Archive for outubro \25\UTC 2007

A guerra do papel

quinta-feira, outubro 25, 2007

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Dois sujeitos encontram uma utilidade para um tijolaço do Robert Fisk.

Que insanidade, A Grande Guerra pela Civilização tem 1495 páginas, Pobre Nação, 966. É muito papel, mesmo para os padrões da velha ladainha antiamericana.

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Invasores

quinta-feira, outubro 25, 2007


Nicole, você é uma gracinha, mas o seu novo filme é uma porcaria

O negócio de refilmar velhos sucessos é velho, velho mesmo. Ben-Hur de 1959, por exemplo, é a terceira – e melhor versão – da história do judeu que participa da corrida de bigas. Refilmagens como Ben-hur se saíam bem porque tinham gente ousada por trás das câmeras, e também porque não eram meras atualizações de velhos filmes. Fazer uma versão colorida de um velho clássico, como aconteceu com Psicose em 1998, ou reciclar uma sátira de época (To be or not to be, de 1983) que já não tem mais efeito, é sinal que há algo muito errado em Hollywood.

Aliás, a mania de refilmar está cada vez insana. É só digitar “refilmagem” no Google e depois ler que até porcarias como Brinquedo Assassino e Timecop podem ganhar novas versões.

Agora é a vez de Invasion of the Body Snatchers de Don Siegel, 1956, que ganha uma terceira refilmagem. O resultado é o lamentável Invasores (The Invasion, 2007). A história de Invasion of the Body Snatchers era algo nascido para ser perturbador: os humanos sendo substituídos por cópias que nascem de uma espécie de vagem que veio de espaço. Essas cópias, externamente idênticas aos humanos que substituíram, têm uma diferença: não sentem emoções; a sociedade, sem amor, agressividade e tal, acaba ficando pacífica. Coisa de filme B, mas eficaz.

A premissa é ótima, cheia de possibilidades, mas a nova versão – que trocou as vagens por um vírus – só oferece o óbvio, e com a infeliz adição de dispensáveis cenas de ação. (Quem em sã consciência vai levar a sério que o destino da humanidade depende da habilidade de fuga de uma Nicole Kidman dirigindo em desespero?) Toda a tensão dos outros filmes, com os personagens sem entender o que se passa e os vilões agindo de maneira calculista, quase não foi explorada. O filme acaba virando uma correria para se descobrir uma cura para a infecção provocada pelo vírus alienígena. O desenrolar da trama já era sofrível, mas o final consegue enojar até a pessoa mais tolerante com filmes vagabundos.

A direção é do alemão Oliver Hirschbiegel (A Queda – As Últimas Horas de Hitler), mas é difícil saber se a culpa pelo desastre é só dele. Uma produção problemática, Invasores teve um terço das cenas refilmadas pelos irmãos Wachowski, os caras que fizeram aquela abominação que é a série Matrix. Desconfio que o russo caricato, (sotaque de “rrrrrussian preeeesident”, que horror!) que faz um discurso sobre a natureza humana – lembrando o francês de Matrix 2 -, além das já citadas cenas de ação inúteis, sejam coisa deles.
Todas as versões anteriores da história (1956, 1978, 1993) tinham alguma coisa a dizer sobre suas épocas. Fosse sobre guerra fria, ou o fim da revolução sexual, ou paranóia com conspiração militar. Não que isso seja tão importante (o negócio de macarthismo de Siegel, provavelmente é a coisa que menos chamava a atenção em seu filme, se comparado com toda a tensão e o medo dos personagens), mas as atualizações da nova versão não vão além de mostrar Nicole Kidman pesquisando no Google.

Resumindo: Invasores é uma porcaria.

Breves perfis de alguns dos pré-candidatos republicanos

terça-feira, outubro 23, 2007

Não vejo muita graça nos pré-candidatos democratas. Escrever sobre Hillary e Obama? Argh! De qualquer forma, é uma corrida que parece já ter vencedor (ou vencedora): Hillary Clinton. Só mesmo o Partido Republicano parece despertar um pouco de interesse.

