Naked City

Nova York não é como Paris; não é como Londres; e também não é Spokane multiplicada por sessenta ou Detroit por quatro. É, por tudo, a mais orgulhosa das cidades. (…) Nova York provê não apenas uma contínua excitação, mas também um espetáculo que não tem fim.”

As palavras são do ensaísta E. B. White. Fazem parte do texto “Aqui Está Nova York”, publicado em 1948, na revista Holyday (e que foi traduzido no Brasil por Ruy Castro).  Ainda era 1948 e White já lamentava por uma Nova York que já não existia mais -a dos elevados, dos trens, dos inúmeros jornais-, mas ainda celebrava a natureza pulsante e a diversidade que sempre fizeram parte da cidade. Seu texto poético é um panorama precioso de como era Nova York. Mas o que White fez em palavras, o diretor Jules Dassin e, especialmente, o produtor Mark Hellinger (produtor, roteirista, crítico de teatro, jornalista) conseguiram fazer em filme. “Naked City”, também de 1948, é praticamente uma cápsula do tempo da Nova York desse ano.

Logo no começo o expectador é avisado que não se trata de um filme comum: uma narração, que inclusive apresenta os créditos, explica que todos os cenários são locações. Portanto, a delegacia do filme é mesmo uma delegacia de Nova York, a perseguição na ponte Williamsburg foi realmente filmada na ponte – não há maquetes ou cenários de papelão. Nova York, a verdadeira Nova York, é a principal estrela desse filme.

Hellinger, que tinha produzido filmes inovadores como “High Sierra” e “Brute Force” se inspirou na sua própria experiência como repórter e nas fotos do fotógrafo policial Weegee (o “Tabuleiro Ouija”, apelido que Arthur Fellig ganhou por sempre aparecer minutos depois de assassinatos e e incêndios) publicadas num livro chamado “Naked City”. As fotos urbanas de Weege nessa época eram bem diferentes do trabalho de um Robert Doisneau, por exemplo, e se concentravam nos aspectos mais brutais como a miséria e o crime – seu ganha-pão nos tablóides. O crime, ou melhor, a solução de um crime, é o fio condutor do filme “Naked City”.

Uma loira é encontrada assassinada em seu apartamento, a polícia chega e passa a investigar as pessoas que a conheciam. Não é o velho esquema de um investigador particular ou policial solitário, mas sim o passo a passo de uma investigação conduzida por uma equipe da delegacia de homicídios. “Naked City” é o pai de todas as séries estilo “Law & Order” e “CSI” que atualmente infestam a TV.

Barry Fitzgerald, com seu aspecto irlandês inconfundível e sempre fazendo tiradas bem-humoradas, é o delegado responsável pelo caso. Conta com a ajuda de outros policiais, mas com destaque para o detetive novato interpretado por Don Taylor, que protagoniza algumas das cenas mais leves do filme – como sua falta de vontade de espancar o filho depois de uma travessura. Os outros elementos do noir estão lá: o sujeito enrolado com a polícia, os pais da loira que acham a cidade grande um antro de decadência, o cidadão respeitável que é corrompido por uma paixão etc.

Embora algumas soluções nem à época fossem muito originais – como a perseguição na ponte, já usada com outras variações por Hitchcock (de quem Jules Dassin foi assistente no começo da fase americana do diretor) – elas pelo menos garantem uma visão estupenda da cidade e dos seus habitantes. Dassin e seu diretor de fotografia, William H. Daniels (que ganhou um Oscar pelo trabalho), conseguiram captar tanta naturalidade filmando várias das cenas externas com uma câmera escondida dentro de um caminhão onde havia sido instalado um espelho falso – afastando o poder intimidador da câmera sobre as pessoas comuns.

O único problema da maior parte dessas cenas é uma narração que reforça o óbvio, e que foi feita com a voz do próprio Mark Hellinger. Em “Roaring Twenties”, Hellinger já havia feito a narração de uma montagem que mostrava o crack da Bolsa em 1929, mas em “Naked City”, embora algumas observações sejam muito bem escritas (em especial a frase que ficou famosa: “There are eight million stories in the Naked City; this has been one of them“), o aspecto supérfluo delas fica óbvio em passagens que mostram pessoas sofrendo com o calor, mas são reforçadas com a informação “1948 foi o ano de uma forte onda de calor”. Mas esse é um problema menor, o valor de “Naked City” como retrato de uma época já desaparecida, seu aspecto semidocumental, sua crueza e ritmo, como se seguisse o imediatismo da editoria policial de um jornal tablóide, fazem do filme um dos melhores noir já realizados.

Obs: Hellinger morreu antes do lançamento do filme. Dassin e o roteirista Albert Maltz foram incluídos na lista negra de artistas comunistas poucos anos depois. Dassin acabou indo para a França (apesar do nome, ele não é francês, mas descendente de russos) onde realizaria um dos seus melhores filmes, “Rififi”, um clássico do noir.

Obs2: “Naked City” tem 7,7 estrelas no IMDB. É pouco. E uma porcaria como “Moulin Rouge” tem a mesma nota. Vai entender…

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