Paris, te amo

Filme em episódios? Parece sinônimo de muitas das pornochanchadas brasileiras – que escolhiam um tema, digamos, universal, como empregadas e patrões, para mostrar vários curtas repletos de sacanagem. Não assisti Paris Vu Par…, filme de 1965 com seis episódios passados na capital parisiense, dirigido por vários cineastas da Nouvelle Vague – um filme de diretores com pontos de vista semelhantes, o que deve conferir à película uma certa unidade.

Em cartaz, Paris, te amo (2006), é um filme de episódios (18 no total, com títulos que designam bairros de Paris) com a mesma proposta de Paris Vu Par…, mas com um resultado um tanto irregular. O formato, pelo menos, foi acertado: cada episódio não passa dos cinco minutos; o que pode ser ruim nos curtas que nos deixam com a sensação de querer mais, mas é um seguro, por assim dizer, contra algumas das tolices que fazem parte do filme. Não há muita ambição (a abertura do filme sinalizava algo pretensioso, ainda bem que foi só impressão), apenas a vontade de contar histórias simples. A maioria é repleta de melancolia (aliás, a primeira coisa que me vem à cabeça quando penso no esprit francês), histórias de amor que não se concretizam, que terminam e outras sensações de perda.

Meus episódios favoritos foram o de abertura, Montmartre, que conta a história de um daqueles franceses tipicamente neuróticos, que briga por uma vaga de estacionamento e termina por ajudar uma mulher que desmaia ao lado de seu carro; Quartier des Enfants Rouges, sobre uma atriz americana (a bela Maggie Gyllenhaal) que mostra um interesse romântico num traficante e acaba frustrada; Quartier Latin, dirigido por Gérard Depardieu, que mostra o encontro de um velho casal (o marido interpretado por Ben Gazarra, boa surpresa) num bar para acertar os detalhes do divórcio; 14e arrondissement, talvez o mais simpático de todos, acompanha a visita de uma turista americana, uma white trash, à capital francesa, com narração da personagem acompanhada de seu forte sotaque (curso de dois anos de francês), terminando com uma bonita observação sobre o que é gostar de uma cidade. Também adorei Bastille, dirigido por Isabel Coixet, mas explico: o episódio, que conta a história de um marido que pretendia se divorciar e muda de idéia quando sua esposa lhe conta que sofre de leucemia, é banal no conteúdo, mas tem aquela narração em primeira pessoa tão doce e cheia de nostalgia que sempre achei linda nos filmes franceses (La Gloire de Mon Père, Le Château da Mère, Rue Paradis), e que só funciona quando falada em francês. Mas o lado neurótico dos gauleses também rendeu um bom episódio: Tuileries, dos irmãos Coen. Steve Buscemi é um turista americano que leva uma boa surra depois de ficar encarando um casal de namorados no metrô de Paris. É o episódio mais engraçado da coletânea.

Agora, os podres. O pior episódio, sem dúvida, é o estrelado por Elijah Wood, que interpreta um turista americano – é, o filme está repleto deles – que se envolve com uma vampira. Uma porcaria sem sentido. Também achei péssimo, por ser tão previsível, o episódio dirigido por Walter Salles: uma babá latina que deixa seu filho na creche para ir trabalhar cuidando de uma criança rica; no percurso, batidas cenas de baldeação no metrô. O queridinho do momento, Alfonso Cuarón, também dirige um episódio totalmente equivocado, Parc Monceau, com Nick Nolte. É um daqueles filmes que pretendem nos fazer acreditar em algo, no caso uma história amorosa entre Nolte e a mulher que o acompanha, para em seguida revelar que as aparências enganam. Um filme de minuto feito por um bando de estudantes não teria sido pior. De brinde mais um daqueles inúteis longos plano-seqüências que tanto fazem babar os fãs de Cuarón. Outro filme que peca pela história é Faubourg Saint-Denis, editado quase como um videoclipe pelo diretor Tom Tykwer, o mesmo do “sem-tempo-para-recuperar-o-fôlego” Corra, Lola, Corra.

Existem ainda alguns episódios que ficaram no meio do caminho. É o caso das histórias que apresentam indivíduos à parte da sociedade francesa: a menina muçulmana e o imigrante nigeriano. Quais de Seine, pretende ser uma lição de tolerância mostrando o encantamento de um garoto francês por uma menina de chador. Talvez seja importante, ainda mais na França, com toda aquela novela de proibir símbolos religiosos em escolas, mas o episódio não precisava ser tão didático (“Eu uso o véu porque…”). A história trágica do imigrante nigeriano em Place des fêtes até é interessante, mas fica uma sensação de politicamente correto.

Tirando a irregularidade que se poderia esperar de uma produção desse gênero, Paris, te amo, ainda assim, é um filme agradável. As quase duas horas passam voando e o que fica no espectador é algo parecido com as observações sobre Paris da rechonchuda turista americana que fecham o último episódio.

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O Autor no L´hôtel national des Invalides, Paris, 1994

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5 Respostas to “Paris, te amo”

  1. Alina Prochmann Says:

    Você viu sem mim. Humpf.
    Ok, eu tô só te enrolando, né?

  2. Jean-Philip Albert Struck Says:

    não se preocupe, vá ver o filme ainda assim, vale a pena.

  3. Nikola Says:

    O do Frodo é uma droga mesmo e o da Gena Rowlands tem os melhores personagens, infelizmente estragados por um estranho jogo de campos/contracampos e umas quebras de eixo estranhas. Pareceu preguçoso. No do Cuarón gosto do fato de ver a cidade, mas não gosto de pretexto de truque nem do plano seqüência. O do flerte na gráfica, que acho meia boca, acho bem melhor resolvido nesse quesito; tem, inclusive, um plano-seqüência bem longo em que o a câmera um movimento de eixo so acompanha o menino falando (mas não é o tipo de plano que te fala “eu sou plano seqüência foda! me olhe!”). Gosto do episódio do Assayas.

  4. alina Says:

    Eu vi! E quase tive um treco justamente com o “Eu uso véu porque bla bla bla…” Cruzes! E aquele do Nick Nolte é absolutamente Unicenpiano, argh! Mas gostei dos nigerianos, a musiquinha era doce (não diga “oh, não!” porque gostei da musiquinha!).

  5. Jean-Philip Albert Struck Says:

    “Oh, sim!” Interessante você ter detestado o do Nick também.

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