Un faux texte

A luz tímida luta para refletir na quinta garrafa de cerveja. Na esquina desolada se ergue uma igreja, já esvaziada, que parece encarar toda a decadência a sua volta com magnífica indiferença. Nas escadarias, um grupo bem diferente dos habituais fiéis parece se divertir; enquanto esvazia uma garrafa com o que parece uma mistura de refrigerante com alguma bebida alcoólica, provavelmente uma pinga barata. Já são 11 horas. O cenário: o Largo da Ordem, no centro velho de Curitiba. Bem diferente dos cenários de cartão-postal – que passam uma idéia de cidade-modelo -, dezenas de vendedores (crianças em sua maioria) de balas e artesanato, poetas famintos que oferecem suas poesias em patéticas folhas fotocopiadas, derrotados que pedem um cigarro (“estou duro, se puder me arranja dois”), todos os tipos que se possa imaginar, lutam pela sobrevivência em meio às mesas ocupadas por boêmios não menos indiferentes que a igreja, que continua lá, a encarar o movimento das ruas quase escuras. Que histórias esses vendedores e poetas carregam consigo? Provavelmente histórias tristes. Uma fuga do interior e o desafio de sobreviver, sozinho, na cidade grande? Um bom emprego e casamento destruídos pelo amor maior à garrafa? Uma desilusão amorosa? Dou um cigarro. O isqueiro não é necessário: a alma destruída veio preparada. A sexta cerveja é servida. A conversa, que até pouco incluiu as obras de Dalton Trevisan, passa para as poesias de Paulo Leminski. Nas outras mesas, amantes se amam, solitários procuram compreensão num copo de whisky. Faz frio. Não é preciso olhar para o marcador do topo do Edifício Itália para confirmar. É um frio que parece penetrar nos ossos, mas que não basta para afugentar essa fauna rica em pessoas que ocupa as mesas ou se apóia nas fachadas dos antigos casarões. Pessoas que parecem deslocadas numa sociedade que prima pela uniformização, mas que aqui, em meio aos prédios que já foram símbolo de riqueza, encontraram um lugar onde podem expressar sua criatividade ou simplesmente serem livres. Na ladeira que leva às mesas, um velho, com todas as marcas de uma vida difícil estampadas no rosto, caminha gritando. Leminski vai ter que esperar. Começamos a observar o velho. Veste um blazer com botões dourados e uma calça branca que parece ser a coisa mais clara da rua. “Viva a Força Aérea Brasileira!”, ele grita entusiasticamente. Continua incitando a multidão, mas se cala quando vê que seu momento já passou. Todos voltam sua atenção para a conversa. Sétima, oitava, nona cerveja. O frio não dá trégua. Passamos para Bukowski. Como o velho safado encararia o Largo? Provavelmente ficaria encantado com o lugar. E pediria um trago. Observamos os policiais que encaram todos com mal disfarçado desprezo: seus ameaçadores revólveres e seus inconfundíveis uniformes cáquis. Não combinam com o lugar e sabem disso. Décima cerveja (“essa conta vai custar uma nota!”). A saideira. O dono do bar, o único que exerce poder nesse ambiente de anarquia, já dá sinais que pretende fechar: cadeiras em cima das mesas, a conta que chega sem ninguém ter pedido. Dou meu último gole e me despeço do Largo, seus tipos interessantes, as calçadas sujas e a igreja, que continua lá, encarando.

Chega! Toda essa baboseira que escrevi acima foi resultado de uma conversa que tive com meus amigos Fausto e Galeb. Discutimos como são banais e cheios de clichês a maioria dos textos de jornalismo literário. O cenário da conversa? Claro que foi o Largo da Ordem… As cervejas só foram seis e conversamos sobre como um texto desses descreveria o lugar (e qual seria a postura do autor). Certo, talvez o texto que rabisquei acima não passe perto de um exemplar de jornalismo literário, mas é só pra captar a idéia. A droga da “luz tímida” é um começo típico. Observação e mais observação, nada de conversa. A maioria dos textos parece encarar as pessoas como se elas estivessem expostas num zoológico. Descrição de roupas e de sinais no rosto, que, não levem a mal, até podem ser interessantes, acabam virando uma fórmula inescapável. Nem todos os jornalistas são Kapuściński para trabalhar tão bem esses aspectos.