Faltaram Ron Paul, o libertário vaiado no debate, e Mike Huckabee, o ex-governador piadista de orelhas grandes. Os dois parecem carta fora do baralho, pelo menos por enquanto, mas, dependendo do desenrolar das prévias, posso escrever algo sobre os dois. Seguem os “quatro grandes”:

Fred Thompson

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Foi senador pelo Tennessee por dois mandatos, trabalhou como lobista em Whashington (1973-74), é formado em direito e, com apenas 30 anos, integrou o comitê do Senado que investigou as sujeiras do governo Nixon, o “Watergate Committee”. Qualquer um que já assistiu Caçada ao Outubro Vermelho e Duro de matar 2, ou acompanha a série de TV Law & Order, conhece Thompson. O New York Times disse, em um artigo de 1996, que Hollywood, quando precisa de alguém que personifique uma figura de autoridade, encontra em Thompson o ator ideal. Começou na carreira de ator quando resolveram fazer um filme sobre um dos casos em que ele havia sido advogado. Foi chamado para ser consultor, mas terminou sendo convidado a interpretar ele mesmo, e gostou. Thompson se declara um conservador e ponto. Mas já advogou para clínicas de aborto e sua posição sobre o assunto muda a cada dois anos. Quer expulsar os imigrantes ilegais, não quer saber de casamento gay e muito menos de controle das armas. Teve uma carreira sonolenta no Senado e é acusado de ser preguiçoso. Começou com intenção de voto de 27%, mas já perdeu oito pontos.

John McCain

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O homem é um herói. Oriundo de uma família com longa tradição militar, durante a Guerra do Vietnã foi piloto da marinha. Teve seu avião abatido e passou cinco anos e meio como prisioneiro de guerra no infame “Hanói Hilton”, onde sofreu tortura e foi obrigado a confessar crimes de guerra. Ficou um pouco transtornado por causa da experiência. Costuma se referir, em público, aos antigos inimigos como “gooks“, um velho termo depreciativo usado pelos soldados americanos no Vietnã.
Votou a favor da invasão do Iraque mas se converteu num de seus mais ferozes críticos – McCain não critica a invasão em si, mas a forma como ela foi feita. Quer que os EUA sejam duros com o Irã. Em abril, quando perguntado sobre qual seria a solução para a crise nuclear, ele começou a cantar “Bomb bomb bomb, bomb bomb Iran”, uma paródia da música dos Beach Boys, Barbara Ann. É um sujeito bem-humorado, e diverte o público de talk shows fazendo piadas sobre sua experiência no Vietnã. Em 1998, fez piada com a filha de Bill Clinton (“Why is Chelsea Clinton so ugly? Because her father is Janet Reno“) e depois pediu e desculpas. Concorreu contra George W. Bush nas primárias de 2000. Perdeu, mas se tornou uma espécie de “reserva moral” do Partido Republicano. É contra o aborto e defende o livre mercado. É light em relação aos imigrantes e é considerado inimigo das associações que defendem o velho “right to bear arms“. Depois de Hillary Clinton, McCain é o pré-candidato mais conhecido pelo eleitorado.

