18 de setembro, a Escolinha do Requião

Curiosidade mórbida. Tempo livre. Terça-feira de manhã fui assistir a um dos encontros da “escolinha” do Requião, ou Escola de Governo (o nome oficial não totalmente livre de ironias), no auditório do Museu Oscar Niemeyer. A arquitetura autoritária do primeiro e último arquiteto stalinista combina bem com o encontro semanal promovido pelo governador. Stalinista é mesmo o termo exato: toda vez que Requião humilhava deliberadamente alguém (alguém menos importante que ele, claro), não consegui deixar de lembrar de Robert Duvall interpretando Stalin no telefilme da HBO. “Admita que ele [Bukharin] nomeou a raposa Grisha por sua causa, Kamenev. Admita!” O caso mais constrangedor aconteceu com um prefeito do interior que veio ao encontro agradecer uma verba liberada pelo governo. Requião, longe de se sensibilizar com os agradecimentos, começou a questionar o prefeito sobre o meio expediente praticado por algumas prefeituras. Não adiantou o prefeito explicar que não aplicava meio expediente. “A sopa que vocês beberam estava envenenada”, brincou Stalin para seus convidados.

Apesar de Requião ter desempenhado com graça seu velho papel, não foi um dia de muitas emoções. Algumas observações:

No encontro, Requião, vestido com sua inconfundível jaqueta de couro, tem um lugar marcado na primeira fileira. Ao lado senta o desgastado e cansado Rafael Greca. Atrás dele (e de Requião) está sentado o deputado Carlos Simões, que, pelo que me contaram, dispõe de um funcionário que toda semana chega bem cedo, lá pelas 7 horas, guarda o lugar atrás de Requião por um par de horas e, pouco antes da escolinha começar, se levanta e cede a cadeira para Simões, que acaba de chegar. Tudo para ficar perto do governador.

A casa está cheia, a maior parte dos presentes é composta por funcionários do Detran e presidentes de grêmios estudantis de escolas do interior (alguns deles, usando uniforme, parecem velhos demais até para a faculdade). Sem surpresa, é possível observar que uma espécie de fã-clube – ainda que pouco numeroso – do governador bate ponto ali. Um bando de velhos, que devem alternar a escolinha com o café da Boca, se exulta a cada manifestação de ódio de Requião contra o Ministério Público, nova adição à lista de alvos do governador depois do pedágio e soja transgênica. “É isso aí”, “Vai lá, Requião”, eles falam alto, depois que o governador anuncia que vai rever as aposentadorias e salários pagos aos promotores, muito altos em sua opinião (na opinião do governador que tem o maior salário de todos os 27 que existem no Brasil). Ah sim, o MP é aquele órgão chato que mandou Requião se livrar de toda a parentada que ocupa cargos no governo, reforçar o policiamento e olhar com carinho a situação da saúde em Ponta Grossa.

Pouco assunto e muitas coisas desagradáveis que não podem ser citadas – jantar de família burguesa. Requião justifica a medida (atenção, público, a moça do cerimonial está mandando aplaudir) como o primeiro passo para acabar com a “anarquia que se instaurou”(?). Clap, clap, clap. Prossegue com um fascismo barato: “os membros do MP não foram eleitos por ninguém”.

Pouco assunto e muito rancor dão lugar a uma apresentação interminável de um grupo de crianças sobre a Semana Nacional de Trânsito. (Certo, reclamar de peça infantil é o cúmulo do mau humor.) Pelo menos é irônico que Requião assista a uma peça teatral que denuncia a impunidade no trânsito. Trocando o papel do filho irresponsável que pega as chaves do carro do pai (“esse é meu filhão!”) por um sobrinho, aí sim estaríamos vendo algo bem interessante. O teatro acaba e dá lugar a uma apresentação em PowerPoint do diretor-geral do Detran, David Antônio Pancotti. Dinheiro economizado aqui e ali, o diretor cita um contrato de informática cancelado. “O nome da empresa?”, pergunta Requião. “Montreal”, responde imediatamente o diretor. Teatro. Requião conhece bem o assunto, e aproveita para corrigir a pronúncia, “Mônréal“, deixando assim… mais francesa.

Lá fora, num gramado, um pouco distante dos correligionários que aproveitam a exibição de um vídeo maçante sobre o trânsito para escapulir e fumar um cigarro, um velho segura uma bíblia e grita uma série de ofensas que incluem “assassino” e “ladrão” contra o governador. Grita tanto, mas tanto – já que todo mundo finge ignorar -, que começa a ficar sem voz. “Olha só, até perdeu a voz”, observa à distância, com sorriso de deboche, um sujeito obeso vestido à moda casual-governamental (jaqueta, sempre, e nenhuma gravata). Me contam que o velho está lá toda semana, gritando. O vídeo continua. Rappers cantam e dançam para ensinar alguma coisa sobre “respeitar o outro” no trânsito. Penso que deve existir uma categoria profissional desses cantores que se dedicam somente a participar de vídeos institucionais. Que carreira…

O diretor do Detran faz uma pequena confusão com alguns números apresentados na tela e Requião o repreende. O fã-clube sentado atrás de mim não esconde a satisfação de ver o governador achincalhando alguém: “Quis se exibir, né? Tem que fazer curso de orçamento”, os velhos falam bem alto, para se fazerem ouvir. O dinheiro economizado faz Requião atirar mais uma farpa contra o MP. “Onde estava o MP quando esses absurdos [terceirização de serviços do Detran] aconteciam?” E, com populismo barato, completa: “Vamos usar o dinheiro devolvido pelos promotores para colocar mais policiais nas ruas”.

A moça do cerimonial anuncia que a escolinha está chegando ao fim, Requião não presta atenção e conversa com Greca. Ela repete a frase novamente, com um sorriso amarelo, indisfarçável, já que, graças às câmeras de TV, seu rosto está sendo projetado na imensa tela do palco. Mas desta vez o governador presta atenção e acena que, tudo bem, pode encerrar.

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4 Respostas to “18 de setembro, a Escolinha do Requião”

  1. Carlos Says:

    Hahah..ótimo texto Jean. Parcial como sempre e com a sagacidade cada vez mais afiada. Além dos belos comentários sarcásticos. Dentre elas destaco “alguns deles, usando uniforme, parecem velhos demais até para a faculdade”. Parabéns.

  2. Norman Chap Says:

    Se em vez de um estado isso fosse um país estaríamos pior que os venezuelanos. Felizmente também não temos petróleo por aqui.

  3. zero Says:

    imagina se o requião virar presidente! a escolinha em escala nacional deixaria hugo chávez com inveja.

  4. Jeferson Says:

    cara.. muito legal o texto.. descrições sarcásticas… sempre quis ir na escolinha e escrever o lado gonzo daquele teatro! parabéns

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