A longa noite do Zimbábue

No NYT: Líderes africanos não pressionam o presidente do Zimbábue por mudanças

No tempo em que eu ainda usava uniforme e tinha que agüentar muitas aulas chatas de física, achava que as poucas aulas de geografia e história que eram ministradas no colégio Bom Jesus seriam um alívio. Não foi bem assim. O ambiente era sufocante e as aulas dessas disciplinas eram tão relegadas quanto numa escola pública. Os professores nos serviam com um festival impressionante de simplificações grosseiras. Não tinham uma postura séria. Acho que acreditavam que história e geografia devem ser “divertidas” e, por conseqüência, mais digeríveis. Era o sistema “O Quinto dos Infernos” de ensino. Dom João VI escondendo coxinhas nos bolsos; insinuações sobre a homossexualidade deste ou daquele líder; o lembrete que não existem imigrantes, mas “criminosos e putas que foram expulsos da Europa”, e que todos descendemos deles. Era isso que aprendíamos. Um professor de geografia que também era adepto desse sistema, mas com a diferença que posava de comunista e defensor dos oprimidos, comentou, certo dia, numa aula sobre geopolítica africana, os acontecimentos no Zimbábue. Era o ano 2000.

Nessa época, Robert Mugabe, o presidente do Zimbábue, estava promovendo chacinas esporádicas contra fazendeiros brancos no seu país, com a intenção de forçá-los a vender suas terras para o governo, por um preço camarada, claro. Era o ensaio de um genocídio. Mas na visão do meu professor, um ato de justiça: “Os brancos não tem mais nada para fazer na África”, disse. “[O governo do Zimbábue] tem mais é que expulsá-los”, completou. E depois começou a discorrer sobre uma idéia absurda de que a CIA teria inventado a AIDS para matar os negros africanos de uma maneira discreta e barata. Um caso de hospício, como podem ver, mas que era matéria valendo nota. Nunca achei que meu professor era uma peça relevante da engrenagem revolucionária gramscista. Era ignorância mesmo. Ele era só um pobre diabo que leu Caros Amigos além da conta e começou a sofrer os efeitos colaterais. Mas não é de ignorância que os líderes africanos e de alguns países ocidentais sofrem no caso do Zimbábue. É pura má-fé ou cumplicidade mesmo. Ninguém melhor que os vizinhos do Zimbábue para saber da catástrofe que assola o país: são eles que têm que abrigar os milhões de refugiados. A partir daí, é especialmente revoltante ler que Mugabe é recebido com aplausos nas conferências africanas ou quando aperta a mão do presidente da França, Jacques Chirac, às vésperas da segunda guerra do Iraque, quando o Zimbábue ocupava cadeira temporária no Conselho de Segurança da ONU. É uma atitude típica desses países fazer vista grossa para abusos. Por muito tempo os vizinhos de Uganda não deram um pio quando Idi Amin arruinava seu país; a oposição ao apartheid sul-africano e a solidariedade aos negros deste país, era mais retórica que qualquer coisa – o Rand, o dinheiro do governo branco que era a única moeda de valor da África, sempre falou mais alto. Quanto a França…bem…é a França. É só pegar um livrinho sobre Ruanda para saber que a atitude do Eliseu não é surpreendente.

Numa coisa meu professor não estava enganado: a mídia Ocidental só deu destaque para o caso dos fazendeiros porque se tratavam de brancos. Pode se explicar porque é uma minoria mais bem organizada, com vários parentes nos países ocidentais. Enfim, um grupo que não aceita facilmente imposições e sabe gritar – ainda que sem tirar algum resultado. Mas o caso é que a reforma agrária forçada é só a ponta do iceberg. Como num velho filme que não se cansa de reprisar, são sempre os negros as maiores vítimas dos governos brutais de seus países. Um pouco de história: o moderno Zimbábue começa no final do século XIX, quando Cecil Rhodes, um ambicioso empreendedor britânico, resolve estabelecer uma colônia ao norte dos territórios ocupados pelos africâners (ou bôers, brancos que emigraram para o que hoje é a África do Sul e recusavam submissão à coroa britânica), com a intenção de ser um contraponto a eles. Com os nativos subjugados, o território da colônia deu origem as duas Rodésias (a do Norte, depois Zâmbia, e a do Sul, que viria a ser o Zimbábue), sendo que elas foram administradas separadamente. A Rodésia do Sul se revelou um empreendimento mais bem-sucedido. Em 1953, numa decisão que se revelou bastante errada, o governo britânico resolveu juntar novamente as duas Rodésias e adicionar o Malawi, outra colônia, no que ficou conhecido como Federação da Rodésia e Nyasaland. Em 1963, a federação foi dissolvida, o que animou os brancos da Rodésia do Sul a declarar a independência da Grã-Bretanha em 1965. A independência não foi reconhecida, e o país sofreu sanções, sendo totalmente isolado da comunidade internacional. As sanções foram impostas porque o país se revelou um clone perfeito da África do Sul, com seu próprio sistema de apartheid e a maioria negra totalmente alienada do poder. Nos anos 1970, movimentos de guerrilha brotaram por todo o país. Um deles, o Zimbabwe African National Union (ZANU), movimento de inspiração maoísta, era liderado por Robert Mugabe. A África do Sul simpatizava com os brancos da Rodésia, mas já tinha problemas suficientes com seus negros, e não queria ser arrastada para um outro conflito. Então, em 1979, o presidente da Rodésia, o fazendeiro Ian Smith, foi obrigado a fazer concessões.