Mitt Romney

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Romney é membro da Church of Jesus Christ of Latter-day Saints, aquela religião que acredita que Jesus Cristo viveu no Mississipi, enquanto tocava banjo. Mórmon praticante, ele não bebe nem fuma, e descende de polígamos que procuraram refúgio no México. Ele é rico, muito rico, e está pagando mais da metade dos custos da sua campanha com grana do próprio bolso. Tem boa aparência. Foi o presidente do comitê organizador das Olímpiadas de Salt Lake City – assumiu depois que a imprensa descobriu que os mórmons do estado subornaram membros do comitê olímpico, com favores que iam de grana a prostitutas. Perdeu para Ted Kennedy numa eleição para o Senado, em 1994. Ganhou o governo de Massachusetts em 2002. Como governador, controlou o déficit público e obrigou os habitantes a escolherem entre um plano de saúde particular ou um aumento de impostos. Já foi a favor do aborto e de legislação que regule a união de pessoas do mesmo sexo. Atualmente renega essas posições e se declara 100% conservador. Votou pela Guerra do Iraque e é a favor da pena de morte. Uma história que circulou na imprensa americana sobre Romney é curiosa. Há alguns anos, quando resolveu viajar com a família, Romney observou que não havia espaço para o cahorro da família no carro. Resolveu, então, amarrar o bicho no teto. O pobre animal viajou assim por 12 horas, com vento e sol na cara. Depois de algumas horas, o cachorro, já enjoado, teve uma crise intestinal e defecou no teto do carro – merda escorrendo em todos os vidros. Romney nem se abalou, parou o carro e foi limpar os vidros num posto de gasolina, o animal continuou lá, amarrado.

Rudolph Giuliani

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No Brasil, deve ser o mais conhecido. Giuliani é o sinônimo de Nova York. Quando prefeito da cidade, reduziu drasticamente o crime, sobretudo por causa da “tolerância zero” com relação ao crime, qualquer tipo de crime, e se livrando dos policiais corruptos. Como promotor público, processou vários chefões da máfia, e ganhou bastante notoriedade. Mostrou uma postura firme durante os atentados de 11 de setembro. É um mulherengo – seus casos fora do casamento já renderam até telefilme. É o mais “soft” de todos os candidatos, tendo posições tolerantes com relação ao aborto e casamento gay, e é favorável a um maior controle sobre a venda de armas. Com a intenção de fazer as comunidades de imigrantes cooperarem com a polícia, quando era prefeito, estabeleceu que Nova York seria uma Sanctuary City, um lugar onde os imigrantes não seriam incomodados sobre o status de ilegais. É líder nas pesquisas, mas ainda assim perderia para Hillary Cilnton. Não demonstra preocupação. No último debate desdenhou as pesquisas e declarou que se elas fossem levadas a sério, Al Gore seria o presidente: “I don’t know, it might be a little colder – I’m not sure. But I’m not sure we’d be any better off, right? We’d be in a lot worse shape, I think, with Al Gore. Thank you, Florida. Thank you. You saved us in 2000. That was a big one.

Ah, sim, a foto… Num jantar beneficente em 1997, Giuliani travestiu-se de Marilyn Monroe e cantou Happy Birthday, Mr. President.

Quem é mais conservador? O debate dos republicanos

segunda-feira, outubro 22, 2007

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Mitt Romney, Fred Thompson e John McCain, três dos oito pré-candidatos republicanos, conversam durante um intervalo do debate.

O estado era a Flórida (cenário da confusão eleitoral de 2000), os organizadores eram jornalistas do canal conservador Fox News (desculpem a redundância), e as perguntas do último debate do Partido Republicano, que aconteceu ontem à noite, incluíram muitas questões internas e pouco Iraque. Os oito pré-candidatos republicanos, deixando de lado que o seu partido ficou na defensiva desde a última eleição legislativa, partiram para o ataque e não mostraram pudor de se declararem conservadores. Eles se declaram conservadores, mas engana-se quem acredita que eles são o que dizem. Os eleitores republicanos presentes no debate, cada vez que aplaudiam alguma declaração conservadora dos candidatos, estavam comprando gato por lebre. É só observar o histórico dos candidatos que realmente importam. São quatro. Com históricos mais ou menos tolerantes em questões que são tabu para o governo Bush. Cada um, a seu modo, é simpático ao casamento gay, faz vista grossa com imigrantes ilegais ou considera a guerra no Iraque e a política externa de Bush um desastre. O vale-tudo neoconservador de Bush, embora ainda consiga gritar (ou vaiar), já não parece mais uma coisa prática. Numa coisa eles concordam com a Casa Branca: eles odeiam os democratas.

