A Vida dos Outros


Marx e Engels em frente da “loja de cristais do Erich”, o Palast der Republik: como alguém pode sentir saudades da DDR?

Um Estado de 17 milhões de habitantes que empregava mais de 90 mil pessoas para investigar e intimidar a população. Adicione que quase 300 mil habitantes desse país foram registradaos como informantes. Um lugar que punia os cidadãos que tentavam fugir com prisão ou, em muitos casos, a morte. Já estava na hora de fazer um filme sobre o pesadelo que era a antiga DDR (República Democrática Alemã) e seu principal órgão de segurança, a Stasi. “A Vida dos Outros” (“Das Leben der Anderen“, Alemanha, 2006) é um contraponto eficiente à ingenuidade de “Adeus Lênin”, outro filme que retratou a Alemanha Oriental. Enquanto “Adeus Lênin” se concentrou nas mudanças provocadas pela reunificação (1990) e em explorar o filão da “Ostalgie” (nostalgia por tranqueiras da Alemanha Oriental; como se um brasileiro descobrisse que era feliz e não sabia encontrando uma velha lata de óleo de soja Liza), “A Vida dos Outros” prefere revisitar os aspectos mais dolorosos da vida no “socialismo real”: espionagem, delação e censura. Se um Estado de tal espécie tinha “democrática” no nome, o filme começa num bem apropriado ano de 1984, quando o comunismo já estava com os dias contados, mas ainda tinha a capacidade de intimidar.

O capitão (Hauptmann) da Stasi Gerd Wiesler (HGW) recebe a missão de espionar um escritor amigo do regime, Georg Dreyman (interpretado por Sebastian Koch), para descobrir se ele anda insatisfeito. O eficiente Wiesler monta o pacote completo: escutas espalhadas pela casa e no telefone, câmeras de vigilância (quem fizer paralelos com o Ato Patriótico que vá para o inferno). Logo Wiesler percebe qual é sua real missão. Não está lá para defender o socialismo: tem mesmo é que descobrir algo podre sobre Dreyman e assim ajudar um ministro a se livrar de um rival sentimental e garantir os favores sexuais de uma atriz viciada em drogas. No meio de toda essa corrupção não demora para que o solitário Wiesler comece a simpatizar com a sua presa e passe a protegê-la de seus superiores -em especial um cínico Oberstleutnant. Embora ingênuo, Dreyman passa a questionar o regime e começa a colaborar com a revista ocidental Der Spiegel em um artigo que denuncia as altas de suicídio no país, sem saber que está sendo ouvido-e protegido- o tempo todo. Em meio a tudo isso, entra em ação a máquina de delação da DDR.

O aspecto mais fraco da história sem dúvida é a relação do ministro com a namorada do escritor. Que poderosos usem a máquina em benefício próprio não é algo só do comunismo. E a Stasi era expert em trabalhos sujos -que iam de mandar cem pizzas para alguém numa noite até internar dissidentes como doentes mentais. Em “Eu Sou Lenda” já havia um problema semelhante: não bastava Will Smith ser um simples sobrevivente de uma praga, também tinha que ser o cientista responsável em combate-la. Em “A Vida dos Outros”, não basta que Dreyman seja vigiado pelo que é (um artista), também tem que dividir a cama com uma mulher que transa com um figurão do partido. Redondo demais, uma coincidência improvável e uma explicação fácil. Também insatisfatória é a caracterização dos escritores que aparecem no filme. Um diz algo abominável como “Não deixar um escritor escrever é como tirar a enxada de um agricultor” e o próprio Dreyman não parece crível no começo -é difícil engolir que alguém instruído que vivesse na Alemanha Oriental fosse tão inocente.
Mas o filme não é sobre Dreyman, a atriz e o ministro. Gerd Wiesler, interpretado pelo excelente Ulrich Mühe é quem realmente garante o filme. Contido ao máximo, quase robótico, Mühe pode dar umas mancadas como uma lágrima escorrendo, mas representa de maneira espetacular um homem frio e triste que sofre uma transformação. Wiesler começa com algo de “banalidade do mal”, racionalidade de espião comunista e é extremamente fechado como um alemão. Mühe consegue mudar tudo isso sem precisar dar piruetas – bom, o personagem só não se livra de sua frieza alemã, mas daí seria ir contra a natureza.

A outra estrela, sem dúvida, é a Stasi.

A própria biografia de Mühe já evidencia como a história de “A Vida dos Outros” é pertinente. Depois da queda do Muro, Mühe, que era alemão oriental e considerado um inimigo do país foi conferir sua ficha na antiga sede da Stasi. Descobriu um calhamaço que denunciava sua própria mulher como informante. Uma história bastante comum na antiga DDR.
“A Vida dos Outros” é o primeiro longa do diretor Florian Henckel von Donnersmarck. Ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007.

Obs: link para uma crítica marxista de “A Vida dos Outros”. Desfavorável, é claro. Afirma que o filme poderia ter sido financiado pela CIA. Se você tiver coragem…

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3 Respostas to “A Vida dos Outros”

  1. Alina Says:

    Ei, vc viajou?! Sem se despedir?!

  2. Norman Chap Says:

    Credo, haja coragem! O que os marxistas chamam de dialética é uma acrobática. O sujeito faz mil poréns, chama os crimes do regime de “contradições” inócuas que devem ser aperfeiçoadas e insiste na típica e contraditória fé nos indivíduos ideais que vão instaurar o socialismo no futuro, enquanto continua condenando os indivíduos reais e suas liberdades, que devem ser contidos e guiados, e inocentando os indivíduos reais que cometiam atrocidades. Contradição total e uma bitola do tamanho do muro de Berlim (a bitola não cai). Pra não mencionar a “análise de discurso” do filme.

    Cômico! Condena o filme e diz que a premiação é uma forma de dizer: “Veja como eram uns monstros!” Exatamente, smart ass!

    P.S.: retira o meu link, Jean, per favore…

  3. Jean-Philip Albert Struck Says:

    Oi, Alina. Ainda não viajei. E tudo certo com vc?

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