O mito napoleônico e o século XX

Poucas pessoas causaram maior impacto na História do que Napoleão Bonaparte. Por causa dele podemos refutar a crença dos deterministas de que os acontecimentos são governados por forças, classes, economia e geografia, e não pelas vontades poderosas de homens e mulheres. Embora tenha exercido o poder somente durante uma década e meia, seu impacto sobre o futuro durou até o final do século XX, quase 200 anos após sua morte. Na verdade, sua influência talvez não tenha ainda desaparecido.

Diferentemente da maioria dos tiranos que provocaram guerras, Napoleão foi e ainda é uma figura cultuada. Pode-se afirmar que a História foi generosa com ele. Ou melhor, que historiadores e biógrafos foram generosos. E estes produziram uma bibliografia imensa sobre o imperador – é provável que ele tenha sido uma das figuras históricas sobre quem mais se escreveu. Em 2003, aqui em Curitiba, um sebo da Emiliano Perneta pôs à venda uma biblioteca que chamava a atenção pela quantidade imensa de livros sobre assuntos napoleônicos. Imensa mesmo, eram centenas de livros – a maioria belíssima – que foram acumulados por um apaixonado pelo assunto. Sua família não devia compartilhar a mesma paixão, e, depois do seu falecimento, pôs o valioso acervo à venda. Mas a pergunta é: por que um estadista que morreu há quase 200 anos ainda desperta tanto interesse? Na Europa e, claro, na França, ele ainda provoca discussões apaixonadas. Não é raro o canal francófono TV5 transmitir algum programa que aborde o legado do homem que assombrou a Europa e a transformou para sempre. Na França, episódios sobre sua vida, especialmente os simbólicos, como a batalha de bolas de neve da sua infância, são matéria escolar e estão fixados no imaginário. Muitas ruas e pontes de Paris homenageiam seus marechais e as batalhas que venceu. Napoleão está por toda parte.

Visitei Napoleão em 1994, ou melhor, seu túmulo no L´hôtel national des Invalides. Uma construção impressionante – passeio obrigatório em Paris -, o sepulcro-memorial inspira respeito e assombra. Visitar o túmulo é participar do mito napoleônico.

E é precisamente esse mito que o historiador inglês Paul Johnson pretende demolir no seu breve mas eficiente Napoleão (Ed. Objetiva, 212 páginas). Antes, é útil resumir aqui quem é Paul Johnson. Trata-se de um conservador, católico, monarquista, um escritor prolífico, com obras que abordam assuntos tão diferentes como genocídio e moda, sociedade egípcia e arte moderna. Um provocador profissional: considera Ronald Reagan um herói, despreza todas as utopias redentoras e classificou o século XX como “a Idade da Infâmia”. É o homem ideal para demolir um mito tão querido e que desperta tanto a imaginação.

Para Johnson, Bonaparte (o sobrenome de Napoleão, usado por ele antes de sagrar-se imperador, e que Johnson preferiu usar ao longo do livro) foi um oportunista mau, que aproveitou a confusão gerada pela Revolução Francesa (1789) para satisfazer a própria ambição. Um ponto de partida para todos os ditadores e regimes totalitários que tornariam o século XX uma era marcada pelo derramamento de sangue e opressão.

