Quem é mais conservador? O debate dos republicanos

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Mitt Romney, Fred Thompson e John McCain, três dos oito pré-candidatos republicanos, conversam durante um intervalo do debate.

O estado era a Flórida (cenário da confusão eleitoral de 2000), os organizadores eram jornalistas do canal conservador Fox News (desculpem a redundância), e as perguntas do último debate do Partido Republicano, que aconteceu ontem à noite, incluíram muitas questões internas e pouco Iraque. Os oito pré-candidatos republicanos, deixando de lado que o seu partido ficou na defensiva desde a última eleição legislativa, partiram para o ataque e não mostraram pudor de se declararem conservadores. Eles se declaram conservadores, mas engana-se quem acredita que eles são o que dizem. Os eleitores republicanos presentes no debate, cada vez que aplaudiam alguma declaração conservadora dos candidatos, estavam comprando gato por lebre. É só observar o histórico dos candidatos que realmente importam. São quatro. Com históricos mais ou menos tolerantes em questões que são tabu para o governo Bush. Cada um, a seu modo, é simpático ao casamento gay, faz vista grossa com imigrantes ilegais ou considera a guerra no Iraque e a política externa de Bush um desastre. O vale-tudo neoconservador de Bush, embora ainda consiga gritar (ou vaiar), já não parece mais uma coisa prática. Numa coisa eles concordam com a Casa Branca: eles odeiam os democratas.

Alvo preferido de quase todos os pretendentes à cadeira no Salão Oval, Hillary Clinton, senadora por Nova York e pré-candidata do Partido Democrata e favorita para a nomeação, foi mencionada 27 vezes pelos republicanos, sempre de maneira negativa. Numa delas, John McCain, senador pelo Arizona, criticou o endosso da senadora democrata para a construção de um museu dedicado ao concerto de Woodstock, afirmando: “Sen. Clinton tried to spend $1 million on the Woodstock Concert Museum. Now, my friends, I wasn’t there. I’m sure it was a cultural and pharmaceutical event.”, e justificou sua ausência no concerto citando sua experiência pavorosa como prisioneiro de guerra dos vietnamitas por cinco anos e meio: “I was tied up at the time“. Com a piada, McCain arrancou gargalhadas e foi ovacionado, assim como foram ovacionados todos os pré-candidatos que atiraram pedras em Hillary, com humor ou de maneira sombria. Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York, brincou que a única coisa em comum que ele e a senadora compartilham é o fato de ambos serem torcedores do New York Yankees, mas com a diferença de que ele se tornou fã da equipe enquanto era criado no Brooklyn, a senadora, por sua vez, teria virado fã enquanto criada em… Chicago. Além do suposto oportunismo de Hillary, sua inexperiência em cargos executivos também mereceu repúdio. Mitt Romney, ex-governador de Massachusetts que vem conseguindo destaque para sua candidatura, afirmou: “She hasn’t run a corner store. She hasn’t run a state. She hasn’t run a city. She has never run anything. And the idea that she could learn to be president, you know, as an internship just doesn’t make any sense.”

É provável que, mais que conseguir apoio nas bases republicanas nesse começo de disputa, os ataques a Hillary terminem por fortalecer a pré-candidatura dela no Partido Democrata. E é exatamente isso que os republicanos querem: Hillary conta com altos índices de rejeição entre a maioria dos eleitores americanos e sua figura negativa pode ser mais facilmente atacada na eleição de 2008. Ela personifica todos os clichês liberais (no sentido americano da palavra) que os eleitores republicanos tanto odeiam.

Mas Hillary não foi o único alvo do debate. Enquanto os candidatos com poucas chances tentavam ganhar um pouco de espaço com alguns ataques ou passando alguma mensagem, os “quatro grandes” (McCain, Giuliani, Thompson e Romney) trocaram algumas farpas entre si. Fred Thompson, ex-senador e ator de seriados como Law & Order (um novo Ronald Reagan?), acusou Giuliani de ser um liberal enrustido em questões como casamento gay, aborto, imigração e controle de armas, afirmando que ele não é muito diferente de Hillary Clinton. Giuliani, com seu jeito tipicamente nova-iorquino, seguro com seu favoritismo nas pesquisas (ainda que com margem reduzida), afirmou que sempre foi coerente nessas questões, e aproveitou para atacar a conduta de Thompson no Senado, lembrando que ele foi responsável por travar importantes reformas na Casa. Thompson, cuja candidatura foi incialmente recebida com entusiasmo por muitos eleitores republicanos, não mostrou o mesmo carisma das telas e, aos poucos, vem sendo acusado de fazer corpo mole e parecer fraco – chegou a ser questionado por um dos mediadores da Fox se ele não era um pouco “preguiçoso” (lazy). Romney, um republicano de um estado historicamente democrata, foi alvo constante dos outros candidatos, em especial por propagandear sua solução para o problema da saúde do estado que governou.

A saúde, aliás, foi assunto constante no debate. Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas, afirmou estar preocupado com o impacto do envelhecimento dos Baby Boomers na saúde e os custos de remédios gratuitos: “I just want to remind everybody when all the old hippies find out that they get free drugs, just wait until what that’s going to cost out there.” Romney, ao final, afirmando estar feliz que a questão, uma velha plataforma democrata, ser um tema importante para os republicanos: “But one thing that I’m happy about is that Republicans are talking about health care. This isn’t a Democrat issue. It’s a Republican issue.”

Perdendo para Hillary nas referências, mas ainda assim tendo seu nome evocado constantemente, o falecido Ronald Reagan, agora o que Roosevelt foi para os democratas, foi a figura citada como ideal – Bush, agora um cadáver político, foi citado apenas sete vezes no debate. Menos governo, menos impostos e sua bem-sucedida campanha contra a URSS, os pilares do seu governo, se tornaram a bíblia dos candidatos republicanos. Oportunismo, sem dúvida – Thompson chegou a brincar, numa entrevista depois do debate, que o ex-presidente devia estar “se remexendo no túmulo” com todas as citações. Não acusando seus colegas de hipocrisia, pelo menos não diretamente, Ron Paul, um pré-candidato menor, mas com apoio significativo na internet, lamentou que o partido republicano não corresponda mais ao velhos ideais, os ideais de Reagan. Afirmou que os republicanos adotaram e praticam constantemente aquilo que eram características negativas dos democratas: política externa intervencionista e inchaço do Estado. Contrário à presença americana no Iraque, Paul lembrou que mais da metade da população quer a volta dos soldados aos EUA, e advertiu que o custo da manutenção de um império vai levar o país a ficar sem caixa para coisas essenciais. Foi vaiado pelo público – um exemplo de como o Grand Old Party, historicamente isolacionista, e que ganhava eleições com plataformas de “acabar com a guerra que os democratas começaram” (Coréia, Vietnã), se transformou.

O debate não foi um “demolition derby”, como classificou o pré-candidato Mike Huckabee, mas demonstrou que os republicanos estão no jogo e não parecem dispostos a nenhuma autocrítica.

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Uma resposta to “Quem é mais conservador? O debate dos republicanos”

  1. Norman Chap Says:

    Eu me pergunto se tantos jornalistas experientes por aí são capazes de resumir o cenário político americano tão bem. Desculpe a bajulação…

    De qualquer forma, fala-se tanto mal dos americanos como ignorantes políticos, mas um debate nesse nível é reflexo de um país altamente politizado. Tanto que outro dia vi um analista na FOX criticando inclusive o fato de que só nos EUA a questão do meio ambiente é uma questão política, já que é ponto pacífico em outros países.

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