Indigestão e Santa e Domenica

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Cena de Santa & Domenica: é o sistema métrico!

Lembra daquele diálogo do filme Pulp Fiction em que os personagens de Samuel L. Jackson e John Travolta discutiam sobre um quarterão com queijo? Agora imagine algo parecido, mas com duas mulheres numa cozinha, travando uma discussão sobre um pacote de bolachinhas (“licenciamento de marca”). Pronto: nunca um desastre foi tão perceptível nos primeiros momentos. É assim que começa a peça Santa & Domenica, em cartaz no teatro José Maria Santos (ingressos a R$ 15).

Agora imagine que a tendência é só piorar – e você já começa a se perguntar se deve ou não cair fora dali – porque elas estão falando de antigos relacionamentos e uma música pop começa a tocar ao fundo. Mas calma, o desastre ainda não está completo: um telão começa a exibir o “depoimento” de umas das atrizes, apenas como desculpa para que, ao vivo, a moça continue com o tal confissão – e já que não dá mais para cair fora, você começa a torcer para que a peça seja pelo menos curta.

E assim, nesse bazar de música pop, afetação, diálogos preguiçosos e uma história que não desperta nenhum interesse, você fica sabendo que a Domenica do título (interpretada por Rafaella Marques) é uma cozinheira talentosa com uma extensa ficha corrida e de poucos arrependimentos. Junto com Santa (papel de Karla Fragoso), uma cozinheira que não sabe preparar um ovo, ela tem sociedade num restaurante. A experiência lésbica de uma, o caso com um homem casado de outra, são o restante do enredo. Ah sim, um gato é trucidado na história (“Lebre na Mostarda”), e também há algo sobre a amizade que vai se desgastando – desculpas para (i) uma pirotecnia sanguinolenta totalmente gratuita e (ii) aquela coisa já batida de botar os protagonistas falando da mesma coisa mas em tempos diferentes (no caso, o começo e o fim da sociedade). Recursos não devem ter faltado. A sala é decente, a cenografia também, até a pirotecnia é bem realizada – tudo está no lugar. O problema é mesmo o material.

E por que você foi assistir tal desastre? Certo, você sabia que a companhia, a Vigor Mortis, já tinha feito algumas boas peças – Graphic recebeu elogios e prêmios e Pincéis e Facas te agradou, os jatos de sangue não eram gratuitos, a história era interessante… Você imaginou que os dez anos de sucesso da companhia – uma boa marca para Curitiba – eram uma garantia. Mas depois de assistir Santa & Domenica, você vai pesquisar um pouco e topa com os seguintes comentários do autor e diretor da peça, Paulo Biscaia Filho: “A peça foi feita praticamente da noite para o dia. Essa montagem trabalha a rítmica de interpretação com uma velocidade de diálogos muito grande”. E comentando os dez anos da companhia: “São dez anos para tentar encontrar o caminho, tropeçar algumas vezes e achar o nosso rumo sem querer”.

Santa & Domenica é no mínimo um tropeço.

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6 Respostas to “Indigestão e Santa e Domenica”

  1. Paulo Biscaia Says:

    Sim. Nos damos ao direito a tropeços. Não há vergonha nisso. Não escrevemos textos seguidamente com permissão pública ao erro. Ensaiamos em direção a algo que só vamos saber o que é quando se tornar público. Esse é o genial do “risco do erro”. Semanas de trabalho correm sempre grave perigo naqueles poucos minutos de apresentação.
    E ainda haverá a leitura individual!

    Não. não tínhamos recursos de sobra. A peça foi produzida do próprio bolso, ou melhor, da raspa do que havia nele. Conseguimos fazer o que conseguimos fazer tendo como combustível nosso próprio desejo e mais nada.

    Não. O objetivo principal não era a pirotecnia. Lamento que não tenha comunicado com você como comunicou a outros, mas essa subjetividade é de direito inalienável.

    Em tempo: Desastres são feitos geralmente de grandes naus e incidentes de proporções bíblicas. Portanto este humilde trabalho fica lisonjeado com a grandiloqüência das palavras. Maior lisonja ainda é ver este blog, que pouco ou nada dedica nada a teatro, reservar boas linhas para falar do tema.

    Sigamos adiante. Espero vê-lo novamente na platéia de nossa próxima montagem sem o desejo ardente de levantar-se da platéia.

    Grato pela leitura, pbf

  2. Ana Assumpção Says:

    Quando soube que havia esta critica aqui,vim correndo ler..O mais legal de ler a critica é ler o comentário do diretor da peça que você criticou que(me desculpe)mas é mil vezes mais interessante do que você escreveu.aliás o que vc escreveu é também interessante,porque através do teu texto você mostra muito de você,mostra a tua imaturidade e junto tua frustração.Fui ver esta peça pois uma das atrizes,a Rafa, é minha amiga e me diverti muito,porque a peça é despretenciosa e todos ali sabem disto.(menos você ,eu acho)Eu não sou lá uma ótima escritora ou jornalista,por isso não ficarei aqui enchendo linguiça no teu coment,mas sou boa observadora.Dei risada deste teu texto,mas faz parte,né?Depois disso tudo se eu fosse você,já que ficou com indigestão,por que não foi a farmacia e comprou um….. sal de frutas???

  3. acurtoprazo Says:

    Ter o direito de se expressar criticando uma peça que não agradou agora é “imaturidade” e “FRUSTRAÇÃO”???

    Quem pede desculpa agora sou eu (que não é o autor do texto em questão), mas não saber receber críticas no meio artístico, isso sim é sinal de imaturidade.

  4. Alina P. Says:

    Jean, querido. Lamento não ter assistido essa peça contigo. Teria sido, no mínimo, engraçado. Feliz dois mili oito procê. Beijos.

  5. Carlos Says:

    Ótimo texto Jean
    Só pela sua crítica pecebe-se que esta peça não merece meu dinheiro e nem meu tempo. Só ve se começa a atualizar mais esse blog, porque ele está muito bom

  6. Carlos Says:

    Já que vc pelo jeito não escreve mais, escrevi um novo texto no blog. Espero que goste.

    Carlos

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