Archive for fevereiro \26\UTC 2008

A Vida dos Outros

terça-feira, fevereiro 26, 2008


Marx e Engels em frente da “loja de cristais do Erich”, o Palast der Republik: como alguém pode sentir saudades da DDR?

Um Estado de 17 milhões de habitantes que empregava mais de 90 mil pessoas para investigar e intimidar a população. Adicione que quase 300 mil habitantes desse país foram registradaos como informantes. Um lugar que punia os cidadãos que tentavam fugir com prisão ou, em muitos casos, a morte. Já estava na hora de fazer um filme sobre o pesadelo que era a antiga DDR (República Democrática Alemã) e seu principal órgão de segurança, a Stasi. “A Vida dos Outros” (“Das Leben der Anderen“, Alemanha, 2006) é um contraponto eficiente à ingenuidade de “Adeus Lênin”, outro filme que retratou a Alemanha Oriental. Enquanto “Adeus Lênin” se concentrou nas mudanças provocadas pela reunificação (1990) e em explorar o filão da “Ostalgie” (nostalgia por tranqueiras da Alemanha Oriental; como se um brasileiro descobrisse que era feliz e não sabia encontrando uma velha lata de óleo de soja Liza), “A Vida dos Outros” prefere revisitar os aspectos mais dolorosos da vida no “socialismo real”: espionagem, delação e censura. Se um Estado de tal espécie tinha “democrática” no nome, o filme começa num bem apropriado ano de 1984, quando o comunismo já estava com os dias contados, mas ainda tinha a capacidade de intimidar.

O capitão (Hauptmann) da Stasi Gerd Wiesler (HGW) recebe a missão de espionar um escritor amigo do regime, Georg Dreyman (interpretado por Sebastian Koch), para descobrir se ele anda insatisfeito. O eficiente Wiesler monta o pacote completo: escutas espalhadas pela casa e no telefone, câmeras de vigilância (quem fizer paralelos com o Ato Patriótico que vá para o inferno). Logo Wiesler percebe qual é sua real missão. Não está lá para defender o socialismo: tem mesmo é que descobrir algo podre sobre Dreyman e assim ajudar um ministro a se livrar de um rival sentimental e garantir os favores sexuais de uma atriz viciada em drogas. No meio de toda essa corrupção não demora para que o solitário Wiesler comece a simpatizar com a sua presa e passe a protegê-la de seus superiores -em especial um cínico Oberstleutnant. Embora ingênuo, Dreyman passa a questionar o regime e começa a colaborar com a revista ocidental Der Spiegel em um artigo que denuncia as altas de suicídio no país, sem saber que está sendo ouvido-e protegido- o tempo todo. Em meio a tudo isso, entra em ação a máquina de delação da DDR.

O aspecto mais fraco da história sem dúvida é a relação do ministro com a namorada do escritor. Que poderosos usem a máquina em benefício próprio não é algo só do comunismo. E a Stasi era expert em trabalhos sujos -que iam de mandar cem pizzas para alguém numa noite até internar dissidentes como doentes mentais. Em “Eu Sou Lenda” já havia um problema semelhante: não bastava Will Smith ser um simples sobrevivente de uma praga, também tinha que ser o cientista responsável em combate-la. Em “A Vida dos Outros”, não basta que Dreyman seja vigiado pelo que é (um artista), também tem que dividir a cama com uma mulher que transa com um figurão do partido. Redondo demais, uma coincidência improvável e uma explicação fácil. Também insatisfatória é a caracterização dos escritores que aparecem no filme. Um diz algo abominável como “Não deixar um escritor escrever é como tirar a enxada de um agricultor” e o próprio Dreyman não parece crível no começo -é difícil engolir que alguém instruído que vivesse na Alemanha Oriental fosse tão inocente.
Mas o filme não é sobre Dreyman, a atriz e o ministro. Gerd Wiesler, interpretado pelo excelente Ulrich Mühe é quem realmente garante o filme. Contido ao máximo, quase robótico, Mühe pode dar umas mancadas como uma lágrima escorrendo, mas representa de maneira espetacular um homem frio e triste que sofre uma transformação. Wiesler começa com algo de “banalidade do mal”, racionalidade de espião comunista e é extremamente fechado como um alemão. Mühe consegue mudar tudo isso sem precisar dar piruetas – bom, o personagem só não se livra de sua frieza alemã, mas daí seria ir contra a natureza.

A outra estrela, sem dúvida, é a Stasi.

