Tintin na fogueira

A polêmica é velha e chata, mas a novela Tintin no Congo (Tintin, sim, não TintiM das traduções brasileiras) ganhou mais um capítulo. Para quem não se lembra, em julho, uma rede de livrarias britânica decidiu, depois de muita gritaria, tirar seus exemplares de Tintin no Congo da seção juvenil e colocá-los na seção adulta, deixando-os mais longe dos olhos sensíveis das pobres crianças. No mesmo mês, um estudante congolês residente em Bruxelas pediu que o álbum (bande dessinée, ou B.D.) fosse retirado do mercado. Agora, quando as coisas pareciam se acalmar – afinal, o centenário do belga Hergé, o “pai” de Tintin, já passou -, uma daquelas organizações de combate ao racismo, e que se declara “amiga de todos os povos”, pediu à Casterman, a editora responsável, que coloque alguns avisos advertindo que tudo que está nos quadrinhos é muito errado e degradante.

O que faz essa gente pedir a cabeça de Tintin? Racismo. O suposto racismo em cada quadrinho que descreve o Congo. É engraçado querer combater a injustiça provocada pelo colonialismo numa publicação inocente como Tintin, mas não surpreende. Volta e meia aparece alguém reclamando que este ou aquele conteúdo está impregnado de material racista e que, depois de engolirem o material, seus leitores não serão outra coisa do que praticantes de “hate crimes“. Isso sem contar as pobres crianças que se sentem ofendidas e, agitando os bracinhos, choram ao constatar que Hergé as detesta. “Acabemos com o racismo e protejamos nossas crianças!”
Tintin, como boa parte das bandes dessinées belgas e francesas, fez parte da minha infância. Ainda acho o personagem e suas histórias divertidíssimas. Estava relendo Tintin no Congo outro dia. Nunca tinha feito uma “análise” do álbum antes (e pensar que existe gente que leva Para ler o Pato Donald a sério), mas, além de concluir novamente que se trata de um dos títulos mais fracos da série Tintin (foi o segundo lançado por Hergé), tudo que consegui enxergar foi uma visão um tanto paternalista com relação à África. E isso, enxerguei com esforço. Só gente chata deve achar que essa é a essência da história. Vejamos, todos os vilões da história são brancos (a não ser que a patrulha acredite que é racismo não ter vilões negros. “Como assim? Não somos capazes de cometer maldades?”). Além disso, Tintin desmantela uma quadrilha que pretendia se dar bem à custa dos nativos. Há o padre que evangeliza crianças e os nativos ignorantes que falam francês mal à beça, mas, ora, não era essa a realidade colonial? Quanto a um leopardo invadindo uma sala de aula e bichos por toda parte, é parte daquela visão que tem mais a ver com ignorância e vontade de retratar de forma simpática países supostamente exóticos. Numa versão “real” das coisas, o Michael Caine com um papagaio no ombro, em plena praia de Copacabana, do filme Feitiço do Rio, seria substituído por um Michael Caine roubado no arrastão e queimado no “microondas”. Tintin, se fosse ao Congo hoje, estaria no meio de uma guerra civil que deixou milhões de mortos e trocando uma idéia com todos os genocidaires hutus que encontraram refúgio no país, depois de fugirem de Ruanda.

O estudante que pediu fogueira para Tintin no Congo me lembrou o bombeiro-chefe de Farenheit 451. Num trecho, o “bombeiro”, responsável por queimar livros de um mundo em que eles haviam sido banidos, explica para um subordinado a razão do seu trabalho, tomando como exemplo autores e livros que perturbam a paz das pessoas: “Nietzsche deve ser queimado porque os judeus o odiavam. Robinson Crusoé, porque os negros detestavam o personagem Sexta-Feira.”

Brincadeiras à parte, Tintin no Congo é um recordista de vendas no antigo Zaire. Sentimento de inferioridade? Pouco provável. Um jornal belga informa que os congoleses se divertem bastante com a visão ignorante que os europeus tinham (e talvez ainda tenham) do país, e que foi imortalizada por Hergé. No caso, com justiça, os brancos são a piada.

Obs: Tintin no Congo poderia mais facilmente ser acusado pelos ecologistas. Na história, Tintin, por exemplo, explode um rinoceronte com dinamite; expulsa a pontapés um leopardo de uma sala de aula; atira várias vezes num antílope que insiste em não cair, para em seguida constatar que matou uma dezena deles. Macacos e Leões também levam bala. É para ser engraçado. Consegue, e muito.

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2 Respostas to “Tintin na fogueira”

  1. Norman Chap Says:

    Realmente uma das coisas que mais ficam do Tin-Tin (eu assistia o desenho animado, não o gibi) é que os vilões eram sempre brancos gananciosos em terras exóticas. Lembro dos olhares malvados deles. Eu achava até meio assustador porque as sobrancelhas estavam sempre franzidas enquanto sorriam. Acho que no Mickey isso também acontecia. Não existe a banalidade do mal em desenhos!

  2. Jean-Philip Albert Struck Says:

    Norman, o teclado mais rápido da comunidade virtual, não perdoa: comenta o post poucos minutos depois de publicado.

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