Nada indicava que Bonaparte, nascido na pequena e pouco francesa ilha da Córsega, em 1769, de família italiana – um estrangeiro, enfim – pudesse um dia comandar a maior potência daquele tempo. (É curioso que, tal como Bonaparte, dois dos maiores tiranos do século XX, Hitler e Stalin eram estrangeiros nos países que comandaram – Stalin era da Geórgia, Hitler, da Áustria.) Aqui, refutando o determinismo, o gênio pessoal fez a diferença: Bonaparte veio de uma família financeiramente arruinada, mas pertencia à pequena nobreza; se salvou porque era um estudioso brilhante da guerra e, quando na Revolução Francesa o país guerreou com meio mundo, somado a bons contatos com membros do Diretório francês (antes ele fora próximo dos jacobinos e seu Terror), ele começou a fabricar sua lenda. Primeiro foi em Toulon, como jovem oficial, quando expulsou os ingleses que ocupavam a cidade, depois em Dego, e, anos depois do Terror, jogou a pá de cal na Revolução Francesa, quando massacrou uma turba de descontentes que protestavam em Paris, no 13 vendemiário (pelo calendário da revolução, em 1795). Ele tinha 27 anos. Essas batalhas mostraram como se podia fazer uso eficiente da artilharia (é, usou artilharia na cidade), instrumento que usaria com maestria. Na campanha da Itália (1796), a artilharia, somada a um sofisticado sistema de comunicações, mapas precisos (devia isso ao seu chefe de estado-maior, Bertier), rapidez nos transportes e tropas animadas com a promessa de recompensas (butim de guerra), garantiu o êxito da campanha. Os saques que aconteceram na campanha eram um prenúncio do que iria acontecer nos anos seguintes. Animado, Bonaparte resolveu lançar suas tropas contra o Egito (então parte do Império Otomano), mas antes tinha que financiar a expedição. Os suíços pagaram a conta, contra sua vontade, quando Bonaparte invadiu o pequeno país e limpou todos os cofres bancários, não antes de promover uma série de massacres. Com os bolsos cheios, ele partiu para o Egito (1797). Venceu brilhantemente uma série de batalhas mas acabou fracassando no final, especialmente porque não deu a devida atenção ao poder naval. Abandonou seu exército – como faria na Rússia depois – e foi combater em solo europeu, pois a França estava novamente ameaçada. Venceu. Aos poucos, foi se tornando a figura mais importante do governo francês, o que culminaria no coroamento como imperador.

Curiosamente, esse pode ser considerado seu canto do cisne. Antes de coroar-se imperador, Bonaparte, na figura de general e cônsul, mesmo com os massacres, era admirado por toda aquela Europa ansiosa por libertar-se do Antigo Regime. Não foi para ele que Beethoven dedicou Sinfonia n° 3? Não foi ele quem trouxe tesouros maravilhosos do Egito, despertando assim o interesse do público pelo Mundo Antigo? Johnson mostra que, como imperador e depois de subjugar a maior parte da Europa, Bonaparte aproveitou para reforçar todas as inovações deprimentes que a Revolução Francesa trouxe: espionagem, estado centralizado, repressão, censura, propaganda oficial e endeusamento da força como agente transformador. Tudo isso com um poder nas mãos que nenhum dirigente do Velho Regime jamais sonhou ter. A escravidão, que havia sido abolida pela revolução, voltou. Uma classe militar passou a dominar a França. Ter acesso à Grand Armée era participar do butim coletado em todos os velhos reinos da Europa. Bonaparte impôs vários membros da sua família como soberanos de estados fantoches que criou. Reorganizou a Europa para que esta pagasse tributos à França. Não deixou a França melhor. Muito pelo contrário, gerou tanto ódio que uma enorme coalizão se formou e acabou por derrotá-lo. Lutou como um bravo, é verdade, mas, depois de 10 anos como imperador, sua figura já não inspirava a mesma força. Cansados da guerra, os próprios franceses terminariam por abandoná-lo.

O saldo napoleônico está estimado em seis milhões de mortes. Para a França sobrou o papel de potência de segunda classe, o isolamento nos anos seguintes e a juventude que desapareceu nos campos de batalha. O saldo positivo ficou para seus inimigos. Indiretamente, Bonaparte acabou por fazer nascer um novo nacionalismo alemão, inspirado no francês. Reorganizada secretamente durante os anos de ocupação pelo exército francês, a Prússia emergiria como a maior potência continental, passando a ameaçar ainda mais a França. Vendendo o imenso território da Louisiana aos EUA por uma bagatela, Bonaparte acabou dando mais condições para que a nova nação se tornasse a maior potência do planeta. Até a invasão de Portugal pela França acabou provocando outra coisa não prevista: com a fuga da família real portuguesa ao Brasil, a colônia acabou tendo um destino diferente e melhor. Ainda durante a ressaca napoleônica, os velhos soberanos europeus reorganizaram o continente com base nas linhas anteriores à Revolução Francesa. Não era democrático: reis redesenhando o mapa, o tipo de coisa que despertaria o ódio de um marxista. Mas foi algo brilhante, garantindo uma certa paz e estabilidade na Europa por 100 anos.

Tudo isso responde o interesse que ele provoca, e por que ele foi e continua a ser um modelo para todos os ditadores que iriam aterrorizar o século XX. Mas por que ele, depois de toda essa tragédia, continua ainda sendo admirado?

