Archive for setembro \30\UTC 2007

A pouco discreta briga da burguesia

domingo, setembro 30, 2007

Anteontem de madrugada, briga de playboys que saíam de uma festa numa mansão em frente de casa. “Você baixou na minha mulher, seu filho da puta!”, “Eu luto muay thai” (ah… é assim que se escreve…). Não adiantou ir até a janela reclamar do barulho (5 h30 da manhã!). Nem terminei a frase “Seus burgueses! Chega dessa merda, já chamei a polícia!”, completamente ignorada pelos arruaceiros, e a sessão de empurra-empurra e troca de gentilezas recomeçou. Os Curitiba´s finest não tardaram a chegar.

Infelizmente, quando a viatura chegou, a briga tinha “dado um tempo”, e os policiais nem pararam. A pancadaria (por que as melhores manchetes são sempre com “terminou em pancadaria”?) de verdade começou depois: fiquei com pena do baixinho que apanhou de um monte de armários por ter cobiçado a mulher do próximo. Não era muay thai, mas foi uma cena deprimente, como qualquer briga.

O personagem de Burt Lancaster em Sweet Smell of Success, J.J. Hunsecker, um colunista social de Nova York que tinha tara pela irmã mais nova, olhava para uma briga dessas e adorava: “I love this dirty town”, dizia numa cena famosa do filme.

Burt, seu degenerado…

Por que o MST perde tempo invadindo laboratórios de manipulação genética? Tanta festa de bacanas dando sopa por aí…

Nazistas vistos do céu

quinta-feira, setembro 27, 2007

A realidade é sempre mais curiosa ou absurda que qualquer ficção. A notícia da BBC, que um prédio miliitar nos EUA vai ser reformado porque lembra uma suástica, não deixa por menos. Graças ao Google Earth, a polêmica foi lançada. Coincidência, informou o comando da base sobre o formato. De qualquer forma, US$ 600 mil vão deixar a instalação de cara nova.

Em 2000, na Alemanha, a suástica foi causa de protestos quando a Reuters mostrou que numa floresta não muito longe de Berlim, toda primavera, árvores (“n° 1 , the larch”) com folhas mais claras formavam o símbolo nazista. Tinham sido plantadas por um admirador do regime, em 1937, sobreviveram ao período comunista e acabaram sendo derrubadas depois da matéria da Reuters.

Tintin na fogueira

quarta-feira, setembro 26, 2007

A polêmica é velha e chata, mas a novela Tintin no Congo (Tintin, sim, não TintiM das traduções brasileiras) ganhou mais um capítulo. Para quem não se lembra, em julho, uma rede de livrarias britânica decidiu, depois de muita gritaria, tirar seus exemplares de Tintin no Congo da seção juvenil e colocá-los na seção adulta, deixando-os mais longe dos olhos sensíveis das pobres crianças. No mesmo mês, um estudante congolês residente em Bruxelas pediu que o álbum (bande dessinée, ou B.D.) fosse retirado do mercado. Agora, quando as coisas pareciam se acalmar – afinal, o centenário do belga Hergé, o “pai” de Tintin, já passou -, uma daquelas organizações de combate ao racismo, e que se declara “amiga de todos os povos”, pediu à Casterman, a editora responsável, que coloque alguns avisos advertindo que tudo que está nos quadrinhos é muito errado e degradante.

