomates na pessoa que escreveu essa porcaria.

Tomates? Ora, o texto é sofrível, antiquado e parece um pastiche de alguma obra de W. Somerset Maugham ou Stefan Zweig (o personagem do escritor até mesmo faz uma comparação da situação com uma obra de Zweig, mas os leitores do popular autor da primeira metade so século 20 não vão deixar de notar que isso faz a peça parecer ainda mais fraca). É o tipo de montagem que nunca ganharia destaque e que faria o público passar longe se não contasse com dois velhos atores de peso. E os dois atores de peso, mesmo com sua competência, não poderiam evitar transparecer que seus papéis foram mal elaborados e a coisa toda não tem nenhum conteúdo. A tal senhora fala de Brahms, de seus amigos e de restaurantes, acende um cigarro e parece sofisticada. O escritor é um velho resmungão e pretende parecer cômico como um senhor que fala palavrões. Os dois pensam em voz alta e só travam um diálogo lá pelo final da peça. Tudo parece um misto de especial para TV com um horrível romance em paperback de alguma autora esquecida da década de 60 (seria para ler na piscina de clube?). O que mais? Hum… Onde consigo aqueles tomates?

O.k., um pouco de justiça: talvez o maior equívoco tenha sido um texto que privilegia monólogos interiores ter ganhado uma montagem. A impressão é que o texto, mesmo com seus defeitos, deve fluir melhor se lido.

O casal Nicette Bruno e Paulo Goulart, com o carisma e competência que só vai se acentuando com a idade, carregam a peça nas costas (a montagem americana tinha os veteranos Alan Bates e Eileen Atkins). Mas Nicette e Paulo, que já moraram em Curitiba por muitos anos e deram aulas de interpretação no Guaíra, mereciam atuar em coisa melhor.

A peça ainda conta com recursos cênicos simples mas bastante eficientes para passar a sensação de distância emocional que afasta os personagens. Também ambienta de maneira competente a viagem que vai se desenrolando – embora, infelizmente, lembre, entre uma parada e outra, que o trem ainda está em Strasburgo e faltam 200 km para a peça acabar.

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Macho Não Ganha Flor

26/03

Com dedo do próprio Dalton Trevisan que selecionou alguns contos de sua última obra, “Macho Não Ganha Flor” é uma montagem sóbria e bastante eficiente que dá vida aos personagens marginais do escritor curitibano. Os monólogos não são nem um pouco cansativos, sendo que a obra é de Trevisan é ideal para ser encenada nos palcos. Logo no começo, uma surpresa: o ator paranaense Marino Jr., bastante inspirado, solta uma série de impropérios contra a obra de Trevisan. Em seguida, ele interpreta a galeria que inclui estupradores, assassinos, ladrões e outros monstros não muito recomendáveis.

A montagem é do grupo Cia. Máscaras de Teatro, que já havia encenado “O Vampiro Contra Curitiba”, também de Trevisan. A direção é de João Luiz Fiani.

Sobre Fiani, não o diretor e ator, mas o teatro, uma observação: o espaço onde foi encenado “Macho Não Ganha Flor” revelou mais algumas das precariedades do festival que já se tornaram comuns. Extremamente abafado e apertado, com cadeiras de escritório para garantir mais lugares, o Teatro João Luiz Fiani é uma vergonha para a cena teatral curitibana. Chamar essa despensa de “sala intimista” é um eufemismo e tanto.

“Macho Não Ganha Flor” só mereceria elogios não fosse por uma besteira dita por Marino Jr. quando o espetáculo acabou. Depois de receber os aplausos, ele, numa coisa previsível e até necessária para uma peça local, pediu para que o público comentasse e divulgasse o espetáculo, mas resolveu dizer “até mesmo porque a gente faz a peça para os críticos e eles não vêm”. Uma observação bastante estúpida e ofensiva para o público que pagou e apreciou a peça.