Alvo preferido de quase todos os pretendentes à cadeira no Salão Oval, Hillary Clinton, senadora por Nova York e pré-candidata do Partido Democrata e favorita para a nomeação, foi mencionada 27 vezes pelos republicanos, sempre de maneira negativa. Numa delas, John McCain, senador pelo Arizona, criticou o endosso da senadora democrata para a construção de um museu dedicado ao concerto de Woodstock, afirmando: “Sen. Clinton tried to spend $1 million on the Woodstock Concert Museum. Now, my friends, I wasn’t there. I’m sure it was a cultural and pharmaceutical event.”, e justificou sua ausência no concerto citando sua experiência pavorosa como prisioneiro de guerra dos vietnamitas por cinco anos e meio: “I was tied up at the time“. Com a piada, McCain arrancou gargalhadas e foi ovacionado, assim como foram ovacionados todos os pré-candidatos que atiraram pedras em Hillary, com humor ou de maneira sombria. Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York, brincou que a única coisa em comum que ele e a senadora compartilham é o fato de ambos serem torcedores do New York Yankees, mas com a diferença de que ele se tornou fã da equipe enquanto era criado no Brooklyn, a senadora, por sua vez, teria virado fã enquanto criada em… Chicago. Além do suposto oportunismo de Hillary, sua inexperiência em cargos executivos também mereceu repúdio. Mitt Romney, ex-governador de Massachusetts que vem conseguindo destaque para sua candidatura, afirmou: “She hasn’t run a corner store. She hasn’t run a state. She hasn’t run a city. She has never run anything. And the idea that she could learn to be president, you know, as an internship just doesn’t make any sense.”

É provável que, mais que conseguir apoio nas bases republicanas nesse começo de disputa, os ataques a Hillary terminem por fortalecer a pré-candidatura dela no Partido Democrata. E é exatamente isso que os republicanos querem: Hillary conta com altos índices de rejeição entre a maioria dos eleitores americanos e sua figura negativa pode ser mais facilmente atacada na eleição de 2008. Ela personifica todos os clichês liberais (no sentido americano da palavra) que os eleitores republicanos tanto odeiam.

Mas Hillary não foi o único alvo do debate. Enquanto os candidatos com poucas chances tentavam ganhar um pouco de espaço com alguns ataques ou passando alguma mensagem, os “quatro grandes” (McCain, Giuliani, Thompson e Romney) trocaram algumas farpas entre si. Fred Thompson, ex-senador e ator de seriados como Law & Order (um novo Ronald Reagan?), acusou Giuliani de ser um liberal enrustido em questões como casamento gay, aborto, imigração e controle de armas, afirmando que ele não é muito diferente de Hillary Clinton. Giuliani, com seu jeito tipicamente nova-iorquino, seguro com seu favoritismo nas pesquisas (ainda que com margem reduzida), afirmou que sempre foi coerente nessas questões, e aproveitou para atacar a conduta de Thompson no Senado, lembrando que ele foi responsável por travar importantes reformas na Casa. Thompson, cuja candidatura foi incialmente recebida com entusiasmo por muitos eleitores republicanos, não mostrou o mesmo carisma das telas e, aos poucos, vem sendo acusado de fazer corpo mole e parecer fraco – chegou a ser questionado por um dos mediadores da Fox se ele não era um pouco “preguiçoso” (lazy). Romney, um republicano de um estado historicamente democrata, foi alvo constante dos outros candidatos, em especial por propagandear sua solução para o problema da saúde do estado que governou.

