A Rússia de Steinbeck e Capa

Logo deixamos de nos sentir abandonados e perdidos. A fim de castigar Joe Newman, decidimos nos instalar no seu quarto. Usamos suas toalhas, seu sabonete e seu papel higiênico. Bebemos seu uísque. Dormimos em seu sofá e em sua cama. Achamos que isto era o mínimo que poderia fazer por nós, para nos compensar o fato de ter nos lançado num estado tão miserável. Por isso, avançamos sobre suas garrafas de uísque escocês. Há que se reconhecer, porém, que na época não tínhamos idéia da enormidade desse crime. Não são pequenas a desonestidade e as tramóias entre os jornalistas americanos em Moscou, mas nunca se ouvira falar de um golpe tão baixo quanto o nosso. Um homem simplesmente não acaba com o uísque alheio.

John Steinbeck, Um Diário Russo, 1947.

Um Diário Russo é tão bom, tãããããão bom, que fiquei triste quando cheguei ao final do livro. Nunca pensei que John Steinbeck pudesse ser tão engraçado. As fotografias que ilustram o livro são de Robert Capa, e não são menos que excelentes. O preço do livro é meio salgado, 89 reais, mas vale cada centavo. A tradução é impecável; a qualidade de impressão das fotos, estupenda; capa dura e tal; além, claro, de ter um dos melhores relatos de viagem que li nos últimos tempos.

Steinbeck, logo depois da Segunda Guerra, na época já um romancista de fama internacional, formou, com o fotógrafo Robert Capa, uma dupla para uma viagem que pretendia mostrar o povo russo sem o viés ideológico que caracterizava a maior parte das obras sobre a Rússia até então publicadas. Se acreditarmos no livro, a idéia surgiu depois que a dupla consumiu uma boa quantidade de álcool num boteco de Nova York. Aliás, essa passagem, logo no início do livro, define o tom do relacionamento entre Steinbeck e Capa ao longo da viagem.

Sarcásticos, mulherengos e bebedores confessos, capazes de festejar inconseqüentemente por dias seguidos e ficarem permanentemente de ressaca, eles encarnam com perfeição o melhor da “decadência ocidental” e tudo aquilo que o comunismo combate. Algumas das melhores passagens do livro descrevem os hábitos pitorescos de Capa, que incluem se trancar no banheiro do hotel por horas, ficar reclamando que suas fotos estão todas uma droga, e afanar os preciosos livros do embaixador americano em Moscou (“Se Capa tivesse tomado emprestado ou roubado a adorável mulher de Gilmore, Tamara, Ed talvez ficasse bastante chocado, mas certamente não ficaria tão irado.”). E Steinbeck possuía um talento tremendo para descrever essas peculiaridades com elegância. A dupla adorava aterrorizar com piadas um dos guias russos (Tchmarski, Tchumarscki, Tchmarxista, ) que os acompanhava – e que tinha um azar tremendo na hora de arranjar aviões, carros e hóteis; Capa e Steinbeck brincavam que ele só podia esconder um diabrete, Krêmlin Gremlin, aquele criatura que sabota tudo -, além de encarar com sarcasmo o discurso anti-decadência de uma outra guia, uma moça toda certinha, que ganhou o apelido de Sweet Lana por causa do seu nome, Svetlana (“(….) fez com que nós, que nunca havíamos nos considerado imorais, nos sentíssemos um tanto depravados”).

Com uma dupla tão afiada, o livro cumpre bem seu objetivo, que é mostrar os russos, ou alguns russos, sem o amor declarado dos esquerdistas ou o ódio por vezes irracional da direita. Não é como a Rússia de fato era, mas uma das visões da Rússia que se poderia ter, se o objetivo fosse retratar com uma honestidade simples. Steinbeck, ao longo do texto, apresenta um povo religioso, trabalhador, que pensa só em trabalhar em paz e que, depois de sofrer tanto com a guerra, deseja somente a paz e reconstruir suas cidades arruinadas. Steinbeck resgata a verdadeira natureza cotidiana da Rússia, não o país definido, então, por um sistema comunista, mas a nação dos antigos czares, das velhas igrejas; o cenário de incontáveis invasões. País continental, a URSS era cheia de contrastes e, embora os autores tenham visitado somente três cidades importantes e alguns vilarejos agrícolas (sempre viajando de ressaca), mostraram de maneira convincente como os ucranianos, georgianos e os russos eram diferentes, mas tendo em comum uma comovente alegria pela vida – considerando que viviam sob uma ditadura violenta e sobreviveram a uma guerra pavorosa. A descrição de um grupo de mulheres que adoravam dançar, e tinham que dançar umas com as outras, porque os homens haviam todos morrido em combate, foi uma das passagens mais emocionantes do livro.

Várias fotos de Capa foram confiscadas pela censura soviética, mas as que sobreviveram e ilustram o livro, completam de maneira esplêndida aquilo que acabamos de ler.

Mas o livro não é só elogios. Perseguições e gulags ficaram de fora, mas é possível entender as conseqüências do comunismo através de várias situações vividas pelos autores. Algumas delas parecem completamente irreais. Num restaurante estatal, no almoço, pedir um bife podia ser uma tarefa que exigia mais de 2 horas do cliente. Um intrincado sistema burocrático, digno de Gógol, exigia que o garçom, após anotar o pedido, consultasse a contabilidade, que, por sua vez, emitia uma autorização que era levada à cozinha, e esta então emitia uma confirmação que era enviada para a contabilidade, e assim por diante. Completamente diferentes do tipo de intelectual que Steinbeck encarnava (beberrão, cínico, inimigo do governo), eram os escritores russos apresentados, os “engenheiros da alma” de Stalin, completamente antenados com as idéias de seu governo. Previsíveis e medíocres, era possível, antes de algum jantar que ofereciam para os visitantes, prever o tipo de pergunta que iam fazer. Uma corrupção aparentemente inocente, que brota como cogumelo em qualquer país comunista, era parte do dia-dia. Ainda não era a época dos subornos e da kleptocracia, mas era possível observar que vários russos usavam carros pertencentes ao Estado como táxis – Capa e Steinbeck chegaram a usar um ônibus como condução particular. Em dado momento, os autores observam como deve ser frustrante para um oficial comunista observar que, depois de combater o capitalismo aqui e ali, ele continua reaparecendo de outra forma.

Steinbeck afirmou, já no final do livro, que Um Diário era uma obra superficial. Mas não há nada de superficial e ingênuo nesse livro extraordinário. Mesmo que essa Rússia já tenha desaparecido há muito tempo, Um Diário Russo sobrevive, e continua sendo uma leitura imperdível.

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