O que faz essa gente pedir a cabeça de Tintin? Racismo. O suposto racismo em cada quadrinho que descreve o Congo. É engraçado querer combater a injustiça provocada pelo colonialismo numa publicação inocente como Tintin, mas não surpreende. Volta e meia aparece alguém reclamando que este ou aquele conteúdo está impregnado de material racista e que, depois de engolirem o material, seus leitores não serão outra coisa do que praticantes de “hate crimes“. Isso sem contar as pobres crianças que se sentem ofendidas e, agitando os bracinhos, choram ao constatar que Hergé as detesta. “Acabemos com o racismo e protejamos nossas crianças!”
Tintin, como boa parte das bandes dessinées belgas e francesas, fez parte da minha infância. Ainda acho o personagem e suas histórias divertidíssimas. Estava relendo Tintin no Congo outro dia. Nunca tinha feito uma “análise” do álbum antes (e pensar que existe gente que leva Para ler o Pato Donald a sério), mas, além de concluir novamente que se trata de um dos títulos mais fracos da série Tintin (foi o segundo lançado por Hergé), tudo que consegui enxergar foi uma visão um tanto paternalista com relação à África. E isso, enxerguei com esforço. Só gente chata deve achar que essa é a essência da história. Vejamos, todos os vilões da história são brancos (a não ser que a patrulha acredite que é racismo não ter vilões negros. “Como assim? Não somos capazes de cometer maldades?”). Além disso, Tintin desmantela uma quadrilha que pretendia se dar bem à custa dos nativos. Há o padre que evangeliza crianças e os nativos ignorantes que falam francês mal à beça, mas, ora, não era essa a realidade colonial? Quanto a um leopardo invadindo uma sala de aula e bichos por toda parte, é parte daquela visão que tem mais a ver com ignorância e vontade de retratar de forma simpática países supostamente exóticos. Numa versão “real” das coisas, o Michael Caine com um papagaio no ombro, em plena praia de Copacabana, do filme Feitiço do Rio, seria substituído por um Michael Caine roubado no arrastão e queimado no “microondas”. Tintin, se fosse ao Congo hoje, estaria no meio de uma guerra civil que deixou milhões de mortos e trocando uma idéia com todos os genocidaires hutus que encontraram refúgio no país, depois de fugirem de Ruanda.

O estudante que pediu fogueira para Tintin no Congo me lembrou o bombeiro-chefe de Farenheit 451. Num trecho, o “bombeiro”, responsável por queimar livros de um mundo em que eles haviam sido banidos, explica para um subordinado a razão do seu trabalho, tomando como exemplo autores e livros que perturbam a paz das pessoas: “Nietzsche deve ser queimado porque os judeus o odiavam. Robinson Crusoé, porque os negros detestavam o personagem Sexta-Feira.”

Brincadeiras à parte, Tintin no Congo é um recordista de vendas no antigo Zaire. Sentimento de inferioridade? Pouco provável. Um jornal belga informa que os congoleses se divertem bastante com a visão ignorante que os europeus tinham (e talvez ainda tenham) do país, e que foi imortalizada por Hergé. No caso, com justiça, os brancos são a piada.

Obs: Tintin no Congo poderia mais facilmente ser acusado pelos ecologistas. Na história, Tintin, por exemplo, explode um rinoceronte com dinamite; expulsa a pontapés um leopardo de uma sala de aula; atira várias vezes num antílope que insiste em não cair, para em seguida constatar que matou uma dezena deles. Macacos e Leões também levam bala. É para ser engraçado. Consegue, e muito.

O mito napoleônico e o século XX

sexta-feira, setembro 21, 2007

Poucas pessoas causaram maior impacto na História do que Napoleão Bonaparte. Por causa dele podemos refutar a crença dos deterministas de que os acontecimentos são governados por forças, classes, economia e geografia, e não pelas vontades poderosas de homens e mulheres. Embora tenha exercido o poder somente durante uma década e meia, seu impacto sobre o futuro durou até o final do século XX, quase 200 anos após sua morte. Na verdade, sua influência talvez não tenha ainda desaparecido.

Diferentemente da maioria dos tiranos que provocaram guerras, Napoleão foi e ainda é uma figura cultuada. Pode-se afirmar que a História foi generosa com ele. Ou melhor, que historiadores e biógrafos foram generosos. E estes produziram uma bibliografia imensa sobre o imperador – é provável que ele tenha sido uma das figuras históricas sobre quem mais se escreveu. Em 2003, aqui em Curitiba, um sebo da Emiliano Perneta pôs à venda uma biblioteca que chamava a atenção pela quantidade imensa de livros sobre assuntos napoleônicos. Imensa mesmo, eram centenas de livros – a maioria belíssima – que foram acumulados por um apaixonado pelo assunto. Sua família não devia compartilhar a mesma paixão, e, depois do seu falecimento, pôs o valioso acervo à venda. Mas a pergunta é: por que um estadista que morreu há quase 200 anos ainda desperta tanto interesse? Na Europa e, claro, na França, ele ainda provoca discussões apaixonadas. Não é raro o canal francófono TV5 transmitir algum programa que aborde o legado do homem que assombrou a Europa e a transformou para sempre. Na França, episódios sobre sua vida, especialmente os simbólicos, como a batalha de bolas de neve da sua infância, são matéria escolar e estão fixados no imaginário. Muitas ruas e pontes de Paris homenageiam seus marechais e as batalhas que venceu. Napoleão está por toda parte.