A saúde, aliás, foi assunto constante no debate. Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas, afirmou estar preocupado com o impacto do envelhecimento dos Baby Boomers na saúde e os custos de remédios gratuitos: “I just want to remind everybody when all the old hippies find out that they get free drugs, just wait until what that’s going to cost out there.” Romney, ao final, afirmando estar feliz que a questão, uma velha plataforma democrata, ser um tema importante para os republicanos: “But one thing that I’m happy about is that Republicans are talking about health care. This isn’t a Democrat issue. It’s a Republican issue.”

Perdendo para Hillary nas referências, mas ainda assim tendo seu nome evocado constantemente, o falecido Ronald Reagan, agora o que Roosevelt foi para os democratas, foi a figura citada como ideal – Bush, agora um cadáver político, foi citado apenas sete vezes no debate. Menos governo, menos impostos e sua bem-sucedida campanha contra a URSS, os pilares do seu governo, se tornaram a bíblia dos candidatos republicanos. Oportunismo, sem dúvida – Thompson chegou a brincar, numa entrevista depois do debate, que o ex-presidente devia estar “se remexendo no túmulo” com todas as citações. Não acusando seus colegas de hipocrisia, pelo menos não diretamente, Ron Paul, um pré-candidato menor, mas com apoio significativo na internet, lamentou que o partido republicano não corresponda mais ao velhos ideais, os ideais de Reagan. Afirmou que os republicanos adotaram e praticam constantemente aquilo que eram características negativas dos democratas: política externa intervencionista e inchaço do Estado. Contrário à presença americana no Iraque, Paul lembrou que mais da metade da população quer a volta dos soldados aos EUA, e advertiu que o custo da manutenção de um império vai levar o país a ficar sem caixa para coisas essenciais. Foi vaiado pelo público – um exemplo de como o Grand Old Party, historicamente isolacionista, e que ganhava eleições com plataformas de “acabar com a guerra que os democratas começaram” (Coréia, Vietnã), se transformou.

O debate não foi um “demolition derby”, como classificou o pré-candidato Mike Huckabee, mas demonstrou que os republicanos estão no jogo e não parecem dispostos a nenhuma autocrítica.

The End of Kerr

quinta-feira, outubro 18, 2007

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A atriz inglesa Deborah Kerr, que morreu hoje, aos 86 anos, protagonizou um dos beijos mais famosos do cinema. O filme era A um Passo da Eternidade (1953). Kerr interpretava a esposa de um oficial do exército estacionado no Havaí do pré-guerra. Sua personagem tinha sofrido um aborto, agravado por culpa do marido bêbado, e era infeliz até se envolver com um sargento – papel que era de Burt Lancaster, o outro protagonista do beijo. Um bom filme, mas sempre gostei mais de uma das histórias paralelas: a briga do soldado interpretado por Frank Sinatra com o personagem de Ernest Borgnine.

Em outro drama – bem, um dramalhão -, An Affair to Remember (1957), de Leo McCarey, Kerr interpretava a mulher que se apaixona por Cary Grant num cruzeiro; os dois, por estarem noivos de outras pessoas, combinam um encontro no topo do Empire State dali a seis meses, mas a moça sofre um acidente e…

Bom, é praticamente por esses dois papéis que Kerr foi lembrada nos obituários de hoje. São bons papéis, mas Kerr, para mim, é as três Kerrs de The Life and Death of Colonel Blimp. Nesse filme de 1943, ela interpretava três mulheres, em diferentes décadas, sendo duas delas as paixões do herói do filme, Roger Livesey, como Clive Candy. É fácil entender por quê. Kerr estava linda (me lembro até hoje da cor viva de seu cabelo) e engraçadíssima no filme, em especial no papel de Angela “Johnny” Cannon, a última das Kerrs de Candy.

Kerr não é a principal razão de The Life and Death of Colonel Blimp – que recentemente foi restaurado e ganhou uma versão da Criterion Collection em DVD – ser tão bom. A história do filme, a amizade de um general britânico e um militar alemão, já era interessantíssima. Mas Kerr, que só tinha 22 anos à época, era capaz de fazer o público esquecer que uma guerra estava acontecendo fora dos cinemas.