Para os franceses, a razão é óbvia: Bonaparte lembra uma época em que a França dominava e influenciava (ah! a “missão” francesa) o mundo. E também porque, apesar de tudo, Bonaparte é um personagem fascinante com histórias não menos – um grupo de franceses é capaz de discutir durante horas sobre o relacionamento de Bonaparte e Josephine, sua primeira mulher. Para os outros, inspirados pela eficiente máquina de propaganda napoleônica, tão bem exemplificada nos magníficos retratos feitos por Antoine-Jean Gros e Jacques-Louis David, nas obras literárias de Stendhal e Victor Hugo, resta o exemplo do homem resoluto que parece maior que a vida.

Extirpar esse mito e compreender melhor o legado de Bonaparte é revelar como ele influenciou tão mal o século XX.

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16 Respostas to “O mito napoleônico e o século XX”

  1. Norman Chap Says:

    Não tinha me dado conta desse legado malévolo de Napoleão. Parece óbvio agora. Très interessant.

  2. Vicky Says:

    Que mito q nada mané mito oq sô,tenho mais oq fazê

  3. Vicky Says:

    detestei

  4. Jean-Philip Albert Struck Says:

    Algum professor mandou a garotada fazer um trabalho sobre “Napoleão” e “mito”?

  5. lucas Says:

    gente quantos Napoleoes existiram na epoca dele e quem tinha mais interesse no legado dele?Valeu

  6. Jean-Philip Albert Struck Says:

    Não entendi o que você quis dizer com “outros Napoleões” – parece título de livro com Sherlock Holmes. Imitadores (tanto políticos como casos de hospício) existiram vários; mas em épocas posteriores. Existem várias pessoas que têm interesse em promover seu legado, mas, sem dúvida, o Estado francês é a entidade mais interessada. Napoleão é sinônimo de grandeza e de uma época em que a França era poderosa. Abraço.

  7. camila Says:

    parabens isso ajudou muito em minha pésquisa para a escola muito obrigada.
    BAY ATÉ +!!!!!!!!

  8. Rodrigo Says:

    A França (povo) sempre foi intolerânte com alguma situação que parecesse durar por muito tempo. Insatisfeitos com Luiz XVI, derrubam-no
    com a Revolução Francesa na batalha dos gerondinos e jacobinos. Os Jacobinos conquistam a França, mas esqueçem os verdadeiros ideais da revolução e centralizam todo o poder, e por 10 anos essa situação se arrastou e em meia a isso tudo o grande jacobino Maximilien Robespierre acaba sendo execultado, bem como Luiz XVI. Até que surge aquele que acabaria com todos esses problemas e de fato o fez, Napoleão. Mas, assim como aqueles que tentaram se estabilizar no poder da França, também não passou muito de 10 anos porque ao longo de seu poder frente o país foi perdendo a simpatia inicial comquistada pelas grandes conquistas. A frase perfeita de Napoleão cabe perfeitamente nesse contexto: “Não tenhais, sobretudo, medo do povo, ele é mais conservador do que vós”.(Napoleão Bonaparte)

    Para a França valia o “seja bom enquanto dure”.

  9. antonio carlos Says:

    são poucas as pessoas que apreciam a cultura e a história,e piór,querem desvalorisar os que se dedicam a elas,parabens pelo seu trabalho.

  10. vitor Says:

    pow eu li isso mais eu fico interessado com as minas aeee so me add no orkut

    vitor sao paulo !!!!!!

  11. nanoninja Says:

    aff !! isso pra é pra descutii sobre o texto e não pra quere miguezá não !!
    ¬¬’

    (obs: n flei isso querendo maltrata ngm n, pq is´so é site de estudo e saber historias e não de paquera ;@

  12. Vitória Pereira Figueiredo Says:

    Aprofunde-se mais em seu trabalho, busque pela verdadeira cultura, vida cotidiana, objetivos sobre o que foi ter sido o verdadeiro Napoleão Bonaparte, seje mais cultural, envertigadora; profissional, olcutar, ou melhor Elite. Pois saber é PODER! e tempo é CONHECIMENTO! no entanto não ocupe-me com questões incredúlas, ou melhor, sem contextualizarção. De: Vitoria P. Figueiredo.

  13. daniele Says:

    adorei so que acho que vc tem que colocar em suas pesquisas argumentos que eixa isso mais claro. bjos valew

  14. KAREM Says:

    AMEI,AMEI,AMEI.

  15. bruno Says:

    parabens isso ajudou muito em minha pésquisa para a escola muito obrigado!
    tomei nota10

  16. nanda Says:

    valeu!!!!

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