Visitei Napoleão em 1994, ou melhor, seu túmulo no L´hôtel national des Invalides. Uma construção impressionante – passeio obrigatório em Paris -, o sepulcro-memorial inspira respeito e assombra. Visitar o túmulo é participar do mito napoleônico.

E é precisamente esse mito que o historiador inglês Paul Johnson pretende demolir no seu breve mas eficiente Napoleão (Ed. Objetiva, 212 páginas). Antes, é útil resumir aqui quem é Paul Johnson. Trata-se de um conservador, católico, monarquista, um escritor prolífico, com obras que abordam assuntos tão diferentes como genocídio e moda, sociedade egípcia e arte moderna. Um provocador profissional: considera Ronald Reagan um herói, despreza todas as utopias redentoras e classificou o século XX como “a Idade da Infâmia”. É o homem ideal para demolir um mito tão querido e que desperta tanto a imaginação.

Para Johnson, Bonaparte (o sobrenome de Napoleão, usado por ele antes de sagrar-se imperador, e que Johnson preferiu usar ao longo do livro) foi um oportunista mau, que aproveitou a confusão gerada pela Revolução Francesa (1789) para satisfazer a própria ambição. Um ponto de partida para todos os ditadores e regimes totalitários que tornariam o século XX uma era marcada pelo derramamento de sangue e opressão.

Nada indicava que Bonaparte, nascido na pequena e pouco francesa ilha da Córsega, em 1769, de família italiana – um estrangeiro, enfim – pudesse um dia comandar a maior potência daquele tempo. (É curioso que, tal como Bonaparte, dois dos maiores tiranos do século XX, Hitler e Stalin eram estrangeiros nos países que comandaram – Stalin era da Geórgia, Hitler, da Áustria.) Aqui, refutando o determinismo, o gênio pessoal fez a diferença: Bonaparte veio de uma família financeiramente arruinada, mas pertencia à pequena nobreza; se salvou porque era um estudioso brilhante da guerra e, quando na Revolução Francesa o país guerreou com meio mundo, somado a bons contatos com membros do Diretório francês (antes ele fora próximo dos jacobinos e seu Terror), ele começou a fabricar sua lenda. Primeiro foi em Toulon, como jovem oficial, quando expulsou os ingleses que ocupavam a cidade, depois em Dego, e, anos depois do Terror, jogou a pá de cal na Revolução Francesa, quando massacrou uma turba de descontentes que protestavam em Paris, no 13 vendemiário (pelo calendário da revolução, em 1795). Ele tinha 27 anos. Essas batalhas mostraram como se podia fazer uso eficiente da artilharia (é, usou artilharia na cidade), instrumento que usaria com maestria. Na campanha da Itália (1796), a artilharia, somada a um sofisticado sistema de comunicações, mapas precisos (devia isso ao seu chefe de estado-maior, Bertier), rapidez nos transportes e tropas animadas com a promessa de recompensas (butim de guerra), garantiu o êxito da campanha. Os saques que aconteceram na campanha eram um prenúncio do que iria acontecer nos anos seguintes. Animado, Bonaparte resolveu lançar suas tropas contra o Egito (então parte do Império Otomano), mas antes tinha que financiar a expedição. Os suíços pagaram a conta, contra sua vontade, quando Bonaparte invadiu o pequeno país e limpou todos os cofres bancários, não antes de promover uma série de massacres. Com os bolsos cheios, ele partiu para o Egito (1797). Venceu brilhantemente uma série de batalhas mas acabou fracassando no final, especialmente porque não deu a devida atenção ao poder naval. Abandonou seu exército – como faria na Rússia depois – e foi combater em solo europeu, pois a França estava novamente ameaçada. Venceu. Aos poucos, foi se tornando a figura mais importante do governo francês, o que culminaria no coroamento como imperador.