Faraós de toga

quarta-feira, outubro 17, 2007

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Vista de Brasília mostrando os prédios do TST e do STJ: colírio para Niemeyer e os juízes gastadores

O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) anunciou que vai construir uma nova sede em Brasília. Seguindo a paixão do Poder Judiciário por prédios suntuosos, a nova sede vai custar absurdos 498 milhões de reais (!). O arquiteto será Oscar Niemeyer, como sempre. Nosso arquiteto de pirâmides judiciárias também projetou as dispendiosas sedes do TST (R$ 202,9 milhões) e do STJ (170 milhões a preços de 1995, equivalente, com a cotação de hoje, a R$ 306 milhões, segundo o jornal Estado de S. Paulo), ambas instaladas em Brasília.

Uma das histórias sobre a construção de Brasília, na década de 1950, era que o custo da cidade saiu tão caro porque, pela falta de estradas, até mesmo os sacos de cimento tinham que ser transportados de avião. Hoje, o cimento dos prédios vai de caminhão, mas os construtores não economizam nos mármores e granitos dos pisos e revestimentos internos.
Um exemplo é a nova sede de outro tribunal, o TSE, prevista para ficar pronta em 2010. Também de Niemeyer – quem mais? -, o novo prédio do TSE vai custar 335 milhões de reais ao contribuinte – o escritório de Niemeyer cobrou 7 milhões pelo projeto. Um órgão que praticamente só tem serviço em anos eleitorais, o TSE julga inadequadas suas atuais instalações. Alega que o plenário do atual tribunal é muito pequeno “e, em ocasiões importantes, como a diplomação dos presidentes da República, o número de convidados é reduzido”.

Diante dessa farra, o senador Luís Estêvão e o juiz Nicolau, estrelas do escândalo do TRT (outro T…) de São Paulo (R$ 295 milhões), parecem amadores.

Chinas na página 161

sexta-feira, outubro 12, 2007

Não gosto muito de memes de internet desde que fui enganado pelos bonzai kittens, aquela história infame de gatos presos em garrafas.

Mas recebi um meme inofensivo do blog Universo Tangente. O negócio é o seguinte:

1) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2) Abra-o na página 161;
3) Procurar a 5ª frase completa;
4) Postar essa frase em seu blog;
5) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6) Repassar para outros 5 blogs.

O livro mais próximo do computador é Tempos Modernos (como sempre – acho que nunca botei esse livro na estante), do historiador Paul Johnson. O trecho:

O marechal Chang Tsung-chang era o militar em Shangtung e Chu Yu-pu, na área de Pequim – Tientsin.

Tsung e Chu Yu?

Também sobre chineses, gosto mais de um trecho muito bem-humorado de Declínio e queda (estava mais longe do pc), de Evelyn Waugh:

“Eu não tenho problema com negros”, disse Philbrick. “O que eu não suporto são os chinas. Um amigo meu foi assassinado por um china. Horrivelmente degolado, de orelha a orelha.”

“Meu Deus”, disse a governanta dos Clutterbuck; “foi na guerra dos Boxers?”

“Não”, disse Philbrick alegremente. “Foi na noite de sábado passado, em Edgware Road. Podia ter sido qualquer um de nós.”

Brincadeira feita, vou deixar o item seis de lado e não repassar o meme para outros cinco blogs (isto aqui não é a Western Union).

O Cirque du Soleil é um escândalo

terça-feira, outubro 9, 2007


Foto promocional do filme “Freaks”, dirigido por Tod Browning: seu circo valia um ingresso de 400 reais.