A própria biografia de Mühe já evidencia como a história de “A Vida dos Outros” é pertinente. Depois da queda do Muro, Mühe, que era alemão oriental e considerado um inimigo do país foi conferir sua ficha na antiga sede da Stasi. Descobriu um calhamaço que denunciava sua própria mulher como informante. Uma história bastante comum na antiga DDR.
“A Vida dos Outros” é o primeiro longa do diretor Florian Henckel von Donnersmarck. Ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007.

Obs: link para uma crítica marxista de “A Vida dos Outros”. Desfavorável, é claro. Afirma que o filme poderia ter sido financiado pela CIA. Se você tiver coragem…

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Castro

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Todo mundo já deve ter lido ou ouvido que Castro renunciou hoje. Destaco um trecho da sua carta de despedida (que cita seu colega de ideologia – e cara-de-pau – Oscar Niemeyer):

“Meu dever elementar não é agarrar-me a cargos, e muito menos obstruir o caminho de pessoas mais jovens, e sim aportar experiências e idéias cujo modesto valor procede da época excepcional que me coube viver.”

Hipócrita, repugnante. Isso de um homem que condenou gerações à miséria, que fez fugir centenas de milhares e fez tantos outros encontrarem a morte em balsas improvisadas, que encenou os últimos julgamentos stalinistas que se teve notícia (isso na década de 90), que promove eleições fajutas etc – uma lista sem fim.

Sei que seria demais esperar um pouco de autocrítica desse monstro, mas ler isso é vê-lo dançando em cima do túmulo de suas vítimas.

Isso é só a renúncia. Em breve teremos que ouvir tudo de novo: quando el comandante encontrar o paredón final, no seu caso, infelizmente, uma morte tranqüila numa cama de hospital. A imprensa o chama de “controverso”, “polêmico” e outras palavras inofensivas. É um absurdo. Só a Fidel é concedido esse tipo de tratamento. Dar destaque para peças de propaganda, como seus faudulentos sistema de saúde e sua política educacional, para enganar trouxas do Primeiro Mundo e muitos trouxas do Terceiro é minimizar seus crimes. Não se pode pesar “emprego pleno” e fuscas com o holocausto. É imoral, é sujo.

Que Fidel vá para o inferno.

Obs: Curiosa essa diferença de títulos em duas matérias que usaram a mesma fonte de notícias (a AP) sobre a reação dos exilados cubanos quando souberam da renúncia de Fidel:

Exilados cubanos nos EUA festejam renúncia de Fidel (Folha Online)

Cubanos de Miami não se empolgam com renúncia de Fidel (Estadão)

URSS e Rússia em imagens

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

– Правда ли, что Америка на первом месте в мире по числу
автомобилей?
– Правда. Но зато Советский Союз на первом месте по числу
мест для стоянки.

– “Is it true that America comes in first place in the world for the number of cars?”

– “It’s truth. But the Soviet Union comes in first for the number of places to park.

Já falei das galerias do Pravda.ru em outro post. Agora é a vez do English Russia. Apesar do formato um tanto caótico, o site tem um humor mais direto e proposital. Estão disponíveis centenas de fotos da antiga URSS e da Rússia contemporânea. As aberrações kitsch do comunismo estão lá, em forma de memorabilia e prédios de amianto. Mas impagáveis mesmo são as fotos que mostram a Rússia como ela é hoje. Quem gosta de ladas caindo aos pedaços não vai se decepcionar, mas também existem dezenas de fotos que retratam um problema grave do país: o alcoolismo – e o resultado da combinação de álcool, gelo e carrões ocidentais.


Da galeria “Strange Soviet Buildings


Tapete afegão


Uma prática comum na Rússia é disfarçar as empresas locais com design e nomes parecidos com os de companhias ocidentais. Na foto, um posto da marca “Shelf”.


Minha galeria favorita: policiais russos. Um texto explica que ninguém quer ser policial na Rússia. É um serviço mal pago e extremamente perigoso. Só consegue atrair desajustados e corruptos.


Trem a jato soviético. Nem todas as galerias são de coisas bizarras. Há muitos fotos de excelente qualidade sobre a URSS.

Naked City

sábado, fevereiro 16, 2008

Nova York não é como Paris; não é como Londres; e também não é Spokane multiplicada por sessenta ou Detroit por quatro. É, por tudo, a mais orgulhosa das cidades. (…) Nova York provê não apenas uma contínua excitação, mas também um espetáculo que não tem fim.”