Curiosamente, esse pode ser considerado seu canto do cisne. Antes de coroar-se imperador, Bonaparte, na figura de general e cônsul, mesmo com os massacres, era admirado por toda aquela Europa ansiosa por libertar-se do Antigo Regime. Não foi para ele que Beethoven dedicou Sinfonia n° 3? Não foi ele quem trouxe tesouros maravilhosos do Egito, despertando assim o interesse do público pelo Mundo Antigo? Johnson mostra que, como imperador e depois de subjugar a maior parte da Europa, Bonaparte aproveitou para reforçar todas as inovações deprimentes que a Revolução Francesa trouxe: espionagem, estado centralizado, repressão, censura, propaganda oficial e endeusamento da força como agente transformador. Tudo isso com um poder nas mãos que nenhum dirigente do Velho Regime jamais sonhou ter. A escravidão, que havia sido abolida pela revolução, voltou. Uma classe militar passou a dominar a França. Ter acesso à Grand Armée era participar do butim coletado em todos os velhos reinos da Europa. Bonaparte impôs vários membros da sua família como soberanos de estados fantoches que criou. Reorganizou a Europa para que esta pagasse tributos à França. Não deixou a França melhor. Muito pelo contrário, gerou tanto ódio que uma enorme coalizão se formou e acabou por derrotá-lo. Lutou como um bravo, é verdade, mas, depois de 10 anos como imperador, sua figura já não inspirava a mesma força. Cansados da guerra, os próprios franceses terminariam por abandoná-lo.

O saldo napoleônico está estimado em seis milhões de mortes. Para a França sobrou o papel de potência de segunda classe, o isolamento nos anos seguintes e a juventude que desapareceu nos campos de batalha. O saldo positivo ficou para seus inimigos. Indiretamente, Bonaparte acabou por fazer nascer um novo nacionalismo alemão, inspirado no francês. Reorganizada secretamente durante os anos de ocupação pelo exército francês, a Prússia emergiria como a maior potência continental, passando a ameaçar ainda mais a França. Vendendo o imenso território da Louisiana aos EUA por uma bagatela, Bonaparte acabou dando mais condições para que a nova nação se tornasse a maior potência do planeta. Até a invasão de Portugal pela França acabou provocando outra coisa não prevista: com a fuga da família real portuguesa ao Brasil, a colônia acabou tendo um destino diferente e melhor. Ainda durante a ressaca napoleônica, os velhos soberanos europeus reorganizaram o continente com base nas linhas anteriores à Revolução Francesa. Não era democrático: reis redesenhando o mapa, o tipo de coisa que despertaria o ódio de um marxista. Mas foi algo brilhante, garantindo uma certa paz e estabilidade na Europa por 100 anos.

Tudo isso responde o interesse que ele provoca, e por que ele foi e continua a ser um modelo para todos os ditadores que iriam aterrorizar o século XX. Mas por que ele, depois de toda essa tragédia, continua ainda sendo admirado?

Para os franceses, a razão é óbvia: Bonaparte lembra uma época em que a França dominava e influenciava (ah! a “missão” francesa) o mundo. E também porque, apesar de tudo, Bonaparte é um personagem fascinante com histórias não menos – um grupo de franceses é capaz de discutir durante horas sobre o relacionamento de Bonaparte e Josephine, sua primeira mulher. Para os outros, inspirados pela eficiente máquina de propaganda napoleônica, tão bem exemplificada nos magníficos retratos feitos por Antoine-Jean Gros e Jacques-Louis David, nas obras literárias de Stendhal e Victor Hugo, resta o exemplo do homem resoluto que parece maior que a vida.

Extirpar esse mito e compreender melhor o legado de Bonaparte é revelar como ele influenciou tão mal o século XX.

