Deu no NYT

Bastante interessante esse artigo do Larry Rother sobre os abusos cometidos em nome do combate à biopirataria no Brasil. Rother, que já está de malas prontas para sair do Brasil, conta a história de Marc van Roosmalen, biólogo holandês naturalizado brasileiro, um especialista em macacos condenado à prisão por supostamente violar as leis que protegem a natureza brasileira. Roosmalen foi condenado a 16 anos de cadeia, mesmo sendo réu primário, por, entre outras coisas, ter batizado as espécies de macaco descobertas por ele (cinco no total) com os nomes de seus patrocinadores – uma prática que não é estranha para qualquer um que já tenha lido um livro sobre exploração. Fazer homenagens, ainda mais com nomes de estrangeiros, é considerado apropriação indébita pelas autoridades brasileiras.

Nada mexe tanto com o nacionalismo brasileiro quanto a biopirataria. É comum pessoas que nunca viram uma fruta da Amazônia ficarem vermelhas de raiva quando falam do “nosso cupuaçu”, patenteado pelos japoneses. Triste é constatar que, diante de tantas dificuldades, os cientistas estrangeiros sérios estão desistindo do Brasil, e que a vida também não está fácil para os cientistas nativos. Resultado de um típico nacionalismo vagabundo que se converteu em xenofobia.

Há dezenas de livros sobre naturalistas estrangeiros que se encantaram com a fauna brasileira no século XIX – e nós gostamos de celebrar isso. Hoje, provavelmente, eles teriam uma vida difícil. Darwin nem sentiu vontade de descer do Beagle quando aportou no Brasil. Se descesse hoje, ia ver o sol nascer quadrado por incluir as espécies nativas numa teoria evolutiva.
Acho que essa história ilustra a que ponto pode chegar a arrogância nacional: na Alemanha em ascensão do final do século XIX, um funcionário ferroviário conhecia todos os passageiros habituais do seu vagão, incluindo um inglês, a quem ele nunca pedia para mostrar o passaporte. Um belo dia: “me mostre seu passaporte”, disse o funcionário alemão. “Mas por quê? Você me conhece e nunca o pediu durante todos esses anos!”, replicou o inglês, que ouviu como resposta: “É que nós alemães agora temos uma marinha.”
Nós temos Lula.

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