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Indigestão e Santa e Domenica

terça-feira, dezembro 4, 2007

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Cena de Santa & Domenica: é o sistema métrico!

Lembra daquele diálogo do filme Pulp Fiction em que os personagens de Samuel L. Jackson e John Travolta discutiam sobre um quarterão com queijo? Agora imagine algo parecido, mas com duas mulheres numa cozinha, travando uma discussão sobre um pacote de bolachinhas (“licenciamento de marca”). Pronto: nunca um desastre foi tão perceptível nos primeiros momentos. É assim que começa a peça Santa & Domenica, em cartaz no teatro José Maria Santos (ingressos a R$ 15).

Agora imagine que a tendência é só piorar – e você já começa a se perguntar se deve ou não cair fora dali – porque elas estão falando de antigos relacionamentos e uma música pop começa a tocar ao fundo. Mas calma, o desastre ainda não está completo: um telão começa a exibir o “depoimento” de umas das atrizes, apenas como desculpa para que, ao vivo, a moça continue com o tal confissão – e já que não dá mais para cair fora, você começa a torcer para que a peça seja pelo menos curta.

E assim, nesse bazar de música pop, afetação, diálogos preguiçosos e uma história que não desperta nenhum interesse, você fica sabendo que a Domenica do título (interpretada por Rafaella Marques) é uma cozinheira talentosa com uma extensa ficha corrida e de poucos arrependimentos. Junto com Santa (papel de Karla Fragoso), uma cozinheira que não sabe preparar um ovo, ela tem sociedade num restaurante. A experiência lésbica de uma, o caso com um homem casado de outra, são o restante do enredo. Ah sim, um gato é trucidado na história (“Lebre na Mostarda”), e também há algo sobre a amizade que vai se desgastando – desculpas para (i) uma pirotecnia sanguinolenta totalmente gratuita e (ii) aquela coisa já batida de botar os protagonistas falando da mesma coisa mas em tempos diferentes (no caso, o começo e o fim da sociedade). Recursos não devem ter faltado. A sala é decente, a cenografia também, até a pirotecnia é bem realizada – tudo está no lugar. O problema é mesmo o material.

E por que você foi assistir tal desastre? Certo, você sabia que a companhia, a Vigor Mortis, já tinha feito algumas boas peças – Graphic recebeu elogios e prêmios e Pincéis e Facas te agradou, os jatos de sangue não eram gratuitos, a história era interessante… Você imaginou que os dez anos de sucesso da companhia – uma boa marca para Curitiba – eram uma garantia. Mas depois de assistir Santa & Domenica, você vai pesquisar um pouco e topa com os seguintes comentários do autor e diretor da peça, Paulo Biscaia Filho: “A peça foi feita praticamente da noite para o dia. Essa montagem trabalha a rítmica de interpretação com uma velocidade de diálogos muito grande”. E comentando os dez anos da companhia: “São dez anos para tentar encontrar o caminho, tropeçar algumas vezes e achar o nosso rumo sem querer”.

Santa & Domenica é no mínimo um tropeço.

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