18 de setembro, a Escolinha do Requião

quarta-feira, setembro 19, 2007

Curiosidade mórbida. Tempo livre. Terça-feira de manhã fui assistir a um dos encontros da “escolinha” do Requião, ou Escola de Governo (o nome oficial não totalmente livre de ironias), no auditório do Museu Oscar Niemeyer. A arquitetura autoritária do primeiro e último arquiteto stalinista combina bem com o encontro semanal promovido pelo governador. Stalinista é mesmo o termo exato: toda vez que Requião humilhava deliberadamente alguém (alguém menos importante que ele, claro), não consegui deixar de lembrar de Robert Duvall interpretando Stalin no telefilme da HBO. “Admita que ele [Bukharin] nomeou a raposa Grisha por sua causa, Kamenev. Admita!” O caso mais constrangedor aconteceu com um prefeito do interior que veio ao encontro agradecer uma verba liberada pelo governo. Requião, longe de se sensibilizar com os agradecimentos, começou a questionar o prefeito sobre o meio expediente praticado por algumas prefeituras. Não adiantou o prefeito explicar que não aplicava meio expediente. “A sopa que vocês beberam estava envenenada”, brincou Stalin para seus convidados.

Apesar de Requião ter desempenhado com graça seu velho papel, não foi um dia de muitas emoções. Algumas observações:

No encontro, Requião, vestido com sua inconfundível jaqueta de couro, tem um lugar marcado na primeira fileira. Ao lado senta o desgastado e cansado Rafael Greca. Atrás dele (e de Requião) está sentado o deputado Carlos Simões, que, pelo que me contaram, dispõe de um funcionário que toda semana chega bem cedo, lá pelas 7 horas, guarda o lugar atrás de Requião por um par de horas e, pouco antes da escolinha começar, se levanta e cede a cadeira para Simões, que acaba de chegar. Tudo para ficar perto do governador.

A casa está cheia, a maior parte dos presentes é composta por funcionários do Detran e presidentes de grêmios estudantis de escolas do interior (alguns deles, usando uniforme, parecem velhos demais até para a faculdade). Sem surpresa, é possível observar que uma espécie de fã-clube – ainda que pouco numeroso – do governador bate ponto ali. Um bando de velhos, que devem alternar a escolinha com o café da Boca, se exulta a cada manifestação de ódio de Requião contra o Ministério Público, nova adição à lista de alvos do governador depois do pedágio e soja transgênica. “É isso aí”, “Vai lá, Requião”, eles falam alto, depois que o governador anuncia que vai rever as aposentadorias e salários pagos aos promotores, muito altos em sua opinião (na opinião do governador que tem o maior salário de todos os 27 que existem no Brasil). Ah sim, o MP é aquele órgão chato que mandou Requião se livrar de toda a parentada que ocupa cargos no governo, reforçar o policiamento e olhar com carinho a situação da saúde em Ponta Grossa.

Pouco assunto e muitas coisas desagradáveis que não podem ser citadas – jantar de família burguesa. Requião justifica a medida (atenção, público, a moça do cerimonial está mandando aplaudir) como o primeiro passo para acabar com a “anarquia que se instaurou”(?). Clap, clap, clap. Prossegue com um fascismo barato: “os membros do MP não foram eleitos por ninguém”.

Pouco assunto e muito rancor dão lugar a uma apresentação interminável de um grupo de crianças sobre a Semana Nacional de Trânsito. (Certo, reclamar de peça infantil é o cúmulo do mau humor.) Pelo menos é irônico que Requião assista a uma peça teatral que denuncia a impunidade no trânsito. Trocando o papel do filho irresponsável que pega as chaves do carro do pai (“esse é meu filhão!”) por um sobrinho, aí sim estaríamos vendo algo bem interessante. O teatro acaba e dá lugar a uma apresentação em PowerPoint do diretor-geral do Detran, David Antônio Pancotti. Dinheiro economizado aqui e ali, o diretor cita um contrato de informática cancelado. “O nome da empresa?”, pergunta Requião. “Montreal”, responde imediatamente o diretor. Teatro. Requião conhece bem o assunto, e aproveita para corrigir a pronúncia, “Mônréal“, deixando assim… mais francesa.

