Alguns livros

Os Hérois

Os leitores brasileiros de Paul Johnson não têm muita sorte. Todos os seus livros foram publicados de maneira descuidada por aqui: são caros demais, são feios, recebem traduções desleixadas e acabam sendo incluídos em coleções suspeitas como “Livro de Ouro”.

Com “Os Heróis” não foi diferente. A edição da Campus/Elsevier é uma porcaria. Já tinha desconfiado quando vi a capa: um amontoado de recortes mal feitos e linhas supérfluas, mais parecendo um livro didático de 8° série. Mas o conteúdo também recebeu um tratamento desleixado. Aspas que não fecham, nomes grafados incorretamente (Ralegh no lugar de Raleigh) e que ganham traduções aportuguesadas são alguns dos problemas. Melhor comprar a edição americana ou inglesa.

O livro? Não é com certeza o melhor trabalho de Paul Johnson, e está atrás do seu “Os Criadores”, e muito mais de “Os Intelectuais”, seus trabalhos anteriores no gênero de ensaios biográficos. Alguns textos de “Os Heróis” são bastante frustrantes, especialmente os de Marlyn Monroe, que já foi abordada de maneira mais completa até em matérias de jornal, e o de João Paulo II, que é quase uma nota de rodapé. Johnson se sai melhor na escolha dos personagens – que é bastante original, preferindo se distanciar de figuras guerreiras – e nos textos de pessoas que ele conheceu. Na última categoria, são ótimos os textos de Wittgenstein, De Gaulle, Thatcher e Reagan, até mesmo porque contêm fofocas e histórias saborosas – várias delas testemunhadas pelo autor. Com personagens mais antigos, Johnson não cede nunca ao determinismo marxista e prefere acreditar na grandeza pessoal e no poder da vontade de personagens como Robert E. Lee, Lincoln, Thomas More e Sansão. Há coisas curiosas, como uma frase que descreve os seios de Joana D´arc, mas isso é típico dos livros de Johnson. Não é um livro importante, mas é sempre interessante ler um trabalho desse grande historiador.

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Nas Peles da Cebola

“Nas Peles da Cebola”, as memórias de Günter Grass que provocaram polêmica na Alemanha por causa do episódio Waffen-SS, é um livro extremamente chato. Decepcionante também. Só inclui os anos 1936-59 do autor e contém um excesso de referências a outros trabalhos de Grass.

Nunca fui um grande fã do escritor. O Tambor foi uma experiência penosa e demorada. “Passo de caranguejo”, um livro tão esperado – foi o primeiro do autor que incluiu o sofrimento dos alemães na guerra -, é um trabalho repleto de clichês. Tinha achado melhor parar depois desses dois, mas depois de “Nas Peles”, vi que não tinha aprendido a lição.

A edição só vale pela excelente tradução de Marcelo Backes – que já traduziu Heine, Schnitzler, Kafka e Brecht para o português -, seu posfácio que conta as dificuldades de adaptar um texto alemão (ainda mais um texto de Grass) para o público brasileiro e um glossário muito bem organizado.

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O Rio da Dúvida

Esse livro foi uma bela surpresa. Escrito por Candice Millard, que foi editora da National Geographic, conta uma grande história: a expedição que o ex-presidente Theodore Roosevelt fez com marechal Rondon em 1914 para mapear um rio na Amazônia. Com sensibilidade para descrever a riqueza natural que a expedição encontrou (e teve que enfrentar para sobreviver), Millard faz uma reconstrução minuciosa de como era a floresta naquela época: índios que ainda não tinham visto brancos, a diversidade de espécies, as doenças etc. A expedição, que atingiu os objetivos, acabou marcando o ocaso da vida de Roosevelt – doente demais, ele acabaria morrendo cinco anos depois.

Theodore Roosevelt, ou Teddy, era um homem enérgico e determinado. Embarcou na expedição depois de tentar sem sucesso um terceiro mandato. Já era um viajante experiente (tinha realizado um safári na África depois da presidência), resolveu visitar a América do Sul numa turnê de conferências e, instando por um amigo e com a vontade de visitar um de seus filhos, Kermit, também veio ao Brasil. Pretendia apenas fazer turismo no país, mas diante da proposta de um ministro, que percebeu que Teddy não era o tipo de homem que gosta de rotas batidas, de que um rio ainda esperava para ser explorado, foi enfrentar o desconhecido na Amazônia. Também era um naturalista amador – e dos bons – e insistiu em dar um caráter científico à expedição, trazendo na bagagem dois experientes naturalistas americanos.

O governo brasileiro logo viu a enrascada que se meteu: o estrago de um ex-presidente morrer no país seria enorme – mas ele não estaria na companhia de um qualquer: Cândido Rondon, já na época uma lenda, o acompanharia. Os dois homens dividiriam o comando, mas Roosevelt insistiu em aceitar a maioria das ordens de Rondon, embora o ex-presidente ficasse impressionado com os brasileiros, o choque cultural, ainda mais com um homem como Rondon, um positivista e pacifista, foi se acentuando na expedição. Se a expedição Rondon está longe de tragédias célebres dessa época de corridas para explorar o mundo – como Scott na Antártida – ela também não ficou livre de problemas (e que problemas!).