Como o governo gosta de desperdiçar nosso dinheiro… Não basta enterrar milhões em filmes de qualidade duvidosa que ninguém quer ver. Agora, em mais um ato de generosidade, resolveu abrir a carteira para um trupe de canadenses que de pobres não têm nada. O Cirque du Soleil, o circo canadense que veio ao Brasil e atualmente está se apresentado em Pinhais – num pavilhão de feira agrícola… -, recebeu 9,4 milhões de reais do seu e do meu dinheiro. A aberração acontece graças à Lei Rouanet, um incentivo criado em 1991, que permite empresas patrocinarem qualquer coisa ligada à cultura com a contrapartida de que abaterão impostos. À la Hermann Göring, tenho vontade de sacar meu revólver quando observo que, além de captarem quase 10 milhões de reais desta república de bananas, a exemplo do que aconteceu no show do Chico Buarque no Guaira – que também contou com a Lei Rouanet -, os saltimbancos canadenses ainda têm a cara-de-pau de cobrarem ingressos que não custam menos de 150 reais – se você for estudante ou quiser ficar no fundão; míopes pagam 300; dependendo do dia, o ingresso pode sair por 400 reais. Bela democratização da cultura essa aí. A intenção original era captar mais de 20 milhões através da lei, mas o Ministério da Cultura, informa um comunicado, numa decisão salomônica, resolveu só liberar metade da grana. Ainda é o suficiente para um escândalo.

Que o Cirque cobre quanto quiser nos seus ingressos, mas o dinheiro público indo para o bolso de canadenses que vão gastar tudo em moose piss e ingressos de hóquei não ajuda em nada a incentivar a criação de coisas genuinamente brasileiras – o que era a intenção original da lei. Não há nada de novo sendo criado em Pinhais ou, em breve, em São Paulo e no Rio.
O Cirque du Soleil é um modelo eficiente de negócio artístico. Uma multinacional de sucesso, com mais de 3 mil empregados e uma marca mais cotada que gigantes como a Apple e a Harley-Davidson, a empresa que administra o Cirque faturou 620 milhões de dólares em 2006. E, segundo um jornal canadense, é proprietária de outros negócios que não têm relação direta com o circo, como cassinos e empresas de tecnologia. A exemplo dos estrondosos sucessos da Broadway, o Cirque é o último negócio artístico que precisa de dinheiro público.

E como os curitibanos ficam deslumbrados…

Assunto de bar na última sexta-feira, os 9,4 milhões dados ao circo também são tema de um post do meu amigo Carlos em seu blog.

Chega, Che!

terça-feira, outubro 9, 2007

Guerrilheiro fracassado, membro de um regime assassino, mais útil morto do que vivo: Che Guevara, que morreu no dia 9 de outubro de 1967, há 40 anos.

Ridículo como boa parte da imprensa embarca na onda de comemorações, apenas arriscando no comentário de que “seu legado é polêmico”.

Que polêmica? O homem era um facínora e ponto. Mas o.k., não é novidade que Guevara ou os cubanos sempre receberam tratamento condescendente por parte da imprensa. Esse tratamento, aliás, é parte da cegueira que ajuda a perpetuar o mito e esconder os fracassos do homem Che. Como explicou o próprio guerrilheiro, depois da tomada do poder pelos comunistas em Cuba: “A presença de um jornalista estrangeiro, americano de preferência, era mais importante para nós do que qualquer vitória militar.”

Existem ainda as camisetas que já se tornaram clichê, filmes e documentários que perpetuam a imagem do eterno romântico latino-americano, o apoio cubano e de europeus deslumbrados com o “bom selvagem” – tudo isso mantém a mentira intacta.

Obs: vários jornais e blogs publicaram galerias com fotos do guerrilheiro – e dá-lhe Alberto Korda -, mas Canaca recomenda as ótimas camisetas – à venda num site americano – com estampas pouco ortodoxas da imagem de Che.

Mais em ThoseShirts.com

Essas pesquisas…

terça-feira, outubro 9, 2007

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Enquete no site do jornal Folha do Batel