Lá fora, num gramado, um pouco distante dos correligionários que aproveitam a exibição de um vídeo maçante sobre o trânsito para escapulir e fumar um cigarro, um velho segura uma bíblia e grita uma série de ofensas que incluem “assassino” e “ladrão” contra o governador. Grita tanto, mas tanto – já que todo mundo finge ignorar -, que começa a ficar sem voz. “Olha só, até perdeu a voz”, observa à distância, com sorriso de deboche, um sujeito obeso vestido à moda casual-governamental (jaqueta, sempre, e nenhuma gravata). Me contam que o velho está lá toda semana, gritando. O vídeo continua. Rappers cantam e dançam para ensinar alguma coisa sobre “respeitar o outro” no trânsito. Penso que deve existir uma categoria profissional desses cantores que se dedicam somente a participar de vídeos institucionais. Que carreira…

O diretor do Detran faz uma pequena confusão com alguns números apresentados na tela e Requião o repreende. O fã-clube sentado atrás de mim não esconde a satisfação de ver o governador achincalhando alguém: “Quis se exibir, né? Tem que fazer curso de orçamento”, os velhos falam bem alto, para se fazerem ouvir. O dinheiro economizado faz Requião atirar mais uma farpa contra o MP. “Onde estava o MP quando esses absurdos [terceirização de serviços do Detran] aconteciam?” E, com populismo barato, completa: “Vamos usar o dinheiro devolvido pelos promotores para colocar mais policiais nas ruas”.

A moça do cerimonial anuncia que a escolinha está chegando ao fim, Requião não presta atenção e conversa com Greca. Ela repete a frase novamente, com um sorriso amarelo, indisfarçável, já que, graças às câmeras de TV, seu rosto está sendo projetado na imensa tela do palco. Mas desta vez o governador presta atenção e acena que, tudo bem, pode encerrar.

Onde e quando, Wischral?

domingo, setembro 16, 2007


Foto de Arthur Wischral: onde diabos o barco estava ancorado?

Tudo muito bonito na exposição Acervo Arthur Wischral: Documentos e um Olhar, coleção de imagens históricas feitas pelo fotógrafo teuto-brasileiro Arthur Wischral. A exposição, organizada pela Fundação Cultural de Curitiba (FCC) e que utilizou o espaço do Memorial de Curitiba, encerrou hoje, mas fica aqui uma crítica: a falta da apresentação de referências nas fotos. Era um festival de paredes repletas de imagens antigas sem especificar a data e o local onde elas foram capturadas. Década de 40 ou 50? Paraná ou Santa Catarina? Um tanto frustrante, especialmente nas belas imagens que registraram cadeias de montanhas e vales.

Contrastando bastante com o trabalho da FCC, a exposição O Brasil de Marc Ferrez, que apresentou o trabalho de um fotógrafo mais antigo – mas que ainda assim guarda semelhanças com Wischral -, e que aconteceu em São Paulo, iniciativa de uma entidade civil, o Instituto Moreira Salles, foi muito mais cuidadosa.

Coelhos, gostosas e Rússia: o Pravda.ru

quarta-feira, setembro 12, 2007


O “coelho angora (sic)”, um dos prodígios da natureza na galeria do Pravda.ru

Está indicada na barra lateral já faz algum tempo, mas vale a pena dar destaque para a inacreditável versão portuguesa do jornal russo Pravda disponível online: o Pravda.ru.

Sobreviventes do comunismo não costumam ser engraçados, mas o Pravda é uma comédia: criaturas de duas cabeças, armas de fogo e mulheres bonitas são os temas mais abordados. Fora as “reportagens” geniais, que parecem ter sido traduzidas por programas de computador, o melhor do site são os temas escolhidos para a galeria de fotos e suas chamadas, que pouco parecem ter a ver com um velho jornalão comunista.

Algumas pérolas da galeria:

Bárbara Paz vai ser a gostosa de setembro

Prodígios da natureza: Coelho Angora

Tarataruga de duas cabeças ganha festa de 10 anos

Policial mais quente russa se casa

Touro africano com maiores cornos do mundo

Ginástica é o caso horrivel

Pintura corporal de gatos

Sheila de Almeida: Mamas figuram em filmes de terror

A predadora Natalia Vetlitskaya cantora pop/romântica russa

Kate Winslet nunca se afunda

Os pandas são como nós

Dez melhores reais fotos de fantasmas

Existe ainda uma seção chamada “Monstros e Monstrinhos“, com destaque para aberrações da natureza, e que lembra muita coisa publicada nos bons tempos do extinto jornal paulistano Notícias Populares.