Participar de uma expedição da Comissão Rondon era considerado na época o equivalente a um castigo – e o futuro marechal só conseguia, na maioria das vezes, recrutar desajustados e pessoas que eram enviadas pelo exército como punição. Era quase uma sentença de morte acompanhar Rondon. A selva provocava doenças (e o isolamento impedia qualquer assistência), mas o comportamento de Rondon, admirado mas ainda assim incompreensível para Teddy, gerava mortes. Rondon levava a sério seu princípio “”morrer, se for preciso; matar nunca!”, e impedia que seus homens revidassem os ataques dos índios. Os nativos da região do rio da Dúvida (hoje rio Roosevelt, rebatizado contra a vontade do ex-presidente, que gostava do antigo nome) eram os cinta-largas. Noventa anos depois, esses índios massacraram 29 garimpeiros – assim dá pra ter uma idéia do perigo que a expedição correu.

Baseada numa pesquisa que incluiu diários, entrevistas com familiares de Rossevelt e Rondon e um conhecimento acumulado numa das revistas que melhor descrevem a relação do homem com a natureza, Millard reconstrói a expedição de maneira espetacular. É bom que uma história dessas não caia no esquecimento. Na família Roosevelt ela nunca correu esse risco. Teddy e seu filho não foram os últimos da família que enfrentaram o rio: em 1992, um bisneto do ex-presidente refez o percurso.

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O Advesário

A história de Jean-Claude Romand foi um acontecimento triste que chocou a França em 1993. Romand levou por 18 anos uma vida de mentiras que terminou em tragédia. Fingiu para todos os seus conhecidos que era um médico bem-sucedido que trabalhava na OMS, mas na realidade tinha abandonado o curso de medicina no segundo ano. Saía de casa e passava o dia em restaurantes ou ficava esperando em seu carro. Voltava com uma pilha de publicações gratuitas de medicina. Se casou, teve filhos e sustentava a fachada gastando as economias de seus pais ou da família da sua mulher. Ninguém pareceu desconfiar de nada em todos esses anos. Quando a farsa parecia prestes a ser desmascarada, matou seus pais, sua mulher e seus filhos, que tinham 8 e 10 anos. Tentou se suicidar e não conseguiu. Seu julgamento acabou dominando as manchetes do país em 1994.
Essa história, que parece ter saído da ficção, acabou caindo na mão de um dos melhores autores do gênero na França: Emmanuel Carrère. Autor que se especializou em escrever livros sobre a fragilidade da “vida estável” e loucura – seu livro “O Bigode”, por exemplo, é sobre um homem que entra em parafuso depois que resolve raspar seu bigode e perguntar para a mulher e amigos o que acharam, não conseguindo acreditar quando eles afirmam espantados que não há nenhuma diferença, já que ele nunca teve um bigode -, Carrère se correspondeu com o farsante e investigou o que “deu errado” na vida de Romand.

É um livro parecido com “A Sangue Frio”, mas sem muita compaixão pelo personagem. Embora destrinche o lado perturbador de Romand, Carrère também expõe o lado de pequeno ladrão do personagem e mostra como a busca pela “redenção” que depois caracterizou Romand na prisão parece apenas mais uma de suas máscaras. O relato não é tão cru como a maioria dos autores americanos do new journalism, seu estilo muitas vezes é muito mais literário, e Carrère, até por ser um autor que já era consagrado na época, também é um personagem do livro, inclusive contando suas dificuldades em produzir o trabalho e reproduzindo sua correspondência com o preso.

Obs: “O Adversário”, como a maioria dos livros de Carrère, virou filme em 2002. O feio Daniel Auteuil interpreta o perturbado Jean-Claude Romand.

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Misha: A Memoire of the Holocaust Years

Incongruências e simplificações em histórias de sobreviventes do Holocausto são comuns. Gitta Sereny, em seu “O Trauma Alemão”, fala de pessoas que realmente estiveram nos campos mas têm a tendência – por causa da passagem do tempo, da pressão da imprensa por histórias extravagantes ou por pura ingenuidade – de incluírem mais elementos em suas histórias. Um exemplo seria o número excessivo de sobreviventes que garantem terem sido examinados pelo Dr. Mengele em Aushwitz. Mas tratam-se de casos inofensivos e bastante complicados.

Mas, no dia 29 de fevereiro, deu na imprensa: “Misha: A Memoire of the Holocaust Years” é uma fraude. O livro é um dos espécimes mais absurdos do pior tipo de falsificação autobiográfica: memórias de falsos sobreviventes do Holocausto.

Misha Defonseca (na verdade Monique De Wael) escreveu um livrinho sobre sua experiência de judia fugitiva e de como teria sido criada por uma família de lobos (!) depois que seus pais foram levados pela Gestapo. O livro foi publicado há 11 anos e traduzido para 18 línguas. É inacreditável que uma história ridícula dessas (uma menina e uma alcatéia… Fala sério!) não tenha sido refutada antes.

Monique/Misha, que nem sequer era judia, chegou a contar a sua falsa experiência para platéias em sinagogas e escolas. Não é o primeiro caso. “The Painted Bird” e “Fragments”, de Jerzy Kosiński e Binjamin Wilkomirski, respectivamente, já foram desmascarados como fraudulentos há alguns anos. Infelizmente, eles receberam apoio de algumas pessoas que não enxergaram os trabalhos como eles eram de fato – falsificações -, mas como uma espécie de solidariedade ou manifestação de uma “dor real” pelo Holocausto (“Painted” foi até incluído numa lista da revista Time como um dos grandes romances do século 20). Enquanto isso, Misha continua no catálogo de várias livrarias virtuais, e na seção “Biografias e Memórias”.

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Uma resposta to “Alguns livros”

  1. JLM Says:

    Olá, gostei tanto de O Bigode que escrevi uma resenha do livro e do filme no meu blog. Vale a pena!

    1 abraço.

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