Mugabe assumiu o poder na Rodésia em 1980, agora com a independência reconhecida e com novo nome, Zimbábue. Desde então, governa com mão de ferro. O que prometia ser um novo começo se revelou um novo capítulo do pesadelo que acomete o país. Um Estado cheio de injustiças, apesar de tudo o Zimbábue era uma exceção na África: rico, com muitas riquezas naturais, com boa estrutura e nível satisfatório de educação, era auto-suficiente. Tudo foi sendo violentamente destruído nos anos Mugabe. A aura de democrata deu lugar ao genocida na década de 1980, quando fez uso da “Quinta Brigada”, um grupo de soldados treinados na Coréia do Norte (!), para reprimir e matar 20 mil pessoas da população ndebele, os zulus do país. Dissidentes e opositores do novo regime eram simplesmente eliminados. Mugabe aboliu o senado e começou a governar através de um sistema de politburo parecido com o dos soviéticos. A população branca do país, que à época da independência contava mais de 200 mil pessoas, fugiu do país. Hoje não chega nem a 60 mil. Isso teve o efeito de jogar a economia no buraco e abrir as portas para a hiperinflação (9.000 % ao ano). Sempre com a intenção de manter o país em “revolução permanente”, Mugabe se volta contra um novo grupo. Em 2000, foram os últimos fazendeiros brancos, o “ato de justiça” do meu professor, que também teve como resultado a instalação da fome num país que antes fora um exportador de alimentos. Agora, são os favelados negros do país, pela Operação Murambatsvina (literalmente “eliminação do lixo”), sob o pretexto de limpar áreas de ocupação ilegal e infestadas de doenças. A “Tsunami do Zimbábue”, como também é conhecida, já expulsou de suas casas mais de 300 mil pessoas. Outras 2 milhões estão na mira.

Economia em frangalhos, governo autoritário, fome, expulsão, epidemia de AIDS, envolvimento nas guerras de outros países africanos: o legado do governo Mugabe é uma tragédia. Existem 3,4 milhões de refugiados zimbabueanos nos países vizinhos (a maioria na África do Sul); 31 % da população adulta está infectada com AIDS; a expectativa de vida, que em 1965 era de 60 anos, hoje não passa de medievais 37 anos; o desemprego atinge 80 % da população economicamente ativa. Intimidação e fraudes são a norma das eleições promovidas pelo governo. Um judiciário independente não existe, a liberdade de imprensa é uma miragem (também para os estrangeiros: a CNN e a BBC nem podem pisar no país). Em março de 2007, um encontro de opositores do governo terminou com a prisão de 50 deles, sendo que a maioria sofreu maus-tratos físicos na prisão. Como nos anos mais duros da URSS, aqueles acusados de crimes econômicos também são perseguidos: em junho deste ano, Mugabe determinou que os preços de todos os produtos fossem congelados e quem não respeitasse as medidas fosse processado; já são mais de sete mil pessoas aguardando serem julgadas, desde presidentes de empresas até camelôs. Enquanto Mugabe é aplaudido, a lista de absurdos no Zimbábue não pára de crescer.

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5 Respostas to “A longa noite do Zimbábue”

  1. Norman Chap Says:

    Fazendeiros são maus! Você não consegue entender isso? Eles causam o êxodo rural, destroem o meio ambiente e usam bigode. Abaixo a monocultura. Viva a diversidade de alimentos.

  2. Jean-Philip Albert Struck Says:

    Por dentro de todo jornalista existe um “Jacques Bonhomme”. Maldito Norman, sempre com suas falsas ironias…

  3. Jean-Philip Albert Struck Says:

    Norman, vc chegou a ter aula com a mula do Marcus, o professor de geografia, né?

  4. Norman Chap Says:

    Ah, sim! Mas naquele tempo eu admirava suas invectivas brilhantes contra a globalização. Pobre adolescente eu era!

  5. Iris Says:

    Oi Jean, assim, por acaso, vc não poderia escrever seus textos em capítulos… é que o tempo é escasso, assim poderi ler em doses homeopáticas

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