Dines, o Estadão e a Piauí

“(…) e confirma o que este observador denúncia há uma década: quem manda no Estadão é a Opus Dei na pessoa do “inabalável cavalheiro” Carlos Alberto Di Franco, “que dá aulas e escreve sobre ética no jornalismo”. E mais não precisa ser dito.”

O trecho acima foi escrito pelo jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, e comenta a enorme – e excelente – matéria do ex-diretor de redação do jornal O Estado de S. Paulo, Sandro Vaia, na revista Piauí de setembro. Fiquei um tanto confuso com a conclusão de Dines. Em nenhum momento a matéria, um relato impressionante da reforma editorial e gráfica e de alguns acontecimentos marcantes dos últimos anos no jornal (notadamente o caso Pimenta Neves), afirma que a Opus Dei “manda no Estadão”. Cita a organização apenas duas vezes: quando fala de um designer espanhol que pediu as contas da Universidade de Navarra (pertencente à Opus Dei) e que a escolha do novo diretor de redação ficou a cargo do professor de jornalismo Carlos Alberto di Franco, membro da Opus Dei. A saída do tal designer não tinha relação com o jornal e o sucessor escolhido por di Franco até recebeu elogios de Vaia. Nada de mais então. O texto de Vaia já está repleto de informações incomuns que podem causar desconforto no jornal, não faria sentido ocultar a influência da Opus Dei. A linha do jornal é, isto sim é explicitado no texto, conservadora, mas no sentido clássico, o que é claro para qualquer um que leia o jornal regularmente. Para o autor do texto, o sr. Ruy Mesquita não quer saber de ler opiniões de Chomsky ou Gore Vidal no seu jornal e fica profundamente chateado com as críticas freqüentes que o presidente americano, George Bush, recebe – e isso não tem necessariamente a ver com a Opus Dei. E o tal conservadorismo do jornal às vezes se retrai um pouco, por questões de mercado, mesmo que timidamente – como fica claro na reforma que o jornal sofreu, dando espaço para temas mais leves e outros pontos de vista. E se existe temor, não é com a mistura de uma filosofia religiosa com jornalismo, mas, como é afirmado no final do texto, com uma possível “murdoquização” do jornal: que os donos, a família Mesquita, passem o jornal para frente e ele venha a cair na mão de um tubarão da imprensa como Rupert Murdoch.

Havia tanto a comentar – as brigas familiares, as dinâmicas absurdas de uma empresa especializada em reestruturação financeira, os antigos textos sonolentos do jornal -, é uma pena que Dines tenha levantado uma questão tão estúpida. Nada de Opus Dei, o que ficou do texto é um centenário jornal familiar com problemas financeiros e, arrisco dizer, existenciais na nova realidade de jornais impressos em crise.

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