E, claro, o Pravda ainda guarda alguns resquícios da era dourado-vermelha soviética:

Rússia comemora 100º aniversário do excelente líder, Leonid Brezhnev (Excelente!? Engraçado é o endereço da galeria: brezhnev-666 )

Cuba: terra de liberdade (dispensa comentários…)

Renan se safou

quarta-feira, setembro 12, 2007

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Renan olha para o futuro: “It is said that power corrupts, but actually it’s more true that power attracts the corruptible”

Previsível, mas nem por isso mais aceitável: Renan Calheiros se safou da cassação por 40 votos contra, 35 a favor e seis abstenções. Voto secreto é isso aí. E de brinde a cena deprimente de deputados trocando socos com seguranças do Senado.

O senador Arthur Virgílio comparou a sessão secreta a “uma reunião da máfia”. Nada mais exato.

Obs: Mês que vem, Mônica Veloso, a amante de Renan que foi o ponto de partida de toda a história, tira a roupa para a Playboy.

Começo a concordar que só napalm resolve.

Obs2: Hélio Schwartsman escreveu um artigo excelente sobre a absolvição e toda a cronologia das sujeiras descobertas sobre o senador. Vale a pena conferir.

Faroeste Caboclo

terça-feira, setembro 11, 2007


Trem blindado usado na Revolução de 1932: plus ça change…

A cena que foi ao ar no JN de ontem, o ataque de traficantes cariocas a um trem com dois ministros e repleto de jornalistas – coisa que lembra o filme de guerra O Expresso de Von Ryan ou qualquer produção de faroeste -, proporcionou novas interpretações sobre o estado das coisas no Brasil.

Na visão das autoridades, são elas:

Atirar em autoridades: é sinal de reação às iniciativas sociais promovidas pelo Estado. Os tiros, portanto, demonstram que o governo está fazendo tudo certo. Remover barracos de uma linha férrea é combater o tráfico. Por Tarso Genro, ministro da Justiça.

Ser Carioca: é, nas palavras do ministro Márcio Fortes, encarar como normal um tiroteio e levar com tranqüilidade uma viagem de trem em que todos se jogam no chão por medo de levar chumbo.

A solução: é a) ficar longe das favelas, b) não tirar fotos. Opinião do secretário de Segurança do Rio e recomendação da empresa que cuida dos trens, respectivamente.

Ol’ Blue Eyes no azul do Pacífico

quarta-feira, setembro 5, 2007

Filme curioso que passou no Cinemax hoje: Os Bravos Morrem Lutando (None But The Brave, 1965). Foi a única (e mal-sucedida) experiência de Frank Sinatra na cadeira de diretor. A história é similar à Inferno no Pacífico, embora a produção seja quatro anos mais velha que o filme de John Boorman. Na Segunda Guerra, um bando de marines se vêem isolados numa ilha paradisíaca ocupada por um punhado de japoneses e, para sobreviver, são obrigados a fazer uma trégua com seus inimigos. Um verdadeiro repositório de clichês do gênero, None But The Brave se salva em parte pela bela fotografia (que contrasta com cenários de estúdio pouco convincentes). Também é o primeiro trabalho do compositor John Williams no cinema (creditado como um pouco sério Johnny Williams), ainda que a trilha sonora pouco inspirada não demonstre que ele fosse se destacar tanto. Coisa de produção conjunta nipo-americana, os efeitos especiais ficaram a cargo do japonês Eiji Tsubaraya, o mesmo daquelas engraçadíssimas maquetes dos filmes da série Godzilla. O então genro de Sinatra, o cantor Tommy Sands, também está no filme, interpreta um tenente e consegue ser pior ator que o canastrão Clint Walker, o astro do filme. Sinatra arranjou para si o papel de um médico bêbado, que, entre um gole e outro, realiza uma amputação num soldado japonês que mais parece uma aula sobre esterilização de instrumentos cirúrgicos. Um filme que já devia ser ruim na época de lançamento – mas uma peça curiosa – e que também demonstra como os filmes pacifistas sempre envelhecem mal.