Espontaneidade que nada. O que faz um texto de Talese ou Hersey ser tão interessante, e passando longe do senso comum, foi a dedicação e a interação com as pessoas. Observar tudo de uma mesa, ou esperar resolver o assunto num par de horas, só pode resultar numa besteira como a escrita em itálico. Os personagens, que podiam revelar coisas interessantes atráves de um pouco de conversa, acabam virando meros coadjuvantes. Quando estava na faculdade, sempre fiquei abismado com o medo – ou timidez, mas ainda assim imperdoável – que vários colegas sentiam ao abordar alguém e fazer perguntas. Era um medo que levava à paralisia. Voltando ao texto, a tal igreja nunca passou essa impressão no autor: é apenas um elemento colocado artificialmente para rechear o texto. Uma crítica à ordem burguesa e pronto! Temos mais um elemento. Pior mesmo, só se comportar como um antropólogo; com toda aquela merda de querer classificar os tipos urbanos. Todas as coisas escondem alguma coisa que vale a pena ser descrita, mas muitos textos são apenas uma conseqüência tola de algo que não tinha nada a ver com fazer uma matéria. Viagens de ônibus, avião, a espera numa fila. O escritor não procurou conhecer: apenas catou alguns aspectos que foram jogados no ar e tratou de hierarquizá-los numa fórmula já pronta.

Nas grandes obras do jornalismo literário, tão interessantes quanto o resultado, são os posfácios ou a explicação do autor sobre como foi produzir o texto (Deus abençoe a Cia. das Letras). Todos gastaram um bom tempo com conversa, conversa e mais conversa – os personagens e suas histórias sempre são o material mais rico. Além, é claro, de uma observação mais prolongada e a procura por outros pontos de vista. E cabe ao leitor tirar suas conclusões. Sempre gostei de economia. Uma observação mais pessoal, quando rara, enriquece o texto e serve para notarmos como estávamos imersos na história – que maravilha a frase do Hersey no Hiroshima, “no primeiro momento da era atômica livros imprensaram um ser humano numa fundição de estanho”, em meio a um texto cru. Se colocar como personagem sempre presente é interessante quando as situações exigem isso (como George Orwell no hospital para pobres de Paris) ou a situação vivida proporcione um bom exemplo daquilo que se quer falar (de novo Orwell, mas sobre colonialismo no texto O Abate de um Elefante). Observações pessoais e ser seu próprio personagem, quando um vício estilístico, acabam se tornando um aborrecimento.

Obs: Aposto que um texto maravilhoso sobre o Largo da Ordem sairia da Olympia de Joseph Roth. Seu Berlim reúne alguns dos melhores textos já produzidos sobre regiões decadentes e vida boêmia.

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4 Respostas to “Un faux texte”

  1. Breno B. Says:

    “A maioria dos textos parece encarar as pessoas como se elas estivessem expostas num zoológico.” Melhor frase.

  2. Alina Prochmann Says:

    Pô, o Breno tirou as palavras da minha boca – ou as letras do meu teclado (tu gu dun tsssss).

  3. Jean-Philip Albert Struck Says:

    Breno: thanks for drop by.
    Alina: onomatopéias não são permitidas nos comentários. rs

  4. Norman Chap Says:

    Sei não, Jean! Você até que manejou bem os clichês. O resultado não chegou a ser satírico. Bem aparado e tirado os exageros intencionais isso acaba ficando bom. Claro que isso nunca vai ser jornalismo porqu não há história nem interesse pelas personagens. Mas me faz perceber o quanto um bom escritor, que ousa, está no limite de cair no ridículo, sempre. Os clichês são uma ferramente importante do bom prosador, que só é preciso saber dosar.

    “Na esquina desolada se ergue uma igreja, já esvaziada, que parece encarar toda a decadência a sua volta com magnífica indiferença.”
    Há clichês que funcionam.

    “O dono do bar, o único que exerce poder nesse ambiente de anarquia…” Aqui você se esforçou demais.

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