Morte no teto do mundo

Lhakpa pediu que Hutchison deixasse Beck e Yasuko onde estavam. Mesmo que sobrevivessem tempo suficiente para serem arrastados de volta ao acampamento 4, com certeza morreriam antes de poderem ser carregados até o acampamento-base. (…) Foi um clássico ato de triagem.

O trecho acima é do livro No Ar Rarefeito (Into thin air, Cia Das Letras), do jornalista e alpinista Jon Krakauer. Um best-seller de 1996, anterior à Pela Bandeira do Paraíso, o único livro de Krakauer que tinha lido até hoje, No Ar Rarefeito é uma obra triste e reveladora sobre os perigos que vieram com a crescente comercialização das expedições ao Monte Everest, “o teto do mundo”. Krakauer é um dos sobreviventes da catastrófica temporada de escalada de 1996, que terminou com a morte de 12 pessoas – oito delas numa noite – por causa de uma tempestade. Na condição de jornalista convidado por uma expedição comercial – organizada por uma equipe de alpinistas neozelandeses -, Krakauer acompanhou uma equipe de amadores endinheirados, que pagaram até 65 mil dólares para serem colocados no topo, desde o aborrecido e extenuante processo de aclimatação à altitude do Himalaia – o Monte Everest tem 8.844 m, mais alto que a altitude de cruzeiro de um vôo comercial; no topo, o nível de oxigênio é equivalente a 1/3 do nível do mar -, até a lenta subida e a tragédia que se seguiu no retorno, em 10 maio de 1996.

Um apaixonado pelo esporte, Krakauer admite que a empreitada de escalar o Everest é “um ato intrinsecamente irracional – um triunfo do desejo sobre a sensatez”, mas confessa que compartilha dessa mesma irracionalidade. Profissionais e amadores, todos sofrem com a “febre da montanha”, que impele até os mais exaustos e mal preparados a tentar atingir o topo, nem que seja para lá permanecer alguns poucos minutos. George Mallory, o alpinista inglês que morreu em 1924 tentando escalar a montanha – e teve o corpo achado 75 anos depois, perfeitamente conservado -, quando questionado por uma platéia sobre o motivo de escalar o Everest, respondeu de pronto: “Because is there“. Krakauer e seus companheiros não teriam respondido diferente. Entretanto, o homem propõe e Deus dispõe, e a vontade não é suficiente para vencer o Everest e um dos climas mais hostis do mundo.

A expedição era liderada por um alpinista profissional que imaginou ser um negócio lucrativo levar gente rica ao topo, dois auxiliares ocidentais e uma penca de sherpas, uma minoria do Nepal que vive na região há séculos e fatura alguns dólares ajudando como carregadores e guias – e que é adaptada à altitude, mas, ironicamente, durante séculos, os sherpas nem pensaram em subir a montanha, Sagarmatha (rosto do céu), em nepalês. Na galeria de clientes figuravam médicos americanos ricos, um coronel australiano recentemente reformado, uma japonesa quarentona que pretendia com o Everest terminar de escalar todos os “Sete Picos” (os pontos mais altos de cada continente), um funcionário dos correios que economizou para conseguir pagar seu passe e, claro, um jornalista, Krakauer, que foi mais que um mero observador de toda a tragédia. Nas expedições paralelas, que terminaram por engarrafar o trânsito nas passagens estreitas da montanha naquele 10 de maio (mais de 30 pessoas alcançaram o topo naquele dia; não é um lugar com privacidade), a galeria de clientes não era menos diversificada – no livro, rouba a cena uma socialite americana, esposa do fundador da MTV, que, mesmo sendo uma alpinista experiente, levou consigo uma carga totalmente supérflua de iguarias e equipamentos eletrônicos. Havia, ainda, espaço para uma expedição sul-africana sem fins comerciais, liderada por um falsário inglês, e que sofreu com a debandada de seus membros mais experientes.

Escalar o Everest é uma das tarefas mais difíceis e perigosas do mundo. Seria de se esperar que só uma equipe coesa e com pessoas propensas ao trabalho em grupo se arriscasse, mas os membros do grupo de Krakauer só tinham em comum o fato de terem desembolsado uma boa grana e o desejo de chegar ao topo. Não pagaram seus guias por conselhos de sobrevivência, e sim para que estes os colocassem no topo. Curiosamente, no dia 10 maio, a maioria dos que pereceram era formada por guias e sherpas experientes. Boa parte dos pagantes percebeu que o tempo estava piorando e preferiu não arriscar ir ao topo, sendo que alguns deles estavam a meros 100 metros de completar a escalada. No caso, a experiência fez mal, e os profissionais morreram por excesso de autoconfiança.

No percurso de subida, Krakauer descreve uma montanha repleta de tubos de oxigênio vazios e com cadáveres nas encostas, alguns de pessoas que morreram há mais de dez anos. Na descida, novos cadáveres, só que frescos. 203 pessoas morreram em mais de 80 anos de escalada.

Contrastando com a “febre”, o “mal da montanha” garante muitas das páginas mais interessantes do livro. A falta de oxigênio, somada ao frio e à exaustão – e nem os profissionais estão imunes -, levou facilmente todos os membros da expedição a um estado de debilidade mental e motora extremamente chocante. A imagem de alpinistas fortes, vencendo os perigos da montanha, é totalmente irreal perto do retrato que Krakauer pintou de si e de seus companheiros: um pelotão de zumbis, incapaz de completar as tarefas mais simples devido à apoxia (falta de oxigênio no sangue), se arrastando por vezes durante horas para completar distâncias que, em condições normais, seriam percorridas em pouco segundos – este é o retrato da maioria das pessoas que desafiam o Everest. A debilidade motora contribuiu até para uma espécie de “debilidade moral”, visto que a maioria das vítimas não morreu em acidentes, mas foi deixada para morrer. E isso foi em 1996. Quem se interessa pelo assunto deve lembrar de outra tragédia ocorrida no Everest, esta ano passado, quando dezenas de alpinistas passaram por um amador que agonizava e não prestaram qualquer tipo de ajuda. Também no ano passado, o Everest vitimou o experiente alpinista brasileiro Vitor Negrete.

Escrito em um ato de catarse, poucos meses depois da tragédia e de um artigo de revista, No Ar Rarefeito não pretende ser uma lição sobre “o que deu errado naquele dia” – seria só mais uma ferramenta para os inconseqüentes que pretendem se arriscar, prefere remeter à máxima de que “se houve aventura é porque houve incompetência”; também está longe de ser, graças a Deus, um daqueles insuportáveis livros de “desafie seus limites” e que glorificam o sacrifício -, mas um desabafo de um homem que escapou por pouco da morte, não se sente melhor por isso nem consegue superar o que aconteceu naquele 10 de maio.

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2 Respostas to “Morte no teto do mundo”

  1. dan Says:

    nadaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

  2. Danielle Regina Pereire Says:

    Nada A ver!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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