As palavras são do ensaísta E. B. White. Fazem parte do texto “Aqui Está Nova York”, publicado em 1948, na revista Holyday (e que foi traduzido no Brasil por Ruy Castro).  Ainda era 1948 e White já lamentava por uma Nova York que já não existia mais -a dos elevados, dos trens, dos inúmeros jornais-, mas ainda celebrava a natureza pulsante e a diversidade que sempre fizeram parte da cidade. Seu texto poético é um panorama precioso de como era Nova York. Mas o que White fez em palavras, o diretor Jules Dassin e, especialmente, o produtor Mark Hellinger (produtor, roteirista, crítico de teatro, jornalista) conseguiram fazer em filme. “Naked City”, também de 1948, é praticamente uma cápsula do tempo da Nova York desse ano.

Logo no começo o expectador é avisado que não se trata de um filme comum: uma narração, que inclusive apresenta os créditos, explica que todos os cenários são locações. Portanto, a delegacia do filme é mesmo uma delegacia de Nova York, a perseguição na ponte Williamsburg foi realmente filmada na ponte – não há maquetes ou cenários de papelão. Nova York, a verdadeira Nova York, é a principal estrela desse filme.

Hellinger, que tinha produzido filmes inovadores como “High Sierra” e “Brute Force” se inspirou na sua própria experiência como repórter e nas fotos do fotógrafo policial Weegee (o “Tabuleiro Ouija”, apelido que Arthur Fellig ganhou por sempre aparecer minutos depois de assassinatos e e incêndios) publicadas num livro chamado “Naked City”. As fotos urbanas de Weege nessa época eram bem diferentes do trabalho de um Robert Doisneau, por exemplo, e se concentravam nos aspectos mais brutais como a miséria e o crime – seu ganha-pão nos tablóides. O crime, ou melhor, a solução de um crime, é o fio condutor do filme “Naked City”.

Uma loira é encontrada assassinada em seu apartamento, a polícia chega e passa a investigar as pessoas que a conheciam. Não é o velho esquema de um investigador particular ou policial solitário, mas sim o passo a passo de uma investigação conduzida por uma equipe da delegacia de homicídios. “Naked City” é o pai de todas as séries estilo “Law & Order” e “CSI” que atualmente infestam a TV.

Barry Fitzgerald, com seu aspecto irlandês inconfundível e sempre fazendo tiradas bem-humoradas, é o delegado responsável pelo caso. Conta com a ajuda de outros policiais, mas com destaque para o detetive novato interpretado por Don Taylor, que protagoniza algumas das cenas mais leves do filme – como sua falta de vontade de espancar o filho depois de uma travessura. Os outros elementos do noir estão lá: o sujeito enrolado com a polícia, os pais da loira que acham a cidade grande um antro de decadência, o cidadão respeitável que é corrompido por uma paixão etc.

Embora algumas soluções nem à época fossem muito originais – como a perseguição na ponte, já usada com outras variações por Hitchcock (de quem Jules Dassin foi assistente no começo da fase americana do diretor) – elas pelo menos garantem uma visão estupenda da cidade e dos seus habitantes. Dassin e seu diretor de fotografia, William H. Daniels (que ganhou um Oscar pelo trabalho), conseguiram captar tanta naturalidade filmando várias das cenas externas com uma câmera escondida dentro de um caminhão onde havia sido instalado um espelho falso – afastando o poder intimidador da câmera sobre as pessoas comuns.

O único problema da maior parte dessas cenas é uma narração que reforça o óbvio, e que foi feita com a voz do próprio Mark Hellinger. Em “Roaring Twenties”, Hellinger já havia feito a narração de uma montagem que mostrava o crack da Bolsa em 1929, mas em “Naked City”, embora algumas observações sejam muito bem escritas (em especial a frase que ficou famosa: “There are eight million stories in the Naked City; this has been one of them“), o aspecto supérfluo delas fica óbvio em passagens que mostram pessoas sofrendo com o calor, mas são reforçadas com a informação “1948 foi o ano de uma forte onda de calor”. Mas esse é um problema menor, o valor de “Naked City” como retrato de uma época já desaparecida, seu aspecto semidocumental, sua crueza e ritmo, como se seguisse o imediatismo da editoria policial de um jornal tablóide, fazem do filme um dos melhores noir já realizados.

Obs: Hellinger morreu antes do lançamento do filme. Dassin e o roteirista Albert Maltz foram incluídos na lista negra de artistas comunistas poucos anos depois. Dassin acabou indo para a França (apesar do nome, ele não é francês, mas descendente de russos) onde realizaria um dos seus melhores filmes, “Rififi”, um clássico do noir.

Obs2: “Naked City” tem 7,7 estrelas no IMDB. É pouco. E uma porcaria como “Moulin Rouge” tem a mesma nota. Vai entender…

Heil Hillary!

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

hillary_nazi-germans.jpg

Da Der Spiegel, maior e mais respeitada revista semanal da Alemanha.